Skip to main content

Full text of "O marquês de Pombal e a sua epoca"

See other formats


PURCHASED FOR THE 

UMIVERSITY OF TORONTO LIBRARY 

FROM THE 

HUMANITIES RESEARCH COUNCIL 
SPECIAL GRANT 

FOR 

BEAZIL COLLECTION 



Reservados todos os direitos de 
reproducção nos paizes que adhe- 
riram á Convenção de Berne; Bra- 
sil: Lei n.° 2577 de 17 de Janeiro 
de 1912; Portugal: Decreto de 18 
de Março de 1911. :-: :-: :-: 



o MARQUÊS DE POMBAL 
E A SUA ÉPOCA 



DO MESMO AUTOR: 



Ehfuaos de historia paraense — 1 vol. 
Os Jesuitas no Grão-Pará, suas missões e a coloni- 
zação — 1 vol. 
A evolução do Sebastianismo — 1 vol. 2.a ed. 
Historia de António Vieira — 2 vols. 
Historia dos christãos-novos portugueses — 1 vol. 



J. LUCIO D'AZEVEDO 



x\ 



O Marquês de Pombal 
e a sua época '^ 



SEGUNDA EDIÇÃO COM EMENDAS 




EDITORES 

ANNUARIO DO BRASIL — RIO DE JANEIRO 

SEARA NOVA — LISBOA 

RENASCENÇA PORTUGUESA — PORTO 



DP 




PRELIMINAR 



Sebastião Jcsé de Carvalho e Mello, universalmente conhe- 
cido pelo seu titulo de Marquês de Pombal, é das primaciaes 
figuras da historia portuguesa, a par, no conceito commum, 
do mestre de Aviz, de Nuno Alvares, de D. João II, em direitos 
á gratidão da posterioridade. 

Dentro e fora do paiz foi grande a repercussão de seus 
actos. Como Tanucci e Aranda, Frederico o Grande e José II 
de Áustria, quiz a golpes de tagante despertar a sua nação 
para a vida nova, que o fermentar das idéas, a meio do século 
XVIII, deixava obscuramente entrever. Mas, sempre imbuido 
da rotina que pensava repudiar, foi seu principal esforço con- 
solidar o poder régio, rematando o abaixamento já secular da 
nobreza, e, até onde foi possivel, emancipando a autoridade 
civil da tutela romana, obra que a Edade Media principiara. 

As luctas em que andou por tal motivo empenhado, sobre 
tudo a que travou com' a Egreja, deram azo a que nenhuma 
individualidade politica, do seu tempo, tão discutida fosse 
como a sua. Em todas as nações, em todas as línguas da 
Europa, vozes se levantaram' a exaltar ou combater o marquês 
de Pombal. Historias, biographias, memorias, apologias, pam- 
phletos, pasquins, em sua vida e depois da morte, immenso é 
o numero de taes escriptos; mas, nessa copiosa litteratura, o 
investigador, animado de senso critico, debalde rebuscará tra- 
ços para um juizo seguro acerca do famoso estadista. À pri- 
meira vista se reconhece que uns exaltam em demasia, que 
outros calumniam sem recato. Importa, para o fim, pôr de 



PRELIA\INAR 



banda o que rescende controvérsia; consultar na origem os 
documentos; escutar testemunhas de presença, principalmente 
aquelles cujos relatos não tenham a publicidade por fim. E 
primeira d'essas testemunhas será o marquês, nos escriptos 
Íntimos, ou que deviam ficar no segredo dos archivos; nas leis, 
relatórios, memoriaes e officios por elle mesmo divulgados, 
applicando porém a estes o critério de que os primeiros forne- 
ceram os elementos. D'esta arte se attingirá a verdade histó- 
rica, que é realmente a verdade critica, alguma vez porventura 
divergente dos factos, quaes se passaram, comtudo ainda em 
tal caso a mais provável, e por isso mesmo definitiva. 

Foi o que o académico Francisco Luiz Gomes praticou, 
para o seu livro Le Marquis de Pombal, esquisse de sa vie 
politique, (Lisboa 186Q), obra a todos os respeitos notável, e 
a primeira, digna da historia, que sobre o assumpto se escre- 
veu. Usando de documentos dos archivos públicos, o autor 
poude com sufficiente exacçao retratar o personagem, narrar 
os factos que andavam deturpados, muitas vezes pela male- 
volencia, outras tantas pela lisonja; e desautorada foi a 
parcialidade dos panegyristas, como a má vontade dos 
detractores. 

Desde então outras fontes se teem facultado á consulta 
dos pesquisadores, e nellas se colligiram as notas para este 
ensaio, que não pretende a ser historia definitiva e completa 
de uma época famosa, senão apenas a trazer algum material 
para a obra de maior tomo que o assumpto requer. 



CAPITULO I 



A EMBAIXADA DE LONDRES 



Antecedentes e partida do ministro. Situação de Portugal perante 
a Hespanha e a Inglaterra. Guerra da Successão de Áustria. — 
II. Soccorro pedido para a índia. Violações de neutralidade 
pelos ingleses. Reclamações desprezadas. — III. Colónia do Sa- 
icramento. Receios de invasão pela Inglaterra. Idéas de Carva- 
lho sobre os judeus. — IV. O governo britannico prohibe a 
exportação de trigo. Protesto e opiniões de Carvalho. Desaven- 
ças populares entre portugueses e ingleses. Mais violações de 
neutralidade. — V. Memorial sobre o commercio e relações com 
a Inglaterra. — VI. Carvalho projecta uma companhia para a 
índia. Proposta ao cardeal da Motta. — VII. Caracter da cor- 
respondência de Carvalho. Suas idéas sobre a Constituição in- 
glesa. Sobre o espirito de iniciativa e a cubica do povo in- 
glês. Sobre a missão de um diplomata na Inglaterra. — VIII 
Resumo das negociações emprehendidas. Influencia do meio no 
espirito do ministro. 



I 

Da existência de Sebastião José de Carvalho, no periado 
antecedente á sua carreira politica, quasi tudo se ignora. 
Conhece-s€ a data do seu nascimento, 13 de maio de 16Q9, em 
Lisboa; e a sua progénie, estirpe em que as pretençòes ide 
nobreza foram mais ambiciosas que fundadas. Fiquemos em 
que era familia de fidalgotes de mediana fortuna. O pae, 
Manuel de Carvalho e Athaide, que já possuia o morgado da 
rua Formosa, servira nas armadas da costa, e fora capitão de 



10 ANTECEDENTES E PARTIDA DO MINISTRO 



cavallos; a mãe, qu-e vinha dos morgados de Souto de El-rei, 
casou cm segundas núpcias com um magistrado da Casa de 
Supplicação. Parece que fez o curso de leis em Coimbra e 
passou parte da mocidade na provinda, absorvido em pleitos 
para desembaraçar o património compromettido. A versão, 
segundo a qual foi algum tempo soldado, carece de abono. 
Aos trinta e dois annos desposou uma senhora da casa dos 
condes de Arcos, D. Theresa de Noronha, que, sendo viuva 
raptou, não conseguindo ella jamais congraçar-se com a 
familia, que teve por desdouro a alliança. 

A um tio, Paulo de Carvalho, que foi lente da Uni- 
versidade e depois arcipreste da Patriarchal, deveu o futuro 
ministro os princípios da grande casa que Veiu a possuir. D'elle 
herdou, em 1737, o morgado constituído por bens em Oeiras 
e Cintra, prédios de renda em Lisboa, fe dinheiro acima de 
cincoenta mil cruzados. Foi provavelmente esse tio que tam- 
bém lhe preparou a fortuna politica, proporcionando-lhe rela- 
ções com o cardeal D. João da Motta, primeiro ministro, que 
o nomeou para a enviatura de Londres um anno depois que 
o seu desvelado protector era morto. 

Carvalho, que alli chegou em outubro de 1738, encon- 
trou lá Marco António de Azevedo Coutinho, parente seu 
também, a quem succedia, chamado a substituir António 
Guedes Pereira, fallecido, na secretaria de negócios 'extran- 
geiros e da guerra. D'este modo, aos trinta e nove annos de 
edade, tarde talvez de mais para os seus méritos e ambições, 
encetava a vida publicai, e dava o primeiro passo, caminho da 
fama e da grandeza. Sua mulher ficara em Lisboa, recolhida 
por autorização régia ao mosteiro de Santos. Não parece 
ter sido penosa a separação a Carvalho, corno lh'o não foi 
também depois a viuvez, da qual se consolou em segundo 
consorcio, passados poucos mezes do fallecimento de D. The- 
resa. A paixão romântica, que dera azo ao escândalo do rapto, 
devia ter arrefecido em sete annos de união estéril. 

O novo diplomata não assumiu immediatamente a 
gestão da embaixada. Marco António demorou-se até junho 
do anno immediato, tanto pelo interesse da politica, podemos 
suppôr, como por affeição ao sobrinho, cujo inicio guiava na 



EMBAIXADA DE LONDRES U 



carreira, para que nenhum tirocínio antecedente o tinha ades- 
trado. Oito annos mais tarde, Carvalho, rememora em termos 
gratos o tempo de aprendizagem: «Allumiado pelos exemplos 
e pelas instrucções de V, Ex.a, fiz o meu noviciado, e pro- 
segui depois d'elle o meu ministério em Londres» \ assim 
se exprime. A tarefa do mentor não foi porém de certo tra- 
balhosa. O vezeiro expediente da embaixada, o meneio das 
negociações em curso, as novidades particulares da corte de 
Londres, nada offereciam que a agudeza do recemchegado 
não pudesse, no primeiro instante, apprehender. Não foi elle, 
portanto, devemos crel-o, bisonho praticamente, senão atilado 
e efficiente auxiliar. 

Seu espirito, sequioso de novas idéas, depressa se afez 
ao diverso ambiente que, para elle, sabido do obscurantismo 
e da rotina peninsular, era a sociedade culta, intelligente, 
progressiva e liberal, onde agora se encontrava. Não assi- 
milou, é certo, os princípios de tolerância, de respeito pelos 
direitos individuaes, que já alli eram communs. Mas póde-se 
dizer que o seu entendimento se remodelou ao contacto das 
idéas correntes; que os olhos se lhe abriram para mais largos 
horizontes; que foi este o periodo da sua existência mais 
fecundo para a formação da sua individualidade de estadista. 

Parecerá isto desarrazoado a quem souber que, nos seis 
annos passados em Londres, não logrou Carvalho familiarizar- 
se com o idioma do paiz. Elle próprio o confessou, tendo 
de recorrer ao extranho auxilio para entender as cartas ingle- 
zas, publicadas acerca da sua administração, logo depois 
d'esta terminada. Menor será comtudo a extranheza, se nos 
lembrarmos que o francês era então, como ainda hoje, a 
lingua da diplomacia e das cortes, e que, para as suas obser- 
vações pessoaes, assistência ás sessões do parlamento, lei- 
turas, conversações e necessidades correntes da vida, o mi- 
nistro se soccorria de interpretes, segundo o uso constante 
das embaixadas. 

A época doesta enviatura foi uma das mais agitadas 



^ Carta de Vienna, 31 maio 1746. Bibliotheca Nacional de Lis- 
boa, Collecção Pombalina, Cod. 662. 



12 INGLATERRA E HESPANHA 



na historia politica da Europa. Desde 1738 Inglaterra e 
Hespanha estavam em guerra. O poder da marinha britannica 
dirigia-se principalmente contra os domínios d'esta nação na 
America, parecendo que era intenção d'aquella apossar-se (de 
Buenos Ayres, e estabelecer-se definitivamente nas margens 
do Prata. Esta conjectura causava apprehensões em Portugal 
que, possuindo a colónia do Sacramento, e considerando fron- 
teira sua aquelle rio, com justa razão se arreceava de ter por 
vizinhos a gente trefega, ambiciosa e arrogante da Inglaterra. 

Não se chegou a provar, pelos factos, que o gabinete 
de Londres tivesse formado realmente esse projecto; mas é 
certo que o commercio britannico aspirava a explorar, de 
qualquer maneira que fosse, o áureo filão das possessões 
hespanholas. Emquanto o não podia fazer com direito reco- 
nhecido, recorria ao contrabando, e a nossa colónia, á margem 
do grande estuário, era o ponto por onde as mercadorias 
inglesas, illudindo a vigilância, penetravam no coração do 
império, ciosamente guardado. 

Para assegurar a neutralidade sympathica do governo 
português, o de Londres fazia-lhe prever um alargamento 
de fronteiras no rio da Prata; negaceava-lhe com a posse 
do território, adjacente ao Sacramento, que a Hespanha se 
obstinava em conservar; e o secretario dos extrangeiros, duque 
de New-Castle, dizia ao nosso enviado que «Sua Magestade 
Britannica tinha todas as disposições de concorrer para as 
vantagens de Portugal, tanto como para a ruina da Hespanha»; 
promettimento vago, que nos levou a aspirar também á posse 
de Montevideu. 

Adormecendo, com estas insinuações, o que da dignidade 
nacional poderia revoltar-se, e impondo-se por outro lado 
com a sobranceria da força, a Inglaterra desrespeitava a sobe- 
rania portuguesa, e violava as nossas aguas, atacando e 
apprehendendo dentro d'ellas, ao alcance das fortalezas, os 
navios castelhanos. Contra esses actos de violência repre- 
sentava debalde o ministro português. Às reclamações o 
governo britannico respondia que ignorava os factos, e que, 
verificada a exactidão d'elles, os faria cessar; appellava para 
as informações e providencias do Almirantado, e nestes subter- 



GUERRA DA SUCCESSAO DE ÁUSTRIA 13 



fugios ia dilatando as resoluções, e protrahindo a satisfacção 
que de boa fé não poderia recusar. 

Para successos mais importantes, que o conflicto da Grã- 
Bretanha com a monarchia hespanhola, convergiam d'ahi a 
pouco as attenções do mundo politico. O imperador Carlos 
VI da Allemanha fallecera em outubro de 1740, deixando sua 
filha Maria Theresa por herdeira da coroa. Das potencias que 
haviam approvado a Pragmática sancção, em que o extincto 
monarcha assegurava os direitos d*aquella princesa, somente 
a Inglaterra se mostrava fiel. As outras em breve se pronun- 
ciaram contra a novel rainha; e, não se contentando com 
disputar-lhe o throno, intentavam destruir a unidade da mo- 
narchia, partilhando entre si varias de suas províncias. 

Frederico II foi o primeiro a manifestar-se, invadindo a 
Silesia. A França não tardou a entrar na lucta também. D'ahi 
a pouco ardia toda a Europa em iguerra, e Portugal, se bem 
que desinteressado na contenda e distante do centro d'ella, 
via-se em difficuldades para manter a neutralidade e defender 
o extenso littoral contra as violências das nações marítimas. 

A França, que não interviera na disputa entre hespa- 
nhoes e ingleses, conservava-se perante os últimos em attitude 
ameaçadora. Seus armamentos davam cuidado á nação rival, 
e contra elles talvez se destinavam as esquadras que em Lisboa 
pensavam ser para a America do Sul. Nossa antiga amizade 
com a Grã-Bretanha inspirava receios ao governo de Luiz XV, 
que tinha em grande conta desviar-nos da lucta. Desejava a 
corte de Paris também obter vantagens commerciaes, rom- 
pendo o effectivo monopólio do commercio português, ique 
desde muito tempo, e especialmente depois do tratado de 1703, 
possuíam os ingleses. Para esse fim não regateava diligencias 
nem insinuações, e o enviado Chavigny dizia com filáucia a 
D. João V que o seu throno ficaria quatro degraus mais alto, 
quando a amizade e alliança da França lhe fossem seguras ^. 
Cuidava-se então de promover um tratado especial de neutra- 
lidade entre Hespanha e Portugal, com o accordo de Luiz XV. 



1 Santarém, Quadro Elementar, 5», 313. 



14 SOCCORRO PEDIDO PARA A ÍNDIA 



Também se pensara antes num pacto de família, baseado no 
parentesco existente entre as famiiias reaes. Mas a opposição 
da Hespanha frustrou todas as diligencias. 

Para o nosso paiz tinha utilidade o convénio desde que, 
como pretendíamos, regulasse com vantagem a questão úos 
territórios, na fronteira sul do Brasil. O governo de D. João V 
queria a indisputada posse da colónia do Sacramento, com as 
terras que a rodeavam", e o direito á livre navegação do 
Prata, sob a garantia da França. Não se vendo attendido pela 
outra parte, lançava-se francamente nos braços do antigo 
alliado que, provavelmente sem propósito algum de o realizar, 
dava a ■entender que seria capaz de conquistar-lhe essas cobi- 
çadas vantagens. 

Tal era o trama dos acontecimentos, em que a actividade 
e o tacto politico de Carvalho teriam de se provar. 



II 



O que podiam valer, como sinceridade, as interessadas 
insinuações do gabinete britannico Carvalho teve logo occasião 
de o verificar. O primeiro serviço, que lhe incumbia em Lon- 
dres, era a sequencia das negociações, iniciadas pelo seu ante- 
cessor, para obter um soccorro militar, na índia, onde os 
marhatas, invadindo a ilha de Salsete, tinham posto em aper- 
tada situação as forças portuguesas. Não teve o Enviado 
de lisonjear-se pelo resultado de seus esforços. A mais viva 
opposição respondeu em toda a linha ás suas instancias. O 
governo allegava ser-lhe indispensável, para conceder o auxilio 
de tropas, annuencia da Companhia das índias; esta, por sua 
vez, multiplicava os pretextos para não consentir. Carvalho 
julgava penetrar os motivos da reluctancia: receio, por parte 
da Companhia, dos contrabandos, que os navios de guerra 
empregados na expedição haviam de fazer, e a esperança que, 
por esta hostilidade dos indígenas, os portugueses viessem a 
ser definitivamente expulsos da índia. «A estas razões — dizia 
Carvalho — , ajunta força incontestável a grande dependência 



NEUTRALIDADE PORTUGUESA 15 



que Roberto Walpole (o primeiro ministro) tem d'aquella com- 
panhia e a condescencia com que obra pelos seus dictames». ^ 

As solicitações, que ao mesmo tempo o governo português 
fazia em Lisboa, ao embaixador lord Tirawley, não foram mais 
felizes que as diligencias do seu delegado. Em tergiversações 
e delongas foi passando o tempo e a commoda sazão para o 
soccorro, até que emfim o marquês de Louriçal logrou desvin- 
cilhar Salsete dos inimigos. 

Durante isto, outros negócios mais importantes, derivados 
da situação politica da Europa, exigiam os attentos cuidados 
do governo português. Essa posição, entre os antagónicos 
Interesses, da Inglaterra, por um lado, da Hespanha e da 
França pelo outro, era em demasia delicada. O gabinete bri- 
tannico forcejava por impellil-o a envolver-se na contenda. 
Recordava-lhe as queixas antiga^, e a nunca 'extincta rivalidade 
com a Hespanha. Acenava-lhe com a possibilidade de con- 
quistas na America, pelo menos, o reconhecimento do senhorio 
no território próximo á colónia do Sacramento. Mas os con- 
selheiros de D. João V bem enxergavam os riscos que o ceder 
a taes suggestões traria comsigo. 

As vantagens a recolher na America nem de longe com- 
pensavam os males da invasão na metrópole, inevitável com 
a fronteira indefensa, o exercito desorganizado, sem aperce- 
bimentos de guerra e sem generaes. O auxilio da Grã-Bre- 
tanha era incerto; ou, quando realizado, insignificante pelo 
numero das tropas, como se tinha verificado na ultima 
campanha. O governo rejeitou por isso o soccorro, que se 
lhe offerecia para reivindicar o território em litigio no Prata, 
e fez vêr a inabalável resolução de manter-se neutral. 

Este propósito não era também isento de escolhos. A 
corte d€ Madrid exigia de nós que nos portos do reino 
fosse absolutamente defesa a entrada de navios de guerra 
de qualquer das nações belligerantes. Mas isto seria violar 
as convenções com a Inglaterra, que, por sua parte, exorbi- 



^ Memoria sobre o soccorro a Salsete, Bibl. Nac, Coll. Pomb. 
Cod. 651. 



16 VIOLAÇÃO DA NEUTRALIDADE PELOS INGLESES 



tando do que estas lhe concediam, nos creava também 
difficuldades com a nação vizinha. 

Desde que rompera a guerra, os capitães ingleses pro- 
cediam, nas costas áe Portugal, com arrogante desenvoltura, 
como fariam nas do seu paiz, ou de nação inimiga. À entrada 
dos portos perseguiam, faziam dar em terra, e apprehendiam, 
ou destroçavam quando encalhados, os barcos hespanhoes. 
Desprezando os signaes, e até os tiros dos fortes, iam buscar 
as presas acolhidas á protecção das baterias da costa. 

Logo no começo das hostilidades, quinze kilometros 
ao sul do Porto, no logar de Silvalde, um barco de Galliza, 
perseguido, encalha, e os tripulantes são forçados a aban- 
donal-o, sob o fogo do inimigo. Nas aguas do Algar\'e, 
três navios em cruzeiro dão busca a todas as embarcações, 
sem exceptuar as portuguesas, fazem varar em terra, onde 
os capturam, três barcos catalães, e na refrega atiram sobre 
os soldados portugueses, que da praia querem impedir o 
desacato. À Vista do forte de Albufeira, que os canhoneia, 
os mesmos navios se apoderam de dois hiates inimigos. No 
archipelago de Cabo Verde factos idênticos se repetem, com 
embarcações francesas. Além d'isso, não se privam os 
ingleses de surgir nos portos ultramarinos, vedados aos 
extrangeiros, e praticam o commercio clandestino, contra- 
bandos, actos de pirataria e aggressões á força armada, 
contra os que lhes querem impedir os attentados. 

Sobre estes factos o governo de Lisboa reclama, e o 
almirantado promette íazel-os cessar; mas, a despeito d'isso, 
não deixam de repetir as desattenções á nossa soberania 
territorial. Dentro do porto de Lisboa um capitão inglês 
manda apprehender, e retém a bordo, vários súbditos da 
sua nação, que para um navio, também britannico, se diri- 
giam, na qualidade de tripulantes contratados. A razão 
invocada ifoi a suspeita de pirataria, mas parece que o verda- 
deiro objecto era o recrutamento forçado dos prisioneiros. 
E, assim, no habitual desdém pela autoridade portuguesa, 
julgava licito fazer a policia do mar, até dentro do porto 
da capital. 

Âs repetidas e instantes reclamações da corte de Lisboa, 



VIOLAÇÃO DA NEUTRALIDADE PELOS INGLESES 17 



a chancellaria britannica respondia com apparente boa von- 
tade, e, no fundo, inércia real, que só tinha por objecto 
adiar a recusa de uma satisfação completa. Na verdade, o 
Almiraritado dera ordem ás esquadras que respeitassem os 
direitos de Portugal. Mas essas determinações, de caracter 
mui geral, não contentavam o Enviado português, que as 
desejava positivas, e com a menção dos tratados que os 
belligerantes tinham de respeitar. O governo inglês abrira 
o precedente, nas instrucções dadas aos seus almirantes, para 
respeitarem a liberdade de commercio de Hollanda, França, 
Suécia e Dinamarca. D'ellas faziam parte os artigos das 
convenções existentes com esses paizes. Porque se não pro- 
cedia de egual forma, com respeito a Portugal? 

O gabinete de Lisboa insistia portanto em que, ás ordens 
expedidas, se deveriam juntar o texto do tratado de alliança 
de 1654, que aliás pouca importância tinha para o caso, e 
o da convenção de neutralidade com a Hespanha, em 1702, 
a que o governo britannico dera assentimento; esta ultima 
relativa ao regimen dos belligerantes nos portos. Contra a 
inclusão d'ella nas instrucções aos almirantes, articulava o 
duque de Nevv-Castle que a Hespanha, com quem fora dire- 
ctamente o convénio, o não respeitava, e que também embar- 
cações britannicas tinham sido apresadas por corsários 
hespanhoes, á vista dos fortes. Quanto ao cruzeiro, allegava 
que sem elle, em pouco tempo o commercio do Reino Unido 
em Portugal se veria arruinado. 

Estes motivos eram até certo ponto procedentes. Carvalho 
sabia de fonte segura, e d'isso informava a sua corte, que 
de Lisboa se dava aviso aos corsários, quando sabiam navios 
ingleses dos portos do reino, repartindo-se os lucros da 
captura com os espias. 

Perdurou esta irritante controvérsia todo o tempo da 
guerra, firme nas suas reclamações o governo de Lisboa, 
pertinazes as forças navaes da Grã-Bretanha no proceder 
condemnavel. Em seguida a um doestes factos, que deman- 
davam immediata satisfação, Carvalho, sendo-lhe recommen- 
dado reclamar com energia, dirige-se ao duque de New-Castle 
em termos vehementes. Escândalo € insulto chamava elle 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 2 



IS RECLAMAÇÕES DESPREZADAS 



aos actos dos ingleses, exigindo que cessassem e fossem 
punidos os culpados i. 

Os protestos enérgicos não vingavam melhor que as 
solicitações amigáveis. Todos os meios pareciam tíons ao 
governo britannico para não abandonar a sua maneira própria 
de encarar o direito internacional. Entretendo com delongas 
a discussão dos factos, ia aproveitando, no intervallo, as 
vantagens da posição em que arbitrariamente se collocara. 
E, quando o tratado de 1654 lhe era offerecido como 
argumento, exigia para os súbditos ingleses o direito de 
commerciarem no Brasil, que o mesmo lhes facullava. Essa 
clausula não a queria de forma nenhuma o governo português 
acceitar, e isso bastava para annullar qualquer effeito 
d'aquelle convénio. 



III 



De par com as negociações, motivadas pelo estado de 
guerra proseguiam as relativas ao reconhecimento da fron- 
teira sul do Brasil. 

A colónia do Sacramento, fundada pelos portugueses cm 
1678, á beira do Prata, em frente de Buenos-Ayres, fora, 
desde essa época, origem de constantes dissensões com a 
Hespanha. Tomada e restituída diversas vezes pelas forças 
d'esta potencia, fruia notável prosperidade, graças ao contra- 
bando, que por lá se fazia para o interior dos domínios de 



1 ... «Ce scandalc et cette insulte, quoique contre les instructions 
et les ordres de S. M. B., crient assez d'eux mêmes pour demander 
une scvère punition, qui repare le passe, et fasse en même temps 
un exemple, pour contenir dans les bornes de leur devoir les sujets 
d'Angletcrre, qui trouvent dans les ports du Portugal l'hospiíalité et 
les secours qu'ils chcrchent, selon leurs besoins; le roi mon máitre 
donnant dans toutes les occasions, qui se présentent, des preuv^es de 
ses souhaits pour cultiver et maintenir Tamitié du roi de l.i Grande 
Bretagne, et espérant toujours trouver la reciproque du côté de S. 
M. B.». Despacho de 31 Julho 1741. CoU. Pomb., Cod. 654. 



COLÓNIA DO SACRAMENTO 19 



Castella. Perdida a praça na guerra da successão, devolvida 
ao nosso poder por disposição do tratado de Utrecht, fora 
outra vez, em 1735, reinando a paz, inesperadamente acom- 
mettida por tropas da guarnição de Buenos-Ayres. 

Comquanto o governo de Madrid, ostensivamente pelo 
menos, não autorizasse esta aggressão, tudo indica que, para 
elle, o estabelecimento dos portugueses devia ser como, no 
corpo humano, um espinho que, cravado em parte sensível, 
constantemente magoa. 

Distante dos logares onde era incontestado o dominio 
português, e insulada em território povoado exclusivamente 
de castelhanos, a Colónia só por mar tinha communicações 
com o Brasil, a cujo governo pertencia. Além da opposiçao 
dos súbditos de Hespanha civilizados, tinham os portugueses 
contra si, nessas paragens, a hostilidade dos indígenas, cujo 
ódio as depredações dos paulistas excitaram, ao mesmo 
tempo que, nas reducções, os missionários os educavam na 
fidelidade á coroa castelhana. 

Fora do alcance de canhão das muralhas terminava na 
realidade o isenhorio português. Para entrar na posse effectiva 
do território que, pelas convenções, allegava pertencer-lhe, 
o gabinete de Lisboa empregava os máximos esforços. 
Negociava ao mesmo tempo em Paris, em Londres, em 
Madrid. Acenava ao cardeal Fleury com as vantagens de 
um tratado de commercio. Ao governo de Jorge II deixava 
entrever a possibilidade de uma alliança com França e 
Hespanha. Grave ameaça, porque a sua realização tornaria 
precária a situação dos ingleses na Península, arrebatando-Ihes 
um ponto de apoio, indispensável ás suas esquadras. Era este 
o assumpto mais delicado e importante da missão de Carvalho 
na corte britannica. 

As instrucções para esta negociação datavam de quando 
Marco António fora para Londres. Os direitos allegados pela 
nossa chancelaria eram talvez pouco attendiveis. Pelo tratado 
de 1701, artigo 5.o, a Hespanha renunciava toda a pretenção 
ao território litigioso, adjacente á colónia, que pelo accordo 
provisional de 1681 ficara sendo de uso commum. Ainda 
segundo as disposições d'este ultimo, ambas as coroas 



20 REIVINDICAÇÕES PORTUGUESAS 



nomearam commissarios, que decidissem a conienda. Mas, 
segundo o costume, não concordaram os árbitros na resolução 
final, e cada grupo deu sentença favorável á sua nação. Fíccai 
todavia apurado, pela parte dos hespanhoes, que a fronteira 
devia correr, no sentido Leste-Oeste, por um parallelo muito 
próximo da embocadura da lagoa dos Patos; pela dos 
portugueses, que, no sentido Norie-Sul, a linha passaria a 
Oeste da colónia do Sacramento. O terreno que a Hespanha 
abandonava achava-se, portanto, assim demarcado. Era um 
quasi parallelogrammo, cujo lado sul estaria assente no rio 
da Prata, e o do nascente no oceano, abrangendo com pouca 
differença a mesma actual superfície da republica do Uruguay. 

O ponto fraco das reivindicações portuguesas, estava, 
como nas reclamações á Inglaterra, em que ellas se baseavam 
no "tratado de 1701, que fora por nós mesmos roto, na sua 
clausula principal. Consistia esta em garantir o testamento 
de Carlos II, e o direito de Felippe y ao throno de Hespanha. 
Com este monarcha, no primeiro anno do seu governo, se 
fizera o tratado, que logo em seguida violávamos, entrando 
em campanha, a favor do archiduque de Áustria. Era, portanto, 
leveza, senão imprudência manifesta, da corte de Lisboa, 
invocar em auxilio de suas pretenções esse convénio. 

A noticia de que a Inglaterra se preparava para iniciar 
hostilidades na America meridional, aprestando navios e forças 
de desembarque, produziu, como já vimos, inquietação em 
Portugal. Pela correspondência de Carvalho se verifica que 
elle se acharia antes inclinado a accrescentar, do que a desva- 
necer, as apprehensões. Tudo havia a temer da Inglaterra, 
pela avidez dos seus mercadores, que dominavam os 
governantes; pela doblez da sua politica, tantas vezes 
provada; e pelo caracter das suas instituições, que, em 
algumas circumstancias não obrigavam a nação pela palavra 
do soberano, tornando assim inúteis as seguranças dadas, 
fora do parlamento, pelos ministros. Era de temer que as 
tropas britannicas, expulsando, do território por nós disputado, 
os hespanhoes, alli se estabelecessem, como em justa con- 
quista. E, succedendo tal, de que força dispúnhamos para 
recuperar o dominio? 



RECEIOS DE INVASÃO PELA INGLATERRA NA COLÓNIA 21 



Tínhamos, é certo, a nosso favor, as promessas do rei, 
a quem assistia o direito de alienar qualquer conquista, antes 
de encorporada no império britannico; e, por esta forma, 
nos podia vir á mão o território, se as armas da Inglaterra 
o adquirissem. Carvalho receava, todavia, que Jorge II, 
embora sincero, tivesse de capitular ante as exigências da 
opinião publica. Já se tinha antes visto isso, quando o 
governo quizera largar a posse de Gibraltar, da qual dizia 
Carvalho — e talvez fosse esse o sentir dos dirigentes — que 
era «de pouco lucro e grande despesa, e um encargo onero- 
síssimo para a Inglaterra». 

Em resposta ás primeiras solicitações do Enviado 
português, o duque de New Castle certificava num despacho 
lacónico as boas intenções do rei, seu amo, e em nome da 
regência, por achar-se Jorge II ausente no Hanover, asse- 
gurava não existir o menor fundamento para as inquietações 
do gabinete português. Sem embargo, estas declarações não 
satisfaziam a Carvalho, que as desejava formaes. Acabava o 
governo de conceder aos particulares, que se quizessem 
arriscar, autorização para, por si próprios, realizarem con- 
quistas, nos domínios castelhanos, em qualquer parte do 
mundo. Collocava isto em grave contingência as pretenções 
de Portugal. Estabelecidos os vassallos da Inglaterra no 
terreno contestado, á coroa fallecia o poder de obrigar depois 
esses particulares á restituição. Esta circumstancia preocca- 
pava muito especialmente o Enviado português, que em 
repetidas instancias buscava garantir da invasão o território 
que nós cubicávamos. Assim pretendia que Roberto Walpoie, 
em documento especial lhe confirmasse que El-rei britannicO', 
como fiador do tratado de Utrecht, reconhecia o direito de 
Portugal á colónia do Sacramento, e mais território, a Norte 
e a Leste até ao mar; e que, quanto aos seus súbditos 
intrusos, concordava em que fossem despejados pela força, 
e, sendo necessário, nisso cooperaria i. Ao Duque de New 



^ Officio de 27 Março 1741, a Marco António de Azevedo Cou- 
tinho. Coll. Pomb., Cod. 656. O mesmo receio experimentava mais tar- 



22 IDEAS DE CARVALHO SOBRE OS JUDEUS 



Castie fazia representações em sentido egual, mas cm logar 
das peremptórias declarações que lhe eram pedidas, replicava 
o ministro não lhe parecer necessário dar resposta mais 
precisa, nem adiantar affirmações sobre casos, apenas 
suppostos, que até ahi se não tinham realizado, e que segundo 
a apparencia, se não dariam jamais. 

Os receios do nosso Enviado não diziam respeito somente 
á perda definitiva do terreno litigioso. Carvalho via também 
a segurança dos nossos domínios ameaçada; e, com o ciúme, 
que sempre manteve, de reservar aos nacionaes o commercio 
das possessões portuguesas, íemia-se de vel-o arruinado pelo 
contrabando, em tal caso, a seu ver, inevitável. Nesta espécie 
eram particularmente audazes e felizes os hebreus, e o 
ministro, já sacrificando ao systema que mais tarde se lhe 
tornou obsessão, de achar em tudo, que fosse contrario ás 
suas vistas, conjurações e conluios, ideava uma conspiração 
de todos os judeus do universo, contra as nações onde eram 
perseguidos, e a favor d'aquellas onde encontravam guarida 
aos seus bens e á sua crença. É curioso o jciizo que da 
raça proscripta forma o homem que mais tarde havia de 
rehabilital-a na sua pátria. «. . . Posso dizer a V. Ex.a — 
escrevia em um despacho Marco António de Azevedo Coutinho 
— que é raro entre nós (em Portugal) o homem da nação 



de Carvalho, primeiro ministro, já quando a Inglaterra e a Hespa- 
iiha se batiam durante a guerra dos sete annos, já quando receou 
um ataque da primeira d'estas potencias. Em 1767 dizia: «Logo (jue 
os ingleses ataquem o Rio da Prata quer seja a margem septentrional, 
quer a meridional não atacarão somente a Hespanha, mas também i Por- 
tuga!, como formalmente declarei á corte de Londres em 1740, quan- 
do, ao saber que a grande expedição commandada por lord Cathcarts 
se destinava a Buenios Ayres, fiz representações tão vivas que «ília 
foi desviada contra Carthagena, cujo cerco causou a ruina de todas 
estas forças, as quaes se julgaram á partida capazes de conquistarem 
a America inteira >. Carta ao Conde da Cunha, governador do Brasil, 
20 junho 1767, cm Saint Priest, Hist. de la chute des jésuites, Paris 
1844, pag. 296. Quanto á annuencia do governo inglês a mudar o 
objectivo da expedição contra a Hespanha, pode-se suppôr jactância 
ou illusão de Carvalho, o que mais de uma vez succedeu. 



UMA COMPANHIA DE JESUS PARA O RIO DE SÃO PEDRO 23 

(hebrea) que não esteja com os olhos no caminho para estas 
partes (Inglaterra e paizes de livre culto), e que somente 
se dilatam nos nossos domínios até fazerem os grossos 
cabedaes que nellas accumulam, se antes de os juntarem 
os não faz sahir d'esses reinos o medo da fogueira. Tudo 
quanto ganham, ou antes extorquem, com artifícios, que ellcs 
teem por justos sendo detestáveis, vem nos paquetes, para 
ficar na Inglaterra e passar á Hollanda, a segurar-se nas 
mãos dos seus depositários, amigos e parentes. Como consi- 
deram a pátria onde gosam a liberdade, e o desterro ,onde 
teem o castigo ou a sujeição, para estas terras, em que 
esperam estabelecer-se, procuram todas as vantagens e todos 
os interesses, machinando contra os paizes, seus adversos, 
toda a ruina, e não perdoando a meio algum de os dissipar 
e empobrecer, por mais injusto e illicito que se considere» i. 

Unidos por este commum sentimento todos os hebreus 
esparsos nos paizes christãos, uns, mais ditosos, confessando, 
onde tal lhes era permittido, a sua fé; outros sujeitos pelo 
temor ás praticas de uma religião que aborreciam, de íoage 
davam as mãos; e, desde Londres e Amsterdam até ás 
distantes regiões da America, onde muitos se achavam, a 
corrente dos negócios occultamente deslisava, vencendo as 
barreiras, que o dementado ciúme dos governos oppunha 
ao commercio universal. «. . . D'aqui tem resultado — explicava 
no mesmo documento — , a difficuldade de evitar o contra- 
bando nos domínios da Hespanha. São immensos os cabedaes, 
que naquelle negocio teem ganho os judeus destas partes. . . 
Este foi um dos meus grandes receios, desde que suspeitei 
o projecto de irem ao rio da Prata: saber eu o muito que 
elles desejam estabelecer-se nas vizinhanças do Brasil, onde 
se asseguram que hão de ter em cada christão novo um 
destro furão, desencovar a furto os interesses, que não podem 
hoje proseguir» ^ 

Confirmava a Carvalho nestes temores o facto de terem, 



1 2 de janeiro 1741. Coll. Pomb., Cod. 656. 

2 2 de janeiro 1741. Coll. Pomb., Cod. 656. 



24 EXPORTAÇÃO DOS TRIGOS INGLESES 

havia pouco, alguns judeus ingleses pretendido formar uma 
Companhia para o rio de S. Pedro, que, só peia opposição 
do governo britannico, não foi adiante. Agora, parece, reno- 
vava-se o projecto. Taes apprehensões tinham, porém, de 
dissipar-se. O curso dos acontecimentos levava as armas da 
Grã-Bretanha a outras paragens. A sua intervenção em favor 
da rainha de Hungria, a declaração subsequente de guerra, 
pela França, a rebelliào escossesa contra a dynastia de 
Hanover, juntando-se a isso talvez o desanimo pelo mallogro 
das anteriores tentativas contra os hespanhoes, não perrnittiam 
ao governo pensar por então em aventurosas conquistas. 
Mas Portugal ia também abandonar o sonho, por tanto tempo 
afagado, do seu dominio no Prata. 



IV 



Outros acontecimentos, esses somenos, derivados sempre 
da guerra, occupavam da mesma forma a diplomacia 
portuguesa. 

Naquelle tempo não era ainda a Grã-Bretanha por excel- 
lencia o paiz das manufacturas, sujeito, como agora, para 
a manutenção dos seus habitantes, á agricultura extranha. 
Pelo contrario, do excesso de suas colheitas outras nações 
se abasteciam, e Portugal, a Hespanha, a França, eram 
consumidores dos trigos ingleses. Em 1740, a deficiência da 
producção annual, e o estado de guerra com a Hespanha, 
juntamente a posição ameaçadora do gabinete de Luiz XV, 
deram occasião a um acto do parlamento defendendo a 
sabida de cereaes para portos extrangeiros. Introduziu-se, 
porém, na lei uma clausula de excepção, permittindo á coroa 
autorizar, a seu arbítrio, a exportação; e d'esta brecha, que 
inutilizava a prohibição, tentou Carvalho aproveitar-se, para 
não faltarem no reino os supprimentos. 

Debalde se esforçava, todavia. O governo inglês receava, 
com justa razão, que os cereaes importados para o consumo 



DESAVENÇAS ENTRE INGLESES E PORTUGUESES 25 

em Portugal clandestinamente passassem aos inimigos, e 
New-Castie perguntava que garantias lhe davam de que 
assim não seria. Escassa confiança o ministro inglês tinha 
em seus compatriotas, e futurava que elles, havendo nesga 
que lhes facilitasse o contrabando, não hesitariam em sacri- 
ficar á ganância commercial os interesses do patriotismo. 
Os outros membros do gabinete pensavam assim, e neste 
conceito Carvalho era comparte. «, . . Os mercadores ingleses 
— dizia elle — , que presumem de amantes da pátria, emquanto 
o amor lhes traz conveniência, desistem d'esta virtude, logo 
que a podem trocar com o retorno de qualquer interesse, 
Achando-me em outra occasião em casa de Roberto Walpole, 
me mostrou elle, com impaciência, uma carta, que recebeu 
na minha presença, pela qual o avisavam de que, por se 
não visitarem as embarcações, que carregavam de umas para 
outras provindas d'este reino, por não serem comprehendidas 
na prohibição, faziam na praça de Londres carregar grão, 
com aquelle pretexto, de o passarem na Grã-Bretanha de 
um para outro porto, e que, tanto que se faziam de vela, 
o levavam para França. . . Se conclue da historia, que deixo 
referida, que, se não houver prohibição para extrahir manti- 
mentos dos nossos portos, não só os mercadores ingleses 
nelles residentes, mas uma grande parte dos que compõem 
a Bolsa de Londres, exhauririam a Inglaterra de mantimentos, 
para depois fazerem segundo transporte, de Portugal a França 
e Hespanha, pela ambição do lucro, sem reparar nas outras 
consequências» i. 

Para obviar a este inconveniente, o Enviado de Portugal 
mandava a Lisboa projectos de fiscalização das raias seca e 
marítima, que facilmente haviam de impedir a passagem dos 
grãos para os inimigos da Inglaterra. 

As negociações, sobre o assumpto dos navios, proseguiam 
entretanto sem resultado, e desde o primeiro memoria! de 
Carvalho, apresentado em maio de 1740, da parte do governo 



1 Officio de 28 de março 1741. Coll. Pomb., Cod. 656. 



26 OPINIÃO DE CARVALHO SOBRE O CARACTER BRITANNICO 



britannico tudo eram delongas e subterfúgios, tendo por fim 
evitar a solução que nos devia. 

Ao azedume que, vimos atraz, principiava a reinar nas 
relações diplomáticas, correspondiam modos de proceder hostis 
da gente do povo, indignada, em Portugal, contra os súbditos in- 
gleses, e reciprocamente, actos de violência, em represália, 
da banda d'estes no seu paiz. Tornava isto particularmente 
delicada a posição do Enviado português na corte de Londres. 
Succedia, por exemplo, quando o cônsul da Grã-Bretanha 
no Porto se queixava de serem os seus compatriotas apupados 
nas ruas, pelo vulgacho, com brados de — fora os hereges ! — , 
Carv^alho, por 'sua vez, informar que os marinheiros portu- 
gueses não podiam sahir dos navios, em botes, pelo Tamisa, 
sem o risco de serem de terra apedrejados. O seu commentario 
elucida sobre o juizo que do caracter britannico elle fazia: 
...«Eu não sei — communicava a Marco António — o que 
aquelles povos imaginam no interior do seu coração. O que 
porém d'elles se manifesta uniformemente, — são palavras 
formaes — , é que os portugueses não teem aqui que fazer; 
que vão para sua terra, porque nesta indevidamente comem 
o pão, e bebem a cerveja, que toca aos ingleses. Este é o 
formulário commum, por onde principiam os frequentíssimos 
insultos dos homens do mar, e mais povo miúdo da ribeira 
de Londres, contra os portugueses, os quaes, ao som d'este 
pregão, costumam ser apedrejados. As pessoas de mais consi- 
deração, que vêem estes insultos, não os louvam com as 
palavras : approvam-nas porém com o silencio» i. Estavam 
em harmonia estes incidentes com os pequenos aciníes diários 
nas relações diplomáticas. A constância e a energia das 
reclamações levava o Almirantado a increpar o ministro 
português de servir-se, nos seus memoriaes, «com demasiada 
repetição, de termos demasiadamente fortes». Por isso talvez 
Carvalho, inquieto, se lamentava de tantas contrariedades, 
a seu tio Marco António : «... Na verdade estou velho e 
relho, como lá dizem as regateiras, de que confesso a v. ex.a 



1 Carta particular, 2 novembro 1741, Coll. Pomb., Cod. 650. 



AMEAÇAS DE CARVALHO AO PRIMEIRO MINISTRO INGLÊS 27 



que tenho grandes saudades; porque o modo, porque correm 
aqui os negócios, faz passar muitos séculos, em poucos annos, 
a quem ama a razão, e não pôde com paciência vêr as 
injustiças» ^. 

Expedido segundo memoriai, em fevereiro de 1741, sobre 
as violações da neutralidade, New-Castle respondia em 20 
de agosto, por inspiração de Walpole, em termos taes, que 
incitavam á exasperação o representante de Portugal. Era— 
queixava-se Carvalho — , «. . . um documento mal concebido, 
confuso, e onde nem parcella de bom senso se divisava^). 2 

Logo após isto eram dois navios franceses aprisionados 
pelo cruzeiro inglês, á entrada da barra do Porto, junto dos 
fortes de S. João e do Queijo. O nosso representante quei- 
xava-se. Nevv-Cactle recorria ao costumado processo das 
informações do Almirantado; adiava, sob todos os pretextos, 
as audiências, em que se devia ventilar o assumpto, e, com 
essas tergiversações, claramente deixava entender o propósito 
de fazer terminar as queixas pelo cansaço da outra parte. 

Afinal, em fevereiro de 1742, Carvalho ameaça de formal 
rompimento o primeiro ministro Walpole, assegurando-lhe 
que o governo português prohibiria a entrada dos navios 
ingleses em portos do reino. Não convinha isso, por certo, 
ao commercio britannico. Tão pouco ás esquadras, que na 
extensa costa de Portugal encontravam commodos ancora- 
douros, bastimentos, informações e conseguintemente solida 
base para os seus movimentos bellicos. Além d'isso tinha a 
Inglaterra de recear que o seu alliado, attrahido pelos laços 
do parentesco existente entre a familia reinante e a de 
Hespanha, e seduzido pelas suggestões da corte francesa, 
se passasse realmente ao inimigo. Fora semelhante contin- 



1 Id., 23 junho 1741, id. 

2 «... une lettre fort mal considérée, dans laquelle il a mêlé 
plusipurs matières, qui n'avaient point de rapport les unes aux autres, 
et sur les mémoires ei dessus indiques il m'a fait un simple envoi des 
rapports de Tamirauté qu'il avait reçus, sans y avoir un seul g^rain 
de bon sens». Abrégé de la négociation de neutralité etc, Coll. Pomb., 
Cod. 651. 



28 CARVALHO DEIXA A EMBAIXADA DE LONDRES 

gencia a inversão de todos os cálculos da diplomacia britan- 
nica, que, pelo contrario, pouco antes quizera tentar o 
gabinete português a declarar guerra á Hespanha, incutin- 
do-lhe ser fácil a victoria, pela inferioridade em que ficara 
esta nação, transportando para a Itália uma parte de suas 
forças, na campanha contra a Áustria. 

Estas considerações calavam no espirito de Walpole que 
se manifestou disposto a trasigir. Mas nesse mesmo mez 
cahia o ministério, e os interesses da politica interna, 
principalmente, tinham de occupar a attenção do que lhe 
succedia. Mais a sangue frio talvez que seus predecessores, 
os novos ministros comprehendiam que Portugal se não 
abalançaria facilmente a uma resolução tão ousada; que a 
neutralidade, mesmo violentada, era, para uma nação fraca, 
a mais conveniente situação. 

Entretanto, a guerra com a Hespanha proseguia, mas, 
na America, com pouca fortuna para os ingleses. Na Europa 
central, em toda a parte luziam os incêndios, se percebia o 
estridor dos combates. Nos campos de batalha estavam a 
decidir-se questões graves para a coroa britannica, e também 
os seus exércitos tinham parte na lucta. Se a estas razões de 
peso accrescentarmos a reluctancia do Almirantado em acceder 
ás reclamações que lhe coarctavam os movimentos estra- 
tégicos, não nos admiraremos de que a decisão, tantas vezes 
promettida, ainda mais uma se protelasse. Já o embaixador 
se propunha então abandonar as vias usuaes da diplomacia, 
e recorrer pessoalmente ao rei Jorge. A corte de Lisboa 
autorizava esse passo. 

Com taes delongas se chegou a outubro de 1742. 
Carvalho, tomado de antigos achaques, que os rigores do 
clima lhe aggravavam ; enfadado de tanto esforçar-se, debalde, 
em questões que tinha a peito; desejoso, além d'isso, de 
ir a Portugal patrocinar em pessoa um projecto, que adeante 
se verá, e ao qual agourava futuro estrondoso; pediu, e 
obteve licença para deixar temporariamente a embaixada. 
Mal podia elle imaginar que o seu papel, na corte de Londres, 
terminava com isso. 



UM ESCRIPTO DE CARVALHO 29 



V 



As preterições, motivadas por eventualidades da politica, 
não eram as únicas que o ministro de Portugal tinha de 
sustentar na corte de Londres. Entre outras, occorria a de 
levar o governo britannico á fiel observância dos tratados, 
na parte relativa á reciprocidade commercial, e de direitos 
dos súbditos, de sorte que, ás vantagens de que gozavam 
entrc nós os ingleses, correspondessem outras equivalentes 
no Reino Unido, para os naturaes de Portugal. Tivera 
Carvalho a incumbência de velar, com muita attenção, sobre 
esta matéria; mas fôra-lhe recommendado que, antes de 
qualquer representação, estudasse os convénios existentes, c, 
acerca do assumpto, elaborasse com toda a individuação um 
relatório, para ser considerado em Lisboa. 

Foi em virtude d'essa ordem que o ministro compoz o 
escripto, denominado Relação dos gravames do comtmrcio e 
vassallos de Portugal na Inglaterra, onde é fácil encontrar 
a origem de vários dos seus actos posteriores, quando 
governou. Pelo titulo se vê qual a orientação d'esse trabalho. 
O documento é prolixo, como tudo que a mesma penna 
produziu. Em muitas partes se revela a parcialidade de quem 
votava aos ingleses, politicamente, a mais forte antipathia. 
Mas em todas as divisões se patenteiam os dotes de um 
espirito observador e de um fino entendimento ; as faculdades 
de estudo fructuoso e reflexão bem conduzidas; a coroarem 
tudo isso os nobres anhelos de um patriotismo de boa 
tempera. 

O seguinte trecho descreve com originalidade uma feição 
do caracter britannico, a qual, se abstrahirmos o intento 
caricatural do desenhador, ainda hoje acharemos exacta : 
«Os ingleses não são sanguinários; contrariamente detestam 
os homicídios e as effusões de sangue. Se, por este principio 
não teem aqui os extrangeiros que recear os perigos da 
vida, é quasi impossível resistirem aos da fazenda. O inglês 
imagina, por prevenção innata, que nasceu para ser senhor 



30 O COMMERCIO E RELAÇÕES COM A INGLATERRA 

dos cabedaes do mundo; que é necessário ser bretão, como 
elles dizem, para ser hábil e capaz de possuir riquezas; que, 
por consequência, lhes andam usurpadas aquellas que possue 
qualquer outra nação; que quando vexam a um extrangeiro, 
para lhe extorquirem o cabedal, ou divertirem o lucro que 
devia ter, não é isto um roubo que commettem, mas «.ima 
reivindicação, porque se restituem do que lhes pertence» ^. 
Carvalho menciona as leis que fundaram a supremacia marí- 
tima e commercial da Grã-Bretanha, origem da sua posterior 
importância politica; o celebre Acto de Navegação, de 1651, 
pelo qual só podiam as embarcações exírangeiras conduzir 
aos portos de Inglaterra productos que fossem da sua respe- 
ctiva nação; a lei de 1660, sobre os direitos de tonelagem, 
(Tonnagc and poiíndage act), que estabelecia direitos diffe- 
renciaes para os ingleses, com mais elevada taxa para os 
géneros importados ou exportados por extranhos; a de 
1722, abolindo o imposto de sabida, mesmo para estes últimos. 
Analysa também o tratado português de 1642, com Carlos I, 
confirmando todos os antigos privilégios dos ingleses; o de 
1654, de paz e alliança, no tempo de Cromvvell, concedendo 
aos naturaes da republica commerciarem de Portugal para o 
Brasil, como os nacionaes, faculdade que lhes foi retirada 
depois; o de 1703, de commercio reciproco, menos prejudicial, 
a seu vêr, do que insinuam as declamatórias lamentações, 
tantas vezes sobre elles proferidas. E a propósito d'este 
ultimo tratado escreve: «Commummente se imagina em 
Portugal que o infeliz tratado da introducção de pannos, 
assignado em Lisboa a 27 de dezembro de 1703, foi aquelle 
que, na nossa marinha e no nosso commercio externo, causou 
a notória declinação, que vimos depois d'aquelle tempo. 
Olhando-se, porém, mais de perto, para estes damnos. . . , se 
vê que não foi aquelle tratado a causa de tão perniciosos 
effeitos, mas sim as infracções, os abusos e as violências, 
que, contra aquella e as mais convenções antecedentes, se 



'•■ Relação dos prravames que ao commerci» e vassallos de Portugal 
se teem inferido pela Inglaterra. CoH. Pomb., Cod. 635. 



o TRATADO DE METHUEN 31 

foram introduzindo, e estão actualmente praticando em Ingla- 
terra». Eis aqui, pois, o tratado de Methuen até certo ponto 
defendido pelo próprio que mais tarde tão intensamente 
personificou a reacção contra elle; por aquelie mesmo 
estadista que sonhou elevar a industria portuguesa a tal 
desenvolvimento, que o paiz deixasse de ser tributário de 
productores extranhos. 

Já então se tomava no reino por desastrosa consequência 
do convénio a extensão da cultura da vinha, e a resultante 
depreciação das colheitas. Não era egual o sentir de Carvalho, 
e, ao revez do que proclamava mais tarde, entendia elle, 
naquelle tempo, que o mal só decorria de se não procurarem 
os mercados, e não de ser excessiva a producção. Por isso 
dizia assim : «Emquanto não sahi de Portugal, entendia, com 
a opinião commum, que a baixa, que padecemos nos fnictos, 
provinha de se haverem multiplicado, além do que cabia na 
sua extracção. Por exemplo, viu-se que o vinho de cima 
do Douro era bem reputado, e trataram todos de plantar 
bacellos. Extenderam-se estes até á redundância, e, em conse- 
quência, sobejou o género, e abateu o preço por natural 
razão. Depois que eu tive a obrigação de examinar este 
ponto, sobre o logar que occupo, achei diametralmente 
opposta a verdade áquella apparencia. , . O vinho todo,' que 
em Portugal se julga que é muito, a respeito da Inglaterra 
é cousa muto pouca». 

Era naquella época assas numerosa a população de 
ingleses em Portugal. Mercê dos avultados recursos de que 
dispunha, quasi todo o commercio do reino lhes pertencia. 
Gosavam immunidades notáveis : dispensa de impostos, foro 
privativo, licença para andarem armados em toda a parte, 
mesmo em logares onde isso era vedado aos nacionaes. 
Carvalho considerava nociva a influencia d'elles no sysíem.a 
económico do paiz, «Todo o dinheiro que gira é dos ingleses, 
que fazem adeantamentos aos productores; enviam merca- 
dorias ao Brasil, com nomes suppostos de portugueses ; lotam 
os vinhos e falsificam-os, destruindo a boa fama do producto); 
tal era, no seu parecer, a parte d'estes extranhos no 
commercio nacional. 



32 VINHOS E COLÓNIAS 

Aqui vislumbramos já os fundamentos que, mais tarde, 
haviam de servir á creação da Companhia dos Vinhos. 
Observava elle egualmente quão mesquinho era o quinhão 
de Portugal nos lucros do seu commercio externo. Na Orã- 
Bretanha que, pelos tratados, era o paiz mais accessivel, a 
lei que em 1722 abolira os direitos de exportação nenhum 
fructo produziu par a nossa marinha mercante. Faltando no 
Reino Unido negociantes portugueses, que pudessem dar a 
carga de retorno, o frete era todo, como se julgará, para as 
embarcações de bandeira britannica. O exame d'estes factos 
suggeria ao futuro estadista um plano de governação. As 
leis especiaes de cada nação, para a segurança do próprio 
commercio; a competência vivaz, em que a victoria pertence 
ao mais apto, mostravam-lhe fallivel a prosperidade baseada 
no trafico extrangeiro. Afagava, por isso, o projecto de 
desenvolver as relações com as colónias. «Todo o negocio, 
que se faz nos paizes de uma dominação extrangeira, é mal 
seguro e muito contingente — affirmava — ;e quanto é mais 
lucroso, tanto se julga de maior perigo. A ambição e a 
cobiça inspiram nas outras nações contínuos desejos, de que 
nascem os frequentes projectos, para o impedir ou para o 
usurpar. . . Nenhum d'estes perigos receia o commercio, que 
se fàz para as colónias próprias. Cada nação monopoliza o 
trafico das suas, e exclue d'ellas as nações extranhas irremis- 
sivelmente. Taes são as leis de Portugal e Hespanha. Taes 
são as que o Acto de Navegação de 16Ó0 prescreveu á Ingla- 
terra. Taes as da França, Dinamarca e todas as potencias 
que possuem colónias ultramarinas. De onde resulta que 
este é só o commercio seguro e perpetuo, porque é próprio 
e sem sujeição aos projectos, em que todos os outros mais 
cedo ou mais tarde acham a ruina». 

A esta ordem de reflexões pertenceu o intento, que 
vamos conhecer. 

VI 

O representante português tivera occasião de relacionar-se 
em Londres com um individuo recem-chegado do Oriente, 



CONFERENCIAS COM CLELAND 33 



onde exercera um posto elevado na Companhia das índias. 
DesattençÕes, que no exercido do cargo padecera da parte 
dos superiores, o Hnham levado a exonerar-se ; e agora, no favor 
de Carvalho, que reconhecia ambicioso e intelligente, descor- 
tinava meio de promover a própria fortuna e, até certo 
ponto, desforçar-se dos que lhe haviam menoscabado os 
serviços. Do confabular repetido entre os dois surgira alfim 
o projecto de uma Companhia, para os dominios portugueses 
da índia, semelhante á da Inglaterra; e era, sem duvida, 
estimulado pelas esperanças que tal projecto fazia nascer, 
que o ministro escrevia a Marco António : «Desejava que 
falássemos agora dois dias à tête reposée, em Oeiras ou 
S. José de Ribamar, depois de haver passado por Paris, e 
que nosso amo tomasse a resolução de usar das conjuncturas 
que se forem apresentando, dispondo-se desde logo para as 
aproveitar, porque certamente temos com que fazer no mundo 
maior figura, do que a maior parte das potencias que fazem 
ruido na Europa» i. 

A Carvalho sorrira a proposta do funccionario indiano, 
e desde logo se dedicou com fervor a estudal-a. Cleland, — 
este era o nome do cavalheiro inglês — , ministrava o soccorro 
da sua experiência, e no começo de 1742 tinha o projecto 
acabado. Redigira um memorial contendo as bases, e offe- 
recia-se para ir a Lisboa completal-o por noticias verbaes. 
Na mesma occasião Carvalho escrevia ao cardeal da Motts, 
enumerando-lhe os fundamentos e descrevendo as vantagens 
do seu plano. Talvez em algumas das idéas, expendidas então, 
se filiem actos posteriores do estadista, no seu governo. São 
d'esse memorial os seguintes trechos: «O génio e o costume 
dos ingleses é trabalharem infatigavelmente na mocidade, 
com o objecto de fazerem ditosa e descansada a velhice. 
Todos os meios que podem conduzir a este fim são reputados 
por decentes em Inglaterra: de sorte que, entre os caixeiros 
dos mercadores que residem nesta corte, uma parte d'elles 
são filhos segundos ou terceiros de lords, ou de pessoas 



'1 Carta particular, 19 junho 1741, Coll. Pomb., Cod. 656. 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 3 



34 PROPOSTA AO CARDEAL DA MOTTA 



illustres d'cste reino. . . Observando eu, com aquella reflexão 
que em mim podia caber, os estabelecimentos e os progressos 
das Companhias orientaes da Europa, tirei f)or consequência, 
da combinação de todas, que, por mais sólidos e considerados 
que fossem os princípios sobre que se estabeleceram essas 
sociedades, todas as providencias e cautelas que se tomaram 
foram sempre inúteis, emquanto na execução pratica dos 
seus planos não interveio o concurso de um certo numero 
de mercadores. . . Os ministros de Estado e politicos, que 
concorreram na maior parte dos taes estabelecimentos, esme- 
raram nelles o primor da sua grande dexteridade e instrucção. 
Não basta porém isso; porque a funcção dos ministros não 
se extendia a mais do que a formar os planos sabiamente; 
restava depois a execução, que só pertence ao mecanismo 
dos homens de negocio» i. 

Que estes princípios foram adoptados por Carvalho no 
governo, sabemol-o pela collaboração, nas suas providencias 
económicas dos negociantes Oldenberg, Stephens, Quintella, 
os irmãos Cruzes, e outros somenos, que, se não desenvol- 
veram, como se esperava, a riqueza do Estado, edificaram 
á sombra das mesmas a sua própria. 

O memorial historia a formação das varias Companhias, 
em que foram proeminentes os hollandezes, Habilitaram-sc 
estes para o trafico nas suas relações com Veneza ; em 
seguida aprenderam com os judeus : primeiro os de Hespanha, 
emquanto Flandres lhe foi sujeita; depois os que, sabidos 
de Portugal, buscavam em paiz livre um refugio ás suas 
creanças. 

Despertavam os lucros da Hollanda as aítenções na 
Inglaterra, mais tarde em França, e cada uma d'estas nações 
buscou a prosperidade das suas colónias em instituições 
semelhantes. Só, porém, as viram adeantar, quando souberam 
attrahir negociantes hollandeses, que lhes ensinaram seus 
methodos de exploração. Todavia, os ingleses são ultima- 
mente os mais eximios; com elles teem ido aprender as 



i 19 fevereiro 1742, Coll. Pomb., Cod. 657. 



HESITAÇÕES DE CARVALHO 



outras nações; por tal motivo, o concurso espontaneamente 
offerecido por Cleland se devia aproveitar. 

Uma fundação tão nova, e que demandava tão extra- 
ordinário concurso de esforços, de intelligencia e de capitães; 
cuja sede de acção era tão longe, e o retorno, por isso 
mesmo tão precário, não poderia realizar-se sem que aos 
esforços e cabedaes empregados de antemão se assegurasse 
algum premio. O privilegio, pois, impunha-se como incen- 
tivo. Mas o espirito de Carvalho póde-se dizer que hesita 
ainda antes de propor esta senda, na qual, tão convencido, 
havia de lançar-se posteriormente. Ante si mesmo procura, 
como parece, justificar agora o que mais tarde terá por 
máxima irrecusável. Talvez que o animo do cardeal da Moita 
fosse também adverso ás excepções, e por isso tentava 
convencel-o, dizendo: «Os monopólios, por via de regra, são 
contrários ao dictame politico das máximas do Estado. . . 
Todos os commercios que giram na esphera do nosso conti- 
nente, ou ainda na dos domínios próprios da America, podem 
manejar-se pelos particulares, sustentados com o calor das 
leis communs de cada Estado da Europa. O da índia, porém, 
com opposta razão, requer o monopólio como indispensável». 

Carvalho apresenta em seguida as suas razões. Para 
arruinar uma Companhia, novamente creada com o fim de 
fazer um commercio até ahi livre e vago, conspiram extra- 
nhos e naturaes; os primeiros vendendo os seus géneros 
dolosamente, a preços vis, que a Companhia não possa 
acompanhar, reservando-se para recuperarem o perdido no 
augmento, quando ella desappareça; os segundos dispondo 
egualmente, por menos do valor natural, dos effeitos que 
em consignação recebem, porque, faltos de capitães não 
podem, ou ignorantes não sabem esperar. «D'ahi — continua — , 
se segue que a Companhia ha de perecer, se faz grandes 
despesas, e não acha consumo aos géneros, que por ellas 
transporta. E como, para evitar estes inconvenientes, não 
ha outro meio que o de fazer exclusivo o commercio, por 
isso a pratica de todas as nações tem estabelecido actualmente 
este privilegio, a favor de um negocio que se não pôde 
sustentar somente pelas leis e máximas communs». 



36 COMPANHIAS PRIVILEGIADAS 



Certo que nesta argumentação se nos deparam as 
melhores razões, sempre invocadas, a favor dos privilégios. 
O espirito de Carvalho, porém, como que só a medo se 
rendia. Por agora não lhe é ainda infensa a liberdade. O 
monopólio contraria os dictames da politica. Póde-se fazer 
todo o commercio do reino e das possessões da America 
sem derogar a lei commum. O exclusivo seria apenas para 
o trafico da índia. Mas esta idéa, assim fixada na sua mente, 
germina, prolifera, irradia, termina por invadil-a toda, e 
tornar-se a matéria prima essencial das suas concepções 
económicas. 



VII 



Pretenderam os adversários de Pombal que D. João V, 
de quem não lograra jamais o favor, mal supportava a 
leitura de seus despachos, pelo tédio que o contexto dos 
mesmos, habitualmente emmaranhado e prolixo, de cada vez 
lhe provocava. Diziam outros que na Inglaterra lhe chamavam 
por irrisão ministro lettrado, pela copia de citações e abuso 
das form.ulas de jurisprudência, que usava introduzir nos 
papeis diplom.aticos. É possível que nenhum dos assertos 
seja falso. 

Ninguém, que tenha percorrido os escriptos de Pombal, 
contradirá serem elles litterariamente detestáveis. Ainda, 
porém, na época de que nos occupamos, não tinham sempre 
esse tom declamatório, que lhes foi caracteristico depois. Mas 
o estylo não deixa de ser pesado, confuso e pedante. A 
brevidade é, para o autor, mérito desconhecido. Os officios 
diplomáticos são muitas vezes acompanhados de annotações, 
no baixo da pagina, como em obra didáctica ou discurso 
académico. A correspondência para a corte de Lisboa não 
divergia no modo de redacção, d'esta outra. O enfado, que 
se attribue a D. João V, motivado por ella, é portanto 
natural e assas crivei. E não se nos contrarie com os 
fragmentos que vamos transcrevendo. Estes são escolhidos, 



CARACTER DA CORRESPONDÊNCIA DE CARVALHO 37 



entre os mais límpidos, e amiúde desbaratados do que, por 
excessivo, parece obscurecer a phrase, ou alongar os periodos 
em demasia. 

Às compridas e, não raro importunas dissertações de 
Carvalho, a chancellaria inglesa respondia, por norma, em 
termos breves. Uma vez lhe fazia notar que a sua exposição, 
posto que longa, só continha factos e argumentos já antes 
allegados. Certo, o evidente contraste entre as habituaes 
divagações do Enviado português, e a sobriedade a que, 
pela Sua concisão, obriga o idioma britannico, era para 
causar em Londres extranheza. 

Entretanto, nesta correspondência colhem-se, a relance, 
trechos bem contornados, observações nitidas que accusam 
no autor agudeza de espirito, e a faculdade de transmittir 
aos outros as suas impressões, melhor usada quando a preoc- 
cupação do estylo guindado as não encobre. Por exemplo, 
o seguinte em que explica a Constituição extraordinária da 
Inglaterra, — palavras suas): «Aqui ha duas definições a saber: 
prerogativa da coroa e liberdade do parlamento, que, apesar 
de infinitos exames e disputas, não deram até agora a 
conhecer os seus definidos. Tem-se por cousa certa que a 
coroa pode fazer tratados, que a nação os deve cumprir; 
se, porém, esta o não quer fazer, nem quer se duvide do 
poder do príncipe, argúe o ministério de que fez abuso do 
mesmo poder real, com prejuízo do povo, para ser perse- 
guido criminalmente e depois castigado. Da mesma sorte 
se illudem as convenções e promessas, feitas pela coroa: 
e tudo sem mais trabalho que o de fazerem as camarás 
uma adresse ou representação, de que é contra o interesse 
nacional o estipulado ou promettido, e isto sobeja para o 
estorvo» i. 

Com pasmo via Carvalho um organismo politico tão 
diverso do que existia no seu paiz, e tão opposto áquillo 
a que o seu espírito, por natural inclinação, propendia. Na 
Deducção chronologica, a propósito das cortes de 1674, havia 



J Officio de 2 de janeiro de 1741. Coll. Pomb.,, Cod. 65ò. 



3S IDEAS DE CARVALHO SOBRE A CONSTITUIÇÃO INGLESA 

elle de deixar patente, mais tarde, o que pensava do regimen 
parlamentar. A França cujas máximas de governo adoptava, 
tomando os seus estadistas por modelo, e comparando-se a 
elles nos dias de grandeza ou desfavor, se lhe maniíestava 
incomparavel^nente superior a este paiz de odiosa democracia. 
Comtudo, elle sabia reconhecer os dotes de intelligencia e 
actividade do caracter bretão. Comprehendia o enthusiasmo 
nacional por arriscadas mas proveitosas empresas. Admirava 
o espirito de iniciativa fecunda, que levantava as Companhias 
de commercio. «Aqui não ha difficuldade alguma — obser- 
vava — , em fazer subscripções particulares, para que cada 
subscrevente concorra logo com quatro e cinco mil iibras 
sterlinas, com a mesma facilidade com que, em outros paizes, 
se poderiam aventurar cincoenta mil réis, e, para fazer tantas 
subscripções d'estas, quantas acharem objectos de algum 
interesse, não faltam os meios, nem industria, e o numero 
de gente necessária, para surtirem effeito. Não consideram 
os ingleses, nem o commercio dos homens d'esta parte, uma 
empresa summamente difficil a de penetrarem no sertão 
das provincias septentrionaes do rio da Prata, pelo discurso 
do tempo, logo que tenham possibilidade para ahi se 
plantarem» i. 

Esta sede de ganho e de conquistas, a todo o instante 
confessada; a cobiça insaciável que, desde o reinado de 
Isabel, a nação trazia no sangue; o furor com que, no tempo 
d'ella, os corsários, como aves de altaneria, se lançavam 
sobre os descobridores do novo mundo, disputando-lhes, no 
mar, os thesouros dos galeões, em terra, as opulentas 
possessões, de onde extrahiam as riquezas; a tenacidade com 
que o bretão, uma vez estabelecido em um logar, lá se fixava, 
como nave em seguro ancoradouro ; o exemplo, emfim, do 
que a Inglaterra comnosco ainda praticava no Oriente : tudo 
isto inquietava a Carvalho pela defesa da nossa America, 
de que, por um golpe de mão, podiamos repentinamente 
perder grande parte. 



1 Officio cit., Cod. 656. 



o ESPIRITO DE INICIATIVA E COBIÇA DO POVO INGLÊS 39 

A guerra em que os ingleses andavam empenhados com 
a monarchia hespanhola offerecia-lhe para isso razão. O 
direito com que occupavamos o immenso território do 
Brasil era uma garantia somente platónica. A posse, por 
effeito da occupação, em certas paragens, abrangia pouco 
mais do que uma estreita faxa do littoral. Que muito era 
que a Grã-Bretanha, entrando pelo Prata, se fosse estabelecer 
nos fundos dos nossos dominios, e d'alli nos apertasse, até 
de todo nos encerrar nas cidades da costa? «V. Ex.» sabe 
que d'estas partes se não crê no poder com que o Papa as 
dividiu entre Portugal e Hespanha, assentando-se que a 
sentença não é de efficacia senão entre as duas coroas. De 
onde resulta que se tem por principio, commummente rece- 
bido no Norte, que não temos outro direito que os -da 
occupação e povoação que nos deram a posse. . . A inveja 
do nosso Brasil arde tão vivamente em corações ingleses, 
que sac de todos geralmente em effeitos sensiveis. Não 
sentem só não possuírem alguma cousa naquelle continente. 
O que mais os atormenta é que elle esteja fora do rumo de 
todas as navegações, que não sejam as nossas e as de 
Hespanha, para ser isento do contagio dos contrabandos, 
que, nas embarcações d'esta parte do Norte, é mais frequente 
que a peste nas que vêem do Oriente» i. 

Em partes d'esta correspondência vemos, em gérmen, 
os princípios que, annos depois, o ministro ha de appiicar 
no governo. Já aqui se desenha o caracter da sua futura 
administração, attenta aos factos económicos, talvez mais 
que ás estéreis combinações da politica. Entrava nisso o 
pendor natural do seu animo, que com avidez buscava 
instruir-se em tudo que respeita á vida industrial e mercantil 
das nações. Para isso, em nenhuma outra parte Carv^alho 
estaria tão bem situado como na Inglaterra. Alli via de perto 
o que faz o génio politico dos legisladores, alliado ao tino 
individual dos cidadãos. Observava os effeitos do Acto da 
Navegação, utilizado por um povo emprehendedor, e sem 



^ Officio cit.. Cod. 656. 



40 SOBRE A MISSÃO DE UM DIPLOMATA NA INGLATERRA 



escrúpulos quando busca a riqueza. Assistia ao alvorecer 
d'esta industria, ainda então rudimentar, mas que tudo fazia 
por desenvolver-se, aprendendo de extranhos os novos pro- 
cessos, com que depois havia de os supplantar. Julgava 
desvendar o segredo pelo qual este povo admirável, em 
prazo relativamente curto, fundava um império na Ásia, 
onde o nosso, tão ephemero, lamentavelmente decaliira. E, 
ponderando quanto havia alli que imitar, tomava por inde- 
clinável obrigação fazer conhecidas na pátria tão preciosas 
noções que adquiria. 

Assim é que ao cardeal da Motta escrevia : «A mais 
interessante matéria, que pôde fazer o assumpto das relações 
de um ministro, que reside em Londres, considerei eu, depois 
que entrei n'esta corte, a de investigar, para as pôr jna 
presença d'el-rei, nosso senhor, as causas, com que S. M. 
achou, logo nos princípios do seu reinado, o commercio 
de Portugal em tanta decadência, ao mesmo passo que o 
de Inglataerra e de outras nações tiveram um desmedido 
augmento. , . Todas as nações da Europa se augmentaram, 
e augmentam ainda hoje, pela reciproca im.itação. Cada uma 
vigia cuidadosamente sobre as acções que obram as outras. 
Assim fazem todas própria, mediante a informação dos seus 
ministros, a utilidade dos inventos alheios» ^. 

Tal era a noção, inteiramente moderna, que o ministro 
de Portugal possuia da utilidade dos cargos diplomáticos. 
É crivei que a novidade não agradasse á sua corte. Também 
de Paris, nesse tempo, D. Luiz da Cunha, com seus alvitres, 
procurava insufflar alguma vida no desmanchado organismo 
da nacionalidade portuguesa. Lá estava, porém, em Lisboa, 
cercando o monarcha, a ignorância fradesca, para rebater 
as tentativas vãs do espirito novo, já então predominante na 
Europa. 



1 19 fevereiro 1742, CoU. Pomb., Cod. 657. 



RESUMO DAS NEGOCIAÇÕES DE LONDRES 41 



VIII 



Com a retirada de Carvalho, ficava em Londres a 
embaixada entregue a um personagem secundário, Francisco 
Caetano, secretario particular e espécie de fâmulo do ministro, 
por elle remunerado. 

Terminada agora virtualmente a missão, não se pôde 
dizer terem sido os resultados brilhantes. Sem embargo da 
demorada negociação, e das, nos ulíimos tempos, Fingidas 
promessas do governo britannico, não deixavam os seus 
navios, nas costas de Portugal, de demonstrar absoluto 
desprezo pelas leis da neutralidade, e pelos pactos intervindos 
entre as duas nações. Não alcançara Carvalho o soccorro, 
instantemente requerido para Salsete, nem também, o que 
fora mais grave, o reconhecimento desejado do senhorio 
português nas margens do Prata. As relações individuacs 
entre os s.ubditos das duas coroas continuavam a ser assas 
tensas. Nos portos do Reino Unido eram os marinheiros 
portugueses maltratados pela ralé, os navios perseguidos com 
vexações, e muitas vezes sujeitos a confisco pelas autoridades, 
com manifesta injuria dos tratados. Desrespeitado era eguai- 
mente o principio da egualdade commercial, estabelecida por 
estes, e tão claramente definido no de 1703. Os nossos 
vinhos, importados por negociantes ingleses, em barcos de 
sua nação, pagavam menos quatro libras de direitos, em 
pipa, que os da carga de navios portugueses. E neste, como 
em outros assumptos de ordem politica, a chancelaria bri- 
tannica ise mostrou surda ás reclamações. Também ficara 
sem effeito a supplica relativa á sabida dos trigos, de cuja 
prohibição não fora Portugal exceptuado. Resolução de pouca 
dura, mas que, sem causar damno apreciável, manifesta a 
diminuta valia em que a Grã-Bretanha tinha os commodos 
da nação amiga. 

Verdade é que o gabinete de Londres fizera, durante 
este tempo, por outra parte, concessões em matérias de 



42 PEQUENAS CONCESSÕES DO GOVERNO INGLÊS 

pequena importância, que, satisfazendo a vaidade nacional 
portuguesa, não affectava por forma alguma, os interessas 
britannicos. Permittira !a entrada livre dos objectos perten- 
centes ao embaixador, vantagem mesquinha, visto que, em 
Portugal, os súbditos ingleses nada pagavam na alfandega 
por aquillo que importavam para gasto de suas casas. Isentara 
os portugueses residentes em Londres do imposto de paro- 
chia, o que também consideraremos sem importância, sabendo 
que, naqu€lla época, somente dois negociantes da nossa 
nacionalidade alli existiam : pobres homens, antigos criados, 
que, por fallecimento de seus amos, se tinham deixado ficar 
na Inglaterra. Finalmente, mandara o governo britannico 
restituir os bens penhorados, e dar satisfações ao medico 
judeu Castro Sarmento, a quem tinham feito execução judi- 
cial, por falta de pagar o dito imposto. 

São estas as victorias diplomáticas, que os admiradores 
incondicionaes do futuro estadista lhe attribuem, para exaltar 
o valor dos seus serviços em Londres. Elle próprio não 
soube allegar jamais outros, e estes, como se vê, não são 
enormes. E, comtudo, a residência de Carvalho na Inglaterra 
teve, para elle pessoalmente, e para os futuros destinos de 
Portugal, importância mui outra. Alli o seu espirito acaboti 
de se formar, e nelle se depositaram as sementes, que mais 
tarde haviam de germinar em vastos planos de fomento 
económico. Alli se lhe accendeu mais vivamente a hostilidade 
intima, votada aos ingleses, a qual sem embargo das allianças, 
dos tratados, das convencionaes demonstrações que as 
circumstancias politicas lhe impunham, foi a característica de 
seus actos, e lhe conquistou uma aura de sympathia popular, 
ainda hoje subsistente. 

Os adversários jesuitas de Pombal, respondendo ás 
calumnias, que lhes elle irrogava, com outras calumnias, 
divulgaram que a sua enviatura em Londres fora estéril, 
pelos desregramentos de uma existência, passada em logares 
de má fama, antes que no gabinete de trabalho, ou na 
roda brilhante da corte. E o facto de ter o ministro, nos 
últimos annos de sua vida, confessado que nada aprendera 
da lingua inglesa, poderia significar, com o insuccesso das 



ESTUDOS ECONÓMICOS DURANTE A EMBAIXADA 43 

negociações, que os encargos do posto não lograram mere- 
cer-Ihe attenção demorada. Sabemos, todavia, que assim não 
foi. Carvalho trabalhou sempre fervorosamente. Aprendeu 
muito. Estudou, nos homens e nos costumes da Inglaterra, 
o segredo da extraordinária e rápida prosperidade d'esse 
paiz. Nas suas horas de meditação e devaneio, sonhou, para 
a sua pátria, destino egual. Somente não enxergou que a 
raiz de tudo isso, que o seduzia, era a liberdade, de onde 
sai a iniciativa individual, base de toda a actividade pro- 
gressiva. Por tal razão, a sua obra, emprehendida mais tarde 
com tanto estrondo, não poude fructificar. 

Sem prejuizo d'estes estudos, Carvalho acompanhava de 
perto as qu€stões, que se debatiam, da politica do mundo, 
então numa phase agitadíssima. Suas cartas, amiudadas e 
extensas, são copiosa chronica dos successos do dia. Era 
a corte de Lisboa por elle informada, com toda a indivi- 
duação, das sessões do parlamento, das intrigas da diplomacia, 
dos movimentos de tropas, do apparelhar das esquadras, e 
até das anecdotas correntes no paço e nas embaixadas. Com 
diligencia constante em indagar e transmittir as novidades, 
tinham os ministros, naquelle tempo, de supprir o que a 
reportagem dos jornaes e a rapidez do telegrapho tornam 
hoje accessivel ao menor cidadão. Nesta obrigação. Carvalho 
se não mostrou inferior ao que os mais exigentes d'elle 
poderiam esperar. 

Com semelhante tarefa, e as preoccupações e fadigas, 
que, como ísabemos, as negociações diplomáticas lhe traziam, 
o ministro dava-'se a elaborar extensos relatórios, sobre 
assumptos económicos, como o que precedeu o projecto da 
Companhia Oriental, ou a dissertação acerca das relações 
commerciaes com a Inglaterra, compendio erudito e volumoso. 

Tudo isto nos dá a certeza de que este periodo da sua 
existência não podia ser mais laborioso, nem mais utilmente 
aproveitado. 



CAPITULO II 



MISSÃO A VIENNA 



I. Conflicío de Maria Theresa com a corte de Roma. Intervenção de 
D. João V. Carvalho é mandado a Vienna. Mallogro da compa- 
nhia para a índia. — II. Viagem de Carvalho. Eleição do Im- 
perador em Francfort. Difficuldades que encontra o Enviado á 
mediação. — 111. Segundo casamento de Carvalho. Primeiros 
filhos: Adão e Eva. — IV. Novos incidentes entre a Impera- 
triz e a Cúria. Desgostos de Carvalho com o Enviado português 
em Roma, A <'.brôa de milho)> de Soure. — V. Hostilidade á 
intervenção portuguesa. Carvalho é reprehendido de Lisboa. Pede 
dispensa do cargo. — VI. Morte de Filippe V. Portugal me- 
dianeiro entre a Hespanha e a Áustria. Entre a Hespanha e 
a Inglaterra. Fracasso das negociações. — VII. Renova-se a 
mediação para com Roma. Caso do Eleitor de Moguncia. — 
VIII. Embaraços financeiros de Carvalho. Presente da coroa 
biitannica recusado. Dadiva do Eleitor de Moguncia. — IX. In- 
trigas de Pereira de Sampaio. Encerrabodes embaixador em Lon- 
dres. Fim da missão e regresso de Carvalho. 



I 

As dissenções em que Maria Theresa se debatia, para 
defender o território e o throno, que tantas ambições lhe 
disputavam, abrangiam também a Santa Sé. Por effeito da 
soberania temporal que exercitava, não podia o Pontífice 
manter-se indifferente aos destinos da monarchia, que na 
Itália senhoreava tão vastos domínios. Como chefe da Egreja, 
via-se alvo de solicitações das potencias catholicas, desejosas 



46 CONFLICTO DE MARIA THEREZA COM A CORTE DE ROMA 

de lhe captarem a influencia, em beneficio da politica de 
espoliação, que proseguiam. Talvez que, conjunctamente, a 
antiga rivalidade da tiara com o império levasse Bene- 
dicto XIV a immiscuir-se na contenda, se bem que no terreno 
diplomático somente, por não lhe permittir outro a fraqueza 
material de seus Estados. Certo é que a corte de Roma se 
constituirá o centro das intrigas, com que os inimigos da 
joven e varonil rainha de Hungria acompanhavam a obra 
iniciada nos campos da batalha. 

 testa dos negócios pontificios achava-se então o 
cardeal Valenti, manifestamente desaffecto á corte de Vienna. 
Dentro do Sacro Collegio dividiam-se os partidos, mas preva- 
lecia a opposição á casa de Áustria. Para contrastar os 
meneios da facção hostil, diligenciava Maria Thereza introduzir 
no grémio dos purpurados um representante, inteiramente 
á sua devoção; e ninguém mais nesse caso que o auditor 
da Rota, Mellini, a quem já fora o capello promettido, em 
dias do finado imperador. Agora, porém, a Santa Sé voltava 
atraz com a palavra, e ás exigências do gabinete austríaco 
oppunha evasivas, que nem sempre lhe era azado explicar, 
com solido fundamento. 

A Cúria allegava não ter havido da sua parte promessas 
formaes. Apenas uma esperança, pendente de varias con- 
dições ; e era uma d'essas abster-se Mellini de ostentar, 
como até ahi fizera sempre, a sua excessiva parcialidade 
pela corte de Vienna, Continuando todavia o prelado a 
apregoar altamente essas inclinações, não podia, sem escân- 
dalo e motivado desgosto das outras potencias, ser investido 
na purpura. Era esta mesma razão contra o papa, que, pouco 
antes, e contra a doutrina invocada, realizara a promoção 
de dois cardeaes, Lanti e Monti, servidores dedicados da 
casa de Bourbon. 

Se, pois, sob este aspecto, as reclamações da rainha 
de Hungria eram fundadas, o mesmo não succedia com a 
intimação, que fizera ao Papa, para exouicrar o secretario 
de Estado, cardeal Valenti, e outros prelados, funccionarios 
subalternos, como desaffectos á corte de Áustria. Não ia 



MEDIAÇÃO DE D. JOÃO V 47 

tão longe o direito de reclamação, nem o decoro do throno 
pontificio podia tal consentir. 

Apesar das instigações com que as cortes de Paris e 
Madrid, servindo-se dos cardeaes seus addictos, alentavam 
a de Roma, é certo que Benedicto XIV não contemplava 
sem apprehensão o prolongar-se um conflicto, cujo desen- 
lace podia ser funesto ao seu prestigio de chefe da F.greja. 
A pertinácia de que Maria Theresa dera provas, defendendo 
a coroa herdada e reivindicando para seu marido a dignidade 
imperial; a destreza de sua politica, pela qual grangeava 
sympathias e auxilios, com surpresa não pequena de seus 
adversários; as alternativas da guerra, nem sempre desfa- 
vorável ás armas austriacas; tudo isto influia no animo do 
Pontífice; -e Suscitando-se-lhe, por outra parte, o receio de 
um scisma, extremo a que o gabinete de Vienna em sua 
irritação poderia abalançar-se, não admira que uma tentativa 
de conciliação lhe fosse grata. Por esse motivo foram aco- 
lhidas as insinuações do Enviado português em Roma, 
Manuel Pereira de Sampaio, que affiançava o êxito de 
qualquer diligencia, para accordo negociado por intervenção 
do seu soberano. 

Fez-se constar á corte de Vienna, que jamais o acreditou, 
ter a idéa da mediação partido do Papa. Tudo leva a crer, 
porém, que o plano foi obra de Sampaio, ambicioso de 
representar um papel de importância, e que Benedicto XIV, 
pelos motivos expostos, temendo o desfecho, acceitou facil- 
mente a suggestão. 

Officialmente o desejo da mediação era do Pontífice, 
que, no principio de 1744, escreveu a D. João V e á rainha 
sua mulher, solicitando a interferência. Os soberanos portu- 
gueses, nas cartas que dirigiram, cada um de per si, á rainha 
de Hungria, sua sobrinha, notificaram o intento do Papa, 
expuzeram o seu pesar pelas desavenças entre ella e o chefe 
da christandade, e offereceram a intervenção. Maria Theresa 
respondeu em maio seguinte, acceitando, e nessa occasião 
enumerou as queixas que tinha da corte de Roma. 

Para esta particular negociação, não assistindo repre- 
sentante nosso em Vienna, o governo lançou as vistas em 



43 MANUEL PEREIRA DE SAMPAIO 



Manuel Telles da Silva, filho do conde de Tarouca, que 
fora alli o ultimo ministro de Portugal. O escc/lhido, que 
sahira do reino em 1715 com o infante D. Manuel, exercia, 
na capital austriaca, o cargo de presidente do conselho de 
Flandres, provavelmente em recompensa de serviços prestador 
nas guerras de Hungria, onde o principe português se distin- 
guira. Gozava de grande valimento com Maria Theresa, que 
mais tarde instituiu em seu favor o ducado de Turnhout, 
nos Paizes Baixos. Como funccionario, e portanto súbdito, 
da monarchia austriaca, não lhe era licito, todavia, acceitar 
o cargo que o governo do seu paiz lhe propunha. Entregou 
as cartas á soberana, e excusou-se de intervir na mediação. 

Sabedor da recusa, offereceu Manuel Pereira de Sampaio 
mandar um emissário seu a Vienna. Por esta forma ficava 
elle senhor de conduzir a negociação, exclusivamente pelos 
próprios dictames. Tratando em Roma directamente com a 
Cúria, e fazendo-se representar em Áustria por um subor- 
dinado, avocava a si todos os elementos da disputa, e vinha 
a ser elle, com o nome do seu monarcha, realmente o media- 
neiro. As honras da acção diplomática, que imaginava, viriam 
a competir-lhe, por isso, totalmente. No seu modo de ver, 
constituira-se já, offerecendo a intervenção, como que pro- 
tector do Papa. Compondo as difficuldades existentes, obri- 
garia a corte de Vienna. A occasião era rara, para sujeito 
como elle, enfatuado do seu mérito pessoal, satisfazer a 
vaidade; para um ambicioso se adeantar no favor dos prín- 
cipes. E assim Se explica o proceder contradictorio de 
Sampaio, no correr das negociações; o arrefecer do seu zelo, 
quando outro plenipotenciário foi nomeado, a sua má vontade, 
a indisposição evidente contra este, os obstáculos, que levantou 
por parte da Cúria, ao final accomodamento das dissenções. 

Sebastião José de Carvalho foi apontado para esta missão, 
já difficil em si, e que os despeitois de Sampaio iam tornar 
sobremaneira espinhosa. Dos muitos dissabores, que o futuro 
marquês de Pombal por esse tempo padeceu, se pode dizer 
que foi Manuel Telles da Silva, rejeitando o encargo do 
seu soberano, o innocente causador. Mas foi elle também 
o promotor da sua fortuna, pois sem essa causa não iria 



A COMPANHIA DA ÍNDIA 49 

Carvalho a Vienna, nem houvera realizado o consorcio, a 
cuja influencia deveu mais tarde ser escolhido para ministro 
de D. José. 

Outro factor, do que elle veiu a considerar seu desterro 
na Allemanha, foi o projecto de Companhia para a índia, 
que havia elaborado na Inglaterra. A enviatura a Vienna, 
por todos olhada como relevante homenagem aos méritos 
do diplomata, foi apenas consequência de uma intriga pala- 
ciana, tendo por objecto afastal-o de onde o seu plano poderia 
fructificar. Nenhuma duvida é licita em tal ponto, acerca 
do qual o próprio Carvalho nos instrue. São estas as suas 
queixas: «Presentando-se naquelle tempo a negociação da 
mediação entre as coroas de Roma e Vienna, mediação que 
devia ser negociada a oitocentas léguas de Lisboa, no clima 
da Allemanha, muito mais frio que o da Inglaterra, onde a 
minha saúde se tinha arruinado, e mediação que não pro- 
mettia a menor esperança de poder ter effeito, contra a forte 
e já declarada opposição dos ministérios, com quem se devia 
negociar; presentando-se, digo, esta remota e quasi impossivel 
negociação, demonstraram os factos que não faltou quem me 
inculcasse para ella. . . Não ha, nos livros políticos, e nos 
exemplos da historia ministerial, intriga mais trivial e mais 
surrada, do que o é aquella em que se promovem a seme- 
lhantes commissões, muito remotas e summamente difficeis, 
os ministros que algum interesse particular procura afastar 
da sombra do throno, e arruinar no conceito do amo, . . Os 
referidos meios escabrosos tiveram por fim excluir-me do 
estabelecimento da sobredita Companhia Oriental, de sorte 
que eu não podesse ter a menor parte nella» ^. 

Com a recommendação do embaixador, Cleland partira 
para Lisboa, confiando, pelo enthusiasmo d'aquelle, encontrar 
na corte portuguesa favorável acolhimento a seus planos. 
Já se imaginava á testa da Companhia, e o caminho da 
fortuna se lhe presagiava seguro. A pouco espaço, sobreveio 



^ Carta particular a Marco António de Azevedo Coutinho, Vienna. 
15 Novembro 1748. CoII. Pomb., Cod. 613. 



o MARQUES DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 4 



50 CLELAND E O CARDEAL DA MOTTA 



O protector, que, com o pretexto de doente, regressava á 
pátria, trazido, porém, em parte, pela anciã de pessoalmente 
amparar, com seu prestigio, o projecto, expor as vantagens, 
dissipar as duvidas, e de viva voz supprir a insufficiencia do 
relatório escripto. 

Deslembrara-se o ardente innovador do atrazo dos espí- 
ritos, no seu paiz; dos hábitos inveterados de indolência e 
rotina ; das invejas mesquinhas da corte ; da provável resis- 
tência que lhe haviam de suscitar os interesses, realmente, 
ou por mera supposição, ameaçados. Mal a noticia do 
projecto transpirou, levantou-se contra elle a liga dos inve- 
josos e medíocres. O cardeal da Motta, ministro omnipotente, 
apesar de muito adulado por Carvalho, negou-lhe o bene- 
plácito, invocando a falta de meios do thesouro. Também a 
occasíão não seria propicia ao ensaio, no momento em que, 
pela invasão dos mahratas, estávamos a pique de perder o 
império da índia, Cleland retirou-se á Inglaterra, desenganado 
da tentativa, como do valimento d'aquelle que a tinha 
recommendado. 

Contra este ultimo trabalhava entretanto o ciúme dos 
cortesãos. Não faltou quem menoscabasse o projecto, e 
porventura a limpidez dos intentos de quem á corte o 
trouxera. A alguns affrontava de certo, na sua nullidade, a 
ousadia d'aquelle homem, que buscava intervir na adminis- 
tração publica, contra a rotina a que se haviam costumado. 
Outros temeriam, realizando-se a empresa, vir a perder a 
occasião dos governos, e pingues empregos, com que as 
desmanteladas casas fidalgas se refaziam. Alguns, em menor 
numero, acreditando na efficacia da proposta, não quereriam, 
por ciúme, que d'ella aproveitassem a gloria e os proventos 
ao obscuro diplomata, subitamente arvorado em reformador. 
Talvez D. João V, em torno de quem todos estes sentimentos 
trabalhavam, quizesse dar uma lição a Carvalho, cortando-lhe 
o vôo ás ambições. Nestas circumstancias, a transferencia 
para Vienna foi resolvida. 

Com a escolha, rejubilaram os invejosos, lisonjeando-se 
de que, pelas difficuldades da missão, o insuccesso seria 
fatal ao Enviado. E não se illudiram nos cálculos. Não se 



CARVALHO EM VIAGEM 51 



mallogrou a intervenção, como vaticinavam, mas, nos escolhos 
da mesma, não esquecendo os que Sampaio lhe suscitou, o 
escasso vahmento de Carvalho com o monarcha tinha de 
sossobrar. 

II 

Sahindo de Lisboa, em dezembro de 1744, pela via 
maritima. Carvalho dirigiu-se primeiramente á Inglaterra. 
Tinha de olhar pelos negócios da embaixada, a cargo de 
Francisco Caetano, 'e pelos seus próprios, embaraçados por 
despesas de representação, que em muito excediam os orde- 
nados do emprego, e exigiam sacrifício da fortuna particular, 
então pouco avultada. O seguimento do plano da Companhia 
para a índia devia também prendel-o alli. Cldland retirara 
de Portugal, molestado e sem esperança; mas não era do 
génio de Carvalho abandonar sem lucta um propósito, logo 
ao primeiro revez. O que d'elle sabemos, pelo contrario, 
leva a tsuppôr que o ministro não abriria mão do intento, e 
que algum dos motivos que, por espaço de seis meses, o 
retiveram longe do logar da sua missão, se relacionaria com 
o emprehendimento, em cuja realização nutria fé. 

Só em maio do anno seguinte partiu para o continente. 
O objecto da viagem não era sabido, por isso que a Gazeta 
de França, bem informada do movimento das cortes, menciona 
que o embaixador se dirigia ao Hanover, onde então se 
encontrava o rei da Orã-Bretanha. Em Lisboa causava extra- 
nheza a demora. A rainha, summamente interessada na 
mediação, manifestava desgosto. D. João V mostrava-se 
impaciente também, mas com outro motivo. Queria que o 
Enviado lhe desse a conhecer a pragmática que prohibia 
na corte de Vienna as carruagens de menos de quatro rodas. 
«Suspeito ser trovoada, que se arma contra as nossas seges», 
escrevia Abarco António; e explicava ter por causa a teimosia 
do patriarcha em servir-se de taes carros, contra o voto 
do soberano, que reputava isso prejudicial ao decoro. 

Estas communicações encontraram a Carvalho finalmente 
em caminho. 



52 VIAGEM DE CARVALHO PARA A ALLEMANHA 

Esteve primeiro em Haya, depois no Hanover, d'ahi 
passou a Vienna, aonde chegou nos primeiros dias de 
julho de 1745, 

Breve reconheceu o ministro quanto lhe ia ser escabrosa 
a missão naquella corte. A situação politica de Áustria era 
muito mais solida que meses antes, quando elle deixara 
Lisboa, O Eleitor da Baviera, filho de Carlos Vil, cujas 
pretenções tinham sido um dos motivos da guerra, desistira 
de qualquer direito ao throno de Áustria, ou aspiração á 
dignidade imperial. O grão-duque de Toscana, marido de 
Maria Theresa, era agora o candidato apontado para cingir 
a coroa germânica. Já a dieta se reunia em Francfort, para 
proceder á eleição, Achando-se m.ais forte, o gabinete de 
Vienna insistia pertinaz em suas exigências, ao passo que 
a Cúria, a quem os progressos do contendor estimulavam o 
despeito, recusava egualmente ceder a minima parcella de 
suas próprias. 

Não era isto só. A corte de Roma dera a mão ás potencias 
inimigas da casa de Áustria, para tolher que a esta revertesse 
a coroa do império. Em Francfort, para onde já a rainha de 
Hungria se encaminhava, os representantes da Prússia e do 
Eleitor palatino requereram o adiamento do acto. O núncio 
procurava de sua parte ganhar os votos dos eleitores eccle- 
siasticos. Apesar d'isso, a eleição realizou-se no dia deter- 
minado, 13 de setembro de 1743, e a coroa foi concedida, 
como se esperava, ao marido de Maria Theresa. 

Seguiu-se o protesto dos dois príncipes, que tinham 
recusado tomar parte na assembléa. Na véspera da coroação, 
o Núncio, por ordem do Papa, sahiu da cidade, sem ter 
ido desejar as boas vindas ao soberano eleito e á rainha, 
Dava-se elle por aggravado com uma decisão da Dieta, sobre 
pragmática. Estabelecia esta, entre outras clausulas, que os 
membros da assembléa eleitoral não pagariam as visitas aos 
representantes extrangeiros, nem mesmo ao do Pontífice que, 
pelo antigo formalismo, se julgava com direito a especiaes 
regalias. Este facto veio tornar mais acerba a pendência entre 
Roma e Vienna; animou a corte papal a demorar o reco- 
nhecimento do Imperador; e gerou mais tarde um incidente. 



CARVALHO ENCARREGADO DA MISSÃO PARTICULAR 53 

que kvou tempo a derimir, e mais tornou difficil a já sem 
isso complicada missão do Enviado português. 

Não eram somente os obstáculos, originados da inelu- 
ctavel marcha dos acontecimentos, que se offereciam a 
Carvalho. Logo á chegada outros se lhe depararam, que, 
menos importantes, não deram pouco trabalho a vencer. 

Em Vienna reinava a opinião que a mediação portuguesa 
não fora solicitada pelo Papa, mas, pelo contrario, offerecida 
por nós. Era além d'isso convicção geral que o plenipo- 
tenciário não tomaria a peito os interesses da coroa austro- 
hungara, nem d'elle se poderia esperar sequer um proceder 
imparcial. Na intervenção seria apenas o servo dedicado e 
submisso da Cúria, 

Em taes condições, não podia o ministro encontrar acolhi- 
mento que lhe prenunciasse bom êxito. A isto accresciam 
difficuldades de outra ordem, com que a má vontade do 
gabinete austriaco se desculpava. 

Na carta, inteiramente familiar, em que o rei de Portugal 
annunciava a Maria Theresa a enviatura de Carvalho, fazia-lhe 
saber que este, seu ministro na corte de Londres, ia particu- 
larmente á de Vienna, tratar da mediação, conservando o 
seu posto. Â imperatriz viuva, Maria Christina, sua cunhada, 
dizia : «Faço passar a essa corte, encarregado de uma missão 
particular, a Sebastião José de Carvalho, do meu conselho». 
As cartas de crença designavam o representante real por 
emissário. Finalmente, as instrucções, entregues ao mesmo, 
impunham que não havia de tomar, na corte de Vienna, 
caracter algum diplomático, mas dar-se por simples viandante, 
ou emissário particular, o que se confirmou no aviso passado 
a Manuel Telles da Silva. 

Em toda a espécie de negócios, as formalidades, que 
o uso consagra, são a garantia das partes ; em muitos se 
tornam indispensáveis, para salvaguardar sagrados direitos; 
nunca, porém, a necessidade d'ellas tanto se faz sentir, como 
nas relações dos governos entre si, nos graves assumptos 
de que dependem a paz e a guerra, os bens, o socego, ias 
vidas, os destinos de tantas pessoas. Para isso, a experiência 
dos homens creou normas, que não é licito derogar. 



54 QUESTÕES DE ETIQUETA 

Na enviatura a Vienna todas as praxes se desprezaram. 
Quer por satisfazer a vaidade de Sampaio, que ficaria sendo, 
como ambicionava, o interventor official ; quer por uma 
pretenção de finura, sem objecto e ridicula, d'essa a que, 
por escarneo, chamamos saloia; talvez pela supposiçao de 
que o pleito se poderia resolver sem attricto e de golpe; 
por qualquer d'estas razões, ou por todas, fora vedado ao 
representante de Portugal assumir a posição de ostensiva 
actividade, única que no caso em questão seria efficaz. 
Assim o gabinete de Lisboa, que offerecera a intervenção, 
só como que occultamente agia em Vienna. Seu Enviado 
não tinha qualificação diplomática. Para o publico era um 
ministro de corte extrangeira, viajando na Europa. Para a 
rainha, um emissário, confidente dos reis de Portugal. D'esta 
situação que, sendo-lhe pessoalmente indecorosa, por lhe 
diminuir as funcções, compromettia o êxito da incumbência, 
Carvalho, com justa razão, se magoava. «Nas instrucções, com 
que sahi d'essa cíôrte — escrevia a Marco António — , me 
ordenou el-rei nosso senhor que me intitulasse simples vian- 
dante. Nas cartas de crença me denominou, quem as escreveu, 
emissário. E d'aqui resultaram duas cousas. Primeira, que 
eu quando aqui cheguei, para cohonestar a falta dos meios, 
que não havia nas minhas faculdades, disse que, com eífeito, 
era viandante, e deixara a minha casa na Inglaterra, porque 
a minha missão nesta dôrte era restricta a um objecto, que 
não podia ser de grande duração. Segundo, que a dita palavra 
emissário causou a esta corte notável extranheza, parecen- 
do-Ihe absolutamente nova, e não a achando conforme com 
a gravidade do negocio, que eu vinha tratar» i. 

Surgiram as primeiras duvidas pela questão, sempre grave, 
da etiqueta. Discutiu-se em que logar devia o Enviado ser 
recebido, e houve quem, no conselho, alvitrasse que era 
sufficiente, para a qualidade d'elle, a ante-camara, onde a 
rainha habitualmente dava audiência aos simples particulares. 
Maria Theresa redarguiu que o termo emissário seria lapso 



1 Carta particular. 31 maio 1746, CoU. Pomb., Cod. 062. 



SEGUNEX) CASAMENTO DE CARVALHO 55 



de quem escreveu as cartas de crença, e decidiu conceder 
ao representante português as mesmas honras que era de 
uso tributar aos embaixadores, regularmente acreditados. 
Neste particular tudo se fez que podia contentar a Carvalho. 
«Até as guardas d'esta corte — elle referia — , me fazem a 
distincção de pegar nas armas, quando passa a minha 
carruagem.» 

Sem embargo do acolhimento cordial da soberana, nenhum 
ensejo se offerecia ao ministro de dar principio á sua tarefa. 
As disposições do gabinete de Maria Theresa, tanto como 
as da Cúria, não deixavam enxergar probabilidades de 
accordo. Os incidentes da eleição imperial, augmentando os 
aggravos, ainda mais apartavam uns e outros da conciliação. 
Carvalho, que acompanhara a corte a Francfort, e assistira 
ao escandaloso procedimento do Núncio, voltou desenganado. 
Na sua opinião, o único meio, que ao governo português tse 
offerecia de sahir airosamente d'este passo difficil, era não 
encetar em Vienna as negociações. Trabalhava-Ihe no animo, 
também, porventura, o desejo, que sempre manifestou, de 
regressar á sua antiga residência de Londres. Como quer 
que fosse, aquelle seu modo de vêr transmittiu-o elle logo, 
ainda de Francfort, para Roma e para Lisboa. 



III 



Entretanto, a viagem á Allemanha que, pelo lado de 
sua carreira diplomática, tão pouco promettia a Carvalho, 
teve influencia decisiva nos destinos da sua vida. Nas visitas 
que fazia ao paço, e festas da corte, deixou-se elle captivar 
dos encantos de uma nobilíssima joven, cuja mãe era dama 
da imperatriz viuva. O florir das vinte e quatro primaveras 
de Leonor Daun devia ser attrahente, em grau subido, para 
seduzir á primeira vista, e accender, no coração de Carvalho, 
o imperativo desejo que o levou a consorciar-se, cinco meses 
apenas chegado a Vienna, em dezembro de 1745. Se nos 
lembrarmos que era Carvalho alli um forasteiro, para todos 
desconhecido, e àbstrahirmos, do prazo acima, o tempo neces- 



56 CONTRACTO DE CASAMENTO 

sario para as reciprocas indagações de nobreza e fortuna, 
para o pedido, as consultas, a licença dos respectivos sobe- 
ranos, os aprestos indispensáveis do casamento, devemos 
suppôr que a resolução foi súbita, e o temperamento do 
apaixonado era ainda o mesmo que, treze annos atraz, o 
levara á acção violenta de um rapto. 

É custoso de representar que egual ardor de sentimentos 
levasse a noiva. Carvalho tinha quarenta e seis annos de 
edade, e os achaques, sobretudo o rheumatismo, que já em 
Londres o torturavam, por certo lhe haviam de quebrantar 
o physico, e arrebatar essa virente louçania, que fascina os 
corações juvenis. O que nelle foi impulso da paixão, na 
donzella podemos attribuir á obediência filial, á refjexão, 
talvez ao simples condescender em galanices, a que dava 
sabor especial o respeito da edade, a qualidade de extran- 
geiro, o prestigio de um cargo, que parecia envolver a 
confiança pessoal de três monarchas. 

O contracto de casamento proveu amplamente aos 
interesses da desposada. Carvalho dotou sua mulher em 4:000 
florins, e mais 2 :000, que a escriptura qualifica de contra- 
dote, além de outros 2:000 como presente de núpcias. Conce- 
deu-lhe 1 :500 florins annuaes para despesas, e uma pensão 
de 4 :000 cruzados, afora certas prerogativas, por viuvez. Em 
declaração, annexa ao contracto, os irmãos de Carvalho asse- 
guravam o apanágio á cunhada, no caso em que, vindo 
aquelle a morrer sem successão, o morgado revertesse a 
qualquer d^elles. Manifesta a escassez de meios da família 
o facto de não receber a noiva a legitima paterna. Por 
acto de 16 de março de 1746, mãe e filha passaram reciproca 
quitação uma a outra: esta do valor da herança paterna, 
aquella das despesas do enxoval. Da mesma data existe 
documento em que a primeira se confessa devedora a 
Carvalho de 2 :000 florins, recebidos para uma necessidade. 

D'esta maneira parece explicar-se, por conveniências de 
ordem material, a accedenda da nobre familia Daun, a premiar, 
com a posse do seu gentil rebento, a paixão já serôdia do 
Enviado português. 

Entretanto, a desproporção das edades e dos sentimentos 



1 

i 



PRIMEIROS FILHOS: ADÃO E EVA 



não impediu a ventura d'esta união. Um dos muitos folicu- 
larios, que escreveram contra Pombal, refere que, por 
indiscretos zelos d'este, a joven esposa se retirara uma vez 
para casa de sua familia, de onde custou muito a voltar. 
Não merecem fé as allegações de um escripto, em que 
abundam as falsidades. A despeito d'elle, podemos acreditar 
que foi Leonor Daun a esposa modelo, tão dedicada e fiel 
nas horas de amargura, como estimável, e digna de sua 
alta posição, na época das prosperidades. O que para si 
ganhou em bem estar e segurança do futuro, largamente 
o compensou a seu marido no favor, que lhe grangeou, 
primeiro na corte de Vienna, depois com a rainha, sua 
compatriota, nos' dias de incerteza, que succederam á sua 
entrada, em Lisboa. O affecto reciproco dos cônjuges prompto 
desabrochou em prole, da qual os primeiros rebentos, um 
filho e uma filha, tiveram entre outros nomes, recebidos no 
baptismo, o primogénito, rapaz, o de Adão, a menina^ o de 
Eva, Seria a idéa uma innocente phantasia dos pães, acaso 
tradição do lado materno, ou deveremos vêr nella um pensa- 
mento reservado, que d'esta maneira Carvalho consubstan- 
ciava em formula mystica? Porventura antecipava elle, para 
a sua geração, vida nova, em um mundo também novo. Os 
laços, que o prendiam ao passado, quebravam-se alli. 
Acabava-se a estirpe, pouco limpa, que as genealogias, inven- 
tadas na familia, não conseguiam exaltar. Os herdei-os do 
seu nome traziam já o sangue illustre dos Dauns, cuja 
sequencia facilmente se destrinçava, até aos primeiros annoc 
do século duodécimo. Um Adão, uma Eva, d'este sangue 
nascidos, iam ser o tronco da nova familia, essa agora de 
nobreza incontestada. 



IV 



Ao tempo do seu consorcio, o ministro de Portugal não 
tinha dado o primeiro passo para o desenmpenho de sua 
missão, e o aspecto dos acontecimentos cada vez se lhe 
antolhava menos propicio. As instrucções, que recebera em 



5S NOVOS INCIDENTES ENTRE A IMPERATRIZ E A GURIA 

Lisboa, prescreviam-Ihe, como base preliminar, que a corte 
de Vienna abandonasse a injuriosa pretenção sobre o secre- 
tario do Papa, e que a Cúria, pela sua parte, cedesse ^la 
questão do capello. Ora, se Maria Theresa condescendia nesta 
parte . de suas exigências, o Pontifice é que, de nenhuma 
maneira, parecia disposto a afrouxar na recusa. Motivando 
esta, allegava ter já dado sufficiente prova de sua amizade 
á rainha de Hungria, quando removera, a instancias d'ella, 
os legados de Bolonha e Ferrara, contrários á sua causa. 

Os incidentes de Francfort eram novo obstáculo á conci- 
liação. Além do succedido com o Núncio, a corte de Roma 
não queria reconhecer o Imperador. Allegava não ter partici- 
pação official da eleição. Exigia que esta lhe fosse com- 
municada em certos termos, de que em tempo se servira 
o imperador Carlos VI, e que o gabinete de Vienna agora 
repudiava por inconvenientes. Nos Estados romanos houvera 
distúrbios, por causa da eleição. Na capital, onde ella era 
festejada pelos partidários da casa de Áustria, foram estes 
atacados por um grupo de facinorosos, havendo feridos e 
mortos. Attribuia-se o attentado a um membro da Cúria, o 
cardeal Aquaviva. Solicitado por Sampaio, para intervir na 
questão do reconhecimento, Carvalho escusava-se, allegando 
que as suas instrucções lhe incumbiam a mediação entre o 
Pontifice e a rainha da Hungria, não entre aquelle e o 
Imperador. 

Desde o principio, o intercessor em Vienna se mostrou 
desaffecto á corte de Roma. O tortuoso de sua politica 
descoroçoava-o. Produzia-lhe irritação a tenacidade com que 
ella insistia nas suas exigências. É bem possivel que d'ahi 
começasse a germinar o ódio profundo, que, mais tarde, 
no poder, manifestou contra a Cúria. Sampaio, que tinha 
a peito, acima de tudo, os interesses do Papa, enfadava-o 
com o seu modo de vêr as cousas; offendia-o com impor- 
tunas considerações. Já antes de partir para Francfort, Carvalho 
dizia para Lisboa que as informações de Roma brigavam 
com a verdade dos factos. 

Não vendo Benedicto XIV inclinado a ceder, dando o 
barrete a Mellini, o ministro, de accordo com suas instrucções, 



AMOFINAÇÕES DE CARVALHO 59 

julga que a intervenção se não realizará. O que de Lisboa 
respondem á sua communicação, talvez mal entendida, con- 
firma-o nesse pensamento. Em novembro, dá parte á Rainha 
de Hungria que os negócios da sua embaixada o chamam ia 
Inglaterra. Por €ssa razão, talvez, apressa o consorcio, effe- 
ctuado no mez seguinte. Deu isto ensejo a diz^erem seus 
adversários, mais tarde, que o pretexto tinha por objecto 
somente violentar a família da noiva, que não - decidia a 
união, antes de receber de Portugal seguras noticias sobre 
a nobreza e fortuna do pretendente; e, chegando estas depois, 
muito ao revez do que elle dizia, deixaram a todos descon- 
solados. Pelas condições do contracto de núpcias, e conhe- 
cimento dos successos políticos, o asserto parece calumnioso. 

Da declaração do ministro resultou, com o despeito de 
Maria Theresa, o descontentamento, manifestado com estré- 
pito, em Roma e Lisboa. A opinião de Sampaio tão acerba- 
mente se pronunciou, que a sua carta, sobre a matéria, é 
recebida por Carvalho como uma «incompetente increpação 
e petulante sátira». O governo português reprova egualmente 
o proceder do seu representante. As ordens que lhe dá são 
que, até onde fôr possível, volte atraz com a deliberação de 
retirar-se. Presumia-se em Lisboa que os despachos encon- 
trariam o ministro já a caminho da Inglaterra, se não já 
nesse paiz; mas, na duvida, diziam-lhe que, embora em 
jornada, achando-se ainda no continente, retrocedesse para 
dar principio ás negociações. 

Quiz a boa estrella de Carvalho que ainda o topassem 
as instrucções em Vienna, onde provavelmente interesses de 
familia o detinham. Forçoso lhe foi, pois, contrariar o seu 
juizo, e as aspirações de voltar a Londres, onde o nunca 
abandonado projecto da Companhia Oriental o chamava 
ainda. Violentado permaneceu na corte germânica, e encetou 
a tarefa da mediação. 

Seu desgosto era justificado, por contrariedades que de 
todas as partes lhe surgiam. Reprehendido pela Secretaria 
de Estado, na qual, apesar do parentesco, e da affeição de 
Marco António, as suggestões de Sampaio eram as que 
vingavam ; perseguido pelas impertinentes insinuações d'este, 



60 DESGOSTOS COM MANUEL PEREIRA DE SAMPAIO 

que não deixara as preterições de tudo dirigir em nome do 
Papa; luctando, de uma banda, com as desconfianças da 
corte de Vienna, da outra, com a má vontade dos delegados 
da Cúria, com quem se entendia; Carvalho encarava receoso 
as difficuldades da sua posição, calculando que, ao mallogro 
de seus esforços, correspondia o naufrágio de suas ambições 
de progresso futuro. 

Nas rodas politicas de Vienna, não se apagara a suspeita 
de ter o ministro português por encargo especial zelar os 
interesses do Papa, Oppostamente, em Roma o consideravam 
partidário extreme de Maria Theresa. Sampaio era constante 
em propagar tal juizo, a que, aliás, o consorcio do embai- 
xador, com uma dama da corte, prestava verosimilhança. 

Das censuras, motivadas por intrigas do seu emulo, 
Carvalho amargamente se lamentava. Em uma das cartas a 
Marco António dizia assim : «Estou recebendo, desde 24 de 
janeiro até á data d'esta, successivas e multiplicadas repre- 
hensões, em cada despacho que recebo da nossa corte. 
D'esta combinação vem, pois, a resultar a minha pena. 
Porque, meu senhor, ser inalteravelmente approvado, pelo 
discurso de tantos annos, porque entendi sempre as ordens 
de S. M., e porque sempre as executei no seu verdadeiro 
sentido, e ser agora tantas vezes reprehendido, depois de 
tantas experiências, porque não entendo as ordens de Manuel 
Pereira de Sampaio, e porque, antes de as entender, as não 
executo contra o dictame da minha consciência. . . de tudo 
isto se tira na verdade .uma tristíssima combinação» i. 

Temia Carvalho, com fundamento justificado depois 
pelos factos, que as accusações de Sampaio lhe fizessem 
detrimento á carreira. Preoccupava-o ficarem consignadas, 
nos livros da secretaria, as censuras, que mais tarde podiam 
ser invocadas, contra o seu adeantamento. «Não tenho 
momento algum — dizia — livre de vexações, ou de fazer 
apologias, para convencer calumnias, que nunca mereci, ou 
de padecer as censuras, que das mesmas calumnias resultam 



^ 31 maio 1746, Coll. Pomb., Cod. cit. 



A BROA DE MILHO DE SOURE 61 

contra mim, primeiro em Roma, depois em Lisboa, e ultima- 
mente em Vienna d'Austria, por modo indirecto» ^ 

É nessa occasião que o ministro orgulhosamente recorda 
a época de sua mocidade, em que, por um Ímpeto de altivez, 
se afastou dos parentes, desprezando a protecção de Paulo 
de Carvalho, rico e influente na corte, para viver com escassez 
no isolamento: «Observo que, ao tempo que tinha pouco 
mais de vinte annos de edade, quando no interior da minha 
familia houve algumas apparencias de dissensão, se lembrará 
V. Ex.a de que eu, por fugir ás controvérsias, me degradei 
voluntariamente para o campo de Coimbra, preferindo, por 
mais de sete annos, a broa de milho de Soure á mesa 
de meu tio» -. 

Estas palavras, melhor que nenhuma consideração, nos 
descobrem o estado de penosa irritabilidade, a que o senti- 
mento das injustiças levava um orgulhoso caracter. 



V 



Por algum tempo os acontecimentos deram razão a 
Carvalhcí, e o alvitre, que suggerira, de abandonar a mediação, 
e regressar á sua embaixada de Londres, parecia ser o mais 
consentâneo ao decoro de Portugal. A despeito da estima 
pessoal da soberana, e do valimento que, pelo seu matrimonio, 
podia ter com ella, a negociação não progredia. O principal 
obstáculo residia em que, se as partes interessadas, a Impe- 
ratriz e o Papa, pessoalmente se achavam dispostas á 
concórdia, as chancelarias, em cada um dos Estados conten- 
dores, antes de tudo trabalhavam para annuUar uma inter- 
venção, que lhes era displicente. O gabinete austríaco, como 
já vimos, entendia que a idéa da mediação não partira do 
Pontifice, e era, pelo contrario, um intromettimento importuno 



1 31 maio 1740, Coll. Pomb., Cod. cit. 

2 Idem. 



62 HOSTILIDADE À INTERVENÇÃO PORTUGUESA 

do governo português. Em Roma se dizia que o assumpto 
fora secretamente disposto entre Benedicto XIV e Sampaio, 
sem audiência de nenhum cardeal, de sorte que, quando veio 
ao conhecimento d'elles, já havia correspondência travada, 
que não foi possível revocar. Com estes motivos, em ambas 
as cortes, na primeira por altivez, na segunda por despeito, 
reinava o empenho de tolher a intercessão. 

Cumpre também lembrar um facto, que talvez fosse 
causa, em parte, da reluctancia do gabinete austríaco. O rei 
de Portugal, que, pelos thesouros do Brasil, era o Creso 
do seu tempo, e, por sua estulta prodigalidade, estimulava 
a cobiça de um governo em apuros, negara a Maria Theresa 
o soccorro pecuniário, por ella requerido, para manter a 
sua causa. Era assas forte esta razão, para gerar o despeito 
da soberana. 

Em tal conjunctura bem se pôde assentar que os esforças 
de Carvalho, ainda os de melhor quilate, seriam infructuosos. 
Em Lisboa, porém, não o comprehendiam assim. 

No mez de abril o governo recommenda ao seu repre- 
sentante que saia d'essa longa inacção, e acerbamente por 
ella o reprehende. O Enviado replica, demonstrando a impos- 
sibilidade de agir com tantos tropeços, que se lhe antolham. 
Em sua irritação contra Roma, e cedendo aos impulsos do 
génio insoffrido, suggere, como único recurso, o emprego 
das armas. O alvitre é para nós interessante, porque elle o 
ha de propor, volvidos annos, no calor das suas dissensões 
com a Santa Sé, a propósito dos jesuitas. Tirante este meio, 
só vê de efficacia a pressão diplomática sobre a Áustria. 
Neste sentido diz: «A reconciliação do Papa com a Imperatriz 
será impraticável, em quanto se não verificar uma de duas 
cousas, a saber: ou uma oppressão tal do Estado da Egreja 
pelas tropas austriacas, que constitua a Cúria de Roma na 
extrema necessidade de pedir a paz a esta corte; ou a paci- 
ficação geral da Europa, na qual França e Hespanha, ou 
uma d'estas potencias, tomem á sua conta a mesma recon- 
ciliação, com o Papa e com o seu ministério, constrangendo 
esta corte a se esquecer das queixas, que naturalmente fazem 



CARVALHO PEDE DISPENSA DO CARGO 63 

impossível este ajustamento, pela indisposição de ambas 
as partes» i. 

Entretanto, havendo o Pontífice, afinal, pelo voto do 
Sacro Collegio, reconhecido o Imperador, pareceu abrir-se 
para a reconciliação um caminho, onde os delegados das 
duas partes buscavam concertar-se, excluindo o mediador. 
Já as pessoas affectas á Cúria publicavam que o melhor 
intercessor, para com a Imperatriz, seria decerto seu marido. 
De Paris, o nosso embaixador, D. Luiz da Cunha, participava 
ter carta do cardeal secretario de Estado, assegurando-lhe 
que o congraçamento se differia para a paz geral, que todos 
julgavam imminente. Em Vienna o primeiro ministro, conde 
de Weldfeld, negociava com o representante do Papa, a 
occultas do Enviado português. Cada vez, assim, mais se 
justificava a repugnância que elle sempre demonstrara, por 
esta, que chamava, encaracolada e retorcida negociação. 

A impossibilidade, pois, em que se via, de a levar a 
bom termo, e com honra do seu governo; a inimizade, incan- 
savelmente aggressiva de Sampaio a minar-lhe a reputação 
em Lisboa; as frequentes reprimendas que o faziam dizer 
a Marco António: «Louvo muito que V. Ex.a prefira (as 
obrigações do officio aos effeitos da amizade e do paren- 
tesco» ; sobre isto, contrariedades de ordem material, motivadas 
por embaraços pecuniários; tudo contribuía para tornar-lhe 
penosa a 'situação, e lhe aguçar o desejo, sempre constante, 
de sahir de Vienna. No mez de maio, terminantemente offe- 
receu a sua demissão. «Entre todos os expedientes, que 
S. M. pôde tomar — dizia — me parece que o primeiro deve 
ser o de commutar a prorogação da minha actual residência, 
na nomeação de outro ministro, que supra aqui a minha 
grande insufficiencia; que tenha a felicidade, que a mim me 
tem faltado, para promover a boa intelligencia entre o Papa 
e a Imperatriz; e que possa ser mais agradável ao Santíssimo 
Padre, do que as calumnias, com que Manuel Pereira de 



1 Relação de 17 de maio 1746. Coll. Pomb., Cod. 658. 



64 MONSTROS DE ROMA, LISBOA E VIENNA 



Sampaio me denegriu em Roma, permittem que eu seja, na 
acceitação de Sua Santidade» i. 

Por imperiosas que suas razões fossem, e vivo o desejo 
de voltar á Inglaterra, o ministro não ousou insistir .em 
demasia. Offerecia retirar-se, como sacrificio, necessário ao 
desfavor, que contra elle pairava nas altas regiões, mas 
acataria submisso as vontades do amo, se estas lhe impuzessem 
ficar. Entretanto encobria o desejo com o zelo de serviço 
real: «A razão é porque, por uma parte, verá V, Ex.a que 
é impossivel que eu possa fazer em Vienna d*Austria, cousa 
que boa seja, faltando-me hoje o credito necessário, para 
se attenderem as minhas informações, assim em nossa corte, 
como na Cúria romana; e, por outra parte, porque nem a 
minha saúde, nem as minhas forças se acham já com toda 
a robustez, que se faz mister, não só para combinar, referir 
e superar as difficuldades d'uma tão intrincada negociação, 
.mas também para, a cada passo, que eu procure adeantar, 
debellar primeiro, á força de fadigas, que me são superiores, 
os horrendos monstros, que em Roma, Lisboa e Vienna 
produz, e arma contra mim, e contra as minhas diligencias, 
a fértil, infesta e poderosa inimizade de Manuel Pereira de 
Sampaio» 2. 

Não será mediocre a surpresa de vermos o poderoso 
luctador, que, passados tempos, já sob o peso dos annos, 
ha de assombrar o mundo com sua energia, invocar, o pretexto 
do abatimento physico, dizendo agora: «V. Ex.a compre- 
henderá que um temperamento tão débil, como é o meu, 
não pôde deixar de estar rendido ás mesmas fadigas, que 
eram capazes de arruinar as forças mais robustas» ^. 

Marco António de certo percebia que o sobrinho, para 
seus fins, exagerava os achaques, e imputava alcance maior 
ás contrariedades, subjectivas, se assim é licito dizer, que 
o proceder malicioso de Sampaio lhe deparava. Mediana 



1 Carta cit. de 31 maio 1746. 

2 Carta cit. de 31 maio 1746. 

3 Idem. 



INTRIGAS DIPLOMÁTICAS 65 



importância ligaria, pois, ao trecho pathetico, em que o 
ministro, disposto a ficar, offerecia o sacrificio da sua vida, 
se tanto era preciso, para cumprir os desejos do rei, retirando 
a renuncia: «As escusas, que acima faço da minha pessoa, 
não são escusas senão emquanto se achar que podem 
contribuir para o melhor successo das negociações que S. iVl. 
manda proseguir nesta corte, e emquanto S. JVl. não ordenar 
o contrario, do que a mim me parece': porque, se o mesmoi 
senhor ainda assim resolver que eu continue em Vienna a 
minha residência, e se as minhas débeis forças me desam- 
pararem no meio dos trabalhos, cumprirei com a minha 
primeira e ultima obrigação, obedecendo a S. M,., e acabando 
a vida no seu real serviço» i. 

Como era de presumir, a suggestão de Carvalho não 
foi acceita em Lisboa. A affeição pelo sobrinho não permittia 
a Marco António patrocinar-lhe o intento, Sahir de Vienna, 
em tal momento, seria desertar de um posto difficil, confes- 
sar-se incapaz, e perder, com a própria reputação, o favor 
do soberano. Convinha pelo contrario, sustentar-se na brecha, 
destruir os obstáculos e vencer a demanda. Por isso, ás 
observações do Enviado responde a ordem terminante de 
restabelecer immediatamente a mediação. 

A occasião mostrava-se cada vez menos propicia. Para 
compensar a demora na promoção de Mellini, o gabinete 
austríaco pedia já segundo barrete. Reclamava, para a coroa 
da Hungria, o direito, chamado de nomina, de eleger um 
cardeal, que outras potencias fruiam. Em Vienna era corrente 
que Sampaio se oppunha sem recato á nomeação de Mellini, 
e que, trabalhando de accordo com os ministros de França 
e Hespanha, em vez de applacar, accendia a discórdia. Por 
sua vez a Cúria enxergava propósito na inacção de Carvalho, 
e, por intermédio do Núncio, fomentava a indisposição, 
fazendo constar que a chancelaria romana não sabia ao certo 
se a iniciativa da mediação partira do Pontífice, se do próprio 
Sampaio. 



1 Carta cit. 

o MARQUÊS De POMBAL E A SUA ÉPOCA — 5 



6Ó MORTE DE FILIPE V DA HESPANHA 

No mez de julho, sabendo-se em Lisboa que a corte de 
VieniKi entabolára negociações directas com a Santa Sé, 
decidiu-se a ruptura da intervenção, e tudo parecia conjurado 
para esse desenlace, quando inesperado acontecimento subita- 
mente mudou a face das cousas. 



VI 



A morte de Filippe V, occorrida em julho de 1746, não 
só transformou a situação politica da Europa, em geral, 
como, por instante, realçou a da monarchia portuguesa. O 
príncipe que agora subia ao throno castelhano era genro 
de D. João V; e o dominio sobre elie exercido pela rainha 
sua mulher, a inclinação d'esta ultima pelo seu paiz natal, 
a participação importante da Hespanha nas dissensões exis- 
tentes, faziam provável uma acção preponderante do gabinete 
de Lisboa, no pleito que dividia as nações mais poderosas. 

Cansada de uma já longa campanha, em que a gloria 
dos combates não bastava a recompensar as enormes perdas 
materiaes, a França suspirava pela paz. Os outros bellige- 
rantes nutriam eguaes desejos, e por isso a intervenção de 
Portugal foi lembrada. Logo que a Paris chegou a nova de 
ter fallecido o rei de Hespanha, o ministro Mr. d'Argenson 
propôz ao ínosso Enviado, D. Luiz da Cunha, tratarem-se as 
pazes por intermédio do soberano português. 

Já, por outra parte, a Imperatriz se antecipara escrevendo 
sobre a matéria á rainha Maria Anna, sua tia. Deu isto 
causa a sustar-se a sabida do nosso embaixador de Vienna. 
Como vimos, a correspondência, encetada com a corte de 
Roma, não foi, para a de Lisboa, segredo. Carvalho achava-se 
em difficultosa posição. Medianeiro perante o gabinete de 
Vienna, via-se relegado das negociações, e assim, como 
diplomata, despojado de todo o prestigio. E de notar, não 
obstante, que a desconsideração não attingia pessoalmente 
o ministro, a quem Maria Theresa sempre dispensou gracioso 
acolhimento. Recahia sobre o cargo, reflectindo, por natural 
consequência, no governo português. Um episodio, referido 



NUA4A FESTA DE MARIA TEREZA 67 

por Carvalho, descreverá esta situação singular: «Cahiu a 
data de S. João no próximo sabbado', e, por consequência, la 
festividade do augusto nome d'el-rei nosso senhor no dia 
de sexta-feira, que regularmente é dia de concurso na corte 
imperial. Era preciso, na forma da etiqueta da mesma corte, 
que eu e minha mulher apparecessemos alli, vestidos com 
a nossa maior gala, porque assim o pedia a solemnidade de 
tal occasião. Logo que a Imperatriz viu minha mulher, lhe 
disse em publico estas formaes palavras : — Se eu não vir 
vosso marido, dizei-ihe que o felicito. — Bem presenti eu, 
pelas antecedencias, e pelo conhecimento que tenho da deli- 
cadeza dos pensamentos da Imperatriz, que aquellas palavras 
não tinham sido proferidas por casualidade. Para sahir da 
duvida, que ellas me fizeram, me fui, meia hora depois, 
postar entre o Núncio e o ministro de Veneza, junto do 
bufete, onde a Imperatriz se achava jogando. Alli observei 
logo que S. M. I., á minha mão direita e á minha mão 
esquerda, fallou repetidas vezes a ambos os dois ministros, 
que eu tinha aos meus lados, não só sem me dizer a mim 
uma única palavra, mas até sem pôr os olhos na minha 
pessoa, para examinar a côr, de que me achava vestido. O 
que verificou o meu presentimento, demonstrando que, com 
as palavras referidas, quiz a Imperatriz significar que não 
queria attender o ministro de Portugal, mas que nada tinha 
com o marido d'aquella mulher, que publicamente honrou 
na forma acima declarada» i. 

Estavam as cousas neste pé, quando sobreveio a morte 
de Filippe V, e a corte de Vienna considerou a possibilidade 
de effectuar as pazes com a Hespanha, por intervenção de 
Portugal. Carvalho foi chamado a uma audiência particular, 
em que a soberana lhe desvendou esse propósito. O conten- 
tamento do ministro, em tal occurrencia, facilmente se eoncebe. 
O afastamento, em que a Imperatriz o collocara, significava 
para elle o sossobro de todas as suas aspirações ao favor 



^ Carta particular a Marco António, 27 julho 1746. Coll. Pomb , 
Cod. 662. 



6S PORTUGAL MEDIANEIRO ENTRE HESPANHA - ÁUSTRIA 



de D. João V. D'esia maneira via já o horizonte sem sombras. 
A vingar o plano apresentado, seguro lhe estava o vaUmento 
em Vienna, e, no seu paiz, o governo não deixaria esquecido 
um serviço, que tanto exaltava a importância, nesse momento 
abalada, do soberano. Às considerações de mero interesse 
pessoal, accrescia o prazer de participar em um facto, cujo 
alcance politico, por uma illusão, assas natural, de sua vaidade, 
elle se achava inclinado a exagerar. Também o lidimo patrio- 
tismo ahi tinha seu quinhão. Na projectada combinação de 
separar a Hespanha da França, para entrar no agrupamento 
da Áustria e seus alliados, Carvalho descortinava, para a 
monarchia portuguesa, um penhor de seg^urança. E nesta 
orientação o fazia notar: «A conjunctura em que f aliei á 
Imperatriz era e é tal, que os interesses d'ella podem decidir, 
não só da conservação da casa de Áustria, mas da liberdad^e 
da Europa inteira. . . Se a paz geral se fiz^er, como até agora 
se tinha projectado, e se por ella se dividirem os Estados 
da casa de Áustria ; se assim fizessem as duas potencias 
marítimas (Inglaterra e Hollanda) uma publica confissão da 
sua impotência presente, para sustentarem a indivisibilidade 
dos mesmos Estados e da sua maior impotência futura, 
depois que os sobreditos Estados se achassem uma vez 
divididos : em tal caso todos os tratados, que até agora 
fizemos, com o fim da nossa conservação, por uma parte 
ficariam inúteis para nos sustentarem, porque apesar d'elles 
ficaríamos obrigados a fazer o que a França quizesse; pela 
outra parte ficariam em vigor para nos affligirem ; porque 
Inglaterra e Hollanda, emquanto não forem de todo anni- 
quiladas, sempre continuarão a gosar de sua observância, 
e a nos fazerem as vexações, que ella traz comsigo. Se, 
pelo contrario, aquelles nossos alliados augmeníam o seu 
poder e a sua força, pelo meio da nossa alliança com ia 
Hespanha, tudo vem a ficar, pelo menos, no estado antigo> ^ 
Além das vantagens, que resultariam, para Portugal, de 



' Carta particular a Marco António, 8 agosto 1746, Coll. Pomb., 
Cod. 662. 



o REI FERNANDO E A RAINHA MARIA BARBARA 69 



intervir por este modo na pacificação geral da Europa, 
Carvalho, como os gabinetes extrangeiros, attribuia grande 
influencia á nossa corte nas decisões das de Madrid. Importava 
aprov!eital-a, para estabelecer em bases solidas a paz, de 
tanto tempo periclitante, entre as duas nações; proceder ao 
ajuste definitivo das fronteiras na America; finalizar a 
contenda, sobre a colónia do Sacramento, segurando, com 
o auxilio da rainha, a posse do terreno litigioso. Mas uma 
nuvem escurecia ainda o futuro, e era essa que, sendo estéril 
a união real, por morte de Fernando VI se renovasse a, 
politica de Isabel Farnese, sempre contraria aos interesses 
portugueses. Ainda com successão, que já se não esperava, 
o mesmo €ra de temer, faltando a rainha. Entretanto, bem 
aproveitadas as vantagens actuaes tal se tornaria a nossa 
posição, que difficilmente nol-a poderiam disputar em seguida. 
D'estas idéas Carvalho fazia confidente seu tio. A influencia 
da rainha Maria Barbara era o alicerce em que, nas suas 
cogitações, um Portugal forte e rejuvenescido se levantaria. 
«Emquanto ella durar — affirmav^a — podemos aproveitar os 
seus preciosos dias, para nelles se emendarem as vexações, 
que se nos teem feito. Podemos obrar de commum accordo 
com a Hespanha. Podemos, por meio d'esta intima união, 
restabelecer o nosso commercio, reduzindo os ingleses e 
hollandeses aos limites dos tratados. Podemos, por meio 
d'aquella reducção, engrossar logo a substancia do reino. 
Podemos com ella augmentar as nossas forças, á mesma 
proporção. E, desde que Portugal se achar uma vez opulento 
em cabedaes e forças, ainda que depois nos venha a faltar 
a união de Sua Magestada Catholica, hoje reinante, nos 
acharemos em estado de não ter que recear, porque todo 
o mundo procurará a nossa união, á proporção do augmento 
que vir nas nossas forças» i. 

Não se realizaram todavia as previsões do ministro. As 
relações com a Hespanha, se bem que ganharam cordiahdade. 



1 Carta particular a Marco António, 8 agosto 1746, CoU. Pomb., 
Cod. 662. 



70 D. JOÃO V PACIFICADOR 



não trouxeram ao nosso paiz as vantagens, que um enthu- 
siasmo, fácil de accender, antecipava. A diplomacia egualmente 
se enganou sobre os méritos da intervenção para a paz 
geral, que o governo de D. João V não logrou efíectuar*. 

Com a supplica de Maria Teresa se cruzaram os 
despachos, em que o gabinete de Lisboa communicava lao 
seu representante o projecto do ministro d'Argenson, e o 
propósito, em que se achava, de acquiescer, cumprida que 
fosse uma indeclinável condição. Era esta interromperem-se 
as conferencias, então por iniciativa dos Estados Geraes 
iniciadas em Breda. Resultou d'ahi protelar a corte de 
Lisboa a sua resolução definitiva. Decorreram alguns meses. 
A 3 de dezembro seguinte, Carvalho deu parte officialmente 
á Imperatriz da insinuação da França, e da vontade que o 
soberano português tinha de a executar. Este assumpto nada 
tinha, porém, com a mediação pedida pela Áustria. Já um 
delegado do gabinete de Vienna, o conde de Rosenberg, 
negociava em Lisboa, e Carvalho tivera ordem para tratar 
dos assumptos relativos á paz com a Hespanha. 

Por esse tempo Fernando VI solicitava também a inter- 
cessão do sogro, para se conciliar com a Grã-Bretanha. A 
Lisboa convergiam, portanto, os interesses das maiores 
potencias, e D. João V parecia fadado a desempenhar rele- 
vante papel nos successos que agitavam a Europa. Não foi, 
todavia, sem reluctancia que se rendeu ás instigações. A 
paralysia, quebrando-lhe as forças physicas, esmoreceu nelle 
porventura o amor das grandezas. Para um espirito, escravo 
da vaidade, qual o seu, a occasião era única. Não obstante, 
só a contra-gosto, e quando se viu de muitas partes esti- 
mulado, acceitou a honrosa missão de pacificador. 

Não tardou, infelizmente, que os acontecimentos lhe 
justificassem a hesitação. Os representantes de França e 
Hespanha continuavam a discutir em Breda, com os de 
Hollanda e Inglaterra, os preliminares da paz. O amor 
próprio de D. João V revoltoy^se contra isso, que reputava 
desconsideração pessoal. Mais se doía ainda pela recusa, 
que da mediação fizera a Grã-Bretanha, tendo comnosco 
alliança, e tão apreciada que nesta máxima — guerra com 



I 



I 



FRACASSO DAS NEGOCIAÇÕES 71 

todo o mundo e pazes com a Inglaterra — a corte de Lisboa, 
pelas bocas mais conspicuas, fazia a synthese de sua politica. 

Correspondem a tsi^ periodo de desgosto as cartas 
celebres, trocadas, acerca doestes negócios, entre D. Luiz da 
Cunha e Alexandre de Gusmão. Procurava o primeiro, como 
dizia, que a paz se tratasse em Lisboa, sob os auspicios de 
D. João V. O monarcha escusava-se, descobrindo no alvitre 
a peçonha das idéas francesas, muito do agrado do embai- 
xador. Porventura instava elle para que o caso de Breda 
não servisse de estorvo, e as diligencias pela paz se adian- 
tassem, muito embora não acceitas de todos os belligerantes. 

Entretanto rompem-se as conferencias na Hollanda e 
reaccende-se a guerra. Terminando o motivo da recusa, o 
gabinete de Lisboa novamente se interpõe, mas a opposição 
do governo britannico, as tergiversações da politica francesa 
inutilizam-lhe os esforços. No derradeiro periodo da campanha 
póde-se dizer que todos os belligerantes estavam de accordo 
em repellir Portugal das negociações. Não obstante isso, 
quando em Aqulsgrana se reuniu o congresso, em que afinal 
se trataram as pazes, D. Luiz da Cunha para lá se dirigiu 
com poderes especiaes de mediador. Nessa occasião se 
revelou também a opposição da Hespanha, não querendo 
admittir o plenipotenciário português, que tinha por missão, 
ao mesmo tempo, submetter á decisão das potencias o litigio 
relativo á colónia do Sacramento. A pretenção era excessiva, 
não tendo Portugal participado na guerra. A nossa repre- 
sentação foi, portanto, recusada, e as pazes se ajustaram, 
sem audiência do governo, cuja intervenção os mais pode- 
rosos dos belligerantes haviam requerido. 



VII 



As combinações, a que deu origem a morte de Filippe V, 
facultando a Carvalho a confiança de Maria Teresa, alha- 
navam-lhe o caminho para as negociações com a corte de 
Roma. Logo na primeira conferencia, como quer que o 
embaixador fizesse notar á Imperatriz o que havia de offen- 



72 RENOVA-SE A A\EDIAÇÃO PARA Cv)M ROMA 

sivo, para seu amo, no facto de tratar o gabinete de Vienna 
directamente com a Cúria, a soberana lhe prometteu espaçar 
a solução definitiva, que ficaria pendente da resposta do 
governo português ao pedido de intervenção com a Hespanha. 
Sendo aquella favorável, pareceu encaminharem-se as cousas 
para um fácil accordo. Póde-se dizer que só então Carvalho 
foi realmente investido nas attribuições do seu encargo. O 
decreto de 18 de outubro d'este anno de 1746 deu-lhe poderes 
para negociar, concluir e assignar quaesquer tratados ou 
convénios, relativos á mediação, reconhecida então official- 
mente pela corte de Vienna, que até ahi o não fizera. 

O Pontifice concedia por fim o capello a Melliai, consi- 
derado este porém eleito da coroa de Hungria, cujo direito 
á nomina ficava, por esse facto, assegurado. Em consequência 
d'isso, a Imperatriz desistia do outro barrete, que solicitava. 
No mez de dezembro dava-se o reconhecimento de Fran- 
cisco I pela Santa Sé. Ao mesmo tempo, o governo português 
outorgava autonomia ao seu representante, permittindo-lhe 
cumprir as ordens do Papa, sem esperar, como antes, 
confirmação de Lisboa. 

Tudo parecia assim encaminhar o litigio para immediata 
conclusão, quando novo ponto de controvérsia, surgindo 
entre as partes, a veiu protrahir. 

A discussão versava agora sobre caso de interesse parti- 
cular do Eleitor de Moguncia, como arcebispo que era 
d'aquella diocese dependente da Cúria, e, como o príncipe 
do Império, extremado partidário da casa de Áustria. Pre- 
tendia o Eleitor ser provido em certos benefícios, que uniria 
á sua mitra, mas não o podia fazer, sem autorização do 
Pontifice por meio de um breve especial, dito de elegibilidade. 
Francisco I, que requerera, por seu ministro em Roma, a 
concessão, considerava a annuencia regalia do Império, e 
não soffria que a Cúria lh'a podesse negar. Com surpresa 
de Carvalho apparecia este novo debate quando, regulado 
o assumpto escabroso da nomina, a sua tarefa parecia termi- 
nada. Em fevereiro de 1747, um memorial longamente dedu- 
zido do primeiro ministro conde de Welfeld fazia o ministro 
português sciente de que, para o gabinete de Vienna, a 



o CASO DO ELEITOR DE MOQUNCIA 73 



concessão do breve seria clausula indispensável da concór- 
dia. A questão vinha de traz, e a recusa de Benedicto XIV 
tinha menos por objecto cercear os privilégios do imperador, 
que tirar um desforço do caso de Francfort, em que o 
arcebispo, como presidente da Dieta, tivera parte principal. 
Mas o incidente não se desenhava em principio comi a gravi- 
dade que depois assumiu. Tendo fallecido, tempos antes, o 
bispo de Bamberg, fora a mitra requerida, pela corte de 
Vienna, para o Eleitor, seu amigo. Escusou^se o Pontífice, 
allegando ter aggravos d'este ultimo. Offereceu, todavia, 
prover a diocese em qualquer outro prelado, que o Imperador 
designasse. D'ahi a pouco assentiu em parte, e propoz 
conceder o beneficio, dando o Eleitor satisfação pela offensa 
que fizera á Santa Sé. 

Por este caminho se chegaria breve a um accordo, se 
o capricho de ambas as partes o não frustrasse. Cada (uma 
d'ellas declarou a sua exigência preceito irrevogável. Cada 
uma tomou por indecoroso ceder á imposição do contrario. 
E agora não se tratava já de uma só diocese. Francisco I 
exigia um breve illimitado — Ad ouasrumquc ecclesias — auto- 
rizando a eleição do arcebispo para qualquer mitra vacante, 
que lhe conviesse unir á de Moguncia. 

Os esforços de Sampaio ante a Cúria, os de Carvalho 
com os ministros do Imperador, lograram trazer para um 
terreno da conciliação a discordância. O Eleitor cedia da 
pretenção illimitada, contentava-se com o direito a cinco 
vagas determinadas; restringiu-se depois a duas, e neste 
ponto finalmente parou a questão. Mas ahi da parte da 
Santa Sé novas difficuldades surgiram. O Pontífice exigiu 
que o arcebispo e os Eleitores de Treves e Colónia, tambeí^m 
ecciesiasticos, apresentassem desculpas pelo procedimento 
havido com o Núncio na eleição de Francfort. Sem o que 
não faria a concessão. 

O debate foi renhido e prolongou-se até abril de 1748. 
Carvalho e Sampaio, cada um pela parle a que mais era dado, o 
primeiro pelo Império, o segundo pela Cúria, apresentavam 
factos, commentavam textos, descobriam razões, argumen- 
tavam e decidiam. Entretanto o Eleitor, mirando as vantage'ns, 



74 TERMO DA QUESTÃO ROMA-VIENNA 

negociava directamente por seu procurador em Roma, prompto 
a ceder, como fez, com surpresa de Carvalho, e conseguindo 
que os seus collegas, desinteressados na questão, fizessem 
também as apologias, que o Santo Padre demandava. Satis- 
feito este no seu amor próprio não recusou por mais tempo. 

Estava assim terminada a longa contenda. O Imperador 
dirigiu immediatamente ao Papa uma carta de agradecimentos, 
não faltando em lhe assegurar a sua consideração de filho 
submisso. O Eleitor de Moguncia escreveu a Carvalho, parti- 
cipando-lhe a sua gratidão, e, como prova tangivel da mesma, 
lhe offertou um grande tonel de vinho do Rheno, que valia 
dois mil florins. 

Nenhuma outra questão se achava pendente entre as 
cortes de Roma e Vienna. O objecto da enviatura de Carvalho 
fora portanto realizado. 



VIII 



Embaraços pecutiiarios tinham avivado o desgosto de 
Carvalho, pela sua missão na corte imperial. Seus honorários 
de ministro eram os mesmos de Londres : 328 mil réis de 
ordenado mensal, e, sobre isto, 4:000 cruzados, por uma só 
vez, como ajuda de custo, que recebera em Lisboa. 

Os vencimentos eram por si mesquinhos, para o decoro 
e representação do embaixador que já na Inglaterra se vira, 
desde os primeiros tempos, a braços com difficuldades. Em 
outubro de 41, se acreditarmos o que dizia, eram muitos os 
credores, por gastos dos últimos três annos. Para se 
desobrigar, pediu, ao cardeal da Motta, autorização para da 
herança vinculada de seu tio, Paulo de Carvalho, retirar uma 
verba de mil moedas, por conta de mais que tinha de receber, 
de quantias devidas ao finado, de subsidios na Patriarchal. 
Advogava o requerimento com o dictame que «se exceptua 
da inalienabilidade dos bens vinculados a causa publica». 

A isto sobrevinha não serem pagos, no reino, com a 
devida pontualidade, os saques, movidos por Carvalho, para 
occorrer aos dispêndios da embaixada, e d'estes era verba 



EMBARAÇOS FINANCEíROS DE CARVALHO 75 

importante a dos correios, sempre em caminho i. De Vienna 
continuava ainda a dispor sobre os gastos de Londres, entre 
elles a custosa reconstrucção da capeila, no pa.lacete, resi- 
dência do embaixador, onde os catholicos extrangeiros 
concorriam ás cerimonias do culto. Esta despesa, convém 
dizer, não sobrecarregava o bolsinho do diplomata, mas a 
incerteza do pagamento augmentava-lhe os embaraços. 

Em 1746 eram peiores as circumstancias. Carvalho, quando 
se retirou de Lisboa, obtivera provisão real para empenhar 
o morgado em vinte mil cruzados. A viagem, porém, algumas 
dividas de Londres, as despesas de installação, as do casa- 
mento, absorveram depressa isso, e os quatro mil cruzados 
da ajuda de custo. Na Inglaterra os credores mostravam-se 
insoffridos, e Francisco Caetano era ameaçado com penhoras. 
A demora em Vienna, além do tempo que tinha imaginado, 
exgottava-o de recursos pessoaes. No mês de julho, quando 
suppóz realmente frustrada a mediação, e pensava deixar 
logo a corte allemã, expunha elle a Marco António nos 
termos seguintes as suas angustias : «Se S. M. não deferir 
aos meios de eu poder sahir d'esta terra pagando o que 
devo, expôr-me-ei a não cumprir as suas reaes ordens, o 
,que não cabe no possível, ou a ser embargado pelo marechal 
da corte» 2. Supposto seriam attendidas as reclamações do 
ministro, ao menos parcialmente, é de presumir que os 
recursos lhe não sobrassem. Os honorários insufficientes na 
Inglaterra, não lhe bastariam para sustentar em Vienna a 
representação de um cargo proeminente. Dois annos depois, 
quando lhe foi nomeado successor para Londres, Carvalho 
apurava dinheiro vendendo áquelle uma parte dos moveis, 
os menos preciosos, que lá deixara. 

Ao dedicado servo Francisco Caetano faz na occasião 
a confidencia de seus desgostos: «Vejo que a jornada le 



^ Consta cie uma nota de Carvalho a tarifa dos correios: Vienna 
a Roma, ida e volta 420 mi! reis; a Paris 400 mil reis; a Portugal, 
sem retorno 570 mil reis. 

-' 27 julho 1746. Coll. Pomb., Cod. 662. 



76 BANQUEIROS DE CARVALHO 

residência na Allemanha me tem accrescentado os empenhos; 
que é melhor diminuil-os em vida, que deixar esse cuida:do 
aos que ficam depois da minha morte; que nem tenho espe- 
rança de que se me permitta recolher-me tão cedo a gosar 
do descanço, de que, na verdade, necessito, nem é inverosimii 
que me recolha em termos de não poder sustentar-me em 
Lisboa ; e que me será necessário restituir-me ao refugio 
da Gramella, onde passei com descanço e saúde o tempo 
mais útil da minha vida, sem ser inquietado por credores, 
e sem pedir moratória, para ihes não pagar» i . 

O banqueiro de Carvalho, em Vienna, era o barão Diogo 
de Aguilar, hebreu português foragido na Allemanha, por 
medo da fogueira, ou, como dizem alguns, criminoso 'de 
delapidações da venda de tabacos, de que no reino fora 
contractante. Carlos VI, que porventura o conheceu em 
Portugal, quando pretendia a coroa de Hespanha, dera-lhe 
cargo equivalente, nos seus Estados, e pagara-lhe a boa 
administração com o titulo de nobreza. As relações de 
Carvalho com este israelita português, e outros, residentes 
em Londres; o soccorro que d'elles teve para o meneio da 
parte financeira de sua missão diplomática, não foram talvez 
extranhos á mudança do juizo, que, ainda na Inglaterra, 
manifestava, sobre a raça perseguida, e ás providencias que, 
decorridos annos, em beneficio da mesma, no seu governo 
promulgou. 

Em Lisboa era agente do ministro, para seus negócios 
pecuniários, talvez prestador de fundos, o doutor Ignacio da 
Costa Quintella, corregedor da corte e crime. A protecção, 
que depois outorgou a um parente doeste, abrindo-lhe 
caminho á opulência, prende-se, com verosimilhança, a factos 
d'este tempo. Que o magistrado era amigo a cujos serviços 
frequentes vezes o diplomata recorria, facilmente se depre- 
hende do seguinte trecho: «Ha tempo que me tenho proposto 
arrumar a minha casa, de sorte que possa viver e morrer, 
com o descanso que resulta das contas ajustadas. Para as 



16 março 1748. Idem, Cod. 664. 



DESPRENDIMENTO DE CARVALHO 77 



que ahi tenho com differentes pessoas, e para as que me 
não faltam doestas partes, hei de recorrer á amizade e ao 
favor de V. Mercê, com o tempo que presentemente me 
falta. . . Entretanto supplico a V. Mercê que se sirva mandar 
pagar por minha conta, á ordem do barão Diogo de Aguilar, 
quatrocentos mil réis, valor de uma letra de cambio, que 
hoje saquei a seu favor, na consideração de que ia sem 
perigo da falta de recebimento» i. 

No meio doestas difíiculdades, occorreu um incidente, 
que nos obriga a reconhecer o desprendimento do ministro, 
em questões monetárias, quando a sua dignidade pessoal, 
e do cargo que occupava, se achavam em jogo. 

Chegara o momento de Carvalho se despedir da embai- 
xada na Inglaterra. Era costume darem os soberanos, ao 
diplomata que se retirava, um presente, que naquelle paiz 
consistia em dinheiro: trezentas libras sterlinas ou quinhentas, 
segundo a categoria da respectiva nação. A Marco António 
de Azevedo se tinha attribuido a menor quantia, que elle 
rejeitou, como depreciativa do seu monarcha. Fôra-lhe retor- 
quido que a espórtula superior pertencia somente aos 
Enviados de Hespanha, da França e do Imperador; mas, 
insistindo elle na recusa, o governo britannico concedera 
afinal as quinhentas libras. Na presumpção de que se reno- 
varia com elle a tentativa. Carvalho recommendava a Fran- 
cisco Caetano, o qual, como sabemos, ficara de posse da 
embaixada, que desistisse do presente em dinheiro, se lh'o 
propuzessem inferior ao do precedente ministro; em caso 
de disputa, ficaria contente com a offerenda d'um retrato 
do rei Jorge, na proporção de outro, que possuia, do rei 
de Portugal. Acceitou o governo britannico o alvitre? O 
que é certo é que não foram recebidas as trezentas libras, 
e d'isso resultou não se dar também, d'ahi por deante, ;em 
Lisboa presente ao embaixador do Reino Unido. Já por esse 
tempo Carvalho nada devia na Inglaterra, como se vê do 



1 1 julho 1748, Coll. Pomb., Cod. cit. 



78 SUCESSOS DIPLOAUTICOS 



annuncio, que mandou publicar na Gazeta de Londres, SLXOCdnáo 
algum credor esquecido. 

Outra vez provou o nosso diplomata seu desinteresse, 
servindo de occasião a dadiva do Eleitor de Moguncia. 
Consistia esta, como sabemos, em uma cuba de vinho de 
Rheno, mimo do valor, pelo tamanho do recipiente, tanto como 
pela qualidade preciosa do conteúdo. Não quiz elle acceitar 
de golpe, e, depositando o enorme tonel fora de sua casa, 
pediu instrucções de Lisboa. 

Póde-se considerar esta manifestação menos espontânea 
que a precedente, e acaso duvidar se Carvalho assim proce- 
deria por natural escrúpulo, ou por fazer praça no reino de 
sua inteireza. É certo, porém, que na Inglaterra egualmente 
não acceitara o reembolso, pelo governo d'esse paiz, dos 
direitos, que havia pago na alfandega, insistindo, todavia, 
pela isenção como regalia do cargo, e até da sua naciona- 
lidade. «A única desapprovação, que tive no ministério de 
Londres — observou quando consultava sobre a dadiva do 
Eleitor — foi com o motivo de haver recusado receber a 
indemnização pecuniária, que aquella corte me orfereceu, pela 
franqueza dos direitos da sua alfandega, depois de haver 
reconhecido que tinha, para me indemnizar, a mesma razão 
com que, por especialidade, dá seiscentas libras por anno, 
ao Enviado da Rússia, para pagar as casas em que vive» i. 

Em qualquer das hypotheses não se pôde escurecer que 
o ministro, por este procedimento, tanto ganhava em repu- 
tação pessoal, como dava lustre ao cargo, que em terras 
extrangeiras exercitava. Mais tarde, no ápice da fortuna e 
das honras, não foi tão grande a sua inteireza. Aos rendi- 
mentos, que fruia largamente, quando dispôz do erário, não 
duvidou ajuntar as vantagens particulares, que as regalias 
do poder lhe facultavam. 



1 Officio de 27 junho 1748, publicado em 1893 no Commerrlo de 
Portugal. 



CORRESPONDÊNCIA DE CARVALHO E SAMPAIO 79 



IX 



Recuemos um pouco, para reatar o fio dos successos 
diplomáticos. 

Em fevereiro de 47 achava-se na t€ia somente a nomeação 
de Meliini. A Cúria repellia o candidato de Maria Theresa, 
e dispunha-se a realizar a promoção dos cardeaes, indicados 
pelos outros isoberanos, deixando para occasião posterior a 
nomina da coroa de Hungria. Com isto exacerbaram-se os 
ânimos em Vienna, e o governo fez constar que mandaria 
sahir o Núncio, se o adiamento, que lhe annunciavam, tivesse 
effeito. A intervenção de Carvalho foi também útil nesta 
conjunctura, e a 12 de março trocaram-se as reversaes, que 
decidiram a disputa a contento do gabinete austriaco. 

O incidente do breve protrahiu, como vimos, por mais 
de um anno, o accordo final. Durante esse tempo reaccen- 
deram-se as dissenções pessoaes, entre os ministros portu- 
gueses em Roma e Vienna. Cada um d'elles, inclinado a 
defender os interesses, senão o capricho, da corte perante 
a qua! era acreditado, increpava o companheiro de parcia- 
lidade. As observações de Sampaio, suas réplicas a Carvalho, 
a quem sempre julgava subalterno, eram em geral imperti- 
nentes: sua linguagem não poucas vezes offensiva. «Assim 
o Papa como os cardeaes duvidam da sinceridade, com que 
V. S.a obra. , , Fizeram entrar o Papa no animo de dar conta 
a Sua Majestade e de servir-se somente do Núncio». Estas 
phrases nos dão idéa da animosidade do embaixador em 
Roma contra o seu collega. Como não é de extranhar, e 
muito menos conhecendo-lhe o caracter, este ultimo, irrita- 
va-se, retorquia em termos acres, não poupava as allusões, 
que pudessem ferir o adversário: «Pouco podem significar 
a meu respeito os avisos lucrosos e abstractivos d'estes ou 
d'aquelles mexeriqueiros particulares, os quaes regularmente 
costumam escrever o que lhes ordena, para seus fins, quem 
fez a V. S.a a ameaça que V. S.a me participa, porque não 
vejo motivo algum para o receio justo, nem o receio injusto 



80 INTRIGAS DE MANUEL PEREIRA DE SAMPAIO 



seria compatível com a firme confiança, que devemos pôr, 
e pomos, na justiça do Papa e de Sua Majestade» i. 

Não ha mister de insistir mais nos incidentes d'csia 
discórdia, tão intensa que, superior ás próprias negociações 
diplomáticas, parece ter sido ella a preoccupação constante 
de Carvalho, em todo o tempo que residiu em Vienna. É 
incalculável o numero de paginas, que a propósito da mesma, 
e relativamente ao emulo, escreveu. Correspondência official 
para o reino, cartas particulares, relatórios, apontamentos 
pessoaes, raro, entre tantos papeis, cujo volume é immenso, 
o que não encerra uma defesa, um queixume, uma reclamação 
contra algum acto ou escripto do embaixador em Roma. A 
inimizade era de ambas as partes violenta e pertinaz, e tão 
profunda foi ella no que por victima se tinha, que, volvidos 
muitos annos, entre os de sua familia, ainda o nome do 
adversário se usava para objectivar um sentimento de aversão, 
irresistível e ferrenho. No mais acceso da campanha contra 
os jesuitas, Francisco Xavier de Mendonça, governador do 
Grão-Pará, irmão de Carvalho, exprimia-se acerca d'aquelles 
padres, nestes termos: Estas gentes são o meu Manuel Pereira 
de Sampaio ! 

O ministro em Roma era sujeito de excessiva vaidade, 
grosseiro, intrigante, rancoroso. Inchado de vangloria, pela 
amizade do Pontífice, ambicionara representar um papel na 
politica da Europa, intervindo na contenda das potencias., 

Não é possível contestar que, em mais d'uma occasião, 
foi por elle tolhido o accordo, pela vaidade de dominar no 
animo do Santo Padre, confirmando-o na resistência. Suas 
primeiras relações com o residente em Vienna foram cortezes 
e benévolas. Pensava ainda encontrar nelle o dócil executor 
de suas lucubrações politicas, cuja efíicacia reputava infallível. 
Escrevia-lhe em termos caríciosos e melifluos : «O Papa envia 
a V. S.a a Sua benção, e espera tudo da sua actividade). 
Mandava-lhe, como lembrança de Roma, sagrados amuletos... 



1 Carta a Manuel Pereira de Sampaio. 20 janeiro 1748. Coll. 
Pomb., Cod. 665. 



CARVALHO SUBSTITUÍDO NA CORTE DE LONDRES 81 

«uma boceta com um agnus-dei de Innocencio XI, uma relíquia 
do santo lenho, e outra de S. Sebastião, liberdade que tomo, 
para justificar a V. S.a os affectos com que sei estimar os 
seus merecimentos». Quando porém o collaborador se lhe 
revelou, não o adjuvante secundário, com que contava, mas 
um fino caracter, altivo, cônscio da própria superioridade, 
ambicioso também, firme nas suas resoluções, e prompto 
á resistência; quando Sampaio, o que cedo aconteceu, veri- 
ficou o seu engano, toda a benevolência affectada se lhe 
transtornou em fel. Logo se voltou contra aquelle que ousava 
discutir-lhe as opiniões; accusou-o, perseguiu-o, e não parece 
duvidoso que de sua influencia tenha resultado muito damno 
a Carvalho. Por ella, a indisposição de D. João V, contra 
este, foi talvez em grande parte motivada. 

A inimizade dos diplomatas produziu em Lisboa descon- 
tentamento, e ao de Vienna se imputavam as culpas d'ella. 
Frei Gaspar da Encarnação, já arbitro da politica nacional, 
o padre Carbone, confidente do rei, por entre rodeios, no 
tom agridoce de suas cartas, lh'o deixam perceber. ^Eu tcnrio 
sentido quanto pôde V. S.a imaginar — dizia o jeimita — que 
houvesse motivos de desconfiança, entre V. S.i e S-tmpaio, 
ao mesmo tempo em que mais desejável era a boa hannonia, 
para o 'serviço de Sua Majestade.» Frei Gaspar, concluídas 
as negociações, diluía a censura num vago elogio: «Nem 
as impressões de que V. S.a tinha concebido alguma paixão 
contra Manuel Pereira de Sampaio, nem a lembrança de 
que, preoccupado, se enganara em alguns pontos, foram 
bastantes para que Sua Majestade mude do justo i.onceito, 
que tem. feito de V. S.a» i. Marco António carecia de força 
que pudesse contrastar as influencias hostis ao bolrrinho. Só 
a rainha D. Marianna se dava por contente, e essa manifestou 
o seu agrado por um acto, que repentinamente desmoronotu 
as antigas aspirações de Carvalho. 

Em dezembro de 47 foi-lhe nomeado successor, na corte 
britannica. Assim viu o diplomata frustrada a esperança que 



i Coll. Pomb., Coei. 661. 

o MARQ'JÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 6 



82 O SUCCESSOK DE CARVALHO EM LONDRES 

alimentava ainda, de regressar á sua embaixada. «Quanto á 
mudança de nicho de V. S.a, passando de Londres, para n 
propriedade de Vienna, também, entre nós, foi muita cousa 
a Rainha nossa senhora, pois segura que essa mesma Rainha 
e augustissima Imperatriz, não levaria a bem que d'ahi lh'o 
tirassem.» Por esta forma Marco António pensava dourar 
a pilula, tão amargosa para aquelle a quem se mascarava 
o desfavor com fingida honraria. Mais adeante exhortava-o: 
«Console-se V. S.a que sei tem o amo bom conceito de si.» 
Tão flagrante, comtudo, era a repugnância de suas palavras 
com a realidade dos factos, que chamar o sacrificado á resi- 
gnação lhe pareceu opportuno. «Onde está sr. Sebastião José 
a grandeza de animo, se não servir nas que parecem contra- 
dicções e adversidades?» '. 

Como se vê, a estrella de Carvalho, nunca de sobejo 
rutilante, empallidecia em Lisboa, e, pelo que sabemos dos 
meneios de Sampaio, a elles se pôde attribuir a maior causa. 
Uma coincidência singular confirmou o ministro no seu 
desgosto. Exonerado da embaixada de Londres, não fora, 
conforme se lhe dissera, promovido na de Vienna. Davam-lhe 
como razão ter a Imperatriz revocado o seu ministro, fazen- 
do-se representar em Lisboa por um simples Residente, e 
assim não consentia a pragmática, ao Enviado de Portugal, 
declarar seu caracter. Quer o motivo allegado fosse o único 
real, quer facultasse á inimizade um pretexto bemvindo, certo 
é que, por elle, o governo português collocava o seu repre- 
sentante em posição verdadeiramente mais dúbia do que 
aquella que, no principio da missão, provocara os reparos da 
corte de Vienna. Ficavam em vigor as cartas de crença, que 
o annundavam por simples emissário; se quizerem, também 
os poderes, que o autorizavam a representar o soberano, no 
ajuste dos convénios; mas, concluídos estes, faltava, para 
lhe realçar a importância, a dignidade de embaixador, com 
que se apresentara na capital germânica. 

O despeito de Carvalho logo se revelou no trato com 



I Idem, Cod. 717. 



ENCERRABODES SUCCESSOR DE CARVALHO EM LONDRES 83 



seu successor, e não foi porventura extranho á catastrophe, 
com que a carreira diplomática d'este ultimo, o desemDar- 
gador Encerrabodes, bruscamente terminou. Além d'isso, não 
estaria elle longe de imputar, ás intrigas do nomeado, o 
ver-se excluído de um posto, que tanto lhe era caro, A 
Francisco Caetano, em quem depositava illimitada confiança, 
não receia elle abrir o seu animo doesta forma : «O que lhe 
sei dizer sobre o ministro que para ahi se nomeou, é que, 
no tempo em que fui a Portugal, importunei o sr. cardeal 
da Motta, e o sr. Marco António, para o promoverem a 
ser empregado nas cortes extrangeiras ; que lhe desejei sempre 
este e outros bens; que, depois que estou nesta corte, se 
me escreveu de Lisboa, por vias seguras, que elle me fazia 
as ausências, que eu não merecia, nem podia esperar do 
maior inimigo; que como tal o tenho, e como tal lhe perdoo» ^. 
Do perdão fazem duvidar os successos posteriores; nem 
tal grandeza de alma era própria de quem veremos sempre 
perseguir com furor os seus contrários. Desde já, não podendo 
attingir de outro modo o substituto malvindo, Carvalho não 
desdenha baixar aos acintes, em que se compraz o rancor 
impotente. Instigado por elle, recusa ministrar ao novato 
indicações sobre os negócios até ahi a seu cargo, e o faz 
em termos, que, no animo d'aquelle, apagariam qualquer 
duvida, respeitante á causa da negativa. Eis o que lhe dizia: 
É moralmente impossível que eu presentemente haja de entrar 
na vasta applicação, que seria necessária, para revolver a 
diffusa papellada, em que se contém o que ahi se passoiu 
desde 1738, para separar e deduzir cada uma das depen- 
dências, que tratei nessa corte, quando a sua estreita união 
com a nossa faz que todos os dias estão ahi apparecendo 
incidentes, cuja fertilidade V. S.a verá em pouco tempo, e 
que, sendo multiplicada por todos os annos da minha resi- 
dência, não poderá deixar de fazer uma obra de estudo e 
de vastidão, absolutamente incompatíveis com o presente 
estado das minhas queixas, das minhas occupações, e da 



27 de?etiibro 1747. Coll. Pcmb., Cod. 664. 



84 RETIRADA DE VIENNA 

distancia em que ellas teem posto a minha memoria das 
dependências de Londres, achando-me ha annos occupado 
em matéria totalmente extranha aos negócios de Inglaterra-) ^. 

As desculpas, que sobre a matéria manda a seu 
tio Marco António, não valem mais do que as precedentes. 
O pretexto dos achaques, amparado em um vulgar apoph- 
tegma, é a melhor de suas razões. «O nosso insigne padre 
António Vieira decidiu que bastavam as queixas para desobri- 
garem os doentes de escrever, tanto como os mortos de falar». 

Em 1748, fallecido o cardeal da Motta, o projecto da 
Companhia Oriental resuscitou, sob a égide de Marco António. 
Mas a influencia d'este não bastou para fazel-o vingar. Preva- 
leciam na administração ainda as idéas do ministro defuncto. 
Sua memoria, por este só facto, não devia ser, para Carvalho, 
credora de bênçãos. Entretanto, esta morte dá-nos ensejo 
de reconhecer um recanto curioso do seu caracter. Uma 
carta de pêsames, a um familiar do cardeal, e de seu irmão, 
Pedro da Motta, também ministro, diz-nos até onde o futuro 
dictador sabia baixar o seu orgulho, lisonjeando os potentados. 
«Não devo nem posso dispensar-me de protestar a Vossa 
Mercê e a toda a mesma familia, em geral e em particular, 
com um verdadeiro affecto, que, se na distancia em que me 
acho, ou em qualquer outro logar, ainda mais remoto, onde 
me leve o tempo, houver cousa em que eu possa iservir, 
não isó a qualquer de Vossas Mercês, como ao mínimo creado, 
de escada abaixo, dos que o Eminentissimo sr. cardeal da 
Motta deixou nessa casa, com qualquer aviso, que se me 
faça, do tal ou qual serviço, que eu puder render, farei o 
mesmo que se Sua Eminência se achasse presente na mesma 
casa, e d'ella me escrevesse uma carta de recommendação» } 

Em julho d'esse anno o diplomata recebia ordem, para 
dar por finda a mediação. Só, porém, no anno seguinte se 
retirou de Vienna. As recredenciaes, de 31 de maio de 1749, 



1 Carta a Encerrabocles, 17 março 1748, Idem, Cod. 663. 

2 Carla ao Beneficiado José Henriques Leitão, 27 abril 1748, 
Coll. Pomb., Cod. 664. 



RETIRADA DE VIENNA 85 



diziam que vinha em licença, para tratar de negócios da 
sua casa, os quaes, sem isso, ficariam em risco. A 3 de 
setembro foi a partida. Mais de três meses durou a cansada 
viagem por terra, atravessando França e Hespanha, com 
mulher, creanças e servos. No principio de dezembro chegou 
a Lisboa. 

Dissera-se em Vienna ter sido o ministro português 
chamado para o cargo de secretario dos negócios extran- 
geiros, que seu tio occupava. Talvez d'este ultimo partisse 
a insinuação, e o próprio Carvalho, nella crente, a publicasse. 
Breve, porém, tinha de se convencer da inanidade de suas 
esperanças. Nem os serviços á Imperatriz, que reputava de 
alta valia, nem a influencia de Marco António conseguiram 
demover a D. João V da sua manifesta aversão. Debalde 
pretendeu Carvalho um posto, em que suas aptidões fossem 
utilizadas. Seu destino só com a morte do soberano tinha 
de se desannuviar. 



CAPITULO III 



O NOVO REINADO 



L tftado mental da sociedade portuguesa no século XVIII. Influencia 
do mesmo no espirito de Carvalho. Influencia do que viu no 
extrangeiro. — II. Carvalho mal recebido em Lisboa. Morte de 
D. João V. D. José escolhe os ministros. Resentimento de 
Alexandre de Gusmão. — III. A administração nova. Decisão 
sobre as minas do Brasil. Alexandre de Gusmão reprimido. — 
IV^. Resoluções sobre o tabaco e o assucar. A mineração dos 
diamantes. Episodio do contratante Caldeira Brant. — V. Os 
hebreus e o oojnmercio das pedras preciosas. Providencias acerca 
dVlle. — VI. Legislação sobrre as frotas. Empresa de nave- 
gação para a índia. 



Ao bárathro de fanatismo e ignorância, em que a alma 
portuguesa, no meado do século XVIII, merg'ulhava, alg^uns 
privilegiados espiritos escapavam ainda. Na muralha que 
opprimia as intelligencias havia fendas, A inquisição, vigilante 
no interior, perdia seus foros na fronteira. Além de Hespanha, 
tão opprimida como nós, não ia o seu poder, e com os 
extrangeiros, no reino mesmo, poucas vezes contendia. Os 
portugueses que em terras extranhas uma vez experimen- 
tavam a suave embriaguez do pensamento livre traziam um 
pouco d'esse ar vivificante, respirado lá fora, e d'elle faziam 
participar algum amigo mais fiel. Outros que, pela posição 
social e protecção do monarcha, se julgavam a coberto de 



8S ESTADO MENTAL DA SOCIEDADE PORTUGUESA 



perseguições, arrojavam-^se a mostrar o abysmo aonde a nação 
resvalava. D. Luiz da Cunha, o eminente diplomata, e o 
mordaz e esclarecido Alexandre de Gusmão, não lhes bas- 
tava condem narem a rotina e a frivolidade das praticas 
administrativas, apontarem os erros da gerência económica: 
ousavam provocar o monstro do fanatismo, denunciar a 
acção funesta da Inquisição, mais digna de maldições, se 
é possível, pelo que obrou nos espíritos, do Xjue pelas victimas. 
arrastadas ao cárcere, aos tormentos e á fogueira. 

Marco António de Azevedo, a quem, nos extremos do 
seu affecto, D. Luiz da Cunha chamava filho, também bebera 
na Inglaterra e em França os novos princípios. Para elle 
conipoz o provecto diplomata uma Instrucção politica, em 
que indicava as principaes e mais urgentes reformas, exigidas 
pela situação do paiz. Mas taes innovações não podiam ser 
comprehendidas do soberano, nem dos atrazados espíritos, 
por cujos dictames se orientava o governo. Ou por certeza 
d'isso, ou por desconfiança em que entrou depois acerca 
do destinatário, nunca D. Luiz da Cunha passou o escripto 
a Marco António, ainda que sob outra forma, repetiu a 
tentativa. Corre impresso o seu Testamento politico, carta 
dirigida a D. José, ainda príncipe, onde, se bem com menos 
largueza, se encontram os mesmos princípios que expuzera, 
como norma de governo, ao seu predilecto discípulo. 

Outro contemporâneo, António Ferreira Encerrabodes, 
era também d'esses, que algo discerniam dos males da pátria, 
avantajando-se de entre a incapacidade geral. Para a embai- 
xada de Londres o tinham impellido desaffeições eguaes ás 
que levavam Carvalho a Vienna. Alexandre de Gusmão escre- 
via-lhe nestes termos: «Não se esqueça V. S.a dos amigos, 
que aqui deixou luctando com as ondas, no mar da super- 
stição e da ignorância, e agradeça aos seus inimigos o mimo 
ue que actualmente gosa. Eu também havia descompor os 
meus, se tivesse a certeza de merecer-Ihes semelhante des- 
terro» 1. Mais celebre que nenhum outro, pela independência 



1 16 fevereiro 1750. Ms. 



o MEIO PORTUGUÊS NO ESPIRITO DE CARVALHO 89 



das idéas, foi o cavalheiro de Oliveira, que o Santo Oíficio 
deixou escapar uma vez, para mais tarde, no tempo de 
Pombal, o queimar em estatua. Muitos mais haveria, que 
a escassez de memorias da época não deixa descobrir. Por- 
ventura os documentos secretos da Inquisição revelam alguns, 
de que nem por sombras suspeitaríamos. 

O inlellecto de Sebastião José de Carvalho não era, 
como o d'esses, accessivel ás idéas de liberdade mental e 
politica, já então dominantes entre as classes illustradas, lá 
fora. Não tivera elle, como D. Luiz da Cunha e Alexandre 
de Gusmão, a fortuna de sahir da pátria em annos juvenis, 
quando o entendimento, ainda malleavel, facilmente se deixa 
vencer e subjugar. O seu fora modelado por esse mesmo 
ensino coimbrão, que mais tarde havia de ruidosamente 
condemnar; e inteiriçara-se nas formas rígidas, que lhe 
impunha o ambiente intellectual da universidade, mixto da 
boçalidade fradesca com o pedantismo académico. Por isso 
do extrangeiro só trouxe um progresso, se tal é licito dizer, 
tardio. Seus voos, altos para o nivel da razão no paiz, foram, 
se em absoluto os considerarmos, mesquinhos. Nenhum dos 
grandes ideaes, que agitavam os cérebros pensantes da Europa, 
teve guarida no seu. Modelos foi-os buscar mais de cem 
annos atraz. Em assumptos económicos quiz por mestre a 
Sully; em politica tomou por guia Richelieu. Acaso da appli- 
cação de processos antiquados resultou o mallogro da sua 
obra. Influencias exteriores, de idéas e factos materiaes, 
producto de uma civilização mais intensa, de cujo reflexo 
não era possível segregar o paiz, contrariavam esses expe- 
dientes de outra época. D'ahi resultou que a ephemera 
revivescência da nação, no periodo pombalino, não passa 
de um curto parenthesis, no decahir que, principiando dois 
séculos antes, mais se accentua no seguinte reinado. 

Entretanto seria extranha myopia a de Carvalho se nada 
tivesse visto e aprendido em suas viagens. 

Na Inglaterra, já fica apontado, colheu elle abundante 
cabedal de conhecimentos. Mas deteve-se na apparencia das 
cousas, que eram as leis e regulamentos, e as manifestações, 
por assim dizer, só externas, do caracter dos habitantes. Não 



90 INFLUENCIA DO QUE CARVALHO VIU NO ESTRANGEIRO 



percebeu que o fundamento d'essa grandeza nacional era 
o respeito e o amor da liberdade, enraizados no animo dos 
cidadãos, e consagrados pelas leis. Vira de perto, sem o 
comprehender, um povo, cioso de seus direitos, e que já 
duas vezes, para mantel-os, expulsara os monarchas do 
throno. O precedente ensinava os governantes a acatarem 
as prerogativas da nação, e, por isso mesmo, entrava nos 
interesses d'esta manter em todas as classes o inviolável 
respeito pelas leis. 

Em Portugal tudo era ao revez d'isso. Lei propriamente 
não havia mais que a vontade do soberano, que fazia e 
reformava o código a seu falante. Com a lei e contra a lei, 
quem tinha a menor parcella do mando vexava e opprimia 
os pequenos. Estes, por sua vez, desprezavam a Themis 
nefasta, que lhes não dava protecção, e agiam contra ella, 
impunemente muitas vezes, porque o poder, violento em 
perseguir, era por Índole frouxo na repressão justa do crime. 
O exemplo dos grandes que, livres de pena, delinquiam, 
repetia-se no povo, a quem, se tinha o terror do magistrado, 
faltava a veneração pela lei, 

Q só tribunal, cuja implacável severidade abrangia todas 
as classes, era o da Fé. Sua jurisdicção mantinha-se não 
só temida, senão respeitada também. Os mais elevados fidalgos 
não lhe escapavam aos golpes. O povo fanatizado experi- 
mentava por elle um sacro temor, ao mesmo tempo que filial 
veneração. Era timbre dos primeiros, na jerarchia social, o 
servirem-no. Os pequenos applaudiam-lhe as crueldades. 
Considerava-se a delação um acto meritório, e ao denun- 
ciante, muitas vezes calumniador, trazia honra a torpeza em 
vez de labéo. 

A Europa, nos mesmos paizes do catholicismo, olhava 
com pasmo o que se passava na Peninsula, o abysmo a 
que a superstição e a falta de cultura mental tinham lançado 
estes povos. Considerava que, emquanto nos Estados do 
Papa os hebreus eram livres, na Hespanha e em Portugal, 
por frágeis indicios, se votavam christãos á fogueira. Em 
toda a parte as pessoas illustradas condemnavam tão atroz 
situação. O horror, o ridiculo, que mais tarde, na phrase 



o TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO 91 

de Voltaire, caracterizou o supplicio de Malagrida, acompa- 
nhava, em terras extranhas, o nome português. 

A um espirito observador e arguto, qual era o de 
Carvalho, não podiam factos semelhantes passar desperce- 
bidos. Tratando, nas suas embaixadas, com individuos cultos, 
quantas vezes não teria de corar, ouvindo as expressões de 
censura e de mofa, com que algum, mais ousado, alludisse 
á deprimente obra da Inquisição na sua pátria! 

O próprio governo consentia que seus Enviados tran- 
sigissem com o espirito da civilização. Súbditos de Portugal, 
perseguidos no reino pelo Santo Officio, eram no extrangeiro, 
sem escrúpulo, acolhidos nas embaixadas, e até ali ás vezes 
exerciam cargos. A favor de um hebreu, Jacob de Castro 
Sarmento, seu medico, fizera Carvalho em Londres a recla- 
mação feobre o imposto de parochia. Diogo de Aguilar, da 
mesma religião, foragido para não comparecer no tribunal 
da Fé, era quem lhe adiantava, em Vienna, as quantias neces- 
sárias, como privativo banqueiro do embaixador. Antes d'isso, 
na mesma capital, o conde de Tarouca tomara ao serviço 
da legação portuguesa o cavalheiro de Oliveira, que a perse- 
guição religiosa expeliira da pátria. 

Carvalho, em cujo peito, como durante sua embaixada 
na Inglaterra pudemos vêr, o preconceito secular hereditário, 
fontra os hebreus, se conservara, deixava-se neste ponto 
vencer pela influencia do meio. Na catholica monarchia austro- 
hungara, como na protestante e quasi republicana Grã-Bre- 
tanha, via esses homens, parias em terras da pen; isula, 
acatados e muitas vezes poderosos. A Hollanda, onde os 
filhos de Israel abundavam, era um paiz eminente no com- 
mercio, e por essa razão soberbo nos mares. As outras nações 
iam alli aprender as artes da colonização e os segredos do 
trafico. Ao nosso diplomata não lhe foi difficil comprehender 
a parte, que tivera nesse desenvolvimento de riquezas a 
raça proscripta. Com individuos, a ella pertencentes, tivera 
trato nessas terras, e não os achara humilhados nem timidos. 
Não se julgara tão pouco obrigado ao desprezo, que era 
de bom tom mostrar-lhes no reino. Puzera de parte o senti- 
mento religioso, e observava a sangria, que dava, na 



92 INFLUENCIA DO QUE CARVALHO VIU NO ESTRANGEIRO 

substancia da nação, o constante defluxo de cabedaes, fugindo 
ao confisco, de laboriosas existências, furtando-se á prisão 
e á morte. Era evidente que essas riquezas e essas actividades 
engrandeciam o paiz, quando nelle sem receio se podessem 
fixar. Estas observações completava-as elle pela leitura, e 
estudando os factos do desenvolvimento económico em outros 
povos, convencia-se da justeza de suas reflexões. 

Ao mesmo tempo, levava-o isto a meditar nos inconve- 
nientes do fanatismo. O Pontífice não obrava por certo de 
boa fé em approvar, na península hispânica, a perseguição 
que não consentia nos seus Estados. As disputas de D. João V 
com a Santa Sé; o despejo d'esta em explorar o beatismo 
e a vaidade d'aquelle rei; o exemplo da Grã-Bretanha, onde 
vivera, e dos outros paizes, onde o poder régio, independente 
de toda a sujeição exterior, governava a egreja nacional; 
idéas bebidas na roda cosmopolita da diplomacia, mais que 
nenhuma outra accessivel ao scepticismo reinante; tudo con- 
tribuía para dissipar nelle o respeito, que porventura em 
algum tempo alimentasse, pela supremacia de Roma. Sua 
missão á Allemanha; o espectáculo das intrigas, da má fé, 
das fraquezas da diplomacia pontifícia; as queixas que clle 
próprio tivera d'ella; o desastre de suas ambições, em parte 
attribuido ás tortuosidades da Cúria ; eis outros tantos motivos 
de desaffeição a um poder, que via ovante na sua pátria. 

Taes antecedentes explicam talvez o que tanto distanciou 
a gerência de Carvalho dos governos anteriores; a obediência 
ás leis imposta a todo o transe; o nivelamento geral ante ia 
rasoura da majestade; o confisco da Inquisição em beneficio 
do poder régio; finalmente a ousadia e a violência do repto 
á autoridade papal. 



II 



Os oito meses, que decorreram, desde que chegou a 
Lisboa, até á morte de D. João V, foram para Carvalho 
cheios de inquietação e desgosto. Ao contrario de quanto 



CARVALHO MAL RECEBIDO EM LISBOA 93 



pudera imaginar, nem a influencia do secretario de Estado, 
seu tio, nem o apoio da Rainha lograram vencer a antipathia 
do monarcha. Durante esse tempo, debalde postulou um 
logar de Conselheiro ultramarino ou da fazenda, premio, a 
seu vêr, de nenhum modo exagerado, aos serviços que pres- 
tara. Todos os esforços, porém, naufragaram, ante a persis- 
tente m.á vontade do rei, que a hostilidade dos cortesãos 
alimentava. A desillusão devia pungir bem fundo o preten- 
dente, tanto mais que o estado de sua fazenda, comprom.ettida 
por gastos excessivos, nada tinha de prospero nessa época. 

Morrera entretanto o influente jesuita Carbone, a quem 
no periodo da doença, Carvalho, como outras pessoas da 
corte, assiduamente visitava. Quer fosse a manifestação de 
carinho sincera, quer propósito de simulada dedicação, não 
faltou quem depois attribuisse a tal proceder o intuito de 
propiciar a Companhia de Jesus, ainda poderosa, ás suas 
pretenções no paço. 

Inesperadamente, no mês de maio falleceu Marco António. 
O rei, na decadência da paralyâia adeantada, agarrado aos 
seus bentinhos e imagens, póde-se dizer agonizou desde 
então. A tarefa de governar incumbia agora a Pedro da 
Motta e Silva, também invalido, a frei Gaspar da Encarnação, 
acaso mais ignorante ainda que fanático. Ao lado d'este 
ultimo, Alexandre de Gusmão exercia um influxo benéfico, 
supprindo a incapacidade, e temperando, até onde era possível, 
os desatinos do rei e dos ministros. De qualquer d'estes, 
não podia Carvalho lograr protecção. Com frei Gaspar, que 
tinha a maior autoridade, prevaleciam as queixas de Roma, 
e o effeito das intrigas de Sampaio. A Pedro da Motta, se 
bem que neutral, nada movia de sua apathia e indifferença. 
Gusmão, esse bandeava-se francamente com o grupo que 
o antigo embaixador considerava de seus inimigos. 

Só podia elle pois contar com a Rainha, e a sua coniiança 
não foi vã. Se a situação existente perdurasse. Carvalho 
teria de realizar o propósito, já antigo, de se recolher a 
Pombal, e alli obscuramente viver, consagrado á educação 
de seus filhos, e fazendo valer as suas terras. O desfallecer 
rápido de D. João V era-lhe comtudo uma esperança. Deixou-se 



94 MORTE DE D. JOÃO V 



ficar na corte, onde em breve a rota de sua vida foi tal, 
como nos máximos desvarios da imaginação nunca a sonhara. 

O primeiro signal da mudança foi ainda antes da morte 
do Rei, A Rainha assumira a regência, e como quer que s€ 
offerecesse, para immediata solução, dar certas providencias 
sobre a importação e commercio de trigos, occorreu-lhe tomar 
o parecer de Carvalho. O assumpto attingia as relações do 
paiz com a Inglaterra, e o voto do antigo ministro era por 
isso competente. Todavia a exclusão de todo o serviço publico, 
em que, após a chegada de Vienna, elle se tinha conservado, 
singulariza a escollia e denota favor, tanto mais que já o 
Desembargo do Paço, o maior tribunal do paiz, havia dito 
sobre a matéria. 

Dentro de poucos dias, no ultimo de julho, D. João V 
succumbiu. No animo do príncipe, herdeiro da coroa, traba- 
lhavam, desde algum tempo já, suggestões de sua mãe, É 
de crer reconhecesse elle próprio aproveitáveis dotes do 
protegido da Rainha. Como futuro monarcha, assistia por 
vezes ao conselho, e teria lido despachos, alguns bastante 
notáveis, redigidos por Carvalho. Dos ministros de seu pae 
nenhum lhe merecia os affectos, nem porventura a confiança. 
Apesar dos thesouros do Brasil, não faltavam prenúncios de 
ruina financeira. Os desmandos da administração interior eram 
patentes ao menos sagaz. Nas colónias o commercio lan- 
guescia; ao goveí-no local presidia, quasi em exclusivo, o arbítrio 
de mandões incapazes. O que era a politica exterior tinha-se 
visto nos desprezos da Inglaterra e na desenvoltura com que 
o plenipotenciário português fora despedido do congresso da 
paz em Aquisgrana. Urgia acudir a tudo isto: levantar no 
extrangeiro os créditos do paiz, fortalecer no interior a auto- 
ridade, restaurar as finanças, emfim, por adequadas provi- 
dencias, assegurar o trafico mercantil com as colónias, e 
reanimar as decadentes industrias. 

Para cumprir tão árdua tarefa requeria-se, bem o veria 
o Rei, um ministro de capacidade superior, e, lançando os 
olhos em volta do throno, não se lhe deparava, entre os 
aulicos, vulto sobrelevante da mediocridade geral. Por exclusão 
dos que de perto conhecia, e instigações de mais de uma 



o NOVO REI E CARVALHO 95 



parte, escolheu a Sebastião José. Era este, por assim dizer, 
homem novo na corte, e não eivado ainda dos vicios d'el!a. 
Em suas conversações, nos trabalhos de gabinete, em aspi- 
rações que não escondia, dava mostras de um culto espirito 
e de esclarecido patriotismo. Trazia do extrangeiro idéas de 
reforma, sem comtudo sacrificar, aos propósitos revolucio- 
nários já então correntes na Europa, os preconceitos caros 
á nação. Se acreditarmos o que nos diz Carvalho, em uma das 
apologias, escriptas após a sua queda, ouvia D. José ao 
cardeal da Motta muitas vezes repetir que elle o tinha mandado 
á Inglaterra instruir-se nas matérias referentes ao commercio, 
e essa foi, segundo o próprio monarcha lhe referiu, a razão 
de o chamar ao ministério. Podíamos, talvez, rejeitar o asserto, 
como invenção d'aquelle que, perseguido, queria do alto de 
sua grandeza confundir os adversários. Temos, porém, não 
menos valiosa, a opinião de D. Luiz da Cunha que, no 
Testamento politico, offerecido a D. José, quando príncipe, 
lh'o recommendou para o cargo. Não existe objecção seria á 
versão jesuítica, segundo a qual a protecção do padre José 
Moreira, confessor do monarcha, egualmente influiu. É pro- 
vável que todos estes elementos conjugados entrassem na 
decisão. Certo é que, com geral surpresa da corte, o diplomata, 
até ahi pretendente repelhdo, conquistou, como de assalto, 
o poder, e em breve a sua autoridade offuscou a dos outros 
membros do gabinete. 

No dia 3 de agosto foi a nomeação participada a 
Carvalho, mas o aviso não menciona que secretaria lhe será 
confiada, somente diz que entrará immediatamente em exer- 
cício. O decreto, que lhe distribue os negócios extrangeiros 
e da guerra, tem a data de 5. Entrava pois o sobrinho de 
iVlarco António na posse do cargo que em outro tempo, como 
direito de familia, se habituara a julgar seu. O arcipreste 
Paulo de Carvalho herdara-lhe os morgados. D'este outro 
tio esperara egualmente o cargo politico, por doação ou 
legado; e a expectativa, que já em Vienna declarava, somente 
no prazo, e esse curto, lhe foi enganosa. 

Logo á primeira entrevista, D. José manifestou ao novo 
secretario de Estado o intento de o occupar em assumptos 



96 CARVALHO TRIUMPHANDO 



diversos dos que particularmente lhe competiam. Reconhecia 
nelle conhecimentos vastos do que, na algaravia da época, 
se chamava «arithmetica politica». Pretendia assentar o regimen 
de navegação e commercio «em princípios geométricos, e 
como lacs sólidos e infalliveis», segundo o próprio Carvalho 
nos instrue. A intrusão d'este ultimo, em outros assumptos, 
não se podia dispensar, quando á testa da secretaria do reino, 
de todas a mais importante, ficava ainda Pedro da Motta e 
Silva, maníaco, indolenle e valetudinário, que, na indisciplina 
do reinado precedente, só dava audiências passada a meia 
noite, e consagrava ao somno as horas do dia. Além d'isso, 
havia muitos annos, não sahia de casa. Com Diogo de 
Mendonça Corte Real, individuo de medíocres talentos, eccle- 
siastico, filho do estadista do mesmo nome, se completou 
o gabinete. Pertenceu-lhe a secretaria de marinha e ultramar, 
na qual o influente Carvalho superintendia também. 

Para muitos foi surpresa não entrar Alexandre de Gusmão 
no ministério ; para elle próprio desillusão penosa. É provável 
que nas decisões de D, José tivessem parte duas individua- 
lidades que, influentes nos^ primeiros dias do reinado, desappa- 
receram depois completamente da scena politica: o patriarcha 
lisbonense, cardeal Almeida, e o cardeal D. Nuno da Cunha, 
inquisidor. Pertenciam, é licito suppôr, á facção adversa na 
corte ao ministro frei Gaspar, repellindo com horror o grupo 
fanático, denominado dos jacobeus, que o mesmo patrocinava. 
O monge, despedido do governo, era natural arrastar na 
sua queda o subordinado, a quem os triumphadores de um 
momento não perdoavam a collaboração no governo ante- 
cedente, e muito menos a irreligiosidade. 

Gusmão desabafou o seu despeito cm termos amargos. 
As informações dos diplomatas extrangeiros dão conta d'isso. 
Entre os escriptos, que se conservam seus, o seguinte trecho 
de uma carta sem data. póde-se, talvez sem forçada interpre- 
tação, referir a esse motivo: «O Baxá (Sebastião José de 
Carvalho?) conseguiu o fim do seu empenho, taes são as 
cousas do mundo! O povo é quem o ha de soffrer, e passará 
a noticia aos tempos futuros, que hão de admirar os feitos 
das suas largas idéas, em tudo o que fôr da sua repartição, 



FIiM DE ALEXANDRE DE GUSMÃO 97 

se nas outras não tiver parte» i. Se taes palavras effectiva- 
mente se applicam ao ministro de D. José, bem se pôde 
dizer que o autor d'ellas possuia mais do que não vulgar 
penetração, até mesmo o d-om prophetico. Na accepção 
natural, ou com a ironia que nellas existe, o governo de 
Pombal acha-se definido naquellas linhas. 

Relegado para um logar do Conselho Ultramarino, 
Gusmão rematou a sua carreira de estadista, e dentro em 
pouco a existência. Não lhe foi dado mostrar a craveira de 
seus talentos, que teve de sacrificar á inépcia, prevalente na 
corte de D, João V. O acerto de limites com Hespanha na 
America, contra a geral vontade dos portugueses, é obra 
sua, pela qual as gerações successoras lhe devem ser gratas. 
Por elle, a troco da onerosa posse da colónia do Sacramento, 
as fronteiras do Brasil foram seguras contra as reivindicações 
decorrentes da bulia de Alexandre VI. Os dominios portu- 
gueses alargaram-se para o Sul, dando origem ao famoso 
Estado do Rio Grande, cuja população vivaz e progressiva 
é uma das glorias da nossa raça. Os males de que o reino 
padecia mereceram-lhe cuidados, infelizmente sem realização 
pratica. A ruina económica, a dissipação das rendas publicas, 
a desidia dos funccionarios, o atrazo mental, o monachismo, 
a inquisição, todas essas ulceras da vida nacional conheceu 
e apontou, para algumas d'ellas offerecendo remédio. Não 
se temeu das iras dos grandes, cujos excessos, como alto 
funccionario, confidente do monarcha, reprehendia ; cujos 
ridiculos, na intimidade, castigou com finos remoques. 

Tão pouco receou a ira dos beatos, e o ódio popular que 
a superstição instigava, affirmando-S€ nos pasquins. Quem 
merece a inquisição? Gusmão! diziam as sátiras. O autorita- 
rismo truculento, que se ia vêr no reinado seguinte, não era 
do seu feitio moral. Pelo contrario, mostrava-se empenhado 
em diminuir as contravenções para evitar os castigos. Foi, 
segundo todos os dados, um espirito superior, annullado 
pelo meio hostil e retrogrado. 



í A Martinho Velho Oldemberg. Ms. 

o MARQUÊS Dí: POMRAL E A SUA ÉPOCA — 7 



98 FACÇÕES OA CORTE ANTES DA EXALTAÇÃO DE D. JOSÉ 

Não se conformando com a queda definitiva, pretendeu 
ainda arcar com o poder novo, que assomava, impugnando 
no Conselho Ultramarino as disposições de Carvalho sobre 
as minas do Brasil, que revogavam as suas próprias. Com 
a brutalidade, que não supportava contradictores, uma repri- 
menda arrogante do ministro tolheu-lhe as representações. 
Uma só vontade, indomável, presidia agora a todos os actos 
do governo, e por mais de um quarto de século se impoz, 
afastando os obstáculos e destruindo quem se atreveu a 
levantar-lh'os. 



III 



Defendendo-«e, após a sua queda, em um processo 
famoso. Pombal, respondendo ao libello, que lhe exprobava 
abusos de poder e violências, traçou na contrariedade o 
relatório e a apologia da sua administração. Tão escandaloso, 
a conceito do governo, foi o debate, que por um decreto 
se mandaram queimar os autos, corn todos os traslados, e 
prender os advogados de ambas as partes. A arbitrariedade, 
como sempre em casos taes, foi sem effeito. Evidentemente 
tinha Carvalho copia sua, que divulgou; doesta se tomaram 
outras, e a prohibição, açulando a curiosidade, prestou a 
importância do mysterio a um escripto, valioso como resenha 
de factos, mas nada encerrando que fosse segredo de Estado, 
ou pudesse affectar o prestigio, quer do governo existente, 
quer do anterior. 

Por este documento sabemos quaes foram, pelo critério 
de Carvalho, os actos culminantes da sua gerência, e conhe- 
cemos as circumstancias em que foi chamado a exercel-a. 
A deducção principia do tempo em que D. João V, oito 
annos antes de morrer, teve o primeiro accesso de paralysia. 
O caracter da doença fez suppôr que não seria larga a 
existência do soberano, e logo se dividiu a corte em facções, 
que, procurando ganhar a confiança do príncipe herdeiro, 
aspiravam a supremacia no reinado seguinte. À volta do 
cardeal da Motta, primeiro ministro nessa época, e de frei 



A FIGURA ENIGMÁTICA DE D. JOSÉ I 9Q 

Gaspar, que lhe succedeu, se formou um dos grupos. Cabeças 
do outro seriam, provavelmente, aquelles que mais tarde 
ajudaram Pombal a subir; e d'esse numero a Rainha, cuja 
influencia elle próprio sem escrúpulo depois annullou. Entre- 
tanto, que fazia D. José? «Esteve vendo — dizia Carvalho — 
com o mais profundo silencio, arruinar pelos interesses e 
pela cobiça dos referidos dois partidos, o exercito; e a marinha, 
o commercio, as artes, até á extrema decadência em que 
cahiram, sem que pessoa alguma, ainda das mais intimas, 
lhe ouvisse jamais proferir uma palavra de reparo, sobre 
cousas feitas debaixo da real rubrica de seu pae. . . Logo 
que a divina providencia lhe devolveu a coroa de Portugal, 
tendo comprehendido que as duas secretarias de Estado, 
então vagas, fariam os principaes objectos dos referidos dois 
partidos, e dos seus sequazes, procurou provêl-as immedia- 
tamente em ministros, que não tivessem associação alguma 
com aquellas facções. . . Consequentemente entrou na sua 
real pessoa, e fechou dentro do seu recatado gabinete ijis 
resoluções de todos os negócios das cortes extrangeiras, e 
todos os domésticos da sua jurisdicção suprema» ^. 

Eis um depoimento que alguma luz deita sobre essa 
enigmática figura de rei, acerca de quem não poud^ a historia 
ainda assegurar se foi realmente um tyranno consciente e 
sanguinário, como deu a entender o seu valido, ou apenas 
malleavel instrumento nas mãos d'elle. Aqui o vemos assistir 
taciturno á ruina de uma herança que, por muitas razões, 
devia suppôr no fundo magnifica, assim como também o 
veremos, no correr do reinado, não intervir jamais, ao menos 
ostensivamente, nas decisões de Pombal. Seria isso boçalidade, 
indifferença, desapego das cousas graves para dar preferencia 
aos gosos da vida? A resolução que tomou, assumindo a 
coroa, de tirar o governo aos potentados da véspera, de 
chamar a si as questões importantes, de outorgar o poder 
a um homem superior, denota, pelo contrario, previdência 



^ Contiariedadc ao libe lio offerecido por Francisco José Caldeira 
Oalhaido Mendanha. Coll. Pomb., Cod. 680. 



100 DECISÃO SOBRE AS MINAS DO BRASIL 



atilada. Pôde ser — e parece foi assim — que em vida do pae 
lhe não permittisse este, cioso do mando, intervir em negócios 
do Estado. Pôde ser que em seguida, seguro do homem que 
escolheu, d'elles se desinteressasse, deixando-se levar pelo 
natural pendor á indolência, ao prazer, rematando por não 
ser mais que um autómato que o ministro meneava. Como 
quer que fosse, o facto de conservar nelle a confiança, a 
despeito das numerosas influencias adversas, todo o tempo 
do reinado, demonstra que possuía pelo menos firmeza de 
vontade não vulgar. A não ser que, dominado, não pudesse 
mais fugir á suggestão. 

O primeiro negocio, alheio á secretaria de Carvalho, 
que o Rei lhe entregou, foi o das minas do Brasil. O caudal 
de imprevistas riquezas, que por um instante parecera rewovar 
o antigo sonho da índia, ameaçava exhaurir-se. O ouro 
português defluia, atravéz da Europa, deixando o reino mise- 
rável. Na colónia, onde eram as jazidas, uma legislação impo- 
tente e barbara, a pretexto de regularizar, suffocava as 
iniciativas, paralysava a natural industria do homem. Á volta 
da região aurífera creara a lei uma imaginaria barreira, que 
era delicto de summa gravidade transpor, a não ser por 
três únicos caminhos, guardados, para evitar o contrabando; 
e além do território defeso, a vigilância extendia-se, atravéz 
do continente, até aos portos de mar. 

A quinta parte do ouro minerado tocava por direito 
á coroa; pesado tributo, que absorvia o mais liquido da 
exploração. O lucro era portanto enorme, e a tentação irre- 
sistível, para os que podessem illudir a suspeita do fisco, 
que em todas as comarcas abria devassa permanente, atra- 
vessava o oceano, e vinha surprehender os extravios, ao 
desembarque, nas praias da metrópole. Nenhuma providencia 
impedia a natural reacção do interesse particular contra essa 
extorsão. O ouro em pó, que no território das minas corria 
livremente^ e era a única moeda, tinha de ser quintado á 
sahida, e reduzido a barras, com o cunho do governo. Mas 
essa obrigação illudia-se, e grandes porções de metal, trazido 
clandestinamente ás cidades, passavam depois com marca 
falsa, ou se convertiam em obras grosseiras de ourives. Não 



AS CASAS DE FUNDIÇÃO DE OURO 101 



logrando vencer o atrevimento e a astúcia dos defraudadores, 
Carvalho recorreu mais tarde a um de seus meios radicaes: 
mandou, nas principaes cidades do Brasil, fechar as officinas, 
destruir as forjas, e apprehender os utensilios de ourivesaria; 
determinou que grande numero de operários, na maior parte 
gente de côr, sentassem praça, e aos restantes se applicasse 
a pena dos moedeiros falsos, quando, fora de certos casos 
restrictos, e licença dos governadores, praticassem a sua arte. 

Ao subir ao throno D, José, as circumstancias em que 
a industria da mineração se encontrava eram das menos 
prosperas. No reinado antecedente o governo, verificando 
a sua impotência de cohibir o contrabando, reduzira o imposto 
do quinto a metade, e, sendo isso improficuo, o substituirá 
depois por uma taxa pessoal, por cada trabalhador empregado 
nas minas. Este systema de cobrar o tributo provocara também 
protestos. Com razão ou sem ella, attribuia-se á capitação 
a decadência da industria mineira. É provável que, por esta 
sorte, sendo menos fácil o enganar os exactores, o imposto 
^pesasse mais duramente sobre os mineiros, que, como é 
sabido, inão trabalhavam por si, mas tinham seus escravos 
occupados na extracção. O certo é que o numero doestes 
últimos diminuia a olhos vistos. No espaço de dois annos, 
em 1748 e 49, cerca de quinze mil negros abandonaram ,o 
serviço. Os exploradores, a quem restavam alguns meios, 
iam buscar fortuna a outras paragens. 

As razões, que se invocavam contra a capitação, pare- 
ceram acceitaveis a Carvalho, não pelo que podia affectar 
a propriedade dos mineiros, mas para fazer rendoso o tributo. 
Em 1734 tinham aquelles proposto quitarem-se do direito 
senhorial, pelo pagamento, repartido entre todos, de cem 
arrobas de ouro em cada anno. A avença rejeitada por 
D. João V, foi o systema adoptado por Carvalho, modificado, 
porém, de sorte que se tornou menos gravoso aos tributados. 
Foi portanto restabelecido o processo de cobrança, anterior 
á capitação. Tomavam-se as cem arrobas como base fixa 
do imposto. Todo o ouro que sahia do districto devia ser 
levado ás casas de fundição, nas cabeças de comarca, para 



102 O IMPOSTO DE CEM ARROBAS DE OURO ANNUAES 



se reduzir a barras, deixando ficar a quinta parte do seu 
peso, valor dos direitos. 

Como o metal bruto era a única moeda, succedia que, 
nos pagamentos e nas vendas que os mineiros faziam, se 
descontava logo o quinto devido á fazenda, e assim, com 
esta quebra de valor, o ouro em pó ia correndo, de maneira 
que sem incommodo do productor se arrecadava a con- 
tribuição. 

Segundo a proposta de 1734, agora acceita pelo governo, 
o imposto consistia nas cem arrobas de ouro, ou o mais que 
os quintos produzissem, compleíando-se, por derrama entre 
os extractores, a quantia determinada, quando aquelles não 
chegassem. Como se disse, uma concessão, favorável aos 
tributados, vinha pela nova lei suavizar-lhes o encargo. O 
excesso, que em um anno se verificasse sobre o minimo do 
ajuste, levava-se em conta, como garantia de renda do anno 
seguinte; revertia, porém, á coroa, quando preenchido o 
limite pela entrada regular da contribuição. 

Sem que a mudança obstasse aos contrabandos, aos quaes 
o enorme valor da imposição convidava, os colonos deram-se 
por satisfeitos: o producto conhecido das minas augmentou; 
e a fazenda real teve á sua parte muito mais do que a 
quantia minima, arbitrada na lei para cada anno. Segundo 
um historiador, que bem entendeu as cousas do Brasil, o 
inglês Roberto Southey, foi esta a edade de ouro do governo 
português. No anno de 1753, por exemplo, ascendei-am os 
quintos a quatrocentas mil libras esterlinas. 

Em Lisboa a camarilha adversa á nova administração 
não applaudiu a reforma, e do Conselho Ultramarino sahiu 
um protesto, no qual, á primeira vista, o despeito de 
Alexandre Gusmão se revela. O tribunal, incumbido de espe- 
cializar em regulamentos parciaes os differentes pontos da 
lei, formulou em consulta uma extensa, miúda e muitas vezes 
acrimoniosa, analyse da mesma, que nenhuma parte vulne- 
rável deixa encoberta, e, em mais de um logar, obscurece e 
condemna o que de si mesmo é claro, e os factos demon- 
stravam vantajoso. 

Carvalho não era homem para soffrer ou perdoar a 



ALEXANDRE DE GUSMÃO REPRIMIDO 103 



contradicção, que demais lhe era feita em forma aggressiva. 
Retorquiu de modo áspero, — «O Conselho fique sabendo que 
as suas mais obvias e mais indispensáveis obrig-ações con- 
sistem no profundo e sempre inviolável respeito ás minhas 
leis» — dizia em nome do Rei. — A combatividade innata de 
Gusmão, a altivez do seu caracter, não lhe permittiam receber 
sem tornas a censura. Redigiu, em nome do Conselho uma 
Consulta submissa, expondo que podiam os tribunaes dis- 
sentir do parecer régio, sobre o conteúdo das leis, e todavia 
respeital-as. «Dizendo o Conselho no seu voto tudo o que 
entende, satisfaz o fim para o que é destinado, ainda que 
não seja approvado o seu parecer». 

Por acertado e justo que o conceito fosse, não agradou 
ao ministro, que entendia, para seu uso próprio, attribuir 
ao Rei, além da indiscutível autoridade, a omnipotência do 
saber. Um aviso, subscripto por Diogo de Mendonça, lacónico 
e severo, devolvendo a consulta sem despacho, foi a resposta 
que lançou em consternação, e deixou aterrados, os do 
Conselho. Com esta primeira explosão, se bem que benigna, 
se abriu o cam.inho para o apertado rigor do governo 
pombalino. 

IV 



Outras providencias, também sobre o commercio do 
Brasil, em contraste impressivo com a habitual inércia da 
administração portuguesa, afastaram a ruina, que parecia 
inevitável, do trafico, e deram inesperadamente vida nova ás 
relações do paiz com as colónias da America e com o extran- 
geiro. 

O tabaco e o assucar eram os principaes géneros de 
commercio do Brasil, commercio opprimido por vexações de 
toda a ordem, tolhido na sua expansão pelos invencíveis 
liames do systema colonial. Não falamos do productor, á 
mercê dos negociantes da metrópole, e para quem a permuta 
com as possessões ultramarinas representava um monopólio. 
A navegação pouco frequente, e só pelas frotas, dava causa 



104 O TABACO E ASSUCAR DO BRASIL 



á irregularidade dos abastecimentos, e á carestia dos fretes, 
cujo ónus duplamente carregava sobre o género colonial. 
No reino o imposto da exportação e as dispendiosas forma- 
lidades da alfandega prejudicavam a sabida para as praças 
extrangeiras, de sorte que muitas vezes se accumulavam os 
depósitos, as mercadorias se deterioravam, e sobre esse privi- 
legiado commercio, que tanto ciúme resguardava, frequentes 
vezes se via passar um tufão de ruína. 

Era o que, na occasião de que nos occupamos, succedia. 
Provimentos successivos de producíos brasileiros tinham-se 
agglomerado na alfandega da capital. A quantidade enorme 
das caixas de assucar, tendo enchido os armazéns, abarrotava 
as lojas e cavallariças do Palácio Corte Real, alli contíguo, 
apinhando-se por ultimo em telheiros, para esse fim levan- 
tados, de cuja grandeza se julgará pelo facto de ter custado 
a construcção cerca de 60 mil cruzados. Estava para chegar 
a frota de Pernambuco, e não se deparava meio de, pela 
diminuição do existente, abrir logar para o futuro deposito. 
Com o tabaco não era menor o impedimento, nem mais 
obviavel o embaraço. Como tantas vezes succede, quando 
meios officiaes obstam á livre circulação dos productos, essa 
abundância, que em outras condições seria indicio de prospe- 
ridade e riqueza, significava agora, para todos os interessados 
no commercio do Brasil, uma perda; para muitos a decadência 
da fortuna, talvez a miséria. No aperto da conjunctura, aos 
que tinham a responsabilidade da administração não occorrera 
até ahi meio de acudir ao perigo dos particulares; e para 
garantir interesses do Estado, a Junta do Tabaco alvitrou 
que se lançasse ao fogo a enorme porção existente d'esse 
género, a fim de abrir espaço ao que, a todo o instante, 
devia chegar. 

Além da perda dos proprietários, orçava-se a despesa 
da queima em quatro mil cruzados. A praça de Lisboa, 
aterrada, representou contra a selvagem medida, que arrui- 
nava muitas casas da metrópole, além dos lavradores da 
Bahia. Nesse momento interveio Carvalho, para quem o 
ensinamento colhido na Inglaterra não fora baldado. Vira 
talvez alli como a instinctiva observação das leis económicas, 



DECRETOS DE 6 E 17 DE JANEIRO DE 1751 105 

por um governo intelligente, facilitava a expansão do com- 
mercio, livre de peias. Mais attentamente poderia notar que 
a livre circulação dos productos favorece o consumo, e esta- 
belece o equilibrio dos mercados. Não podia o ministro 
entender, e muito menos acceitar, este principio de absoluta 
liberdade, a que por temperamento era infenso, tanto como 
por tradição e doutrina ; mas d^elle tomava o bastante para 
reconhecer que, desobstruidos os canaes da exportação e 
consumo, os productos circulariam, assumindo nas diversas 
praças, em face da procura universal, o mesmo nivel, por 
effeito de uma lei semelhante á que determina o movimento 
dos liquidos, em vasos communicando entre si. 

Foi isso o que realizou com os decretos de 16 e 27 
de janeiro de 1751, pelos quaes diminuiu e tornou menos 
dispendiosa a formalidade dos despachos; facilitou no porto 
as baldeações, reduziu os direitos da entrada, e concedeu 
abatimento de metade, aos que se destinassem para fora do 
paiz. Com isto se estimulou o mercado, e a exportação, 
favorecida, em breve fez desapparecer o excesso de productos 
accumulados, que trazia a ruína. 

Não faltaram, todavia, nestas leis, as clausulas em que 
os preconceitos económicos da época, e os pessoaes do 
ministro, se revelavam. Todas as particularidades d'este 
negocio dos tabacos tinha-as elle estudado na Inglaterra, por 
indicação do cardeal da Motta, que projectara um tratado de 
commercio com a França, tendo por base a introducção d'este 
género das nossas colónias naquelle paiz. A concessão do 
premio, em abatimento de direitos, á exportação, era adoptada 
da pratica britannica, assim como a nova disposição creando, 
nos centros productores, as mesas de inspecção, destinadas 
a fiscalizar a qualidade dos tabacos, condemnando os ruins. 

A acção de Carvalho não se limitou, todavia, a estas 
providencias, de incontestável utilidade. No intuito de favo- 
recer os intermediários, que traziam á Europa os dois valiosos 
productos da agricultura colonial, fixou o preço máximo, que 
era licito aos lavradores exigirem, taxou os fretes, e deter- 
minou a ordem dos embarques, com um regulamento 
minucioso e oppressivo. 



106 OPINIÃO DE DIPLOMATAS SOBRE CARVALMO 



Estas disposições, violando as leis económicas, eram por 
sua vez desattendidas. Surgiam protestos e resistências, e as 
penas da transgressão, aggravadas por leis posteriores, raras 
vezes impediam que o justo interesse individual, por ellas 
offendido, readquirisse, por meio da fraude, seus direitos. 

A energia de Carvalho, revelada em suas decisões, a 
novidade de algumas d'ellas, neste como em outros ramos da 
administração, por tal forma destoavam do torpor habituai, 
que dentro do paiz e fora d'elle estes actos provocaram reparo 
e surpresa. Em Hespanha, que caminhava no mesmo compasso 
comno«co, a impressão foi de escândalo. O gabinete de 
Madrid capitulava de extravagantes as idéas de Carvalho ; 
não tinha confiança em suas aptidões, nem em suas máximas 
de governo. O embaixador, descrevia-lhe de Lisboa o caracter 
do ministro : «5/ algo se puede figurar en lo general es una 
espécie de quijotismo cstadistico, con que se batalla con molinos 
de viento» i. Os diplomatas das outras nações achavam o 
homem phantastico nas ídéas, cavilloso e tomado de ambição 
de poder e de fama. Entretanto ia crescendo a sua autoridade 
sobre a dos outros ministros, e o seu ascendente no espi- 
rito do rei. 

Outro assumpto, que directamente affectava a prospe- 
ridade do commercio nacional e as rendas da coroa exigiu 
dentro em pouco a acção de Carvalho. O opulento terreno 
do Brasil não dava á metrópole somente productos da agri- 
cultura e o metal por excellencia precioso. À torrente fulva 
do ouro tmham accrescido os diamantes, descobertos, em 
1729, nesse privilegiado districto das Minas, onde, se é 
verdadeira a tradição, um individuo familiarizado com as 
gemmas da índia, pela primeira vez os conheceu. Um acaso 
vulgar, a visita do forasteiro á cabana de um sertanejo, deu 
repentinamente valor a «ssas p-edras, até ahi desdenhadas, 



^ Despacho do duque de Sotomayor em um curioso artigo do P. 
B. Duhr: Ziir Chutaktetisiik Pombais nach den snanisclien Papiereu 
in Si mancas, na revista Zeííschrift fiir kath. Theologle, vol. xxni. 
iSOO pacr. 444. 



A MINERAÇÃO DOS DIAMANTES 107 

e recolhidas, como crystaes vulgares, na areia dos regatos, 
ou nos tejucos dos pântanos. 

O contentamento foi enorme, mas bem depressa se 
converteu para uns em miséria, para outros em cuidados. 
No local onde manava essa opulência, o circulo das prohi- 
bições e castigos, existentes por causa do ouro, apertou-se 
ainda mais. Na corte toda a casta de receios assaltou ia 
avareza. Chegou-se a temer que a producção copiosa e, 
como a 'muitos parecia, inexhaurivel, tirasse ao diamante a 
nobreza, para o reverter em simples calhau. E, na verdade, 
até certo ponto, os acontecimentos iam justificando o temor. 

Poucos annos eram passados, e já o diamante de boa 
agua baixara no preço para 2S400 réis o quilate. A explo- 
ração era livre, como a do ouro, mediante o imposto da 
capitação, e o producto excedia consideravelmente a capa- 
cidade de emprego no paiz. Quando o fausto da coroa, a 
ostentação dos santuários, a vaidade dos fidalgos, o capricho 
das mulheres, chegaram ao limite de saturação; quando as 
bolsas exgottadas nada mais podiam dar, fechou-se o mercado 
nacional para a inútil mercadoria. Estagnavam os thesouros, 
nas mãos dos possuidores, como a agua nos paiíes. Procu- 
rou-se dar-lhes sabida para outros paizes, mas a dique dos 
judeus, que em Londres e Amsterdam monopolizava o 
commercio da pedraria, promettia desbaratar toda a concur- 
rencia. Em 1734, D. João V mandou cessar inteiramente a 
extracção. 

Um hebreu português, residente na Inglaterra, a quem 
o Enviado Marco António consultou por ordem do governo, 
suggeriu o regimen d'ahi por deante seguido. A prohibição 
existente ficou definitiva, creando-se o estanco, pelo qual 
a extracção dos diamantes se deu em privilegio a um só 
individuo, mediante arrematação. As vantagens pareciam 
importantes. A capitação, que, no principio de cinco mil réis, 
passara a 34 mil, elevou-se a 230 mil réis. Para conter a 
producção limitou-se a área explorada, e fixou-se o máximo 
numero dos trabalhadores em seis centos. A organização, 
permittindo ao contratante, livre da concurrencia, regular a 



108 O CONTRACTO DOS DIAMANTES 

offerta, e escolher o momento opportuno das vendas, afastava 
o receio de se tornar o producto, pela abundância, depreciado. 

Todavia, não corresponderam jamais os resultados á 
expectativa. O privilegio era dado por quatro annos. Em 
1753 terminava o de Francisco Caldeira Brant. Pela tradição 
brasileira, o periodo d'este contrato representa uma era de 
excepcional prosperidade e socego, para os habitantes da 
região diamantifera. A vigilância, tão ferrenha sob o regimen 
da mineração livre e dos primeiros contratos, afrouxou. As 
devassas cxtinguiram-se, e o contrabando, não reprimido, 
facultou virtualmente a todc-^s a exploração. Tudo com assenti- 
mento de Caldeira que, não obstante renunciar ás principaes 
vantagens do privilegio, a olhos vistos enriquecia, segundo 
a opinião geral. 

A tradição da bondade do arrematante parece enganosa. 
Ou elle era por Índole negligente, ou lhe conviria fechar os 
olhos ás alheias transgressões, para lhe não descobrirem as 
próprias. Certo é que, com taes desvios, não lhe poude 
o cabedal progredir. O monopólio, pago tão alto, e em que 
o principal valor do contrato consistia, deixava de existir; 
as despesas da exploração eram enormes; e, se bem que o 
numero de trabalhadores fosse, conforme a tradição, clandes- 
tinamente elevado a quatro mil, o edifício d'essa imaginaria 
prosperidade em breve desmoronou. 

Além dos gastos, aviolumados pela faustosa existência 
do contratador, e pelo suborno dos fxmccionarios, que 
encobriam os íabusos, havia o empate, pelo valor das pedras 
em deposito, representando avultadas sommas. Para não 
depreciar o mercado, fora estabelecido, neste contracto, que 
os diamantes, a elle pertencentes, só se venderiam quando 
acabados os remanescentes do período anterior. Nesta época 
achava-se Caldeira em débito de 594 contos, por impostos 
e adeantamentos, com a fazenda real; mais 449 em Lisboa, 
com varias pessoas, por empréstimos sobre o penhor de 
diamantes; e chegava a frota com saques, no valor de quasi 
300 contos, que não puderam ser pagos. 

No Brasil declarava Caldeira a sua insolvência, preten- 



EMBARAÇOS ATTRIBUíDOS AOS HEBREUS 109 

dendo, para a explicar, haverem-lhe subtrahido dos cofres 
pedraria no valor de duzentos mil cruzados. Este roubo 
nunca se ponde piov^ar, e, pela dolosa fallencia e conhecidas 
transgressões, foi o arrematante preso e remettido para o 
reino, perdendo todos os bens. 



V 



A conjunctura era de risco para os interesses da coroa, 
empenhada na alta do preço. Carvalho, que, por temperamento 
e systema, em toda a parte enxergava conspiradores, iattribuiii 
logo os embaraços a um conluio de hebreus, cujo agente 
seria Francisco Salvador, quando fez adoptar pelo governo 
português o regimen existente. A grei exultava agora, recupe- 
rando o monopólio, que de tempos immemoriaes fora seu. 
Pelos portos do Mediterrâneo, em outras eras; mais tarde, 
quando as nossas descobertas o permittiram, torneando a 
Africa, eram sempre os israelitas que á Europa traziam as 
pedras preciosas, adquiridas na índia. A apparição de tiia- 
mantes no Brasil seria para este commercio golpe fatal, se 
a intervenção de Salvador o não tivesse a tempo desviado. 
Taes eram, em semelhante matéria, as convicções do ministro, 
quando dizia: «Os hebreus, que constituem uma republica, 
cujos individuos, espalhados por todas as quatro partes do 
mundo, observam entre si umia tal e tão estreita ligação, e 
uma tão intima correspondência de recíprocos interesses, e 
mútuos auxilios que, sem terem um chefe que lhes sirva 
de centro de união, se fazem muito poderosos, havia muitos 
séculos que faziam este precioso commercio exclusivo, pelas 
escalas do Levante, e, quando as nações christãs da Europa 
foram ao Oriente, pela navegação do cabo da Boa Espe- 
rança, 

Achando-se pois já então os ditos hebreus tão instruídos 
em todos os interesses e em todas as opporf unidades do 
mesmo commercio, quando as outras nações da Europa se 
achavam destituirias d'estes conhecimentos, se propuzeram 



110 EAABARAÇOS ATTRIBUIDOS AOS HEBREUS 



por objecto conservarem-se na posse do fechado monopólio, 
que antes s€ tinham arrogado» i. 

ÍZ acerca de Francisco Salvador, e do- seu projecto posto 
em pratica, cessando a exploração livre das jazidas: «Causou 
ao dito famoso hebreu uma grande alegria não só ver 
fechadas as minas do Brasil, que lhe tinham envilecido um 
gcnero, em que consistia uma das mais importantes partes 
dos seus grossos cabedaes, e dos outros monopolistas da 
sua nação, com elle associados, mas também achar-se auto- 
rizado para fazer cessar, com os seus sinistros conselhos, 
o grande prejuizo que lhe tinha causado, € causaria, o novo 
descobrimento das minas do Brasil. Com estes pontos de 
vista, para elle tão claros quanto foram escuros para 'as 
pessoas que o dito senhor rei D, João V havia encarregado 
d'este importante negocio, formou pois o mesmo hábil le 
astuto hebreu, e mandou o dito ministro plenipotenciário 
á sua corte, o plano tíe ruina, que foi logo mandado pôr 
em execução, como effectivamente se fez, com as tristes 
consequências que eram naturaes de um tal antecedente^) 2. 

Se a existência de uma liga de israelitas, ostensivamente 
ou por tácito accordo, para conservarem entre si algum ramo 
de commercio, particularmente o das pedras finas, por muitos 
factos se pode comprovar, outro tanto não succede com 
o propósito, attribuido a Salvador por Carvalho, que tinha 
a idéa fixa dos conspiradores como outros o delirio da 
perseguição. Este exagero de conceito não lhe obstava, 
todavia, a comprehensão nitida das necessidades do momento, 
e foi com a sua habitual decisão que afastou a crise pendente 
sobre o commercio da capital. Â noticia de terem sido 
protestadas as letras, assumiu para o thesouro o encargo 
das mesmas, mandando-as pagar pela Casa da Moeda, Exo- 
nerou os caixas, sacados, representantes do fallido, e substi- 
tuiu-os por outros, que nomeou, incumbindo-lhes tomassem 



1 Deducção compendiosa do contrato da mineração dos diamantes, 
Cc-ll. Pomb., Cod. 695. 

2 Deducção compendiosa, etc. 



MONOPÓLIO DOS DIAMANTES 111 



conta das pedras existentes e das que chegavam, e fossem 
realizando vendas paulatinamente, para não ser o preço 
envilecido. Sobre isto, deu ordem para se arrolarem os 
diamantes empenhados, intimando aos detentores que os não 
poderiam vender, ou passar de mão, sem preceder licença 
regia. Com estas providencias foi o perigo do momento 
conjurado. 

Feito isso, para salvar da perda imminente este negocio 
rendoso do Estado, não se lhe deparou melhor recurso que 
a continuação d'esse mesmo regimen de monopólio, impu- 
tado á malicia dos judeus. Guidoíu, pois, de restabelecer, 
na sua integridade, o privilegio, que a incúria do precedente 
concessionário verdadeiramente annullara. E, para o tornar 
mais effectivo, declarou, por um decreto, que d'ahi por diante 
a coroa tomava o contrato debaixo da sua immediata prote- 
cção. Por effeito d'isso, novas disposições sahiram á luz, 
excluindo o publico do tráfico. Até esse tempo limitava-se 
o privilegio á extracção. Pelo recente decreto foi clle também 
extendido ao commercio das pedras. Vedou-se aos particu- 
lares, em Portugal e nas colónias, a compra ou a venda 
dos diamantes em bruto. Estes só podiam vir para o reino 
devidamente manifestados, e nos cofres reaes. Para fora do 
paiz, tinham de levar uma guia do contratador. Renovava-se, 
com maior aperto, o regulamento da entrada e sahida de 
pessoas e géneros no districto diamantifero, onde não era 
consentida a permanência de vagabundos, ou adventicios 
sem occupação constante e conhecida. Na mesma occasião 
foram mandados, por uma carta régia, expulsar do Serro 
Frio, vários ecclesiasticos, que para alli, chamados pela cubica, 
tinham ido. Pesadas comminações contra os transgressores 
deviam manter, conforme as idéas do tempo, a estricta obser- 
vância do decretado. 

Ao mesmo tempo occorreu ao ministro oppôr á dique 
dos hebreus um syndicato christão, para vender as pedras 
nas praças da Europa. Com este objecto, D. Luiz da Cunha, 
nosso ministro em Londres, fez naquella cidade algumas 
diligencias. Mal succedida alli, a tentativa teve bom êxito 
na Hollanda, onde, por intermédio de Hermano José Braamcamp, 



112 DEFESA E VAI.ORISAÇÃO DO DIAMANTE 

estabelecido em Lisboa, o plano grangeou o concurso de 
vários capitalistas. A surpresa do grupo da especulação foi 
grande, segundo Martinho de Mello deixa ver em um 
despacho: «O negocio dos nossos diamantes tem feito um 
tal ruido na Bolsa de Amsterdam, que presentemente é o 
objecto em que falam e se accordam a maior parte dos nego- 
ciantes d'aquella cidade;>. Atterrados, os judeus pretenderam 
subornar a Carvalho, oíferecendo-lhe uma somma avultada, 
cem mil libras esterlinas. Pelo menos elle assim o affirmou: 
«Procuraram lançar sobre mim aquella pesadíssima bomba, 
que no modo de imaginar d'aquelles paizes não entendiam 
que me causasse grande espanto; e só depois que viram 
que, na serenidade philosophica que Deus me ajtidou sempre 
a observar, não era nem podia ser a mesma bomba de effeito 
algum, trataram de subornar e corromper aquelles outros!» ^ 
É singular que, nesta matéria delicada, o ministro cale o 
por quem e o como ia tentativa se realizou. Nada, todavia, 
nos impede de acceitar o facto por verdadeiro. 

Entretanto ia avante o plano de defesa, em Portugal. 
Um grupo, de que Braamcamp fazia parte, tomcu o privi- 
legio da exportação dos diamantes. Entre os sócios occultos 
da empresa, encontramos, se Carvalho é digno de fé, esse 
mesmo Francisco Salvador, alvo de tantas suspeitas. Seriam 
estas fundadas e devemos nós considerar o concurso do 
israelita como uma nova insidia, para fazer abortar o negocio? 
É muito difficil responder com segurança sim ou não. 

O contrato, que se fizera por seis annos, foi annullado 
antes do prazo, a pedido dos concessionários, quer vencidos 
na competência, e exhaustos de recursos pecuniários, consoante 
ao que allegavam, quer sobre elles obrasse a corrupção, 
segundo Carvalho insinua. A segunda hypothese justificava 
para este a presença de Salvador no syndicato. Só Braamcamp 
sahia immune de susp^eita. 

Outro grupo de negociantes, substituindo o primeiro, 
não foi mais feliz, e ao cabo de três annos abandonou a 



^ Deducção compendiosa, etc. 



INSPECTORIA GERAL DOS DIAMANTES 113 

empresa, com o pretexto de que a pedraria da índia, affluindo 
aos mercados, não deixava vender a do Brasil. Ainda d'esta 
vez Carvalho attribue o insuccesso ao suborno pelos hebreus. 

Para nova arrematação foi preciso reduzir o preço pelo 
qual se entregavam os diamantes. De 9S200 réis por quilate, 
que tinha sido antes, passou a 8^600 réis. A producção, 
que nos termos do primeiro contrato não devia exceder de 
35 mil quilates annuaes, elevou-se a 50 mil no segimdo, € 
chegou a muitos mais no terceiro, que durou desde 1760 
até 1771 1. 

A despeito da protecção régia, affirmada em violentas 
medidas de vigilância e repressão, a empresa da mineração 
no Brasil não prosperou. As despesas eram enormes, e, a 
cada remessa para o reino, o thesouro tinha de adeantar 
fundos aos caixas, para o pagamento dos saques. Agora 
que já não existiam as causas encontradas nos meneios de 
Salvador ou na improbidade de Brant, o monopólio da mesma 
forma não dava os resultados promettidos. Em 1771, Carvalho 
resolveu transferir ao Estado a exploração. Para isso tomou 
conta das casas, ferramentas e escravos, pertencentes ao 
arrematante, organizou os serviços locaes, e entregou a 
gerência superior á Inspectoria Geral dos Diamantes, annexa 
ao Erário, e subordinada, portanto, directamente ás suas 
ordens. Occorre perguntar se foi d'ahi por diante a adminis- 
tração mais zelosa; se a parte de lucros do arrematante, 
revertendo á coroa, augmentou em proporção considerável 
os rendimentos d'ella. Ainda sem algarismos, que nol-o 
confirmem, a notória inferioridade da gerência do Estado 
em qualquer ramo de indjustria, do que Portugal não poderia 
exceptuar-se, e a situação precária da fazenda publica nos 



^ A eslatis+ica da exportação dá o seguinte: 

Primeiro periodo: 1753 a 55, arrematantes Bristow Ward Hf C.'>, 
121.814 3/4 quilates, valor 1.188:348$425. Segundo periodo: 1757 a 
60, João Gore e Josué Van-Neck, 115.659 quilates, valor 1.067:198$ 850. 
Terceiro periodo: 1760 a 71, Daniel Gil de Meester 925.589 3/4 qui- 
lates, valor 8.144:165§537. Deducção Compendiosa, cit. 

o AtARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 8 



Ill ABOLIÇÃO DAS FROTAS 



ultimos annos de D, José, autorizam a suppôr q^ue nenhum 
dos casos se realizou. 



VI 



Com as providencias económicas referidas, e que eram 
contadas por Carvallio entre as mais relevantes da sua admi- 
nistração, convém mencionar o regulamento das frotas, 
estabelecendo as épocas de sahida para o Brasil e da volta, 
e regulando a ordem do ser\iço dos portos; e o privilegio 
do trafico da índia, concedido a Feliciano Velho Oldemberg, 
que para o explorar constituiiu uma companhia, 

O regulamento, fazendo embaraços e atrop-ellando a nave- 
gação, occasionou vehementes protestos, já na metrópole, já 
no Brasil, onde nunca poude ser á lettra executado. Dando 
conta a seu irm.ão, governador do Pará, d'esías opposições, 
que se jactava de vencer com mais apertados e severos 
preceitos. Carvalho, nessa mesma carta, tinha de confessar 
a justiça das reclamações, e o improficuo da sua lei. «O 
tempo tem aqui corrido tão contrario — dizia no post-scriptum 
— que a frota não poude deixar de exceder na sua partida 
o termo prescripto pelo decreto» i. A occasião não foi única, 
e repetida muitas vezes, num tempo em que as contingências 
do mar eram innumeras, convenceu^e afinal o ministro a 
melhor doutrina. Em 1765 aboliu a navegação em commum 
obrigatória, e deu a liberdade ao commercio marítimo, reco- 
nhecendo nessa nova lei os grandes inconvenientes e graves 
prejuizos da prática anterior. 

A empresa da índia, que seria um timido ensaio da 
proposta de Cleland, terminou por um desastre conimercial. 
A concessão, varias vezes modificada, veiu a consistir final- 
mente no privilegio da navegação para a índia e a China, 
por dez annos, mediante certa renda paga ao Estado, le 
com a obrigação de trazer cargas de salitre no retorno, para 



15 março 1755. Coll. Pomb., Cod. 626. 



FALLENCIA DA EMPRESA DA ÍNDIA 115 

O governo comprar. Muito favorecida, a companhia em pouco 
tempo se constituiu devedora de grandes quantias, appli- 
cadas a gastos que o trafego diminuto não cobria. Do 
núncio alcançara 600 mil cruzados, extrahidos do cofre da 
Terra Santa, com escândalo do Provincial franciscano, admi- 
nistrador, que protestou contra o abuso. À fazenda real devia, 
em abril de 1754, 400 mil cruzados, recebendo mais, nessa 
occasião, 69 contos, e em junho 80 contos de réis. Todo 
o acervo social estava em hypotheca ao Estado. O emprehen- 
dimento terminou pela fallencia, liquidando a companhia 
passado o terremoto. Havia durado três annos i. Primeira 
tentativa infeliz de um systema, em que não tiveram melhor 
sorte as seguintes. 

A execução do tratado de limites no Brasil, o estabe- 
lecimento da Companhia do Grao-Pará, a declaração da 
liberdade dos indigenas da America, pertencem a este periodo 
do governo pombalino, antecedente ao terremoto, e constituem 
na sua ligação o facto culminante de todo o reinado. Com 
effeito, esses actos levaram Carvalho á lucta com os jesuitas, 
e d'ahi por deante toda a sua administração se orienta pela 
idéa, sobreposta a tudo o mais, de os vencer, e anniquillar. 
Com mais detença, pois, serão considerados. 



1 Cf. docun-ientos na Co!!. Pomb., Cod. 651. 



CAPITULO IV 



A CORTE E AS FACÇÕES 



Hábitos da corte portuguesa. As duas rainhas. Juizes sobre Carva- 
lho. Lentidão das decisões ministeriaes e suas causas. — II. 
Inicio feliz do novo governo. Carvalho e Pedro da Motta. Os 
descontentes. Procedimentos contra os nobres. Os funccionarios. 
O grupo clerical. — III. Os jesuítas no Pará-Maranhão. A 
escravidão dos indígenas. Variações dos jesuítas. — IV. Inter- 
venção do Summo Pontífice. Esforços de um colono contra os 
missionários Tratado de limites na America. Desagrado que 
causa em Madrid e Lisboa. — V. As sete reducções do Uru- 
guay. Rebellião dos Índios. Opposição ao tratado no Pará. — 
VI. Xavier de Mendonça propõe-se libertar os indígenas. Pro- 
jecta uma Companhia. Cria-se a do Grão-Pará e Maranhão. Pro- 
testo do commercio lesado. Os jesuítas guerreiam a Companhia. 
Carvalho reprime as reclamações. 



Não começou a predominante influencia de Carvalho, 
como geralmente se cuida, na hora trágica do terremoto. 
O que já fica dito de confissão sua própria, que testemiunhos 
contemporâneos abonam, mostra ter elle, desde os primeiros 
teímpos, possuído a illimitada confiança do novo rei. A 
assiduidade do ministro ao trabalho, em contraste com o 
principal secretario de Estado, Pedro da Motta, a clareza 
de seu entendimento, o manifesto espirito de reformar praxes 
antiquadas, e corrigir abusos passados e recentes, depressa 



lis A RAINHA D. MARIANNA VICTORIA 



lhe grangearam a estima do rei. E este tinha por fortuna; 
o ver-se aliiviado dos cuidados, de que fora excluido até 
á edadc madura, podendo hvremente entregar-se ás diversões 
que liie eram caras, e para as quaes a rainha, em extremo 
ciumenta, lhe animava a inclinação, no intuito de o guardar 
junto de si. 

O enviado de Áustria, conde Stahremberg traça, em 
despachos interessantes, o viver da corte portuguesa naquelle 
tempo. O theatro, a caça, a equitação eram os favoritos 
prazeres da familia real. Todos os dias, fizesse bom ou mau 
tempo, ia D. José para a quinta de Belém, acompanhado 
da rainha, que o não largava, algumas vezes das infantas 
suas filhas, e de um séquito de fidalgos e damas do paço. 
Alli passavam o dia, em exercícios no picadeiro, ou então 
jogando as cartas. O pharaó, jogo de parar muito em voga, 
era o predilecto. Das oito para as nove horas voltava-se ao 
paço da Ribeira, indo o rei trabalhar com os ministros até 
á meia noite ou depois ; mas havia quem dissesse não entrar 
elle para o gabinete antes das onze horas, limitando-se ,a 
dar as assignaturas, que eram em grande numero i, 

A rainha D. Marianna Victoria fora, aos cinco annos 
de edade, noiva de Luiz XV. Roto o projecto de consorcio, 
quando já havia estado em França algum tempo para se 
habituar aos usos da corte, viera para Lisboa, aos onze 
annos, esposa de D. José. Foi na occasião em que, entre 
Portugal e Hespanha se realizou a celebre troca de princezas 
no Caia. O matrimonio consummou-se ao completar a infantil 
desposada quatorze annos. Como o marido, tinha ella gosto 
excessivo, verdadeira paixão, pela caça. Passavam grande 
parte do tempo em Salvaterra, ambos o dia inteiro a cavallo, 
ou pisando mattos, em busca do que matassem. Uma vez, 
por descuido da pontaria, ou imprevisto accidente, alguns 
bagos de chumbo da arma da rainha attingiram no rosto a 



1 Rei. de 12 fevereiro 1751, cf. o artigo de B. Duhr na revista 
Sfimmen aus Maria Laac/i, anno 1890, fascículo 2, pag. 187, ed. 
Herder. Vienna. 



A RAINHA VIUVA 119 

D. José, que por maravilha não perdeu um olha. Calcule-se 
o alarido. Mais do que ninguém, a rainha viuva se pronun- 
ciava contra o ardor venatorio da nora, cujo dominio no 
espirito do rei não lograva rebater. Mas não era essa a 
única sua queixa. Quando pensava, elevando ao poder um 
protegido, ter algum voto nos públicos negócios, via-se d'elles 
inteiramente afastada pela personalidade absorv^ente d'aqueile 
mesmo a quem dera importância e a mais brilhante situação. 
Nem ella, nem o infante D. Pedro, destinado marido da 
sobrinha, herdeira da coroa, tinham a menor parcella de 
influencia politica; e o casamento parecia projecto esquecido, 
se não definidvamente abandonado. O despeito materno e 
de rainha desabafava a miúdo em confidencias ao conde 
Stahremberg, taxando a Carvalho de refalsado; mas por 
outra piíarte, talvez pelo decoro da posição, D. Marianna de 
Áustria cedia em tudo, até nas matérias do seu próprio 
interesse, á vontade do secretario de Estado, tão paciente 
sempre que pasmava d'isso o diplomata seu compatriota \ 

Chegado este, havia pouco, a Lisboa, dizia á sua corte : 
«Segundo oiço, Carvalho procura dilatar o mais possível as 
suas attriboições aos outros departamentos, de modo a 
tornar-se pessoa necessária». Observava ser o caracter do 
rei em extremo bondoso, e por tal razão fácil de dominar; 
antes, pois, o dirigisse um homem de mérito, como aquelle, 
do que um padre, como i\o precedente reinado, ou então 
algum valido ^ Prova do favor crescente do secretario de 
Estado dava a escolha de seu irmão, para a capitania geral 
do Grão-Pará, sendo obscuro official de marinha e sem 
antecedentes que para tão elevado cargo o recommendassem 3. 

O rei, que no principio dava mostras de se applicar 
ás coisas do governo «está agora — diz Stahremberg — inteira- 
mente mudado, e gasta o mais do tempo na caça, em 



^ Stahremberg. Rei. ao imperador, 26 dezembro 1751. Duhr art. 
cit. pag. 194. 

- Relat. revista cit., 18S. 

3 Despacho ao conde CoUoredo, Id., 189. 



120 juízos de diploautas sobre carvalho 

cavalgadas, jogo, concertos e que taes diversões, deixando 
a Canalho, em quem põe absoluta confiança, inteiramente 
senhor do poder '. A elle c a Diogo de Mendonça considera 
o mesmo diplomata «homens serias, trabalhadores, e bem 
intencionados, de quem tudo se pode esperar, se perma- 
necerem nos cargos» ^. 

Todavia, meses depois, já de outra forma se exprime. 
Julga fora do commum e cega a confiança do soberano em 
Carvalho «que tudo governa qual um déspota ao sabor de 
seu capricho» ^ Da actividade que em principio louvara já 
profere outro conceito. Em todos os ramos da administração 
.encontra desleixo e incúria ^ Principalmente nas relações com 
os representantes extrangeiros. «Tudo aqui vae de vagar — 
argúe — todas as cousas com vagar são tratadas, e de vagar 
se executam. Da minha promemoria, entregue ha dois meses, 
ainda não tenho resposta, se bem que todos os dias a soli- 
cite» '. O ministro de Hespanha, que aliás gosava de toda 
a consideração na corte, assegurava não ter podido ainda 
obter a mais simples resposta, sim ou não, sobre qualquer 
assumpto. Ao da Grã-Bretanha não só faltavam com a 
solução das questões, como ás vezes nem sequer lhe davam 
troco aos communicados. A carta pessoal do rei Jorge, a 
participar o fallecimento do príncipe de Galles, apesar de 
muitas instancias, ao cabo de dois meses, não lh'a tinham 
ainda accusado ^ O embaixador francez, conde de Baschi, 
queixava-se da lentidão com que tudo se fazia em Portugal; 
por exemplo: passado um mez que pedira a Carv^alho o 
protocollo do ceremonial para a sua entrada publica, ainda 
não fora attendido l Notava não se poder alcançar despacho 
algum de Carvalho, que se esquecia das cousas frequente- 



1 Relat. idem, 193. 

2 Icl., id., 1S9. 

3 Rei. 12 novembro 1751, Id., 193. 
* Id.. id. 

•• Desp. de 21 abril 1751, rev. cit. 191. 

c Desp. de 22 Junho 1751, Id. 191. 

' Santarém, Quadro elementar, VI, 34. 



LENTIDÃO DAS DECISÕES MINISTERIAES 121 



mente, dando motivo a desagrados; e explicava que, ou 
o ministro não tinha idóneos auxiliares, ou, desconfiado, 
preferia fazer tudo por suas próprias mãos, ou finalmente 
«folgava mais do que devia de esperdiçar o tempo em 
conversações» ' . 

E não occorria isto somente no dominio da diplomacia; 
na administração interna reinava desídia egual. Em 1751 
cuidava-se de uma promoção no exercito, cujos quadros 
importava preencher e renovar. A esse respeito dizia Stah- 
remberg que «este e outros actos importantes do governo 
successivamente se adiavam e a csperançta de os ver realizados 
cada vez mais se perdia 2, Nesse anno a frota do Maranhão, 
prompta a fazer-se de vela, ficou retida três meses, com 
grande prejuizo do commercio, á espera dos despachos do 
governo. «E assim é sempre — accrescenta o diplomata — e 
com todos os negócios, sejam estes os mais importantes e 
complicados, ou os de menos peso e difficuldade» ^. Em 
todo o tempo do governo pombalino foi assim. Na casa do 
ministro amontoavam^se os papeis. Quando deixou o poder, 
levaram auxiliares seus de confiança muitos dias a queimar 
mais de dez mil cartas fechadas, existentes entre elles, refere 
um contemporâneo "*; e, ficaram ainda tantas outras, e reque- 
rimentos sem despacho, que o separar e ler o acervo foi, 
para o seu successor, trabalho de muito tempo ^. Não seriam 
rigorosamente assim os factos, mas correndo por taes, cara- 
cterizam o methodo. A nova administração não desmentia a 
tradicional fama da somnolencia portugueza, e o mais vivaz 
de nossos estadistas, trabalhador incansável, incorria nas 
mesmas culpas de um Pedro da Motta, e outros seus prede- 
cessores, por temperamento escravizados á inércia e á rotina. 



1 Id., 48. 
^ Rei. cit. 192. 
3 Id. 191. 

* Cartas de A. W. Costigan, Ms. Coll. Pomb., Cod. 682. 
5 Carta de um agente francez ao cônsul geral Simonin. L.\tino 
Coelho, Hist. politica e militar de Portugal, I, 283. 



122 CAUSAS DA LENTIDÃO MINISTERIAL 

A razão c que, além do amor da papelada e espirito 
burocrático, que nelle sempre foram característicos, o accu- 
mulo de negócios não permittia a Carvalho prestar a cada 
um d'elles a attenção necessária. Sempre á cata de alargar 
o âmbito das suas attribuições, e querendo elle próprio ter 
em mão o mecanismo inteiro do governo, não vencia, apesar 
de um labor enorme, a tarefa diária. No seu propósito de 
tudo inquirir, reformar e prover, a cada momento assumptos 
novos lhe reclamavam a attenção, e o projecto do dia seguinte 
supplantava o da véspera. Também os deveres sociaes, rece- 
pções e visitas, a que, pela sua posição, não podia esquivar-se; 
o adeantar de suas ambições; o cuidar dos seas interesses 
domésticos, tudo isso representava tempo perdido, que aliás 
se compensaria pela racional distribuição dos serviços entre 
adequados auxiliares. 

Ao envez d'isso, foi a norma constante de Carvalho 
guardar em si com ciúme todas as iniciativas. Seus collegas, 
secretários de Estado, haviam de ser meros subordinados, 
O que sobre o assumpto dizia Stahremberg repetiram-no os 
seus successores. Khevenhiiller em 1757: «Segundo o lumor 
publico, e também as apparencias, Carvalho é quem exclusi- 
vamente governa» i. Em 1771 Lebzelterrt: «Pombal entende 
resolver todos os negócios, tanto internos como externos, 
sem excepção dos de infimo valor» ~. E mais tarde, quando 
falleceu D. José : «Nestes vinte e seis annos, o marquês de 
Pombal é quem sósinho e por si mesmo tudo tem resolvido» ■'. 
Às vezes sem conhecimento e contra a própria vontade do 
rei. Em 1765 os mouros acometteram Mazagão, que tivemos 
de abandonar, e havia já dez dias partira uma frota de 
soccorro quando, e somente por acaso, D, José soube que 
Marrocos se levantara em guerra, e então pela primeira vez 
se mostrou agastado com o ministro *. As informações da 



1 Despacho de 23 dezembro 1756, citado por Duhr, Pombal 
sein Charakter iind seinc PoUíik, pag. 14. 
' Desp. 11 maio 1771. Id., 15. 
3 ReL Vi de?. 1776. Id., 16. 
* Desp. 28 março 1769. Id., 15. 



os COLLEGAS DE CARVALHO 123 



corte de França revelam o mesmo. Choiseul diz, nas instru- 
cções ao embaixador conde de Merle, que D, Luiz da Cunha, 
ministro dos extrangeiros, e Thomé Corte Real, da marinha, 
não passam de creaturas, e como que empregados, de 
Carvalho, «que só lhes deixa um vão titulo e funcções subal- 
ternas», em quanto elle <;sem o titulo, exerce realmente as 
funcções de primeiro ministro» i. Subordinados servis do 
conde de Oeiras — d'este modo as instrucções posteriores, para 
os enviados Saint-Priest e Clermont d'Amboise, designam os 
collegas de Carvalho -. Acerca de D. Luiz da Cunha referia 
Khevenhiiller que se alguém lhe falava de assumpto já antes 
submettido ao conde de Oeiras, tivesse por certo ouvir a 
mesma resposta, e até ás vezes nas mesmas palavras •^, 



II 



Nos primeiros tempos do reinado, a attracção da novi- 
dade, a expectativa de melhor governo, excitavam geral 
satisfação. A eleição dos dois novos secretários de Estado 
foi acolhida com applauso. Parecia restabelecer-se a ordem 
nos ser\'iços públicos, e a administração sahir do chãos, em 
que se achava no ultimo período. Ambos manifestavam acti- 
vidade. A situação do erário parecia mais prospera. Conti- 
nuavam as obras do Estado, e as tenças concedidas por 
D. João V pagavam-se rcgularmerne 1 Cuidava-se dos débitos 
atrazados, e avisadamente se destinaram fundos para amor- 
tizar quatro milhões que a fazenda real devia á praça de 
Lisboa, passavam já vinte annos ^ A impressão de conten- 
tamento era por isso commum. É o que em taes circtim- 
stancias, em toda a parte, usa succeder. 



^ Recneií dei, instructions aux ambassadeurs et ministres de trance. 
Portugal, pag. 324, 323. 

2 Id. 345, 360. 

3 Dcsp. 23 dezembro 1756. Duhr, Pombal 14. 

* Quad. Elem. VI, 4, oíficio do cônsul francez Duvernay, 
5 Id. 12, off. de Duvernav. 



121 OS DESCONTENTES 



A mesma devoção que, antes de ministro, Carvalho 
testemunhara ao padre Carbone enfermo, demonstrava agora 
ao inváhdo Pedro da Motta. Com elle se desvelava em 
manifestações de respeito e carinho. D'estas foi o ekgel-o 
padrinho de um filho, no baptismo. Affectava constiltal-o em 
tudo; e, sob pretexto de o alliviar de trabalho, excessivo 
para seus annos e achaques, avocava a si as attribuições do 
velho ministro, que entrou a ser parte inactiva no mecanismo 
governamental. Sequestrado dos negócios, sem ir ao paço, 
nem falar ao rei, Pedro da Motta não podia exercer influencia 
alguma na administração. Até 1756 conservou nominalmente 
o posto, e desappareceu da vida ignorado, como ignorado 
pouco a pouco desapparecera da scena politica. 

Entretanto, e como não é de extranhar, formara-se um 
partido de descontentes de que Alexandre de Gusmão e o 
ex-valido frei Gaspar, apeados de toda a autoridade, seriam 
provavelmente os fautores. Mas não foi difficil a Carvalho 
annullar estes émulos, e para isso bastaria lembrar a D. José 
o afastamento em que, governando elles, seu pae o manti- 
vera, não lhe consentindo interferência, por minima que 
fosse, em negócios do Estado. 

A morte, que occorreu dentro em breve, de frei Gaspar 
dissipou quaesquer esperanças que sobre o retorno de seu 
predomínio se houvessem fundado. Os descontentes acerca- 
vam^se agora do infante D. Pedro, desilludido na expectativa 
de algum dia reinar, desposando a sobrinha. O régio casal 
não descrera ainda de lhe ser possível successão varonil. 
Impetrava esse favor do céo com votos e novenas, e appel- 
lava para o tempo, na esperança de afinal mudarem as 
condições da natureza, ou se dobrar a vontade divina. 

Á testa do grupo adverso ao ministro era natural achar-se 
o fidalgo, que depois consummou a mina da sua casta, e 
ao contendor preparou o decisivo triumpho. José de Masca- 
renhas, marquês de Gouveia, occupava entre a nobreza do 
reino logar conspícuo. Sobrinho de frei Gaspar, e. pela 
protecção d'este, mordomo-mór, presidente do Desembargo 
do Paço; v^aidoso da sua estirpe, em que havia sangue real, 
e da fortuna, accrescentada pela herança que lhe viera com 



os DESCONTENTES DA NOBREZA 125 

O titulo do duque de Aveiro, não se consolava de haver 
perdido de uma vez influencia e prestigio. À volta d'elle 
congregava-se a fidalguia, offuscada pelas audácias de 
Sebastião José — assim por desdém nomeava o parvena — 
e menoscabada nas preferencias que, por habito e tradição 
reputava prerogativas suas. Com o intruso, que sem linhagem 
ostentava patrício, uma hoste de plebeus arremettera a 
tomar posse dos cargos, até ahi reservados á classe privi- 
legiadia. Causava irritação e assombro a escolha para os 
postos diplomáticos. Stahremberg não occulta o seu pasmo: 
«Além do visconde de Ponte de Lima, (embaixador em 
Madrid), nem um só dos Enviados ás cortes extrangeiras é 
pessoa de distincção» i. Taes os ministros em Londres, Haya 
e Vienna. A rainha viuva queixava-se de terem, apesar das 
instancias d'ella, mandado para Vienna Encerrabodes, plebe,u, 
simples desembargador, em correspondência á pessoa de 
Stahremberg, do mais azulado sangue. 

Nessa época, (dezembro de 1751), já este ultimo, com 
lastima fazia ver que era «a nobreza opprimida e castigada 
com o máximo rigor por qualquer leve culpa». E accres- 
centava: «Os fidalgos, por melhores dotes que possuam, e 
mais se distingam por seus actos, não conseguem emprego 
na corte, e muito menos qualquer posto diplomático.) 2^ Este 
modo de ver de um extranho assas reflecte a irritação que 
naquelle tempo fermentava nos espíritos. 

O proceder do governo com os grandes, soberbos das 
tradições gloriosas de seus nomes, escandalizava tanto pelo insó- 
lito como pelo propósito de agressão, que no conceito d'elles re- 
velava. Em 1752, o marquez de Alorna, que regressava da índia, 
orgulhoso do seu passado guerreiro, e do novo titulo, que 
fora o premio de uma brilhante conquista, recebia, ao desem- 
barcar, ordem de não ir á presença do soberano, até ser 
realizado o inquérito aos seus actos de vice-rei. Arguido 
de prevaricações, nunca lhe consentiram justificar-se ; em 



1 Relatório, Dihr. art. cit. pag. 194. 

2 Relatório, Duhr. art. cit. pag. 194. 



126 PROCEDIMENTO CONTRA OS NOBRES 

desagrado morreu, e o segundo marquês, muitos annos 
depois, na bastilha da Junqueira, reclamava ainda a syndi- 
cancia, que lhe desaggravasse o nome do pae. 

No anno antecedente, vários mancebos da nobreza tinham 
sido desterrados, entre elles o conde de S. Vicente para a 
ilha Terceira, o de Athouguia para Bragança, o da Vidi- 
gueira para Villa Viçosa, mediante julgamento camarário; 
três réos, que não haviam nascido fidalgos, condemnados a 
açoites c galés. O delicto era dos que então se tinham por 
veniaes : tomada de preso, fâmulo de um dos rapazolas, a 
um juiz de fora suburbano, que o mandara agarrar por 
desordem e sahira do conflicto maltratado. Com espanto e 
indignação das famílias e amigos, o soberano desattendeu 
ás supplicas; os moços arruaceiros cumpriram as penas, que 
só foram relevadas quando a rainha de Hespanha por tiles 
intercedeu i. Este e casos similhantes demonstravam entrar 
agora o paiz la reger-se por novos princípios, contra los 
quaes era patente a reacção dos hábitos, dos interesses e 
das vaidades. E isso não somente nas altas espheras. 

No mundo somnolento da burocracia, acordavam também 
descontentamentos. Inesperadas reformas supprimiram, aos 
empregados de justiça e fazenda, certas propinas que abusi- 
vamente recebiam ; a todos os funccionarios se exigia mais 
aturado trabalho e disciplina mais estricta; e, investindo 
contra a rotina secular, novos methodos espertavam para 
acção muitas partes ankylosadas do velho organismo adminis- 
trativo. Era um prurido de corrigir e melhorar, que, excitando 
de toda a parte clamores, raras vezes ia á meta, porque as 



^ D3C. da Bibliothcca Nacional. Coll. Moreira, Cod. 854. Com 
este successo, passado em junho, provavelmente se relacionam os al- 
varás de 28 de julho e 14 de agosto de 1751, que aggravam as 
penalidades de delictos semelhantes. Se bem que referendados por 
Pedro da Moita e pelo marquez de Gouveia, mordomo-mór, por isso 
na presidência do Desembargo do Paço, é licito attribuil-os a Carvalho 
que já em tudo supcnntcndia. A celebre lei, de risonha memoria, 
sobre u delicto de pôr cornos nas portas, sahiu da mesma collaboração. 



os FUNCCIONARIOS E O GRUPO CLERICAL 127 

providencias ora, insufficientes, ficavam áqaem, ora, e esse 
era o caso mais frequente, por excessivas a traspassavam. 

Cioso do poder régio para maior consolidação do seu 
próprio, difficilmente poderia Carvalho esquivar o conflicto 
com o clero. No tempo de D. João V, frei Gaspar da Encar- 
nação personificava o fanatismo na sua forma boçal. Esse 
mesmo fanatismo, por assim dizer intellectualizado, resuni- 
brava no outro confidente régio, o jesuita Carbone. Ambas 
as concepções correspondiam a modalidades diversas do 
espirito nacional. Ambos os validos tinham deixado succes- 
sores e asseclas, e estes, cubiçosos da herança, eram natos 
adversários do poder novo. Se, despedido, o ministro monge 
pouco tempo de vida teve para reivindicar a perdida proemi- 
nência, a sociedade de Jesus conservava, no intimo do paço, 
representantes que não perderiam ponto de contrastar a 
influencia, perante a qual a d*elles se desvanecia. O despeito, 
primeiro, mallogrados interesses, em seguida, excitaram os 
jesuítas contra o ministro, O choque determinou o fatal 
destino da Ordem, os successos mais graves, e toda a politica 
do reinado, 

III 

Qual o sentimento do governo acerca dos jesuítas, veri- 
fica-se das instrucções dadas ao novo governador do Grão- 
Pará, Francisco Xavier de Mendonça. Não desponta nellas 
hostilidade. Ao contrario, mandando fundar no Amazonas 
novas missões, disppem que as de perto da fronteira, mais 
importantes, se dêem aos padres da Companhia, como os 
mais capazes. Alguma prevenção se descobrirá contra Gabriel 
Malagrida, que pretendia, com o producto de esmolas, esta- 
belecer iio Brasil recolhimentos, seminários, e mosteiros de 
monjas; mas os exageros, já então conhecidos, do visionário 
justificam a reserva opposta a seus projectos. Em um acabado 
plano de governo, as instrucções apontavam a urgência de 
pôr cobro aos abusos dos missionários, sobretudo no refe- 
rente ao dominio dos indios. Era, porém, o preceito applicavel 
a todos os religiosos, e de nenhum modo particular aos 



128 INSTRUCÇÕES PARA O GOVERNO DO QRÃO-PARÁ 

jesuítas. Velha questão, latente agora, mas que, res urgida, 
ia ter as consequências mais graves. De tudo se vê que o 
accusado ódio de Pombal aos jesuítas se não manifestava 
ainda. 

As instnicções, é certo, firmava-as Diogo de Mendonça, 
que geria os negócios ultramarinos, mas dífficíl fora acreditar 
que as approvasse o rei, contra o voto de Carvalho, que 
aliás já resolvera assumptos graves, como o das minas, e 
outros da administração colonial. De mais, era o irmão d'este 
quem tinha de as executar, investido para isso em governador 
do Pará-Maranhão, com o titulo de capitão general, para 
mais lustre do cargo. A essa dignidade accrescia a de chefe 
da commissão de limites com a Hespanha, na execução do 
tratado do anno antecedente, Mendonça ao norte do Brasil, 
Gomes Freire de Andrade no Rio da Prata, eram os dois 
chefes de missão, pelo cargo mais na dependência de 
Carvalho, ministro dos extrangeiros, que da secretaria do 
ultramar. Nova razão para suppôrmos que as idéas expressas 
nas instrucções fossem communs, quando não, como é mais 
provável, inteiramente suggeridas por aquelles. 

É de crer que então lhe fossem desconhecidas, até certo 
ponto, as variadas phases da lucta entre jesuítas e mora- 
dores do Brasil, lucta que vinha dos primeiros dias do desco- 
brimento e, sob diversos pretextos, tinha por objecto único 
a exploração do indígena, de cujo domínio cada uma das 
partes queria a outra excluída. Seg^uindo a pratica, iniciada 
em Africa pelo infante D. Henrique, que foi o primeiro dos 
nossos negreiros, os colonos tinham por doutrina assente o 
direito á escravização dos naturaes. Debalde leis successívas 
lh'o vedaram, debalde protestavam contra isso os missio- 
nários; mais que todas as opposições podia o interesse e a 
necessidade. O paiz era pobre. Nada se encontrava allí da 
opima pilhagem da índia. Riquezas haviam de se tirar das 
leivas, ou do seio das florestas, com lavor inaudito, sob o 
clima impiedoso. Para isso não tinham lá ido elles, que 
buscavam a opulência fácil e melhor sorte que na terra natal. 
Com o poder das armas subjugavam os naturaes. A esses a 
tarefa dura, que o europeu, ente superior, repellia, como 



A ESCRAVIDÃO DOS INDÍGENAS 129 

desnecessária fadiga. Tanto mais que eram em numero espan- 
toso, que surprehendia os descobridores. «Ainda que os 
cortassem em açougue, nunca faltariam», — dizia o primeiro 
governador Thomé de Sousa. 

Os usos do reino, a tradição da antiguidade consentiam 
a escravidão. As leis diziam que seria livre o americano, mas 
permittiam que de Africa se transportassem negros, para 
escravos no Brasil. A isto retorquiam, no século XVIIl os 
colonos : «Se os ethiopes podem ser captivados, porque não 
podem sel-o os indios do Maranhão?». Contra tal pugnavam 
os jesuítas que, para salvarem o indio, tinham feito levar o 
africano ao Brasil. 

Mais intensa e duradoura que em parte alguma, foi a 
contenda no Pará. Ao começar o século XVII, quando a 
occupação portuguesa lá chegou, deparava-se ao invasor p 
filão abundante e virgem da vida humana para explorar. 
Tribus numerosas, acossadas desde o sul, tinham subido a 
costa, vindo augmentar a população do território vasto e 
fértil, onde a raça prolífica facilmente medrava. As narrativas 
dos primeiros exploradores, por muito que se desconte ao 
exagero, são unanimes em descrever o continuo alinhar das 
palhotas, á beira de agua, na interminável jornada pelos 
rios, em busca de cabeceiras desconhecidas, ou caminho da 
foz. Essas entradas de agua eram a portada ampla por onde 
os colonizadores se lançavam ás batidas. Tinham ido primeiro 
á cata de ouro e, desenganados, depois só queriam escravos. 

Contra elles se levantou a grandiosa voz de António 
Vieira e, por espaço de um século, a lucta continuou, pendendo 
a fortuna, conforme os tempos, para um ou para outro dos 
contendores. Porém, a disputa, que fora a principio sobre 
se os indios haviam de ser ou não escravizados, versava 
depois sobre o direito exclusivo, que cada um queria, de 
os escravizar. Para si pretendiam os colonos, pela lei da 
necessidade; reclamavam-no os missionários, para o fim da 
salvação das almas. 

Com esse objecto tinham, em outra parte, no Paraguay, 
fundado um império próprio, vassallo, se assim quizermos, 
da monarchia de Hespanha, mas onde a só autoridade preva- 

O MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 9 



130 OS JESUÍTAS E OS COLONOS 



lente era a d'elles. No Brasil não lhes vingara o plano, se 
acaso, como é de presumir, o tiveram. Às tentativas, nos 
primeiros tempos esboçadas, respondeu a opposição, a miúdo 
violenta, dos colonos. Em muitas partes, vieram as mãos: 
de uma banda os caçadores de escravos, da outra os indí- 
genas, capitaneados pelos seus padres. Ao Sul, íis depre- 
dações dos bandeirantes semeavam terror entre os selvagens. 
No Maranhão os esforços dos jesuitas cohibiam as algaras; 
em paga duas vezes foram expulsos pelos colonos r'. voltados. 

No século XVIII os religiosos levavam a melhor aos 
adversários. As leis não fechavam de todo a porta aos capti- 
veiros e, serviçaes assalariados ou lídimos escravos, os indios 
realmente perdiam a liberdade. Mas os missionários estavam 
alerta, sempre promptos a estorvar, oppondo-se ás caçadas, 
assistindo aos contratos, acolhendo os fugitivos, guardando 
com ciúme aquelles que reuniam nas denominadas aldeias, 
que governavam. 

Tal qual no Paraguay, alli só elles dispunham. Aos 
brancos de fora era vedado o accesso. Para melhor guarda, 
não satisfeitos da vigilância constante, erguiam, entre seus 
pupillos e a m alicia dos extranhos, a barreira difficil da 
linguagem. Os indios não aprendiam o português. Trocavam 
a giria própria pelo idioma particular de uma das grandes 
íamilias indígenas, o tupi, que, adoptado em toda a costa, 
se nomeou por língua geral, O obstáculo era, para os colonos, 
na maioria ineptos em tal fala, assas duro de superar. Não 
podiam seduzíi-os com promessas, nem convencel-os com 
enredos a deixarem os padres. Quando os levavam para o 
serviço, a necessidade de uma língua era sempre descom- 
modo. Contra o ardil, justificado como defesa, em todos os 
tempos protestaram os colonos e sempre debalde. 

Senhores absolutos do índio, pelo intellecto, os missio- 
nários não hesitavam ante as violências corporaes, se a 
persuasão não bastava. Isso, e o habito de compellírem os 
neophytos ao trabalho em proveito commum, naturalmente 
fez resurgir a idéa da escravidão. Lícita esta, de qualquer 
modo, em proveito dos missionários, tinha de o ser tam.bem, 
embora com temperamentos, a beneficio dos seculares. E 



INTERVENÇÃO DE BENEDICTO XIV 131 

d'esta arte, colonos e jesuítas, por mais de um século em 
aberta lucta, congraçavam-se partilhando a presa. Por esse 
facto perdiam os padres a razão do seu prestigio ante o 
poder civil. Á corte chegavam denuncias e reclamações, e 
d'esta vez bem fundadas. O governo commoveu-se. D. João V, 
para corrigir o abuso da gente ecclesiastica requereu a 
intervenção pontifical. 



IV 



Benedicto XIV acudiu em 1741 com um breve que, 
proscrevendo a escravidão dos americanos, pronunciava a 
excommunhão contra quem os violentasse nas pessoas, bens 
e liberdades. Seculares e ecclesiasticos eram incluídos nas 
mesmas penas, e de notar é que, na enumeração das ordens 
religiosas, o breve somente nomeia os cavalleiros de 5. João 
de Jerusalém, com que os Índios nada tinham, e a Com- 
panhia de Jesus. Posto isto, e se attendermos a que subscrevia 
o édito pontifício o cardeal Passionei, aquelle mesmo que 
se jactava de não possuir nas suas estantes um só volume 
de autor jesuíta, acertaremos em que a severa reprimenda 
exclusivamente visava a Ordem. 

Mas os interesses ligados ao abuso podiam mais que 
as determinações de reis e pontífices. Não se deu publicidade 
ao breve, que ficou retido em Lisboa. 

O caso da intervenção papal deriva do ferrenho caracter 
da contenda no Pará, quando, cerca de 1730, parecia terem 
os missionários definitivamente ganho o demorado pleito. 
O colono paraense Paulo da Silva Nunes foi o primeiro e 
obscuro artífice do final desbarato. Exilado do Pará pela 
opposição aos jesuítas, por mais de quinze annos contra 
elles denunciou, requereu, declamou. Em successivas repre- 
sentações, uma após outra abafadas nas secretarias do Estado, 
escarnou os abusos e sophismas da Companhia, notou-lhe 
as desobediências, exprobou-lhe as ganâncias, compendiou as 
accusações que de toda a parte brotavam contra ella. 

Sumidos taes escriptos por muitos annos no Conselho 



132 TRATADO DE LIMITES NA AMERICA 



Ultramarino, cahiram nas mãos de Pombal em 1756, quando, 
embebido na lucta, cubiçoso rebuscava argumentos e factos 
para lançar, como pedras de catapulta, sobre os jesuitas; e. 
reunidos em volume, ficaram designados com o titulo de 
Tcrribilidades, palavra muito d'elle e que, no exagero do 
significado, bem caracteriza a importância em que tinha a 
rancorosa compilação de Paulo da Silva Nunes. 

Como a estas representações, no breve de 1741 puzera- 
se-lhe também pedra em cima. As instrucções de Xavier de 
Mendonça não fazem menção d'elle, signal de que o governo 
o ignorava. Sem alludir ao breve de Benedicto XIV, orde- 
nava-se ao capitão general que de modo nenhum consentisse 
os captiveiros, revogavam^se ;as leis anteriores, que em certas 
condições os permittiam, e insistia-se no velho alvitre de se 
introduzirem escravos negros, idéa primitiva dos jesuitas. 
Os religiosos e pessoas ecclesiasticas deviam primar na 
obediência, dando o exemplo de pagarem aos Índios que 
tinham a serviço, aliás perderiam as terras publicas, onde 
tinham suas casas e lotes agrícolas, e de onde tiravam o 
melhor parado de suas rendas. Contra o excessivo poder 
d'esses ecclesiasticos, particularmente sobre os Índios, o 
governador devia precatar-se. Pesava ainda o silencio sobre 
as Terribilidadcs, guardadas no Conselho Ultramarino, mas 
os ecos da demorada contenda não se tinham de todo abafado. 

O assumpto importante do governo de Xavier de 
Mendonça era porém, sobre todos, o tratado de limites. As 
instrucções impunham-lhe que recolhesse noticias do terri- 
tório, por onde se ia demarcar a fronteira, e o juizo que do 
accordo faziam as pessoas experientes da colónia. Era preciso 
também prover á expedição, que por campos, florestas e 
aguas ia traçar a linha ideal descripta nos mappás ; prepanar 
barcos, mantimentos, tripulações; estas compostas dos Índios, 
sujeitas aos missionários, barcos os d'elles, e os mantimentos 
também, na maior parte, productos de lavouras dos mesmos 
Índios. 

O tratado, lev^ado a effeito por diligencias de Alexandre 
de Gusmão, produzira descontentamento, tanto em Hespanha 
como em Portugal. De ambas as partes se julgava lesivo. 



GUSMÃO SOBRE A COLÓNIA DO SACRAMENTO 133 



Bem inspirada, a rainha Maria Barbara pensara perpetuar 
a paz entre a pátria de seu marido e a sua, terminando a: 
questão sempre azeda da colónia do Sacramento. Infelizmente 
a opinião geral era-lhe contraria. Em Madrid attribuia-se o 
convénio a meneios da Inglaterra, que meditava, por meio 
d'elle, excluidos os portuguezes do Prata, fazer sósinha p 
clandestino commercio com as possessões castelhanas. Em 
Portugal dizia-se que todos os que intervieram no tratado 
haviam sido subornados pela Hespanha. O próprio rei não 
escapava á suspeita. Havia quem pretendesse que, sendo 
principe herdeiro, fora corrompido por grande somma, para 
se não manifestar adverso. Dando conta do boato, Stah- 
remberg fazia o seguinte venenoso commentario : cisto ,é 
apenas um vago dizer, porém tem seus visos de verdade» i. 
Talvez por ser a rainha viuva contraria. Carvalho suppunha-se 
que o fosse também, muito embora se não declarasse. 

Segundo a opinião mais commum, o accordo seria por- 
tador de grandes damnos ao commercio. Perdia-se, com a 
colónia do Sacramento, «a chave mestra dos domínios ameri- 
canos» — diziam os descontentes — , e, mal nós largássemos, 
lá se iriam metter os ingleses, cobiçosos havia muito d'aquella 
possessão. A isto Alexandre de Gusmão, fautor do convénio, 
redarguia que minimo seria o prejuízo, visto consistir o 
trafico da Colónia principalmente em fazendas extrangeiras, 
que por fraude se introduziam em terras castelhanas; e 
afinal supportavamos despesa grande e dissensões constantes, 
só por manter uma praça de gwerra que não passava de um 
covil de contrabandistas. Prejuízo, se havia, era dos extran- 
geiros. Cedíamos um presidio encravado, distante de nossos 
portos, e em permanente disputa, a troco de extenso terri- 
tório, com o qual dávamos grande fundo ao Estado do 
Brasil ^ E com elle estava o justo interesse e a razão. 



1 Rei. 12 fevereiro 1751. Zeitschrifí filr kath. Theologie, T. 22, 
1898, arí. de B. Duhr, pag. 691. 

- Resposta a António Pedro de Vasconcellos, governador que foi 
da Colónia do Sacramento. Ms. 



134 AS SETE MISSÕES DO URUGUAY 



V 



Nas terras que a Hespanha ia largar incluia-se uma 
área, a leste do Uruguay, onde os jesuítas administravam, 
ou melhor possuíam, sete colónias ou redacções, com cerca 
de trinta mil índios neophytos. Aos habitantes era facultavel 
deixarem os locaes, com seus missionários, e irem pousar em 
terras próximas, que ficavam á Hespanha. Por este arbítrio 
os superiores em Roma se pronunciaram. Todavia, tão nocivo 
era o tratado ás missões estabelecidas que não admira 
puzessem os jesuítas o máximo esforço em o mallograr. Se 
o Geral, padre Retz, escrevera aos missionários, ordenando 
que sahissem das reducções com os índios, e d'ellas fizessem 
entrega aos régios commíssarios, o Provincial do Paragua}^ 
protestava, representando a Fernando VI que perdia a coroa 
de Hespanha trezentos mil vassalos, e introduzia no coração 
de seus domínios uma potencia rival. Dentro em pouco se 
veria penetrarem os portugueses, com os ingleses seus amigos, 
no Paraguay, e chegarem a Potosi, assenhoreando-se das 
minas, cobiçadas do mundo inteiro. Tal era a these dos 
jesuítas e mais oppositores do tratado. 

Em accordo com os padres, o governador de Buenos- 
Ayres representava também. De Madrid, o marquês de la 
Ensenada, ministro de Fernando VI, mandava secreto aviso 
ao rei de Nápoles, herdeiro da coroa, para que, por seu 
embaixador, protestasse. Suspeito da inconfidência, o marquês 
perdeu por este acto o seu posto 'e o régio favor; mas a 
força do aviso que dera prevaleceu, e foi um dos primeiros 
cuidados de Carlos III, succedendo no throno, repudiar o 
tratado. 

As ordens de Retz, que entretanto fallecera, foram confir- 
madas por Visconti, novo Geral. Infelizmente repugnava aos 
Índios a perspectiva de abandonarem casas, povoações e a 
gleba á qual, pela nascença e pelo trabalho, gerações succes- 
sivas se tinham vinculado. O sentimento da resistência, 
natural nas almas ainda as mais rudimentares e passivas, 
despertou n'elles; e é de vêr que da parte dos missionários 



REBELLIÃO DOS ÍNDIOS DAS MISSÕES 135 

encontraria estimulo. Estes, se ostensivamente acatavam as 
ordens do Geral, com disfarce acirravam a reluctancia dos 
Índios, que afinal se levantaram em g^uerra, para defesa de 
seus lares. 

Por justa que fosse a rebellião, não a approvaram ps 
superiores da Companhia. Foi de boa fé que o Geral mandou 
cumprir as ordens régias. Talvez elle próprio não medisse 
as difficuldades. Para o fim tinha enviado ao Paraguay um 
missionário, o padre Altamirano, encarregado de assistir á 
mudança das reducções. É este quem accusa os regulares, 
principalmente os extrangeiros. «Os missionários — escreve 
elle ao confessor de Fernando VI — não teem nenhuma devo- 
ção ao rei nem á monarchia. Os Índios já teriam realizado 
a mudança se os padres seriamente o quizessem. No meu 
parecer são os missionários os causadores da rebellião e da 
má fama que d'ella possa resultar á Companhia» i. O núcleo 
d'esta resistência ia ser apontado ao mundo como a repu- 
blica jesuítica do Paraguay, e ás forças combinadas do 
Portugal e Hespanha esse Estado famoso offereceria batalha. 

Não se dirá que da campanha sahissem as hostes dos 
soberanos cobertas de gloria. Com seus arcos e frechas, 
algumas espingardas, frágeis canhões, feitos de grossa taquara, 
rija canna da America, cintada de couro e ferro, além d'isso 
arrojados cavalleiros, os índios bateram-se com denodo 2l 
principio. O terror e a superstição augmentavam-lhes ia 
innata crueldade. Aos portug^ueses feridos e mortos cortavam 
as cabeças, que deviam collocar a um palmo do tronco, pelo 
menos, para não resuscítarem, segundo a crença sua. As diffi- 
culdades do caminho, por bosques e várzeas alagadiças, deti- 
nham as tropas. Por espaço de dois meses, na estação das 
chuvas, tiveram os nossos de acampar, abrigados pela 
ramagem, no cimo das arvores. Tudo isso inspirava desgosto 
e desanimo; porém, vindo ás mãos em campo raso, não 
podia o êxito ser duvidoso. Por final chegou-se a isso, e a 
chacina foi enorme. Milhares de selvagens perderam as vidas. 



1 Zeitschtift fiier kath. Theol. art. cit., pag. 698. 



136 PROPOSTAS DE XAVIER DE MENDONÇA 

e os alliados occuparam as reducções. A empresa, por mes- 
quinha que fosse, teve a sua epopeia. O Uruguay de José 
Basilio da Gama foi os Lusíadas do século de Pombal. 

Na outra zona das demarcações, ao norte do Brasil, 
não teve o tratado melhor acolhimento. As opiniões, colli- 
gidas pelo novo governador, sahiram todas contrarias. Um 
dos mais notáveis habitantes da colónia, João de Sousa de 
Azevedo, habituado a percorrer a fronteira, dizia pareccr-lhe 
o accordo dos limites por aquella parte uma traição formal; 
e o próprio Xavier de Mendonça resumira as impressões 
esclarecendo ao irmão que «naquelle contrato tiveram os 
outros melhores procuradores que os portugueses» i. 

Os Jesuítas de lá, por solidariedade, não podiam vêr de 
boamente o concerto, que mutilava a melhor obra dos seus, 
e lhe principiava a ruina. intimados pelo governador a pro- 
verem de barcos, remadores e mantimentos a expedição, qu€ 
devia encontrar na fronteira os commissarios castelhanos, 
illudiam com ardis ingénuos a obrigação : tinham as embar- 
cações desmanteladas, os Índios desertavam, e as terras, 
subitamente estéreis, não podiam ao mesmo tempo abastecer 
a frota e acudir ao sustento dos que ficavam. 



VI 



Outra razão punha em conflicto os missionários com a 
corte portuguesa. Mendonça propuzera-se dar ao seu regi- 
mento execução cabal, terminando os captiveiros e contendo 
os missionários na área restricta das suas regalias. Conjun- 
tamente pensava em substituir o escravo selvagem por gente 
de Africa. Iniciativa impossível á penúria dos habitantes, pois, 
convocando os mais ricos, para fazerem uma companhia, não 
excedeu o cabedal, que se apurou, de trinta mil cruzados, 
«Esta pequena quantia — informava elle — que poiíde iuntar-se, 
é a ultima substancia da capitania ; e se S, M., com a sua. 



1 Off. 20 Janeiro 1752. Coll. Pomb., cod. 631. 



A LIBERTAÇÃO DOS SELVAGENS 137 



real piedade, não a protege e ampara, experimentarão certa- 
mente estes moradores a sua total ruina, de onde esperavam 
achar a sua redempção;; i. Esta redempção era a que o 
governador lhes promettia, quando tivessem elles próprios 
remido os indígenas. Na colónia ninguém nella acreditava, 
e até os missionários com espanto viam desapparecer a 
melhor fonte dos seus réditos, porque, como sabemos, já 
agora conformados com as escravidões, faziam causa commum 
com os seculares, pugnando pela manutenção d'ellas. E o 
testemunho iam dal-o d'ahi a pouco, quando o Reitor do 
Pará, em supplica ao rei, assim se explicava : «Notável é a 
afflicção e susto em que me vejo, porque o governador 
pretende que todos os Índios, servos d'este collegio, com 
os mais do Estado, sejam declarados por forros; pretenção 
assas dura e injusta, porque, na realidade ha neste Estado 
muitos escravos legítimos > -. 

Entretanto, sem os africanos, não se podiam realmente 
remir os indígenas. A companhia ia formar-se e, pelas con- 
dições da sua fundação, pelo facto de libertar os selvagens, 
molestando os jesuítas, ia chamar estes á liça com mais esti- 
mulo, € dar alarma para a sanhosa e dilatada guerra que, 
acima de tudo, deu fama na historia a Pombal. 

O projecto do governador do Pará não podia mal parecer 
a seu irmão, tão interessado antes em suscitar a Companhia 
oriental. Não foi tropeço a falta de elementos na colónia. 
Convidados os m.agnates financeiros de Lisboa, assentou-se 
que seria d'elles o emprehendimento ; o capital um milhão 
e duzentos mil cruzados. Estudaram-se as vantagens, isenções, 
e direitos que podiam trazer prosperidade á instituição, e 
attrahir o concurso de sócios. O próprio Carvalho segura- 
mente participava do negocio. Pelo menos seus inimigos o 
increpavam de haver recebido, em nome da mulher, certo 
numero de acções beneficiarias. O ministro, enthusiasmado, 
considerava de grande alcance a empresa, «fundamento solido 



i Off. 18 Janeiro 1754. Archivos do Pará. 

2 3 maio 1737. Bibliotheca Eborense, Cod. cxv. 



138 COMPANHIA DO GRÃO-PARÁ E MARANHÃO 

das felicidades espirituaes e temporaes d'esse Estado», escrevia 
ao irmão; além d'isso, ponto de partida para as duas reformas 
que meditava — declarar livres definitivamente os indigenas, 
e transferir dos religiosos para a coroa o governo das 
missões. 

Ambos os projectos feriam interesses preponderantes da 
colónia': as liberdades extinguiam toda a industria, que era 
O trabalho forçado dos indigenas ; a secularização estancava 
aos missionários a foni'e do poder e da riqueza. Isto pelo 
que directamente importava ao Grão-Pará. Na metrópole, a 
creação da Companhia, rica de privilégios, arruinava de vez 
o commercio livre. Colonos, jesuitas e mercadores ligaram-se 
todos, em um clamor de protesto contra a nova fundação. 

A Companhia teve o exclusivo da navegação, do trafico 
de negros, da introducção de géneros da Europa, da compra 
e venda de productos da colónia, cujos preços ella taxava, 
À sua disposição estavam duas fragatas de guerra, para 
comboio das frotas. Seus empregados tinham categoria de 
officiaes de justiça; os administradores e caixeiros foro espe- 
cial, com seu juiz conservador, como os ingleses e outros 
extrangeiros privilegiados; crime, em qualquer parte com- 
mettido por elles, somente em Lisboa, por aquelle juiz, podia 
ser julgado. A estas insólitas regalias se juntavam e accres- 
ceram depois muitas outras, contradictorias ao direito 
e á razão. 

Sobre as injustas disposições não tardaram os interesses 
magoados a pronunciar-se. O bradar foi geral. A Mesa do 
Bem Commum, ao estylo da época irmandade com seu orago, 
o Espirito Santo, e camará de commercio, que representava 
a classe aggravada, protestou levando ao paço longa e bem 
fundada petição. Nella apontava as perdas imminentes, os 
direitos feridos d'aquelles que até alli exploravam um licito 
commercio ; previa os damnos futuros, recordando que, 
setenta annos antes, o mesmo Estado do Pará-Maranhão se 
rebellara, por motivos eguaes — uma Companhia com privi- 
legio do trafico, os indios intangiveis, a promessa da copiosa 
escravatura da Africa para os substituir. 

Mas, ao contrario da companhia de 1682, bemquista 



os jesuítas guerreiam a companhia do GRÃO-PARÁ 139 

dos jesuítas, a presente era arma apontada contra elles, e 
particularmente destinada a prival-os dos indios, que a outra 
lhes puzera mais á vontade nas mãos. O commercio, que 
faziam as missões, e de que estas se mantinham, ia ser-lhes 
também vedado. Não mais, como até aqui, poderiam mandar 
para o reino os géneros por seus neophytos fabricados, ou 
extrahidos das mattas ; tão pouco receber de conta própria 
fazendas de que usavam suppril-os. Sem negocio e sem indios, 
impendia a ruina sobre a obra tão prospera, e que, na impo- 
nência, só tinha por superior o maravilhoso Paraguay. 
Nenhuma duvida agora de que a politica de Carvalho lhes 
era decididamente hostil. Contra ella pois os appellidava a 
obrigação da defesa; e a reacção, esboçada no Pará contra 
o governador, ia ser francamente declarada na corte, lem 
desafio ao ministro. 

Na representação collaborou, se não foi elle o só 
redactor, o padre Bento da Fonseca, graduado jesuita, procu- 
rador do Maranhão. Por casas de seus familiares buscavam 
os padres agitar a opinião, dando a entender que o infante 
D. Pedro animava os protestos. Como golpe mais directo, 
um pregador jesuita verberou na Patriar.chal, em transpa- 
rentes allusões, a companhia de commercio, e os que nella 
participavam. Christo, dizia elle, propunha uma sociedade, 
em que só entrariam aquelles que por meios illicitos tivessem 
enriquecido, pois com isso remiriam seus peccados. «Eu, 
senhores — malicioso proferia — não intento impugnar as 
Companhias dos homens, porque o commercio, quando é 
licito, não se prohibe. O meu intento é só persuadir, aos que 
enriqueceram por meios illicitos, que entrem na Companhia, 
que Christo quer hoje com elles estabelecer» i. Assim rezava 
o texto escripto, apresentado em justificação depois, satírico, 
porém anodíno; mas o ministro pretendia ter o orador 
clamado que não entrariam na Companhia de Christo aquelles 
que entrassem na de commercio, agora creada, antes seriam 



Sermão do padre Ballester. Bibl. Nac. Ms. 



140 CARVALHO REPRIME AS RECLAMAÇÕES 

réprobos e condemnados ao fogo eterno i. O crime era 
grave, e o castigo não lhe tardou. 

Aos ataques respondeu Carvalho com a violenta decisão, 
própria do seu caracter. O pregador e o confrade Bento da 
Fonseca foram logo desterrados da corte. Desterrados seriam 
também os da Ah-sa do Bem Commam^ e entre esses, três, os 
de mais culpas, para o presidio de Mazagão. Antecipando 
resistência no Pará, ordenou fossem presas as pessoas, que 
se pronunciassem contra a Companhia, porquanto «é crime 
de lesa-magestade dizer mal das leis de el-rei»; e que fossem 
expulsos os religiosos que, como o jesuíta lisbonense, do 
púlpito se manifestassem. Finalmente, suppondo os missio- 
nários capazes de instigarem a algum acto de sublevação, 
ameaçava-os com graves castigos, por mais sensível que se 
vos faça a sua execução, — escrevia a Francisco Xavier - — 
provavelmente os inhospitos degredos e os cárceres, como 
se viu depois. 

O colérico arranco do ministro era desnecessário. Não 
faltaria vontade aos jesuitas de agitarem a colónia, mas não 
encontravam na população, miserável e aterrada, apoio para 
algum acto de resistência; e na insurreição dos Índios, 
que os successos do Paraguay levariam o ministro a appre- 
hender, não pensaram sequer. Nesse tempo todo o empenho 
d'elles era impedir a demarcação, e foram nisso bem succe- 
didos, porque os commissarios hespanhoes não vieram ao 
encontro ajustado com os portugueses. Debalde os esperou 
Xavier de Mendonça no seu posto da fronteira. Teve de 
retirar-se, e os limites ficaram ainda por longos annos vagos, 
por essa banda. 

Nesse tempo, quatro jesuitas, por desavenças com auto- 
ridades e delictos mal provados, foram expulsos do Pará- 
Maranhão. Era o primeiro acto de força contra a Sociedade 
de Jesus. Chegaram a Lisboa no dia seguinte ao terremoto 
e, na turvação do momento, escaparam ás penas que lhes 
seriam sem isso infligidas. 



1 Sebastião José de Carvalho a Francisco Xavier de Mendonça. 
4 Agosto 1557. Coll. Pomb., cod. 626. 
- Idem, id. 



CAPITULO V 



O TERREMOTO 



A caíastrophe. Perdas materiaes. Actividade de Carvalho. Soccorros 
do exlrangeiro. — II. Intervallo de hostilidades. Impressão do 
terremoto no resto da Europ:'.. Goethe recorda-o nas suas Memo- 
rias. Influencia do fanatismo. A Junta da Providencia. Martinho 
Velho Oldemberg conspira contra Carvalho. Libello escandaloso 
de Teixeira de Mendonça. — III. Intervenção dos barbadinhos 
italianos. Carvalho vinga-se dos conspiradores. Desgraça de Diogo 
de Mendonça Corte Real. — Terror da população que Mala- 
grida alimenta com suas pregações. O Juizo da verdadeira cansa 
do terremoto. Castigo do seu autor. — V. Sedição no Porto 
contra a Companhia dos Vinhos. Cruel repressão ordenada por 
Carvalho. José Mascarenhas Pacheco escrivão da alçada. Prisão 
posterior d'este magistrado. — VI. Os jesuítas e a opposição 
a Carvalho. Os missionários reagem no Pará-Maranhão. Emanci- 
pação dos índios. São despedidos os confessores do paço. A 
Relação abbreviada. Nicolau I rei do Paraguay. Representações 
a Benedicto XIV. Breve de reforma dos jesuítas. 



Chega o tétrico dia l.o de novembro de 1755. Linda 
manhã de outomno em Portugal. Ceo puríssimo; ar tépido. 
Dia santificado. As egrejas apinhadas de povo, ao badalar 
alegre dos campanários. As nuvens brancas do incenso 
enchiam, com o murmurinho das preces, as claras naves. 
Súbito, um ronco pavoroso, enorme trovão subterrâneo. Caval- 
gada de cyclopes que se approximava em doida correria; 



142 A CATASTROPHE DE 1 DE NOVEMBRO DE 1755 



arrastar de carros gigantes nos abysmos da terra. Nos altares 
oscillam as imagens; as paredes bailam; dessoldam-se traves 
e columnas ; ruem as paredes com o som cavo de caliça que 
esbrôa, e de corpos humanos esmagados ; no chão, onde os 
mortos repousam, aluem os covaes, para tragar os vivos. 
O terror, a surpresa, recalcam por um instante as vozes, que 
logo repontam em brados de misericórdia, no chamar de 
entes caros, e afinal se extinguem em gemidos e estertores. 
O horror todo das gchennas em ais e tormentos. Fuga desor- 
denada, com atropellos fataes, e o tropeçar continuo em 
pedras e cadáveres. 

Muitos correm para o rio. As aguas, sacudidas como em 
apertado vaso, transbordam em arranco imprevisto, trazendo 
comsigo barcos, vidas, toda a espécie de despojos. Duzentas 
mil pessoas vagueiam loucas; e aqui, além, de entre a poeira 
dos desabamentos, erguem-se, para o firmamento azul, negros 
rolos de fumo e os rubros lampejos dos incêndios. Por toda 
a parte ruinas. 

Immenso, como é de imaginar, foi o pânico, que durou 
muitos dias. Sem abrigo, aterrada e faminta, grande parte 
da população abandonava Lisboa. Da provincia, os regimentos 
da Extremadura e Alemtejo. Entre os destroços fumegantes, 
a ralé dos peores bairros discorre em cata de salvados para, 
a rapina. Ha rixas e assassínios ; e, a cada passo, as forcras 
onde pendem os roubadores, colhidos em flagrante, accentuam 
em traços lúgubres a nota do pavor. 

Vidas perdidas muitas, principalmente nas egrejas, e entre 
a gente do povo, que assistia ás primeiras missas. Os fidalgos 
e pessoas abastadas, que só iam mais tarde, ás onze horas, 
foram por isso poupados. De ministros extrangeiros perecpu 
o de Hespanha. O de França conseguiu salvar os moveis e 
objectos preciosos. Como sempre em casos taes, exagerou-se 
no primeiro instante a conta das victimas. Assim Carvalho 
o disse aos governadores ultramarinos, calculando afinal os 
mortos em seis a oito mil. Talvez ainda de mais. Os feridos 
é que eram em grande numero, principalmente os que, na 
fuga, cahindo, atropellados, esmagados, com o pânico faziam 
mais horrenda a convulsão da natureza. 



CARVALHO SUPERHOMEM? 143 

Prejuízos materiaes consideráveis. Dez mil casas des- 
tmidas, além dos edificios públicos, egrejas, conventos, palácio 
real e muitos de fidalgos. Em moeda dez milhões de cruzados, 
principalmente dos mineiros, gente de torna viagem, que 
eram os ricaços da época. As perdas em trastes de casa, jóias 
e preciosidades deviam ser enormes. «Desde o reinado de 
Pedro II — diz luma realção contemporânea — descobertas as 
minas do Brasil, tinha-se estabelecido em Portugal o laxo 
das mobílias. Cada palácio era um thesouro particular, de 
quadros, tapeçarias e outras riquezas. Suppõe-se que o pre- 
juízo, comprehendidas as casas dos extrangeiros, alcance 
1200 milhões» i. 

Às urgências da situação Carvalho acudiu com a firmeza 
e intelligencia que tornaram famoso o seu nome. Nas horas 
angustiosas, em que foi preciso proporcionar soccorros, 
mantimentos, abrigo, defesa; prestar consolo a milhares de 
creaturas, vencidas de terror; em fim, cuidar dos vivos e 
enterrar os mortos, na phrase syntetica, que lhe é attribuida ; 
dos três ministros, Pedro da Motta, invalido, Diogo de 
Mendonça, fugitivo, elle foi só a dispor, a^gir e mandar. As 
celebres palavras pôde ser que as não proferisse. Mas, nesie 
caso, como em muitos outros da historia, o inexacto é mais 
verdadeiro que a realidade própria. O dito permaneceu na 
tradição como a formula de um caracter, e ficará para sempre 
vinculada ao nome de Pombal. 

k distancia secular que nos separa do acontecido, a 
imaginação vê ainda o super-homem, Sebastião José de 
Carvalho, a emergir sósinho dos fumos da catastrophe. Elle 
enterrou os mortos; elle cuidou dos vivos; elle nivelou as 
luinas, traçou as ruas, desenhou as construcções, gizou a 
estatua equestre, e, triumphador, fez-se retratar, delineando 
a Lisboa nova que de entre os destroços resurgia. O epitheto 
de pombalina, que tem a architectura do seu tempo, designa 
mais que um estylo e uma época: denuncia uma vontade em 



1 Relation Historique da íremblement de terre survenu à Liiboitne. 
La Vlaye 17 56, pag. 214. 



144 SOCCORROS DO EXTRANGEIRO 



acção, e, para os espíritos simplistas, foi essa vontade que 
moveu e alçou cada uma das pedras de Lisboa reconstruída, 

A verdade é que, em emergência semelhante, nenhum 
estadista mediano, com eguaes responsabilidades, lhe ficaria 
somenos. As circumstancias forçavam; tinha de operar mila- 
gres, ou deixar subverter tudo em destroços e na anarchia. 
Carvalho esteve á altura da situação. À roda d*elle, a fidalguia 
recordando hereditárias tradições de sacrifício; os religiosos 
com a devoção altruísta e a força da disciplina monástica; 
e os homens de tempera sã que, passado o pânico, buscavam 
um centro onde as energias dispersas se congregassem ; todos 
esses foram da primeira hora a enterrar mortos e cuidai 
de vivos. 

De fora do reino, a solidariedade humana, que alvorecia 
já, mandava, com reflexos de sympathia, soccorros materiaes. 
A Hespanha, a França offereciam auxílios pecuniários, altiva- 
mente recusados, A Grã-Bretanha, com o direito de alliada, 
enviou dinheiro, viveres, roupas e ferramentas — cem mil 
libras, votadas pelo parlamento — em uma frota comboiada 
por barcos de guerra. Se não mentem as memorias do tempo, 
compostas, é certo, por inimigos de Carvalho, a moeda foi 
distribuída pelos titulares e apaniguados do ministro; os 
géneros arruinaram-se nos armazéns ; as ferramentas empre- 
garam-se, passado tempo, nas obras do Estado, Um fidalgo 
de brioso caracter, o marquês de Valença, dignamente rejeitou 
dezoito mil cruzados, que lhe queriam dar, dizendo que 
melhor applícados seriam aos necessitados i. Mas nem todos 
foram de tanta isenção. 



II 



A convulsão da natureza abateu por momentos a ira 
dos homens. Atalhou-se a refrega entre Carvalho e as facções. 
O persistente sobresalto dos ânimos, o lamentar das vidas 



1 Vida de Sebastião José de Carvalho e Mello, Ms. Bibl. Nac. 



INTERVALLO DE HOSTILIDADES 145 



preciosas, dos bens perdidos nos incêndios e desmorona- 
mentos ; o balancear das fortunas, após os damnos da catas- 
trophe 1 ; com o ministro os cuidados e obrigações da tarefa 
reparadora; tudo levava para outro rumo propósitos e acti- 
vidiades. À 'sombra da trégua, os jesuitas deportados do 
Pará-Maranhão desembarcaram livres em Lisboa. Os presos 
da Mesa do Bem Commiim e outros, que os tinham acompa- 
nhado no protesto, receberam indulto; só um d'elles, o 
advogado Negreiros, ficara sepultado nas ruinas do calabouço. 
Em outubro corria na cidade que os confessores jesuitas das 
pessoas reaes iam ser despedidos. Mas os serviços prestados 
na occasião do terremoto, os escrúpulos do rei, preoccupações 
mais iwgentes de Carvalho detiveram a resolução. Os padres 
desterrados por causa da companhia de commercio voltaram 
á capital. Emfim, íao collegio de S. Antão se deu um subsidio 
para restaurar a torre, damnificada pelo abalo. 

Logo, porém, 'a discórdia antiga renasceu. Malagrida que, 
por milagre, se dizia ter salvo a vida no terremoto, bradava, 
contra os vicios dos homens, com agrado da corte e indi- 
gnação do ministro valido. Na roda dos fidalgos os ódios 
recolhidos exsudavam em acerados sarcasmos. Observava 
D. José, pasmado da assombrosa actividade d'aquelle, que 
a providencia divina não só lhe poupara a vida, para remédio 
de tão grande calamidade, como deixara illesa a sua habitação 



^ As perdas do commercio extrangeiro avaliaram-se em 244 mi- 
lhões, dinheiro v mercadorias, sendo: 

Inglaterra 160 milhões 

Hamburgo 40 i 

Itália 25 > 

Hollanda 10 j 

Franca 4 » 

Suécia 3 » 

Allemanha 2 » -v 

Esta lista dá idéa do trafico com cada um dos paizes. 
O prejuizo total, causado pelo cataclysmo, elevou-se, segundo cál- 
culos do mesmo informador, a 2:284 milhões de libras tornezas. 
Relation Historique, cit., pag. 215, 216. 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 10 



146 IMPRESSÃO no TERRKAAOTO NO RESTO DA EUROPA 



na rua Formosa. — «Isso não quer dizer nada, — tornou um 
fidalgo — também las casas da rua Suja (alfiurja das meretrizes) 
ficaram de pé.» É apocrypha a anecdota? Não importa. Como 
o dito lapidar de Carvalho, o facto de existir na tradição 
faz que 'ella caracterize o periodo. 

Fora de Portugal, o sentimento de pavor, resultante do 
abalo, propagou-se com intensidade que a relativa indifferença 
ante os recentes cataclysmos da Martinica, de S. Francisco, 
mesmo o de Messina mal deixa presentir. A noticia correu 
por toda a parte com extranha rapidez. Em pontos distantes 
da Europa ise experimentou a influencia sismica. Phenomenos 
até ahi não vistos assombravam os ânimos, e as imaginações 
compraziam-'se em crear outros mais singulares e tecriveis. 
Em alguns logares appareciam vestigios de abalos ; em outros 
seccavam as fontes, principalmente os mineraes. Goethe, de 
seis annos naquelle tempo, deixou na sua auto-biographia 
brevemente estereotypada a impressão geral. «Porventura em 
tempo algum — diz o poeta — o demónio do terror espalhou 
por toda ;a terra, com tanta rapidez e força tal, o arrepio 
do medo ; e o pequenito — era eile — que tantas vezes ouvia 
do Buccedido, não foi dos menos impressionados.» A propó- 
sito recorda que «não faltavam considerações das almas 
piedosas, confortações de philosophos, nem exhortações de 
pregadores» i. 

Em Portugal, como de razão, havia d'isso mais que em 
qualquer outra parte, salvo que philosophos raros se conta- 
riam. D'elles «ra Sebastião José de Carvalho, no governo, 
a única pessoa que as razões da sciencia contentariam. 
D. José, obsesso de suggestões do fanatismo, era pela acção 
divina e para ella appellou, esco'lhendo S. Francisco de Borja 
por intercessor ante o throno celestial. Por intermédio de 
Car\'alho, o ministro em Roma foi incumbido de solicitar o 
despacho do bemaventurado a padroeiro do reino. Sendo 
o eleito corypheu da Companhia de Jesus, é fácil inferir de 



1 Dichtung und Wahrheit, Liv. I. 



INFLUENCIA DO FANATISMO 147 



onde a insinuação partiria. O credito dos jesuitas, ultima- 
mente incerto, recuperava terreno, 

O susto geral, alimentado pela continuação dos tremores 
ultimamente ligeiros, dava ensejo ao recrudescer do senti- 
mento religioso, que a opposição aproveitou. Carvalho, que 
sustentava ter sido o terremoto successo da natureza, e não 
o explodir da cólera divina, falava como impio. Seus actos 
desagradavam ao Eterno, e o descalabro do governo certa- 
mente pedia reforma, para se evitar o retorno do tremendo 
castigo. D. José não desprezava meio de propiciar a corte 
celestial. O Senado de Lisboa, convocado em consulta por 
aviso régio, votou que em todo o reino se realizassem pro- 
cissões em honra da Virgem, no domingo segundo de 
novembro em quanto o mundo durar ^ Agradecimento que dava 
a nação á misericórdia suprema, por não terem continuado 
os estragos do terremoto. Padres fanáticos e missionários 
frequentavam o paço, exploravam a facil crendice da 
familia reaL 

A occasião pareceu azada para um golpe ao ministro. 
A perturbação inevitável de toda a machina do governo, em 
seguida .á catastrophe, o desanimo do rei, assaltado de 
duvidas e religiosos terrores, convidavam a nobreza espezi- 
nhada, e os profissionaes da beatice a um desforço contra 
o inimigo commum. O descontentamento popular, acirrado 
pelas misérias do terremoto offerecia-Ihes supporte moral. 
Diogo de Mendonça, estomagado por lhe fazer sombra o 
collega, devia ser do conluio. Pelo menos dava-lhe indirecto 
apoio, no esforço constante de minar a influencia de Carvalho. 
Ajustados, lançaram-^se com animo na aventura. 

António da Costa Freire, desembargador e conselheiro 
de fazenda, organizou um plano de governo, em que haviam 
de entrar os duques de Lafões e de Aveiro, marquezes de 
Anjeja, de Marialva e conde de S. Lourenço, — o escol da 
nobreza do reino. A designação de Junta da Providencia 
manifestava o caracter salvador e religioso da colligação. 

Martinho Velho Oldemberg — chimerico negociante, lhe 
chamou Pombal — encarregou-se de ir como esculca sondar 
o animo do Rei. Constando-lhe que D. José pensava em se 



148 CONTRA CARVALHO 

mudar dos barracões que, após o terremoto, fora habitar na 
Ajuda, offereceu umas casas suas ; e, continuando a pratica, 
insinuou que facilmente poderia o soberano levantar dinheiro 
para a reedificação da cidade. Interrogado sobre os meios, 
expoz o plano, que elle, satisfeito, lhe mandou submetter a 
Carvalho. A isso Martinho Velho replicou que tal não faria; 
com semelhante homem não queria tratos ; e vagamente deu 
a entender que delapidava a fazenda real. Lançada a accusação, 
cumpria justifical-a. Prometteu um relatório escripto, que 
depois mandou ao Rei. 

Francisco Xavier Teixeira de Mendonça, advogado de 
fama, áspero patrono de uma demanda estrondosa, perdida 
contra Carvalho, compoz o memorial. Este, pouco divergiria, 
se não era o próprio escripto, de uma Carta que de Portugal 
se escreveu a um grande de Hespanha i, pamphleto vehemente 
da mesma penna junto ao processo, que se fez ao autor no 
juizo da Inconfidência. 

Vinte e oito meias folhas contém o documento, com- 
pendio de quantos malefícios a voz geral imputava ao 
ministro, de tudo o que a maledicência proterva colligia ou 
inventava. Subindo ás origens, mostrava a tendência, here- 
ditária na família, para usurpar alheios bens. O avô, deman- 
dista emérito, espreitava as heranças incertas, reivlndicando-as, 
para extorquir compensações áquelles a quem podiam reverter, 
e que temiam o laudo fallivel dos tribunaes. Por este pro- 
cesso, seu tio, o arcipreste, se investira no morgado de 
Carvalho, pertencente á casa de Athouguia, que somente ao 
cabo de annos o recuperou, dando Indemnizações, e com 
perda dos rendimentos usurpados. O pae tinha dado com 
supposto nome á estampa um livro de genealogias, para 
sobre elle instituir fidalga ascendência ^\ e, com attestações 
d*elle, Ise mettera em posse de uns morgados da casa de 
Montalvão, disputados em litigio de muitos annos, para o 



1 Datada de 25 de fevereiro de 1756. 

^ É o que tem por titulo: Theatro genealógico que contem as 
arvores dos costados das principaes famílias do Reino de Portugal e 
suas conquistas, por D. Tivisco Nazao Zarco y Colona; abra de Ma- 



LIBELLO ESCANDALOSO DE TEIXEIRA DE ^MENDONÇA 149 

qual o (Secretario de Estado, já no cargo, arrancara aos juizes 
a finai decisão em seu favor. 

Outra malícia d'este consistira em se apoderar com 
fingido direito de um deposito de prata, de antiga e conhe- 
cida proveniência, existente na camará de Lisboa. E, dizia 
o accusador, com isto mostrara ser «muito maior sujeito que 
seu tio, pae, e avô, porque não só vencera um pleito (o de 
Montalvão) que elles se não animaram a continuar, sendo 
vivos, mas recuperou um thesouro da sua casa, que áquelles 
não veio ao pensamento, não sendo elles negligentes nos 
seus negócios.» 

Anteriormente á sua carreira diplomática, fizera-se eleger 
sócio da Academia Real de Historia para, com o pretexto 
de estudos e busca de inéditos, revolver os cartórios, e 
haver ás mãos antigos papeis das casas opulentas; e, subtra- 
hidos os que lhe convinha desapparecessem, em logar de 
memorias académicas lescrevia os provarás, tendentes a esbu- 
lhar dos bens legitimos áquelles que sem desconfiança ,lhe 
tinham facultado os papeis. 

Concussionario, recebera para favorecer o contrato da 
pólvora, 50 mil cruzados ; 600 mil no contrato dos diamantes ; 
150 mil em acções da Companhia do Grão-Pará, offerecidas 
pelos fundadores a sua mulher. 

D'ahi, analysando a administração publica, o foliculario 
pintava o descontentamento geral, sobre o qual se calavam 
áquelles a quem cumpria avisar o soberano. «Querem todos 
receber com vivas e luminárias as leis e resoluções de 
Sebastião José, approvando o damno, a vêr se do mau éffeito 
-póde resultar o remédio». D'esta guisa explicava a reserva 
dos cortesãos. Todavia, «se S. M. tivesse a bondade de ouvir 
e perguntar a todas as pessoas a quem concede a honra de 
falar, pelo que sabem e ouvem d'este homem, certamente 



noel de Carvalho de Athayde, pae do ministro, declarada pelo Desem- 
bargo do Paço falta de fé e sem credito, e mandada por esse tri- 
bunal apprehender. Foi clandestinamente impressa em Lisboa, figu- 
rando que eni Nápoles. 



150 O CASAMENTO DA HERDEIRA DA COROA 

não acharia uma única que lhe não dissesse a sua indignidade». 
E terminava o hbello pela ajlusão a «outros factos mais horro- 
rosos e indesculpáveis, porque se dirigem a não menos que 
arruinar o reino de todo, embaraçando a dilação da ditosa des- 
cendência dos nossos soberanos, e siiccessão doesta monarchia^-> ^. 
Taes imputações não surprehendem, nem pelo que possam 
conter de aleivoso, nem pelo que d'ellas será licito acreditar. 
Factos deturpados pelo despeito, invenções do ódio, ou tor- 
pezas reaes, a que, pela impunidade segura, a humana 
fraqueza se deixa tentar, e qiiie em todos os tempos, e com 
semelhantes motivos, se irrogaram aos triumphadores. As 
demais accusações sobreleva consideravelmente a derradeira. 
A opposição ao casamento da princesa, deixada até aqui no 
escuro pelos historiographos, é um dos factos culminantes do 
reinado. À volta d'elle gravita a politica interna de Pombal, 
que semprd e a 'todo o transe quiz afastar do throno o infante 
D. Pedro, com quem seus adversários viriam ao poder. Por 
isso embaraçou por muitos annos o consorcio, e tentou depois 
excluir a futura Rainha da successão. Pela mesma causa se 
azedou a lucta com a nobreza, muitos próceres padeceram, e 
a ruina dos jesuitas foi mais rápida e definitiva. Entretanto 
ninguém na occasião futurava tão grandes consequências. 
Reduzido o denunciador ao silencio, dois annos transcorreram 
até ellas se manifestarem. 



III 



Na intriga contra o ministro havia, pelas razoes sabidas, 
de participar a clerezia. Dois frades barbadinhos italianos 
gosavam então de grande credito na corte. A devoção, conse- 
cutiva ao 'terremoto, franqueara as reaes barracas a estes 
e outros mensageiros da palavra divina, portadores ora "das 
ameaças de Javeh, ora das consolações do Christo miseri- 



^ Copia de uma carta que se escreveu de Portugal a um grande 
de Hcspanha Ms. Bibl. Nac. Cod. 852^ Coll. Moreira. 



INTERVENÇÃO DOS BARBADINHOS ITALIANOS 151 



cordioso. Incerto entre o 'terror € a razão, D. José dava 
alternativamente ouvidos ás homilias dos missionários e á 
supposta impiedade do seu ministro, Encommendara aos 
padres italianos uma missão no paço, que se realizou com 
prédicas, ladainhas, confissões e exercícios vários de piedade, 
muito a desgosto de Carvalho, indignado pela intrusão 
d'aquelles fanáticos na régia confiança. Recebendo o memo- 
rial de Martinho Velho, D. José mandou que um dos barba- 
dinhos o lesse, e dissesse o seu parecer. O frade, astucioso, 
acaso ganho pelos do conluio, deu a resposta ambigua. «Se 
era aquillo verdade, andava S. M. muito enganado com o 
ministro.» E, á cautela, pediu que não passasse ás mãos d'elle 
o papel, o que o Rei lhe prometteu. De tal modo não haveria 
receio de justificação ou desforço. 

Tudo parecia á feição dos conspiradores, tanto mais 
que, declarado ou não, tinham dentro do gabinete um auxi- 
liar. Diogo de Mendonça Corte Real havia muito machinava 
contra o coUega, que desde a primeira hora o eclipsara. Ao 
seu papel secundário no governo devia o não ser, como elle, 
detestado dos grandes, captando ao contrario as sympathias, 
por certa uncção de maneiras, que em um doutor de cânones, 
como era, dizia bem. Sem dotes de talento ou saber, recom- 
mendava-se pelo trato ameno, com que se grangeiam las 
superficiaes e inúteis amizades. Do corpo diplomático era 
querido; não regateavam os ministros extrangeiros, ao abbé 
de Mendonça, as mais amáveis referencias. No animo do 
Rei insinuara^se, lisonjeando-lhe o gosto dos prazeres, ani- 
mando-o ás prodigalidades, que mal compadeciam á situação, 
quasi sempre apertada, do erário; e nesta parte não deprimia 
o collega, experiente, com vantagem sua, do methodo. Contra- 
riando, sempre que havia modo, os alvitres de Carvalho, ia 
sósinho ao despacho, para evitar que lhe impugnasse os 
seus, e 'nessas occasiões não perdia ponto de, por algum 
dito insidioso, precatar d'elle o soberano. 

Este, taciturno por feitio, não se pronunciava; mas a 
coalisão já se julgava vencedora. Diogo de Mendonça, nos 
jantares, em que ao domingo reunia os amigos, lamentava 
os erros da administração, denegria em confidencias o rival, 



152 CARVALHO VINGA-SE DOS CONSPIRADORES 



deixava entrever sancções imminentes. Já se falava em devassa 
e julgamento criminal. Encerrabodes, então ministro em 
Haya, aprestava-se para o substituir. Os colligados, em con- 
versas intimas, € no que escreviam, jactavam-se do triumpho 
próximo. Foi isto a perda d'elles. Interceptadas as cartas no 
Gabinete de abertura, leu-as o Rei e entrou em desconfianças; 
soube d'ellas o ministro. Este, com a ousadia natural do 
seu animo, fez face á tormenta. Interrogado, ou provocando 
elle próprio as explicações, facilmente se justificou. As accu- 
sações eram dizeres vagos, sem o esteio de uma prova, 
Illibado elle, quem as proferiu havia de ter o retorno. 

Martinho Velho, Teixeira de Mendonça, os padres 
italianos, outros de menos vulto, foram presos e summaria- 
mente sentenciados. Um decreto severo declarou impostores 
e sediciosos aquelles indivíduos, que se diziam inspirados 
por Deus para reformar os costumes da corte e da cidade, 
e autorizados pelo Rei a promover devassa e processo a 
um secretario de Estado i. Base da acção penal foi o escripto 
de Teixeira de Mendonça. Este e Martinho Velho, degre- 
dados com alguns mais para Angola, alli fajjeceram. Os dois 
religiosos entraram, para detenção de longos annos, no forte 
da Junqueira. Lá se lhes juntaram mais tarde Encerrabodes 
e António da Costa Freire, quando, pelo attentado de 1758, 
Carvalho teve as mãos soltas, para o capricho das vindictas. 

Aos seus próprios juizes declarou elle que o Rei, 
indignado, não quizera lêr em conselho o papel de Martinho 
Oldemberg, e ordenara os castigos. El-rei mandou, foi a 
perpetua desculpa de Carvalho. Acreditemol-o, sem todavia 
imaginarmos que violentado obedecia praticando rigores. 
Pelo contrario, a suggestão era tal, que não admira ante- 
cipar-se o Rei nas sentenças que lia no cenho do ministro. 
E d'esta vez fora o ataque pessoal tão directo que assas 
se comprehende o deleite d'elle na vingança. 

Effectuaram-se as prisões em junho. No dia 30 de 
agosto surprehendeu o publico a demissão de Diogo de 



1 20 junho 1750. Ms. da Bibl. Nac, Coll. Moreira. Cod. 852. 



DESGRAÇA DE DIOGO DE MENDONÇA 153 

Mendonça, desterrado para quarenta léguas da corte. Dera 
elle na véspera um jantar ao corpo diplomático e nada fazia 
suspeitar do seu infortúnio próximo, quando, á meia noite, 
D. Luiz da Cunha, ministro dos extrangeiros, foi acompa- 
nhado de tropa, intimar-lhe a ordem de exilio. Qual o crime 
allegado? «A desordem e inquietação que tem motivado com 
bárbaros e infiéis pretextos, no real serviço», reza o decreto 
de exterminio. O dizer é vago, e, para os contemporâneos, 
ficou a razão verdadeira mysteriosa, assim como o successo 
lastimável. O Enviado francês, conde de Baschi, lamentava 
ter D. José arredado de si «o homem mais amável de Por- 
tugal» 1. Em outros officios fazia notar que era Carvalho 
mal visto por causa do seu governo despoticoí, e que o ódio, 
a indignação contra elle augmentaram após o desterro de 
Mendonça ^. Os dois juizos definem a situação, e quasi as 
culpas pelas quaes cahira o ministro em desagrado. 

Além do esforço em solapar a influencia do collega, 
o edito, publicado em seguida, permitte-nos imaginar cousa 
mais grave. «Sendo-me presente — principia — que houve 
pessoas taes le tão barbaras, que se atrevessem a proferir 
que podia haver quem attentasse contra a vida dos ministros, 
que commigo despacham. ..» \ Diogo de Mendonça despe- 
dido, morto já Pedro da Motta, D. Luiz da Cunha ministro 
da véspera, Thomé Corte Real do dia seguinte; quem, senão 
Carvalho, podia tser o ameaçado ? E era a Diogo de Mendonça 
que o decreto visava. Desenganado de vencer pela intriga, 
o emulo aliciara um matador. Coevos bem informados assim 
julgavam *, e a dureza do tratamento presta verosimilhança 
á imputação. Exilado primeiro em uma quinta sua, de lá 
transferido a Mazagão, voltou, annos passados, ao reino, 
para o forte das Berlengas, e terminou afinal a vida no 



1 Ofí. 30 agosto 1751. Quad. Elem. VI, 93. 

- Oft. 29 iunho. 9 setemÍDro. Quad. Elem. VI. 90, 93. 

^ Decreto de 17 Agosto 1756, af fixado em 1 de setembro. 

^ Cf. Memorias de frei João de S. Joseph Queiroz, bispo do Grão 

Pará. publicadas por Camillo Castello Branco^ pag. 125. 



154 O TERROR DO NOVO TERREMOTO 



encerro de um mosteiro, em Peniche. Vencidos, os inimigos 
do ministro preferido desappareciam para sempre da exis- 
tência. Assim foi inaugurado o terror pombalino. 



IV 



Entretanto não serenava a impressão pávida do terremoto. 
De boca em boca, nas mais altas como nas mais baixas 
camadas sociaes, corriam assustadoras predições. De onde 
em onde repetiam-se os abalos. Ao menor d'elles, que se 
julgava o ultimo e definitivo para a destruição da cidade, 
estalavam gritos de misericórdia. A vista das ruínas aterrava 
sempre. Annunciavam-se novas calamidades para o dia um 
de novembro, anniversario da catastrophe. Uma parte de 
Lisboa submersa nas ondas; a outra lançada aos ares, por 
explosão da pólvora existente no Castello. Horror sobre 
horror pesando nas imaginações. No primeiro de julho houve 
um tremor de terra violento. Por fins de outubro muita gente 
deixou a capital, mas nos dois últimos dias, e no primeiro 
de novembro, as autoridades impediram o êxodo. Lisboa 
ficou encerrada com o seu terror, e passou a funesta data 
sem que elle de todo se applacasse. 

Aos medrosos parecia natural ser a tremenda calamidade 
castigo divino. Ambiente de temor religioso. Hora magnifica 
de milagres e prophecias. Malagrida, que não pudera, pela 
opposição do governador Mendonça, realizar no Pará as 
fundações projectadas, voltara a Lisboa com fama de santo. 
Por toda a parte, no reino como no Brasil, se contavam 
prodigios seus. O Altissimo tudo concedia, mediante as 
preces d'elle. O infante D. Pedro, enfermo, mandara-lhe dizer, 
pelo camarista, que impetrasse a sua cura; e logo melhorou, 
O marquez de Louriçal conseguira, também por elle, que 
o céo lhe abençoasse com descendência o matrimonio infe- 
cundo. Egual felicidade teve um magistrado, de avançada 
edade, que ás orações do santo varão recorrera. Não obsta 
que a impiedade attribuisse este milagre a outras causas; o 



VOLTA DE MALAQRIDA A PORTUGAL 155 

fervor de um coração acceito do sólio celeste realizara o 
impossível. 

Além d'isso vaticinava. Annunciara a morte da Rainha, 
viuva de D. João V, e os confrades jesuitas asseguravam ique, 
por aviso divino, presentira o terremoto. Por egual inspiração 
dizia agora que outros cataclysmos sobreviriam, em castigo 
dos peccados da nação. 

Se Malagrida tinha alma ingénua de apostolo, e agia 
somente de olhos fitos no céo, outros jesuitas, e eram quasi 
todos, consideravam mais attentos os interesses terrenos. 
Esses aproveitavam a situação para o prestigio da Ordem. 
A pugna sobre a Companhia de commercio revivia, com 
melhor prospecto para elles, na interpretação do terremoto. 
De uma parte Malagrida, os demais religiosos e seus affectos 
a bradarem que fora castigo do céo; da outra Carvalho e 
os poucos immunes de superstição, imputando a catastrophe 
á fatalidade das forças naturaes. Uns empenhados em aterrar, 
promettendo desastres novos ; outros combatendo pelo racio- 
cínio as suggestões da ignorância e do medo, Viram-se, dizia 
Pombal, os jesuitas, «ora fingindo peccados públicos, que 
realmente não havia, para attribuirem a castigo d'elles o 
tristíssimo phenomeno, . . . ora, attentando contra os sagrados 
arcanos da omnipotência divina, para mais aterrarem os povos, 
ameaçando-lhes outros futuros, pretendidos e maiores cas- 
tigos. . .» 1, e, exasperado pela vantagem, que os jesuitas 
ganhavam com a inclusão do seu bemaventurado Francisco 
de Borja entre os protectores celestes do reino, accrescentava : 
«ora passando a esbulhar Santo Egydio, bispo, da pacifica 
posse, em que estava, de ser advogado contra os terre- 
motos. . .» -. Com tudo isto, outro avanço dos jesuitas, em 
seguida, mais havia ainda de o indignar. 

Em outubro sahiu á luz um folheto de Malagrida, Jiiizo 
da verdadeira causa do terremoto, com o louvor do Santo 
Officio que, na censura, lhe exaltava a doutrina. «Sabe, 
Lisboa — exclamava o jesuita — que os únicos destruidores de 

* Deducção chronologica, Parte I, Div. XV, § 867. 
" Idem. 



156 UM FOLHETO DE MALAGRIDA 



tantas casas e palácios, os assoladores de tantos templos e 
conventos, homicidas de tantos seus habitantes, os incêndios 
devoradores de tantos thcsouros não são cometas, não são 
estrellas, não são vapores ou exhalações, não são pheno- 
menos, não são contingências ou causas naturaes, mas são 
unicamente os nossos intoleráveis peccados.» Era geral a 
impenitencia e o desprezo da salvação. As almas perdiam-se 
no tropel dos insanos prazeres. Não faltava concurso ás 
touradas, ás danças, aos theatros, ás diversões de toda a 
espécie, e os templos ficavam desertos. Deus tinha revelado 
a sua ira a uma santa freira, fallecida antes do terremoto, e 
também outras pessoas haviam tido presentimento do castigo. 
Após isso, «haverá — perguntava o inspirado — não digo 
catholico, mas herege, turco, ou judeu, que possa dizer que 
este tão grande açoite foi puro effeito das causas naturaes, 
e não fulminado especialmente por Deus, pelos nossos 
peccados?» 

Correu em publico a obrinha, a que, além das circum- 
stancias, a santidade do autor conferia relevo. Circulou dos 
tugúrios humildes ás barracas da Ajuda, transformadas em 
paço real. Das mãos de Malagrida a recebeu D. José. 
Desafio ou homenagem — mais provavelmente desafio — o 
missionário offertou também a Carvalho um exemplar. 

Era demais para a tolerância do ministro. A juizo d'elle 
não passava o jesuita de um falso vidente, embusteiro e 
audaz. O escripto, que o Santo Officio approvara, offensivo 
á razão, também o era ao governo, attingido nos apodos 
contra os que negavam o sobrenatural. O mystagôgo appa- 
recia-lhe um jactancioso inimigo, atraz do qual toda a 
Companhia de Jesus avançava. Cumpria-lhe reprimir o ataque 
pessoal, que via na publicação, e para isso, recorrendo ao 
Núncio obteve que Malagrida fosse desterrado para Setúbal, 
de onde só tinha de voltar caminho da prisão e do cadafalso, 

V 

Em fevereiro de 1757 levantou-se a plebe do Porto 
contra a Companhia alli estabelecida em setembro anterior. 



COMPANHIA GERAL DO ALTO DOURO 157 

Como se deu o movimento é sabido. Nos últimos annos, 
antecedentes ao terremoto, os preços dos vinhos finos do 
Douro haviam baixado consideravelmente nos mercados 
ingleses, com repercussão inevitável na economia da região 
productora. Colheitas excessivas, lotações de maus vinhos, 
que desgostavam os consumidores, a crise geral dos negócios, 
aggravada por intempestivas reformas, tudo facilitava o 
natural esforço dos compradores pela baixa, e arruinava as 
provincias, que o tratado de Methuen tinha enriquecido. Como 
sempre, attribuia-se o lídimo effeito de causas económicas a 
escuros conluios de ganância, que só intervindo as leis se 
poderiam annullar; e logo appareceram salvadores, prestes 
a fazerem a fortuna própria com o pretexto de salvarem a 
da nação. 

A Companhia do Grão-Pará, que se estabelecera antes, 
indicava a senda, e assim, fiado no precedente, frei João de 
Mansilha, dominicano do Porto, e alguns negociantes e lavra- 
dores, imaginaram creação idêntica, com seus privilégios, 
incumbindo o religioso de expor o projecto ao governo. Tão 
bem acolhido foi este que Mansilha desde ahi apparece como 
um dos favoritos e avisadores de Carvalho, À vontade dos 
que a idearam, fundou-se a Companhia Geral da Agricultura 
das Vinhas do Alto Douro, com o monopólio da venda na 
cidade do Porto e subúrbios, e da exportação para o Brasil. 
Mais o direito de compra aos vinhateiros a preços taxados, 
a producção dos vinhos finos, de embarque restricta, para 
cada productor, á media dos últimos cinco annos, com outras 
disposições de favor e regalias varias, depois ampliadas por 
leis successivas, em todo o tempo do governo pombalino. 

Em regra, nestas colligações de interesses vastos, são 
os dos pequenos e humildes sacrificados. A Companhia dos 
Vinhos não fez excepção. Por conveniência d'ella, que tinha 
o monopólio, fecharam muitas casas de venda na cidade: 
desgosto dos prejudicados. Encareceu o vinho ao quartilho: 
golpe ao conforto e alegria dos pobres. Na quarta-feira de 
Cinzas, 23 de fevereiro, a cólera popular explodiu. Revolta 
dos borrachos, se íhe pode chamar, incitada pelos taverneiros, 
e para a qual decerto as libações da terça-feira de entrudo 



158 ABOLIÇÃO DA COMPANHIA 

concorreram. Vadios, soldados, collarejas, meretrizes, escravos, 
a ralé da cidade, com o rapazio á frente, a bradar Aqui do 
povo! morra a Companhia! ao toque de rebate nos campa- 
nários. Um sargento é o mais graduado dos cabeças de 
motim. O Negres, o Cozido, o Tativitate, Maria Pinta, mulher 
do soldado Negres, a Brejeira; — os nomes dizem a qualidade 
dos revoltosos — são depois d'elle os principaes. Na lista 
enorme, uma só pessoa de alguma importância social: o 
advogado Nicolau da Costa Araújo, que não tomou parte 
nas desordens, que as não aconselhou, culpado somente de 
não denunciar uns desconhecidos, a quem negara a minuta 
de uma representação contra a Companhia, verificando-se 
depois serem elles dos amotinados. 

Violentado pela plebe, o corregedor que, na ausência do 
chanceller da Relação, era o supremo magistrado do Porto, 
declarou abolida a Companhia. De resto, ataques pessoaes 
nenhuns, nem offensas de vulto ás propriedades. Apenas os 
papeis € livros da sede, os moveis do Provedor, agente 
principal, que se occultara, foram destruidos. Depois voltou 
o socego. Extincto por dias o privilegio, abriram-se as vendas 
por lei cerradas, os taverneiros voltaram a supprir-se directe- 
mente dos lavradores, como d'antes. Isto lhes foi imputado 
em crime, e como tal punido na occasião das represálias. 

Insignificante a commoção em si e pela qualidade dos 
fautores, para Carvalho, espirito autoritário, que toda a 
opposição irritava, foi um crime nefando. É de presumir 
também a cólera do Rei, açulada pelo exagero das narrativas, 
Determinou-se punir severamente os que gritavam Aqui do 
povo! contra as ordens de El-rei, e a cidade, quel a taes brados 
indifferente assistira. Encheu-se o Porto de tropas. Nomeou-se 
uma alçada, com extraordinários poderes, para apurar os 
delinquentes e promover os castigos. A ingénua arruaça 
considerou-se crime de lesa-majestade; e, como alguns magis- 
trados da Relação hesitassem em assentir na monstruosa 
qualificação, Carvalho mandou-os publicamente reprehender. 
A opinião d'elles, dizia, era errónea, absurda, temerária e 
opposta ás leis do reino. Ao juiz da alçada, em carta parti- 
cular, tratando do assumpto explicava que «a majestade não 



TRAGEDIA DETERMINADA POR CARVALHO 159 



consiste somente na pessoa de el-rei, mas também nas suas 
leis» 1 ; e lesta máxima foi então e sempre guia da sua politica. 
Por isso exigia rápida e severa justiça. «Acabe depressa com 
essa tragedia» ^, insinuava ao mesmo magistrado, que pro- 
trahia a instrucção da causa, no interesse da verdade, ou 
para mais tempo desfructar a autoridade e o pingue salário 
da sangrenta commissão. 

Tragedia determinara o ministro que fosse, e não lh'o 
podiam recusar os juizes. Sentenças de morte proferiram 
vinte e seis, das quaes só dezesete se executaram, escapando 
oito homens fugitivos, e uma mulher, que a maternidade 
imminente salvou. Açoites, degredos, prisões, confiscos e 
multas a cento e oitenta e quatro pessoas. Dezesete rapazes 
sentenciados a palmatoadas, e a cidade, pelo crime de pre- 
senciar inerte a manifestação popular, punida com o boleto 
das tropas por longos mezes, e contribuição equivalente aos 
soldos, qual tributo de guerra em praça conquistada ^. 

Por escasso interesse que os réos, alguns evidentemente 
de ruim condição, mereçam, o episodio fica na historia como 
uma das sombrias paginas, que não são poucas, do governo 
pombalino. A tradição vingadora exagerou mesmo a pro- 
tervia dos juizes, que afinal eram algozes subalternos, obe- 
dientes e timidos. O escrivão do processo, José de Mascarenhas 
Pacheco, poeta edulcorado das Arcádias, foi o mais detestado. 
Seu nome passou á posteridade com ferrete de infâmia. 



' F. L. Gomes, Matquis de Pombal, 109. 

'•' E. L. Gomes, Marquis de Pombal, 106. 

3 De modo nenhum se attribuia aos juizes o rigor das sentenças. 
A ttiria de quem mandava pedira ainda mais. Temos a declaração de 
Pombal na hora das responsabilidades: «Resolveu S. M., com aquella 
exorbitantíssima clemência que a ultima pena se não estendesse alem 
dos trinta réos, que houvessem suscitado maior escândalo. E navendo 
resplandecido tanto naquella enormíssima atrocidade a summa clemên- 
cia do dito monarcha, também é manifesto que do castigo d'elia se 
não podem tirar nem ainda pretextos, para se arguir de deshumano 
o marquez de Pombal.» (Contrariedade ao libello de Galhardo Mendanha). 
Quem sabe os respectivos papeis do rei e do ministro, em viní^e c 
sete annos de valimento, tirará as illações. 



160 JOSÉ DE MASCARENHAS PACHECO 

Segundo a voz publica, esposas e mães, embahidas com 
promessas, renderam-se ao libidinoso magistrado, para sal- 
varem a vida de entes caros; inútil sacrifício, porque não se 
abrandou, para nenhum d'elles, o furor do tribunal. Aqui 
se intromette a lenda do Pombal justiceiro. Transferido José 
de Mascarenhas para o Brasil, mandou-lhe o vice-rei que 
escolhesse, em uma fortaleza do Rio de Janeiro, a mais 
lôbrega das enxovias, para um odioso facinora. Deleitou-se 
com o encargo o animo cruel do desembargador. Indicou a 
prisão, onde o fizeram entrar a elle e dezoito annos perma- 
neceu. Pelas atrocidades do Porto? Não; por suspeitas 
relações com os officiaes de uma frota francesa, quando 
esteve na Bahia. 



VI 



Mais tarde, o ministro increpou os jesuitas de motores 
da sedição. Diziam elles que «os vinhos da Companhia não 
eram capazes do sacrifício da missa»; e, instigando a malícia 
popular, clamavam depois que fora o levantamento «cousa 
insignificante em que só entraram mulheres e creanças», e 
a repressão injusta e desmedida i. Isto será exacto. Mas 
participação directa, como autores ou alliciadores do movi- 
mento, com certeza os padres não tiveram. A devassa, em 
que o feroz José de Mascarenhas, e seu pae, presidente da 
alçada, tanto se desvelaram, cargo nenhum lhes faz. Da 
mesma forma, na conspirata abortada de junho, para derrubar 
o ministro, se por ventura, como é de presumir, intervieram, 
com tal cautela foi que nada os descobre; e, não obstante, 
o seu adversário não deixou de os incriminar. 

Era, porém, no Pará-Maranhão que a lucta proseguia 
ferrenha. De lá escrevia o governador: «Os regulares — signi- 



^ Iri<ítrucção a Francisco de Almada e Mendonça, 10 fevereiro 
1758. Coll. dos Negócios de Roma. Parte I, 46. 



os jesuítas E a OPPOSIÇÃO de carvalho 161 

ficava principalmente os jesuítas — são o inimigo mais pode- 
roso do Estado, e, por isso mesmo que domestico, ainda 
mais poderoso e nocivo», E de um modo typico accentuava 
o seu pensar: «Estas gentes são o meu Manuel Pereira de 
Sampaio», dizia recordando ao irmão o nome aborrecido do 
emulo na missão de Vienna '. 

Entravam em vigor as leis de 1755, occulías por dois 
annos ao conhecimento publico, as quaes declaravam livres 
os Índios do Brasil, e extinguiam as missões. Aos religiosos 
era licito permanecerem nos povoados como parochos; mas 
a administração temporal, o governo dos indígenas mal 
tirados da barbárie, passava a funccionarios, que o governador 
nomeava. 

Não acceitaram os padres a subalterna posição e, ou 
abriram conflicto com as novas autoridades, ou com estrépito 
abandonaram egrejas e presbyterios, levando comsigo as 
imagens, alfaias, e muitos objectos, que pretendiam disputar 
á posse do Estado. Alguns queimavam na praça publica o 
que não podiam transportar. Dois missionários foram accu- 
sados por Carvalho de tentarem manter-se nos locaes pelas 
armas, de accordo com os religiosos castelhanos, seus vizinhos 
de fronteira. Invenção de mente fértil, prompta a crear os 
phantasmas que precisava derrubar. Foi o caso que, em 
certa aldeia do rio Madeira, existiam dois pequenos canhões, 
cujo estampido em outros tempos afastava pelo terror os 
Índios bravios, quando aggressores, e depois, submissos estes, 
alegrava nas salvas os actos festivos. O governador Xavier 
de Mendonça, visitando a localidade, fora por elles saudado. 
Nenhum encobrimento, nenhum disfarce; e sobre isto, grave- 
mente o ministro pronuncia que aquelles padres, um dos 
quaes vivia bem longe do sitio das peça's, «em vez de religiosos 
podiam ser dois disfarçados engenheiros» ^. 



^ Carta de 18 de fevereiro 1754. Bibl. Nac. de Lisboa. Archivo 
do Conselho Ultramarino. 

2 Relação abbreviada da republica que os religiosos jesuítas das 
províncias de Portugal e Hespanha estabeleceram nos domínios ultrama- 

O MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — U 



162 OS jesuítas EXPULSOS DO PAÇO 

Publicadas as leis no Pará, em maio de 1757, grande 
foi o alvoroço dos jesuítas quando em setembro chegou a 
noticia a Lisboa. No dia 20, entrando o Rei já por noite da 
caça, o padre José Moreira, seu confessor, que o esperava, 
tentou falar com ellc, expôr-lhe a inquietação e a magoa dos 
seus. D. José recuáou cuvil-o, e, lendo-se em conselho os- 
despachos do Pará, que referiam o procedimento irritante 
dos religiosos, determinou fossem no próprio instante despe- 
didos os padres do paço, que eram os confessores das reaes 
pessoas, todos jesuitas. Às quatro da madrugada tiveram elles 
de largar os aposentos e, aterrados e confusos, ir bater á 
portaria conventual. A inesperada apparição, a surpresa do 
caso, produziram sobresalto grande no interior. O provincial 
correu á presença de Carvalho, que costumava tratal-o com 
benevolência. O ministro recebeu-o de semblante carregado,, 
exprobou-lhe os procedimentos do Pará, e, em nome do- 
Rei, vedou-lhe para o futuro a entrada no paço, a elle e a 
todos os seus subordinados. 

A este golpe outros mais graves iam succeder. Os aconte- 
cimentos do Pará, primordial causa de tudo que os jesuitas 
agora supportavam, punham em acção também o governo 
colonial. Em novembro, dezeseis missionários sahiam de li 
deportados, sendo dez jesuitas. O despeito, o desejo de 
reacção eram communs aos religiosos, egualmenle prejudi- 
cados, e manifestavam-se por actos equivalentes ; mas a 
Companhia de Jesus tinha de pagar estas faltas e muitas 
outras, as do presente e as do passado; e por isso a vindicta 
de Carvalho sobre ella recahia implacável. 

Primeiramente tornando-lhe hostil a opinião publica. Em 
dezembro sahiu á luz a Relação abbreviada, exposição das 
queixas do governo português, por actos, verdadeiros ou 
suppostos, dos jesuitas na America. O folheto, redigido na 
secretaria de Estado, relata os successos do Paraguay. 
Denuncia a existência de uma poderosa republica de trinta 



ihws dns duas monarckln'i. Documento da CoU. de Negocias de Roma. 
Parte I. Impresso e distribuído separadamente — reimpresso na Rev. do 
Inst. Hist. 



A RELAÇÃO ABBREVIADA 163 



e uma povoações «tão rica e opulenta em fructos e cabedaes 
para os padres, como pobres e infelizes para os desgraçados 
índios» 1. Refere a marcha das tropas de occupação, a revolta, 
os encontros, a participação dos padres na resistência dos 
indígenas. Passando aos dominios portugueses, repisa as 
velhas arguições dos colonos : os indigenas opprimidos, seques- 
trados dos brancos, defraudados sem pejo no seu trabalho ; 
as decisões reaes desprezadas, illudidas as leis da Egreja. 
Conta que usurpavam a hberdade aos Índios, e tinham por 
esse meio a agricultura e o commercio da colónia inteiramente 
em suas mãos. Com ameaça de graves desordens haviam 
impedido que a bulia de Benedicto XIV fosse publicada; 
emfim, para, como no Paraguay, obstarem ao tratado dos 
limites, instigavam os Índios a faltarem com os viveres indis- 
pensáveis aos demarcadores, tentavam sublevar as tropas, 
recorriam por fim ás armas, como a existência das peças 
de artilharia, em poder dos missionários — disfarçados engc^ 
nheirns — demonstrava. 

O effeito d'esta publicação, com os foros de verídica 
que a chancela do governo lhe conferia, foi enorme. O 
próprio Núncio, attonito, se não podia crer em tão graves 
accusações, também não sabia como as contestasse. 

O escripto não se destinava somente á corte e ao reino. 
Traduzido em varias línguas circulou pela Europa. Talvez 
vinte mil exemplares, em francês, allemão, italiano. Houve 
depois a traducção latina, sabida com a Deducção chronolo- 
gíca, outra obra de combate mais extensa e erudita, mas 
que não teve a divulgação e influxo da Relação abbreviada. 

Para o êxito d'esta concorreu a curiosidade e o escân- 
dalo que os successos do Uruguay tinham provocado, e 
mais que tudo, porventura, a fabula, então corrente, de 
Nicolau I, Rei do Paraguay, espalhada por uma recente publi- 
cação anonyma -. A obra estampada, ao que se crê, na 



i Relação abbreviada, cit. 

2 tiisíoire da rol Nicolas I, roi dii Paraguay et einpereur des. 
Mamelucs, S. Paul 1756, 



164 CAMPANHA CONTRA OS JESUÍTAS 



Allemanha, com objecto exclusivamente mercantil, foi com 
enthusiasmo recebida pelos adversários dos jesuitas. Desca- 
rada invenção, não contém um só facto verdadeiro. Um 
jesuita castelhano excita os Índios á rebellião, conquista íi 
Nova Colónia, proclama-se Rei do Paraguay e depois, tomando 
S. Paulo, no Brasil, faz-se alli coroar imperador dos mame- 
lucos; eis o trama da narrativa. Em França, na Allemanha, 
na Itália encontrou a novella credulidade, e d'este modo, 
republica de Carvalho e monarchia phantastica, parcíaes 
verdades e cabal mentira, uniam-se, combinavam-se e, estabe- 
lecendo a confusão nos espiritos, creavam a universal atmos- 
phera de suspeita em que a Companhia de Jesus sossobrou. 

Ao mesmo passo, o governo português instruía o pontí- 
fice das machinações da ordem. Mostrava os jesuitas, mais 
criminosos que os templários, erguendo braço armado contra 
os príncipes; desenfreados na cobiça, fechando para o seu 
clandestino commercio as duas Américas, hespanhola e portu- 
guesa, e lá estabelecidos de modo tal que, dentro em dez 
annos, não haveria na Euorpa poder sufíiciente para os 
expugnar i. Vencidos além, desforravam-se no reino suble- 
vando a plebe com falsidades, Propalav^am ser propósito do 
Rei abolir o Santo Officio, conceder a liberdade de con- 
sciência, desposar com um herético — o duque de Cumberland 
— a princesa real 2. A reforma do instituto era pois indis- 
pensável para trazer a Sociedade á pureza dos primeiros 
tempos, e afastar os seus membros dos enredos da politica, 
como dos interesses mercantis, a que tinham grande afinco. 
Mercadores, soldados ou régulos — outra cousa não eram nos 
domínios de Portugal. A isto cumpria prover definitivamente. 

Mercadores — foi sob este aspecto que a Santa Sé encarou 
a questão. Era o mais provado, o menos tétrico, o que tinha 
nas circumstancias opportunidade. Surgira nessa época em 
França o escândalo do jesuíta Lavalette, accionado por banca- 
rota nos tribunaes. Interviera o Geral da Companhia e o 



1 Instrucção, 8 outubro 1757, ao ministro em Roma. 

2 Instr., 10 setembro 1758, idem. 



BENEDICTO XIV E OS JESUÍTAS 165 

próprio Santo Padre; mas o processo continuava, para ter- 
minar pela condemnação da Sociedade, solidaria nas nego- 
ciações do padre fallido. 

Não ha duvida que, nos dominios portugueses, os 
jesuitas negociavam também ; não pela ganância, que o ódio 
lhes attribue, mas para com o producto manterem suas 
missões, collegios e hospicios. Os géneros, que os Índios, 
seus neophytos, extrahiam da terra, o tabaco, o assucar, 
o algodão, eram remettidos á Europa, e as sommas resul- 
tantes da venda applicadas á despesa commum. O facto em 
si é inatacável. Houve, porém, como é de imaginar, abusos 
individuaes. Nem todos os missionários eram desinteressados ; 
pecúlios não podiam accumular, mas fruíam os lucros das 
boas negociações. As denuncias chegaram a Roma e fre- 
quentes vezes os Geraes tiveram de acudir, com admoestações 
e castigos. Os inimigos da Ordem, e alguns curiaes, mais 
ou menos subornados pelo Enviado português, fizeram valer 
a circumstancia quando a corte de Lisboa reclam.ou. 

Benedicto XIV, que em 1741 interviera no assumpto dos 
captiveiros, não menos escabroso para os jesuitas, condem- 
nava-os agora por chaíinagem. Era uma satisfação ao gabinete 
português e á Europa escandalizada. A nomeação de tun 
visitador com poderes de reformar a ordem em Portugal 
foi dos últimos actos do seu pontificado. Não tinha o cardeal 
Saldanha, designado para a missão, exercido ainda qualquer 
acto d'el!a, quando Benedicto XIV succumbiu ; — os jesuitas 
dizem que ao remorso d'este aggravo derradeiro. 

Seguiram-se os conhecidos factos, relativos á execução 
da ordem papal: intimação do breve ás communidades, manda- 
mento do cardeal reformador prohibindo-lhes o commercio, 
interdição de pregar e confessar, inventario de bens prepa- 
ratório do sequestro final; tudo presagios da ruina próxima. 



CAPITULO VI 



ATTENTADO CONTRA O REI 



I. União projectada da Princesa do Brasil coin o infante D. Pedro. 
Opposição de Carvalho e D. José. Os pretendentes. Desgosto 
da nobreza. — 11. Mí!laíjrid£ em Setúbal. Presagios acerca do 
rei. Situação do duque de Aveiro. A noite de 3 de Setembro. 
Opiniões varias sobre o attentado. Convicções de Carvalho. O 
duque procura compromeííer os Tavoras. — 111. Providencias 
contra os presumidos criminosos. Interrogatórios do duque de 
Aveiro. Accusa este os jesuítas, os parentes e muitas outras 
pissoas. — IV. Seguimento do processo e condemnação dos 
léos. Os Tavoras e os depoimentos sobre elles. — V. Reconsti- 
tuição do attentado. As denuncias. Terror no paço e na cidade. 
— VI. A cumplicidade dos jesuitas. Disposições que se tomam 
contra elles. Declarações de Malagrida. Propostas da Junta de 
Inconfidência. Sequestro dos hens da Ordem. — Vil. Intervenção 
do Santo Officio. Instancias do governo português em Roma. 
A Cúria defende os iesuitas. Decreto de expulsão e ? ipws r-^- 
sjilíados. — VI 11. .Vlalagrida denunciado á Inquisição. O pro- 
cesso. Morre no cadafalso. 



O casamento da herdeira do throno com seu tio, o infante 
D. Pedro, era um anhelo da nobreza, justificado por zelos 
de patriotismo e conveniências de camarilha. Zelos incul- 
cava-os a repugnância de obedecer a principe extrangeiro, 
se de fora viesse o noivo; conveniências provinham da 
situação a que ascendia D. Pedro, cuja personalidade era o 
eixo da reacção politica e do fanatismo. 



168 CASAMENTO DA PRINCESA DO BRASIL COM SEU TIO 



Este consorcio, em projecto desde o tempo de D, João V, 
não se pudera nunca realizar, pela rcluctancia de D. José. 
Chegara a vir de Roma a licença papal, que ficou esquecida 
entre os papeis do jesuíta Carbone, como esquecido parecia 
o designio do casamento desde a acclamação do novo sobe- 
rano. Apartava este de seu irmão o mal escondido ciúme da 
preferencia paterna, muitas vezes manifestada. Por outra 
parte a Rainha não se dissuadia da esperança de um filho 
varão, cujo nascimento annullaria as conveniências politicas 
do consorcio. 

Esta expectativa e a emulação de D. José devia Carvallio 
alenta-las, compensando instancias da Rainha viuva, a quem 
pungiu sempre o não ver cumprido aqueíle propósito caro. 
Da desaffeição do Rei sabia-se fora. Dizia-se que, no tempo 
do Rei failecido, D. Pedro, jactancioso da predilecção do 
pae, mais de uma vez tratara com desconsideração o primo- 
génito. Subindo este ao throno a discórdia continuou. Uma 
vez correu que D. José, a quem o valido persuadira que o 
irmão tramava contra elle, o tinha mandado para Queluz, 
com prohibição de sahir de lá sem nova ordem. Já a caminho 
o infante, intercedendo a Rainha e a Princesa, foi revogado 
o castigo, e a suspeição dissipou-se, para renascer porém 
cada vez que ao ministro pérfido apparecia brecha por onde 
a instillasse. 

Entretanto o caracter de D. Pedro excluia razões de 
desconfiança. A intelligencia era curta. «Socegado e muito 
timi.do — refere Stahremberg — não o deixam ter voto em 
cousa alguma ; tratam-no como se tivera dez annos de idade. 
Segundo a apparencia, nem elle de tal se doe, nem o minimo 
desejo tem de possuir mais importância e autoridade^) \ Era 
isto em 1751. Carvalho começara a governar, avocando a 
si todos os poderes. A Rainha mãe, a quem devia o engran- 
decimento, arguia-o de deslealdade, queixava-se de que nem 
mesmo nas eousas do seu próprio interesse d'eila, se lhe 
dava satisfação. Do casamento nem palavra. «Quando alguma 



1 Rei. de 26 dezembro 1751. Duhr Rev. cit. 192. 



PERSONALIDADE DO INFANTE D. PEDRO 169 



vez falava em tal ao Rei ou la Cangalho, nem sequer lhe 
respondiam», dizia Stahremberg, com quem ella despeitada 
se abria em confidencias '. O ministro^ sempre de sobre aviso, 
não consentia que nenhuma influencia superasse a sua, e 
nesse tempo temia ainda que D. Pedro, pelo casamento, 
adquirisse preponderância certamente incommoda. 

A personaHdade baça do infante escasso respeito podia 
inspirar á nobreza. Mofavam d'eile sem rebuço. O recato do 
seu viver austero, em. contraste com as inclinações frasearias 
do irmão e a soltura do temperamento meridional, dera 
motivo a boquejar-se de sua capacidade para o matrimonio, 
assoalho que os acolytos de Pom.bal satisfeitos aproveitavam, 
como nova razão contra o consorcio. A insignificância pessoal 
do príncipe não impedia comtudo que a facção opposía ao 
governo nelle depositasse esperanças. Quanto mais tibio de 
intellecto e de vontade, tanto mais seguramente essa facção 
á sombra d'elle dominaria. Carvalho apontava o perigo a 
D. José e, explorando a emulação antiga, insinuav^a paraileios 
com Affonso VI e Pedro II ^ 

Desconfiado da nullidade apparente do infante, que podia 
ser affectada, buscava provas da sua interferência nas tentativas 
da opposição. Constava que aos membros da Mesa do Bem 
Ccmmum, castigados por causa da Companhia do Grão-Pará, 
se haviam feito perguntas acerca d'elle. Mais tarde, os fidalgos 
presos depois do attentado do duque de Aveiro, que e.n quan- 
tidade povoavam as masmorras, eram induzidos a fazer decla- 
ções contra o infante. D' isso pretendeu Pombal justificar-se em 
uma das muitas apologias, escriptas após a sua queda; mas 
o valor da negativa é contestável. Os fidalgos aífirmavam, 
e as palavras, talvez infundadas, do duque de Aveiro, que 
vamos vêr no processo do regicidio, davam razão ao pro- 
cedimento. 

Quaes os intuitos de Pombal relativamente á successão 



1 Rei. cií. Id. 193. 

- Off. do conde de Merle, 20 novembro 1759. Quadro Eletn. 
VI. 176. , 



170 OS PRETENDENTES Á PRINCESA DO BRASIL 



da corôa não c facil averiguar. O p-acto supposto de Lamego, 
lei do reino, exigia, para marido da Princesa, infante ou 
fidalgo português. O futuro duque de Lafões, D. João de 
Bragança, que, com seu porte gentil, fascinara a juventude, 
anhelante de ternura, da que havia de ser sua Rainha, fora 
por essa causa obrigado a sahir do reino depois do terre- 
moto 1. Desembaraçado do competidor que invocava o> 
direitos do coração, D. Pedro devia esperar que os votos 
da famiha e da nação se realizassem. Mas não foi assim, pela 
opposição inflexivel do Rei. Parece que os infantes de Palhavã, 
bastardos de D. João V, aHmentaram um momento a espe- 
rança de ser algum d'elles favorecido. De fora houve também 
pretendentes. Falou-se no duque de Camberland, o vencido 
de Fontenoy, filho de Jorge II de Inglaterra; oppoz-se porém 
o partido clerical, e interveio a corte de Madrid com ameaças 
de guerra ^ A Rainha de Hespanha, irmã de D. Pedro, 
favorecia a alliança de familía. O projecto foi por essa razão 
abandonado. O infante D. Luiz, irmão de Carlos III, para 
quem mais tarde este mandou abertamente pedir a Princesa, 
tivera patrono em Diogo de Mendonça, e viera a Lisboa, 
onde na casa d'elle esteve occulto. Ao facto atíribuiram alguns 
a demissão e castigo do ministro. Acaso a própria Rainha, 
também filha de Isabel Farnese, apoiou a tentativa, justifi- 
cando assim o temor manifestado por D. Luiz da Cunha, no 
Testamento politico, de que algum dia ella viesse a ser mais 
irmã que cunhada. De toda a maneira é certo favorecer Diogo 
de Mendonça o pretendente, e fazer coro com aquelles que 
em mofa publicavam a im.potencia de D. Pedro ^ 



1 O disiincto escriptor sr. Carlos Malheiro Dias viu a corres- 
pondcMcia da família que Uio deixa duvida sobre a inclinação reciproca 
da princesa e do fidalgo de sangue real. 

2 Cf. Mi^moria do embaixador conde de Merle ao duque de 
Choiseul. Malouet. Mémoircs, Paris 1868, II. 312. 

•' Carvalho dizin que desde o ministério castelhano de Dingo c'? 
Mendonça a Hespanha tentara o casamento, allegando a incapacidade 
do noivo português. Carto ao morgado de Oliveira, 4 março 1778. 
ZEr-HVRiNO Brandãc. o marquez de Pombal, documentos inéditos, pag. 75. 



DESGOSTOS DA NOBREZA 171 



Completara a Princesa vinte e três annos, e D. Pcdro« 
continuava a ser o consorte presumptivo, aquelle que as 
leis da monarchia, o decoro da coroa, a razão de Estado e 
os votos da nação como o só possível indicavam ; mas esta 
união parecia propósito definitivo dos governantes não a 
realizarem. O descontentamento por isso era geral. Nos serões 
da fidalguia, nas cellas monásticas, nas ante-camaras do paço, 
em toda a parte onde então se conversava, apparecendo 
alguém da legião dos descontentes faziam-se confidencias, 
exhalavam-se queixumes, lastimavam-se as perdidas espe- 
ranças de melhor regimen. O desejado casamento nem a 
Rainha viuva, tão interessada por elle, o conseguira. — isso 
só por morte do Rei — commentava. Da mesma forma, o poder 
do valido parecia, em quanto vivesse o soberano, inabalável. 
— Cahir Sebastião José? só quando o Rei morrer, — A idéa de 
eliminar o ministro pelo assassinato necessariamente occorria. 
Mas o temor do castigo, o abatimento em que o servilismo 
da corte lançara a nobreza, atalhava a resolução. Assim pois, 
como as cousas iam, o poder, a que todos mal soff ridos se 
acurvavam, era para durar largos annos, tantos quantos 
durasse o reinado. 



II 



No exilio de Setúbal, Malagrida recebia as visitas de 
pessoas nobres, que iam fazer com elle os exercícios de 
Santo Ignacio. O concurso era grande. Modo de protesto 
contra o governo, que relegara o jesuita da capital. Este 
exultava com as manifestações. «Que espectáculo — exclam.ava 
elle — esta mansão de retiro, onde as mais illustres damas 
da sociedade passam dias inteiros, enclausuradas como freiras! 
Que direi da concorrência de dignatarios da corte, que se 
retiram para a casa dos exercícios!» ^ Entretanto o triumpho 



'■^ Carta citada por Míry, Hist. de Gabriel Malagrida, trad. por 
Camillo Castello Branco, pag. 154. 



172 AIALAGRIDA EM SETÚBAL 

trazia seus riscos. Espias do governo vigiavam as reuniões 
c o jesuita sentindo-se ameaçado, antevendo a represália, 
juntava: «Mas ah! á minha feHcidade seguir-se-á brevemente 
a minha perdição!» ^ 

Já então a nevrose se apossara inteiramente do illumi- 
nado. Sempre em exahação, tinha presentimentos, percebia 
os dcsignios da divindade. Do púlpito bradava contra as 
violências feitas aos missionários, contra a perseguição da 
Companhia de Lo3ola, dilecta filha da Egreja. Carvalho era 
o perseguidor, o inimigo. Acerca d'e!le escrevia, a lasiimar-se, 
ao papa Clemente XIII: «Que funesta scena esta! Que trists- 
simo espectáculo! Que repentina metamorphose! Por ordem 
real expulsos das missões, proscriptos e votados á ignominia, 
os arautos da divina palavra!,.. E qu,3m fez tudo isso? Não 
o monarcha fidelissimo, filho de D. João V e D. Marianna 
de Áustria, mas o ministro Carvalho, cuja vontade é suprema 
na corte. Elle sim, tem sido o architecto de tantos exicios, 
e tenta escurecer, com facciosos escriptos, espalhados a flux, 
o esplendor da nossa sociedade, que lhe offusca os lívidos 
olhos; escriptos que respiram ódio immenso, virulento, impla- 
cável. Se elle pudesse degolar de um só gojpe os jesuilas 
todos com que prazer o faria!» ^ 

Em tal disposição de espirito e com o seu temperamento 
mystico, a idéa da cólera divina e do castigo naturalmente 
occorreu a Malagrida. Contra os crimes de todos manifes- 
lara-se Deus no terremoto; aos actos de um só, execrando 
perseguidor, cabia a pena individual. Mas era realmente esse 
o responsável? Perante o supremo julgador, que incumbe aos 
Reis os destinos dos povos, havia outro, D. José; sobre esse 
recahiria a divina vingança. 

Era porém a alma do jesuita compassiva, incapaz de 
malquerença, muito menos ao Rei, que por ignorância ou 
leveza de animo delinquia, não por iniquo. Certo do castigo 



^ IHst de Gnbiicl AW aferida, 154, id. 

" Mlri?. Journal ziir Kunstgeschichte und alígcmeine Liíferalur 
VIII. Nurembcrg 1780, pag. 100. 



PRESAOIOS DE MALAGRIDA ACERCA DO REI 173 



próximo tentou precavel-o, fazendo-lh€ saber que um perigo 
imminente o ameaçava. Falou a vários. Escreveu. Ninguém 
lhe deu credito. Desde o terremoto que elle vaticinava debalde. 
Eram tudo illusões de visionário. 

De tantas pessoas que iam a Setúbal aos exercícios, 
algumas de certo participavam dos presentimentos de Mala- 
grida, e diziam-no. Não faltava quem attribuisse ás reuniões 
piedosas sinistros intuitos, Elle sabia d'isso. «Mil bocas ini- 
migas — escrevia — vociferam contra mim e contra estes santos 
exercícios; desautorizam-os, chamam-lhes momices, machi- 
nações infernaes, empregadas para enganar o povo e derrubar 
o Estado! Cada dia novas calumnias provocam suspeitas e 
averiguações novas. Que farão? não sei; mas não deixo de 
estar em alvoroço.) i. E entretanto a affluencia de peregrinos 
continuava. 

O duque de Aveiro não era do concurso devoto, mas 
não é de extranhar lhe chegasse aos ouvidos a predicção, e 
no seu insoffrido despeito a ligasse ao thema desconsolador, 
tantas vezes ouvido, que, vivo o Rei, nem o casamento do 
infante se realizaria, nem o poder do valido teria fim. 

A posição do duque na corte, o seu orgulho, os aggravos 
que pensava ter, junto isso ao curto discernimento que o 
cegava para a insignificância da sua personalidade, tudo 
suscitava uma alma quasi de paladino, nesse fidalgo avarento 
e estólido. D'esta arte se poude considerar mandatário da 
nobreza afrontada, e até instrumento da vontade celeste 
contra o Rei. 

Por complemento teria ainda o applauso popular. Nas 
mais baixas camadas, como nas classes nobres, reinava o 
desgosto d'esse governo irritante que, no prurido de trans- 
formar a nação, a todos attingia com perturbações e vexames. 
Até onde, pois, seria capaz de o levantar um golpe arrojado? 
Sua vaidade era immensa. Nas veias tinha parcella de sangue 
real. Subira muito já, e a mais poderia aspirar. Os creados 
affirmavam-lhe que o Rei não tinha quem melhor o servisse. 



Hist. de Gabriel Malagrida, 154. 



174 A NOITE DE 3 DE SETEMBRO 



Que nic importa a mim El-Rci? respondia com soberba. O 
cunhado, D. João de Távora, dlssera-lhe uma vez por chiste, 
lisonjcando-lhe a vangloria: FJa, mano; cVaqiii só para Rei! 
Acaso, no recôndito do seu pensar, não julgava tal impossivel. 
Á plebe não repugnava a idéa. Em dezembro, preso o duque, 
correu o boato de se terem levantado as ilhas a proclamal-o, 
signal de que o sentimento popular nem lhe negava as 
ambições, nem as repellia por vãs. 

Admiítir-se-á que o jactancioso fidalgo, tentando a morte 
de D. José, tinha em vista sentar'-se no throno? Fallecendo 
o monarcha, deixava filhas, um irmão; mas tudo é licito 
suppôr da leviana cabeça que preparou o attentado. Entre- 
tanto o motivo declarado não foi, não podia ser esse; a 
razão apparente, aquella que o duque a si próprio confessava, 
era o casamento do infante. 

A 27 de agosto falleceu a rainha de Hespanha, irmã de 
D. José, com o que perdiam os jesuítas a sua melhor pro- 
tecção na Peninsula, e os fidalgos a ultima esperança d'aqueUe 
consorcio. Deixou a soberana D. Pedro por universal her- 
deiro, legando á Companhia de Jesus, para as missões da 
índia, duzentos mil cruzados, a cargo dos religiosos portu- 
gueses. Decretado o lucto, encerrou-se D. José por oito 
dias, durante os quaes não dava audiência nem assignatura, 
não devia, sob pretexto algum, sahir do paço. 

Chegamos á data famosa de 3 de setembro. O Rei, 
todo o dia vigiado pelos zelos da Rainha, tinha as noites 
por suas. Deitava-se por costume muito tarde, ás vezes de 
madrugada, das três para as quatro horas. À meia noite 
chegava Carvalho para o despacho, e emquanto a Rainha 
suppunha os dois em conferencia sobre os negócios do 
Estado, o marido, na sege, tirada por muares, corria ás 
amorosas aventuras, na quinta de Belcm, acompanhado pelo 
fâmulo e confidente Pedro Teixeira. 

Na manhã de 4 correu cedo na capital a novidade que 
o Rei adoecera de noite, estava mal e fora mais de uma vez 
sangrado. Algumas pessoas diziam ter elle cahido por uma 
escada, fracturando um braço; outras, em maior numero^ 
que lhe haviam dado uns tiros os Tavoras. 



OPINIÕES VARIAS SOBRE A TENTATIVA DE REGICÍDIO 175 

As relações amorosas do Rei com a marqueza moça, 
D, Alaria Theresa, eram sabidas e já antigas. Datavam do 
tempo em que o marquês, seu sogro, estivera na índia, 
por Vice-Rei. Dizia-se que o duque de Aveiro protegera 
esses amores, estando com a corte em Salvaterra. Entre as 
homenagens salientes de D. José contava-se o presente de 
de um lindo cavallo, a primor ajaezado, de que a marqueza 
fazia alarde. Talvez os Tavoras a principio não levassem a 
bem o desdouro; d'ahi se desavieram com o duque; mas 
correndo o tempo foram-se conformando, acceitaram o facto, 
e as relações de familia volveram-se á antiga cordialidade. 

Os boatos do attentado dos Tavoras foram logo cridos. 
Rapidamente se propagou a versão na cidade e no reino, 
e, dentro em pouco, entrou-se a dizer que os jesuitas tinham 
sido instigadores do crime. Pronunciava-se abertamente por 
tal o desembargador Ignacio Ferreira Souto, creaíura de 
Carvalho, ao depois juiz no processo de regicídio ; e aos 
que sabiam de suas relações com o ministro foi evidente que 
o desembargador falava por elle e por si. 

Entretanto do paço nada transpirava. A Rainha assumira 
a regência; e o governo, passada a commoção dos primeiros 
dias, parecia occupado somente da administração. Carvalho 
conservou-se impenetrável. Nenhum facto indicava que a 
voz publica contra os Tavoras tivesse eco na corte. Com o 
socego da innocencia, ou a resolução de quem sabe cjue só 
pela ousadia logrará salvar-se, estes não deram um só passo 
para a sua segurança. As suspeitas do governo pareciam 
pairar mais longe. Diogo de Mendonça, que cumpria o seu 
exilio na sua quinta de Salreu, foi conduzido entre soldados 
ao Porto, e de lá embarcado para Mazagão. Mas foi esse 
em três meses o só acto de rigor. Em outubro vieram tropas 
da provincia para Lisboa. Houve transferencias de commandos, 
e promoções, que produziram certo descontentamento entre 
os officiaes. Alguns d'estes, da nobreza, enti-e elles um 
Távora, pediram as demissões. Tudo isto deu motivo a 
rumor, mas ninguém ligava os factos ao caso de setembro. 

Contra os jesuitas nenhuma providencia, a não ser que, 
em fins de novembro, o visitador ordenou que nenhum se 



176 OPINIÕES VARIAS SOBRE A TENTATIVA DE REGICÍDIO 

ausentasse do logar onde na occasião se encontrava, alle- 
gando todavia unicamente conveniências da reforma que ia 
emprehender. 

Nas cortes extrangeiras era viva a curiosidade acerca 
de um successo, em parte mysterioso, e sobre o qual lhes 
chiegavam pelos seus representantes em Lisboa desencon- 
tradas versões. Prevenidos da doença do Rei, os diplomatas 
registavam os boatos correntes, m.as, na interpretação do 
facto, repelliam aquillo que mais na boca do vulgo se 0'uvia. 
Que o Rei voltava de uma entrevista amorosa, provavelmente 
com a marquesa de Távora, todos nisso concordavam. Mas 
um regicídio pensado parecia-lhes de tal modo insensato que 
nenhum cria em tal attribuindo todos a equivoco o siiccedido. 
O Núncio, os ministros da Imperatriz e de Inglaterra, o 
encarregado de negócios da França, consideravam o ataque 
dirigido a Pedro Teixeira, criado particular e alcaiote de 
D. José 1; talvez pelos Tavoras, pelo duque de Aveiro que 
d'elle tinha offensas, ou mesmo pela Rainha, e em tal caso 
não seria a primeira vez, tanto era o ódio que ao ignóbil 
confidente ella votava. 

Os diplomatas, que conheciam o viver da corte, recu- 
savam acreditar que fosse o caso de honra dos Tavoras a 
razão da emboscada. E muitas pessoas de categoria pensavam 
assim. Três annos depois, um emissário de Luiz XV, que 
veiu a Lisboa, contando o que ouviu, exprimia-se d'este modo : 
«A marquesa mãe e seu marido desde muito sabiam das 
relações amorosas do Rei, e em boa paz as soffriam. Nenhum 
dos dois era escrupuloso na espécie, e ha mesmo apparencia; 
de que se compraziam do facto emquanto d'elle esperaram 



1 Cf. de?p. do ministro de Inglaterra Hay, 13 setembro 1738, 
Smith \Memoirs of the Alarquis of Pombal, I, 210; de Saint JiiHen, en- 
carregado de negocies de França, 12 setembro, Malouet, Mémoires, 11, 
313; de Khevenhiiller, ministro de Áustria, 12 setembro, artigo de 
R. Duhr na revista Stimmen aus Maria Laach, 1890, fase. 2, 398; 
do núncio Acciajuoli, 3 outubro, na revista Zeitsckrijt fiir Kath. Thso- 
logie, 1898, art. do mesmo escriptor. 



o DUQUE DE AVEIRO E PEDRO TEIXEIRA 177 

vantagens» i. Mas o vulgo, menos sceptico, pensava de 
outro modo, e havia quem dissesse que também a duquesa 
de Aveiro não fora esquiva ao Rei, Outro diplom.aia, o conse- 
lheiro Junck, da legação da Prússia, conta que certas pessoas 
lhe haviam explicado o caso como sendo tentativa da própria 
familia, contra a marquesa, que julgavam ir na carruagem 
para se encontrar com D. José; supposição frívola, que bem 
mostra os desvarios da opinião, e quanto as razões expostas 
nos documentos publicados pelo governo eram frágeis e 
incapazes de produzir convicção. Rematando, havia até quem 
attribuisse a tentativa a Carvalho, para pela imputação do 
crime perder os seus inimigos. 

Foi quando surgiram as primeiras vozes sobre os jesuítas 
que também se falou no duque de Aveiro. E apontavam-se 
dois motivos: a vingança particular contra Pedro Teixeira, 
alvo, por sua insolência, de muitos rancores^ e es3€ excluía 
o propósito de ataque ao Rei; outro, o de uma temerária 
aventura em que o ambicioso fidalgo pretendia apossar-se 
do throno. 

Um mês depois do crime não se falava já nos Tavoras, 
e a corrente mais seguida indigitava o duque, sendo o creado 
particular a destinada victima. Questa ora è la você che è la 
piá conimune, escrevia o Núncio em 3 de outubro '-. Mas, 
quando em dezembro foram presos os fidalgos, já se dizia 
que o duque tivera o intento de se proclamar Rei, que havia 
dois milhões de moeda cunhada com a sua effigie, e decretos 
impressos em seu nome, finalmente que uma das ilhas dos 
Açores se tinha levantado e o acclamara. 

Neste conflicto de versões oppostas. Carvalho não vacilloii. 
A voz popular, que indicou os Tavoras e depois o duque 
de Aveiro, concordava com as suas próprias suspeitas, e 
por detraz d'esses a sua idéa fixa em acção apontava-ihe 
os jesuítas. Uma vez, Khevenhiiller, intimo seu, perguntou-lhe 
se era exacto que um missionário do Maranhão, com fama 



1 Malouet, 'Aíémoires, II. 302. 

2 Zeit&chrijt fur Kath. Theologle, art. cit. 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 12 



178 CARVALHO E A TENTATIVA DE REGICÍDIO 



de santo, havia escripto ao Papa sobre um grande perigo^ 
pendente sobre o Rei, se os jesuítas antes da festa da Nati- 
vidade não fossem reintegrados nas funcções do confissio- 
nario e do púlpito, de que os privara o visitador. O ministra 
deu ares de surpreso e impressionado com a interrogação. 
Evidentemente não conhecia a historieta i. Seria isso Cjue 
o lançou na pista de Malagrida? 

Não ignorava elle que, á voz do missionário, se apinhava 
o templo em Setúbal para as penitencias, e concorriam fidalgos e 
altas damas de Lisboa para os exercicios de Santo Ignacio. O 
geral descontentamento contra o governo provocara effervescen- 
cia, que não escapava á observação dos diplomatas. Quando foi 
do attentado, escrevia o ministro britannico: «Se o Rei tem 
morrido, não sei o que seria d'este desditoso paiz» -. Kheve^ 
nhijller dava parte á sua corte da fermentação 'existente no Bra- 
sil, e mencionava como muito perigoso «o estado de agitação 
geral no reino e nos dominios» ^. Nas ruas cada qual com-^ 
mentava o attentado segundo as próprias sympathias. Um 
frade, antes do julgamento de janeiro, bradava que se os 
fidalgos fossem degolados muito sangue li a vi a de correr ■*. Por 
isso foi julgado, e as prisões de individuos de baixa categoria^ 
que então em quantidade se effectuavam, puniam intuitos 
sediciosos. A estes se deve também attribuir o rumor popular 
das pretençòes do duque de Aveiro ao supremo poder. Ttida 
isto confirmou o ministro na presumpção de um vasto trama, 
que armara as mãos dos fidalgos, e tinha por instigadores 
os jesuítas. 

De factos positivos, em que assentasse a crença de serem 
os Tavoras e o duque de Aveiro os braços da conjuração, 
não se encontram vestígios, A primeira denuncia, que foi a 
base do processo, veio do rústico galan de uma creada da 



• Zciísclirift. fiir Koíh. TheoL, art. clt. 

- Mai.íhei, Mímoirea, II, 315. 

3 Despacho de 19 Setembro 1758, Zeitschrift fiir Kath. TheoL. 
art. cit, 

"* Processo do frei .Wanoel de SanfAnna. Arch. do Ministério 
da justiça. . , : , 



PRIMEIRAS DENUNCIAS CONTRA OS REGICIDAS 179 

duque, a 15 de dezembro, quando já se achavam em detenção 
CS fidalgos. Até ahi a justiça procedera, segundo a apparencia, 
por meras inducções. Se prévias denuncias houve, d'el!as não 
ficou indicio no processo. Cai*valho acceitou a voz publica, 
que incriminava o duque de Aveiro, e porventura teve um 
secreto aviso, que nos autos não podia figurar; a razão 
adeante se verá, O rumor sobre os Tavoras podia ser exacto 
e radicar-se no tardio pundonor, que o povo nelles imaginou. 
Para o impellir nesta senda contribuía a circumstancia ponde- 
rosa de lisonjear o sentimento da Rainha, ferida no seu 
orgulho de mulher e de Princesa, e a quem o crime, levado 
a fim, privaria do esposo e das honras da suprema posição. 
Com effeito, que melhor offerenda aos seus zelos, do que a 
ruina da familia que, por interesse acceitara a deshonra e^ 
cúmplice do adultério, também o era do crime contiía o marido,, 
volúvel mas sempre amado? 

Tem-se pensado que fosse delatora a marquesa amante 
do Rei. Não será assim quanto aos Tavoras, mas é bem 
possível ter ella denunciado o duque de Aveiro. No dia 
seguinte ao trime, pedira-lhe elle uma entrevista, que se 
realizou na casa de um tal Caetano Escarlate i. Em presença 
da cunhada manifestou susto pelo que, acerca dos Tavoras, 
se falava na rua; e fora por noticias, dizia, temendo que elles 
por despique se houvessem lançado em algum excesso. Do 
encontro e do que nelle se passou soubera Carvalho. Sobre 
isso foi o duque perguntado no processo. Quem senão a 
marquesa podia ter feito a revelação? 

Na manhã de 4 toda a gente falava no caso d'aquell;a 
noite, indiciando os Tavoras. É de acreditar que o duque,^ 
nos abysmos da sua alma, cuidasse de aproveitar a supposição 
geral para defesa sua. A attitude que teve ante os juizes 
permitte que todas as vilezas lhe sejam attribuidas. Insinuar 
a Theresa de Távora que o marido, o sogro, o cunhado 



1 Escudeiro da Marquesa de Távora, moça. Talvez filho ou pa- 
rente de Domenico Scarlatti, conhecido compositor, que foi professor 
cravo das infantas, filhas de D. João V. 



ISO o DUQUE DE AVEIRO PROCURA ENVOLVER OS TAVORAS 



haviam por causa d'ella praticado o acto terrível era conquistar 
o esquecimento do crime, a impunidade, que as lagrimas da 
mulher amada saberiam alcançar do Rei para os seus. 

Mas não ficou aqui. Ao cónego Paulo da Annunciaçao, 
seu intimo, disse, quando ainda havia duvidas sobre a doença 
do Rei: uFoi um tiro que levou por causa de mulheres^). Não 
era preciso mais para o interlocutor entender que seria dos 
Tavoras. E, como esta, outras confidencias teria feito, dando 
assim consistência ao dizer popular. 

Da primeira vez, todavia, falando á marquesa, foi tiahido 
pela perturbação. EUa, certa que o ponto de honra não era 
razão para a familia, lendo na alma do duque, adivinhou ser 
elle o culpado; e então, por defender os seus, que o clamor 
publico perdia, por se vingar do infame, que os accusava 
sendo elle próprio o criminoso, fez saber ao Rei o que entre 
ambos passara. Foi effectivamente assim ? A inducção não 
briga com a lógica. O acto seria racionavel e humano; e 
não o contradizem os factos verificados. Os acontecimentos 
ficam assim coordenados até á catastrophe. 



III 



A calma, que succedera ao attentado, turbou-se em 
dezembro subitamente. Renasciam as angustias que a popu- 
lação conhecera no terremoto. A 13 despertou Lisboa em 
sobresalto, sabendo que na madrugada se haviam efíectuado 
muitas prisões. O marquês de Távora, seus dois filhos, dois 
irmãos, os genros conde de Athouguia e marquês de Alorna, 
levados para os novos cárceres edificados no pateo dos Bichos, 
dependência da quinta real, em Belém. Indivíduos de baixa 
graduação e criados dos fidalgos, na cadeia local. A duquesa 
de Aveiro, a marquesa de Távora e suas filhas, reclusas lem 
mosteiros. O duque apprehendido nesse dia na senhoreai 
residência de Azeitão. As casas dos jesuiías em Lisboa 
cercadas pela tropa e varejadas. A quantidade de gç.rú.ç: detida 
crescendo a cada hora, e mais ainda na imaginação d'aquelles 



PROVIDENCIAS CONTRA OS PRESUMIDOS CRIMINOSOS 181 

que inquietos andavam ás novidades. Eis o que, de boca em 
boca, a medo se transmittia. 

No mesmo dia 13 appareceu afíixado o edital, com da ia 
de 9, publicando como fora a carruagem assaltada por três 
homens a cavallo, e o soberano ferido, na noite de 3 de. 
setembro; alludindo aos presagios de correr perigo a sua 
vida, precedentes ao attentado; declarando a conjuração e 
offerecendo prémios e honras a quem fizesse conhecer os 
conspiradores. 

As prisões continuaram nos dias segumtes. Em janeiro 
passavam de mil i, e, cheios os cárceres existentes, a toda 
a pressa se preparavam outros, para os hospedes esperados. 
Dos Tavoras só um irmão do marquês ficava solto, e o 
bispo de Leiria, D. João, futuro cardeal da Cunha, tão solicita 
em condemnar o attentado, que logo d'ahi se recommendou 
ás boas graças do poder. Nas enxovias todos os demais ; os 
afastados parentes, os amigos, os fâmulos d'elle e do duque. 
As damas e crianças em conventos. Sequestrada também num 
claustro, com uma filhinha, a fatal amasia do soberano. 

Para julgar os regicidas instiíuiu-se um tribunal de incon- 
fidência, que os três secretários de Estado haviam de presidir. 
Instructor e relator do processo era Pedro Cordeiro, chanceler 
da Casa de Supplicação, o mais graduado juiz do reino. 

Primeiro dos presos interrogados foi o duque de Aveiro, 
a 24 de dezembro. Às primeiras perguntas assacou logo o 
crime aos Tavoras. O marquês, pae, era muito delicado em 
matérias de honra e pundonor ; percebera o procedimento da 
nora em uma festa, na casa d'ella, poucos dias antes do 
attentado; d'ahi provinha recear o duque haverem-se os 
parentes arrojado áquelle excesso. A isto o juiz Pedro Cor- 
deiro, talvez Carvalho que presidia, retorquiu sceptico não 
ser a resposta verosimil; porque «não cabia no juizo humano 
que o marquês de Távora e mais pessoas de familia igno- 
rassem o que era notório aos extranhos». O marques e 
todos de casa estavam informados; nas conversações donies- 



^ Dcsp. de Khcvenliuller, 9 janeiro 17S9. Rev. cit., 408. 



182 CONFISSÃO DO DUQUE DE AVEIRO 



ficas, alliidia-se ao facto, como o duque sabia. Q-uanto a 
razão de pundonor — com cynismo continuava — era fútil, 
porque nunca se viram zelos de vassallo para soberano, A historia 
peregrina e domestica abundava em casos parecidos. E que 
faziam os aggravados ? resignavam^se em silencio ou, quando 
muito, protestavam com um prudente e decoroso retiro. Depois 
proseguia setencioso: «Nem o marquês é tão rústico e de 
tal sorte bárbaro que ignorasse o referido, nem o duque 
tão falto de conhecimento do mundo e da corte que attribuisse 
a essa causa o attentado.» 

Dizia bem o homem : exemplos não faltavam na historia. 
As pontas de ouro, que o marido de Leonor Telles usara 
por despique, deviam no reinado de D. José trazer-se por 
honra, A isto baixara no século XVIII, em Portugal e na 
Europa, a dignidade humana, pela adoração néscia do ente 
superior que o Rei devia ser. 

Tão cabaes pareceram ao duque as razões que, descon- 
certado, sem inventiva para mais, e apprehensivo talvez da 
tortura, confessou. O criminoso era elle. Mandara chamar 
António Alvares, irmão do seu guarda roupa, para atirar a 
uma sege que de noite havia de sahir da quinta de Belcm. 
Veio iclle e mais outro. Dera-lhes vinte moedas. Os assassinos 
não sabiam a quem atiravam, presumindo ser algum inimigo 
do duque. Nos Tavoras não falava já e, facto muito em pró 
d'elles, passou a invocar para o seu acto motivos mui diversos 
dos primeiros: razões de ódio e de interesse. O Rei fizera 
decidir contra elle um pleito valioso; impedira o consorcio 
de seu filho com a irmã do duque de Cadaval. «Mas — torna- 
ram-lhe — consumado o crime, a sua perdição era certa.^> — 
«Não! O infante D. Pedro o defenderia!». 

A fátua declaração exultou de certo Carvalho, qtie mais 
uma razão tinha para excitar a desconfiança do Rei contra 
o irmão. Isso, porém, não bastava. Os tiros, que haviam de 
matar a D. José, tinha-os por apontados a si, alvo de todas 
as cóleras, e não ao soberano. No ataque, estava d'isso 
convicto, todos os seus inimigos tinham cooperado: o duque, 
os Tavoras, o infante, muitos fidalgos, e por fim, na ultima 
linha, o troço ousado dos jesuítas. A cumplicidade d'estes. 



DENUNCIA DOS JESUÍTAS COMO REGICIDAS 183 



mal definida até ahi pelas testemunhas antes ouvidas, preci- 
sava que n'este interrogatório se demonstrasse. O inquérito 
foi por isso encaminhado nessa rota. 

«A confiança na protecção do infante — volveu o juiz — 
além de criminosa era vã. Nem o duque jamais a tivera. A 
impunidade, sim, contava com ella, mas para isso era preciso 
haver na conspiração um certo numero de pessoas seculares 
e ecclesiasticas. . .» ^ Estava a Companhia de Jesus nomeada. 
Entenderia o duque o que d'eile queriam? 

Desentendimento, resto de lealdade, ou tardio escrúpulo 
de novos aleives, este homem tão prompto em accusar não 
falou. Com seus temores e a turbada consciência o deixaram 
naquella angustiosa noite de Natal. Que lembranças amargas 
do passado, que visões sinistras de perdição, lhe atormentaram 
Jias trevas do cárcere a dolorosa vigilia, e algum inquieto 
dormitar? Que idéas revolveu no frouxo cérebro, oppresso 
pelo medo do patibulo, pelo anhelo de saivar-se a todo o 
transe? Aonde pretendia o tenebroso Sebastião José leval-o 
com as insinuações da véspera? Que victimas devia sacrificar 
a um vislumbre de esperança? 

No dia immediato confessou a gosto dos juizes. Esponta- 
neamente? O auto de perguntas consta de uma só declaração. 
Por maravilha é conciso e, circumstancia suggestiva, termina 
do modo seguinte : «Zf por se achar incommodado se lhe não 
fizeram mais perguntas^-). Remorso, pavor, ou effeito da 
tortura? A derradeira supposição é mais provável, e foi 
posteriormente allegada na justificação dôs Tavoras. Ao 
tribunal não conviria achacar de violência o depoimento 



■* <.Outro maior e mais certo interesse fora o que elle responcicnte 
esperava achar, depois de nos privar da augustissima pessoa e do 
gloriosissimo governo de El-rei Nosso Senhor. E este interesse, para 
ter p]f;uma proporção com tão grande delicto, não podia racion.il- 
niente ser outro interesse que não fosse o ter seguro, a d seu parecer, 
xuna confederação de pessoas ecclesiasticas e seculares, para se sus- 
tentar a si e ás suas pretenções, em tão tristes, tão inhabeis, e tão 
escandalosas ciicirmstancias). lntenx)gatorio de 24 de Dezembro. Per- 
gunta 18. a 



184 O GRANDE JUBILO DE CARVALHO 



fundamental. Depois d'isso, por três dias, não houve interro- 
gatório; davam-lhe o tempo de se recuperar das dores. 

No quarto dia o réo declarou que a idéa do crime lhe 
viiera dos jesuitas. Perguntando como se poderia conseguir 
o casamento do infante, quatro padres, João de Mattos, José 
Perdigão, Jacintho da Costa, Thimoteo de Oliveira concor- 
daram que só matando o Rei. O duque hesitava; mas aos 
escrúpulos oppuzeram-lhe não ser peccado o regicídio, aos 
receios que, realizado o feito, tudo se havia de compor. 

Deste modo o attentado não era já despique de familia, 
nem vingança pessoal, mas um crime politico, determinado 
pelos jesuitas. As três versões, taes quaes o duque as apre- 
sentou, excluiam-se reciprocamente. Carvalho reteve-as todas, 
integrando em uma acção commum a ambição, confessado 
movei do criminoso, a vingança dos Tavoras e a instigação 
dos jesuitas. Com estes elementos se fez o processo, sobre 
elles foi a sentença proferida. 

Extremo devia ser nessa hora o jubilo do ministro. Amor 
próprio satisfeito, pela antecipada percepção do trama, que 
a confissão do principal réo, para elle sincera, revelava; 
rancor saciado pela certa destruição de tantos inimigos. Um 
d'elles, o mais soberbo porventura, tinha-o agora nas mãos, 
submisso, sem alento, sem razão e sem vontade, argila plástica 
a seu capricho moldavel. A esse pediria quantas victimas 
quizesse para a desforra. 

Pusilânime e fallido de senso moral, o duque, entendendo 
que, quantas m.ais pessoas implicasse no crime, tantas mais 
possibilidades teria de salvação, foi denunciando quem os 
juizes desejavam, e outros ainda, que a sanha d'elles não 
quiz para o patibulo. 

Os Tavoras, pae e dois filhos ; o conde de Athouguia ; 
Manoel e João de Távora seus cunhados, que, sabendo da 
conjuração, não tomaram parte no attentado; conde e condessa 
da Ribeira; Manoel de Sousa Coutinho, «que offerecera iins 
mulatos para executores do insulto»; o marquez de Alorna, 
scientes do trama, porém alheios á execução. 

Instado para nomear outros ecclesiasticcs, além dos 
jesuitas, mencionou Paulo da Annunciação que depuzera 



o DUQUE DENUNCIA PARENTES E OUTRAS PESSOAS 185 



contra elle, e outro «alto, magro, de óculos, cujo nome Jhe 
não lembra,» — diz o processo. Esses também tinham sido 
informados. Depois, á aventura, António da Costa Freire^ 
«com quem communicava sobre o ponto de fazer odioso o 
governo» ; o conde de S. Lourenço, que talvez alguma cciisa 
soubesse por Manoel de Sousa Coutinho. Era o que em 
giria da inquisição se chamava dar neste e naquelle, cega tenta- 
tiva de acertar com o intento dos juizes. Todos os que não 
foram justiçados, como presentes na emboscada, pagaram 
com longos annos de cárcere, onde alguns terminaram a 
vida, a louca esperança de salvação, que o miserável um 
instante afagou. 

Falta, porém, dizer o mais extranho. Para remunerar 
os assassinos pagos, houvera entre as opulentas famílias 
interessadas uma collecta. Somma total quarenta moedas, 
cento e noventa e dois mil réis! Távora pae, dera doze; 
dezeseis a marquesa, das quaes oito pela filha, condessa de 
Athouguia; oito Manoel de Távora, não incluído no processo; 
finalmente a condessa da Ribeira, a filha, e o conde Quido 
da Camará completaram a conta com seis moedas. O duque, 
riquíssimo, principal réo e promotor do crime, nem um ceitil. 
Incrível depoimento, capaz, ante verdadeiros juizes, de annullar 
todas as mais imputações de alheia cumplicidade. 

A incoherencia era tal que o próprio Carvalho, sôfrego 
de accusações, duvidou. A falsidade resaltava nos porme- 
nores, mas convinha aproveitar o fundo da declaração. Con- 
certou, pois, a conta a seu modo, repartindo na sentença 
final dezeseis moedas á marquesa, doze ao marido, oito ao 
conde de Athouguia. Excluídos Manoel de Távora e o conde 
da Ribeira, restavam quatro moedas. Nesta somma não se 
fala. Podia racionavelmente ser a quota do duque, avarento 
como todos sabiam, mas o mais curial será pensar que seme- 
lhante collecta não houve, nem os juizes alguma vez ne!!a 
acreditaram. 

A 29 de dezembro, ulílmo interrogatório, o duque faz 
a narrativa do crime, com a descripção confusa da emboscada 
em que três grupos successivos, promiscuamente compostos 
dos fidalgos, três criados e os dois assassinos pagos, deviam 



186 ULTIMO INTERROGATÓRIO DO DUQUE 



atirar sobre a carruagem que, atacada pela primeira turma, 
escapara, mudando o caminho, ás outras duas. Ahi novamente 
elle accusa, titubeia, contradiz-se e calumnía. Ainda nesse dia 
foram perguntados José Maria de Távora e seu irmão, o 
marido ultrajado. No immediato, Távora pae e o conde de 
Athouguia, Este e o marquês Luiz de Távora no tormento 
dcpuzeram ao sabor dos juizes: condemnaram-se a si, aos 
seus e aos jesuitas, O marquês velho e José Maria, mancebo 
de vinte e dois annos, negaram tudo, mesmo nas angustias 
do potro. Â marquesa nenhum interrogatório se fez. A fereza 
dos juizes não ousou mettel-a nos tratas; limitoa-se a con- 
demnal-a á morte sem a ouvir. 



IV 



Até 9 de janeiro foram interrogadas as testemunhas, 
criados dos Tavoras e duque de Aveiro, creaturas de Ínfima 
responsabilidade, a quem por instigações ou nos tratos ^ 
neste espantoso processo deu-se o tormento ás testemunhas! 
— os juizes extorquiram declarações, com que pudessem dar 
alguma apparencia de equidade á resolvida condemnação *. 
Naquelle dia foi o processo enviado á Mesa de Consciências 
e Ordens, foro privilegiado dos réos pertencentes ás Ordens 
militares, duque de Aveiro, marquês de Távora e conde de 
Athouguia. A 11 o tribunal pronuncioa-se, entregando-os ao 
poder civil, O defensor único nomeado para os doze accu- 
sados — a marquesa de Távora, os cinco fidalgos, cinco 
criados do duque, dos quaes um, José Polycarpo de Azevedo, 
em fuga, e o cabo Romeiro, ordenança do marquês — poucas 



1 A casa dos vinte e quatro, manipulada por Carvalho, dirigiu 
ao rei uma supplica para serem applicados tratos aos réos e ás tes- 
temunhas, vi?to não existir a disposição nas leis vigentes. Os instru- 
mentos foram levados da Inquisição para o pateo dos Bichos, em Belein, 
onde o tribunal funccionou. 



A DEFESA E EXECUÇÃO DOS REGICIDAS 187 

horas teve para ler os autos, conferir com os réos e escrever 
um curto arrazoado. Não se lhe permittiu mais, nem lhe con- 
viria a elle, magistrado de carreira, comprometter-se por zelo 
excessivo. 

Na defesa sobresaem os pontos seguintes: Luiz de Távora 
retratava-se, allegando que por mera presumpção confessou, 
vencido das dores, o que a respeito seu e dos outros lhe 
suggeriram; o cabo Romeiro, que accusara seus amos, retra- 
tava-se também; a marquesa de Távora não fora perguntada; 
íião houvera confrontação dos réos entre si, nem com as 
testemunhas. O resto é um frouxo appello á compaixão dos 
juizes, de qualquer maneira dispostos a condemnar. 

Tudo foi desprezado. A sentença lavrara-se antes de 
«scripta a defesa e, porque as penas da Ordenação parecessem 
benignas, o tribunal, inflammado pelo desejo de manifestar 
ao Rei o seu ardor em o vingar, requereu lhe fosse permittido 
cstabelecel-as a seu arbítrio. Supplicios novos na lei portu- 
guesa foram, em consequência d'isso, determinados para os 
infelizes. 

A 12 por noite conheceram elles a sua horrenda sorte. 
A execução, principiando ao amanhecer do dia seguinte, levou 
muitas horas. Decapitada a marquesa de Távora; seu marido 
€ o duque de Aveiro rodados em vida — o supplicio consistia 
em romper a golpes de marreta os membros e o thorax, e ex- 
por depois o corpo sobre uma roda — ; o garrote e a roda simul- 
taneamente, pena menos barbara, para os demais, com' excepção 
do sicário que ferira o Rei. Esse queimado en vida, emquanto ao 
lado d'elle ardia o manequim, figura do companheiro que, mais 
ditoso, lograra evadir-se, e as chammas consumiam em volta 
os corpos dilacerados dos que tinham sido seus consócios, 
um com certeza no crime, e todos no infortúnio. À hora do 
crepúsculo, o vento do norte, soprando no largo de Belém 
para o Tejo, dissipava as cinzas do cadafalso e dos padecentes. 
Finalizara a tragedia. Aos fidalgos foram os bens confiscados, 
as casas arrasadas, apagados os brazões; e o appellido de 
Távora declarou-se extincto em Portugal. Os sobreviventes 
tomaram o de Lorena, que por linha feminina veio á família. 

Por esta forma tigrina o amante de D. Theresa de Távora 



188 A REVÍSAO DA SENTENÇA 

«e vingou. Attribuiu elle deveras o crime a um desforço de 
honra? Se alguma vez tal pensou, o ministro facilmente o 
dissuadiria. A outro fim não visa, no interrogatório do duque, 
a affirmação de direitos da luxuria real. E só isso poderá em 
parte absolver a D. José do seu cru procedimento. O valido, 
esse bem sabia ser a conjuração mais contra elle que contra 
o Rei. 

Cabe perguntar se, de facto, cooperaram os membros 
da familia ultrajada na aggressão? De animo, certamente; 
do acto material fallecem as provas. Entre a nobreza existia 
uma geral conspiração contra o regimen. Todos desejariam 
a morte do Rei, mas d'ahi a rea!izal-a havia um arrojado 
passo, que o duque por fatuidade não temeu, que os outros 
não ousariam transpor. Do numero, tudo leva a crer, seriam 
os Tavoras. 

Veja-se como foram condemnados. Além das confissões 
arrancadas ao conde de Athouguia e ao marquês filho, nos 
tormentos, disseram contra elles varias testemunhas. De que 
modo, porém? As declarações são imprecisas e divergentes; 
cinco somente nos tratos accusam; outras ficam mudas, a 
despeito do retalhar das carnes nas quinas do ecúleo. O sicário 
António Alvares, que confessa de si e do amo, dois fâmulos 
do duque executados, acerca d'elles nada dizem. O cabo 
Romeiro, ordenança de Távora pae, accusador na tortura, 
retrata-se depois. O próprio marquês Luiz renega a confissão i. 
Desmanchado assim o feixe das provas, o que resta é bem 
pouco, para que a historia os proclame culpados. Absolveu-os 



1 A priovíi das testemunhas versa quasi exclusivamente sobre a 
transícrencia, da cocheira dos Tavoras para a do duque, de uns ca- 
vallos destinndos aos conjurados. Nesta parte, como em tudo o rnais, 
são os depoimentos vagos e contradicíorios. Depois do julgamento a 
devassa coriíinuou. A 24 e 26 de janeiro três moços da cavallariça 
<Io duque, perguntados se tinham visto sahir sei 5 cavallos, para a em- 
boscada, na noite dos tiros, responderam que não. Em março, o I)0- 
lieiro de Lui/ de Távora nega que tivesse levado dois cavallos appa- 
lelhados de casa de seu amo para a do duque. Será impossível atitin- 
gir jamais a ccríeza luminosa neste drama sombrio, mas os indícios, 
até hoje, antes absolvem do que condemnam os Tavoras. 



RECONSTITUIÇÃO DO CRIME 189 



mais tarde a sentença do tribunal revisor, em uma época de 
reacção, que lhe inquinou de suspeito o julgamento. Este 
versou apenas sobre o processo escripto. Testemunhos pes- 
soaes não se buscaram. Diligencias, manifestadas por inves- 
tigações positivas, em que a limpida verdade sobresahisse, 
foram dispensadas por muito árduas ou inúteis. O objecto 
era não tanto rehabilitar os innocentes como condemnar os 
juizes, sobretudo o juiz principal, do processo anterior. O 
mysterio do sombrio drama tinha de ficar para sem.pre com 
os que nelle participaram. 



Sem recorrer ao arriscado plano, confessado pelo duque, 
de reunir dez homens a cavallo, em caminho transitado e 
não longe das habitações, para empresa de tão grande vulto 
como o assassinio de um Rei, pode-se pelos depoimentos 
reconstituir a scena da aggressão. O autor d'ella mandam 
primitivamente os dois sicários fazerem sósinhos a espera. 
Não sabiam elles a quem tinham de matar. Alguém que 
offendera o amo; por ventura Sebastião José. Dez, quinze 
noites se puzeram de emboscada; umas vezes esperando 
debalde; outras passava a carmagem, e não s€ atreviam a 
desfechar. Impaciente, deliberou o duque ir em pessoa. 
Convidou os parentes para um serão em sua casa. As salas 
illuminadas e as seges á porta facultavam-lhe o alibi. Pela 
volta das dez horas afastou-se, mudou de fato e cabeíleira, 
e sahiu pelo jardim. Da rua ouvia-se a musica no salão. 
Chegando ao logar aprazado, postou-se com os sicários. 
Quando, ao trote das mulas, appareceu a carruagem que, 
sahindo por uma porta lateral da quinta de Belém, se dirigia; 
á Ajuda, era d'elle o primeiro tiro. Mas a escorva falhou, 
e o fusilar da pederneira, na escuridão da noite sem lua, 
deu alarme ao bolieiro que, á espora fita, disparou em verti- 
ginosa carreira, calçada acima, direito á residência real. Atraz 
galopavam os assalariados António Alvares e José Polycarpo, 



190 RECONSTITUIÇÃO DO CRIAAE 



despejando sobre o espaldar da sege as clavinas. Deviam^ 
a seguir, ir aos lados, e terminar a obra com as pistolas; 
mas a fuga desabalada não lh'o permiítiu. De falhar o primeira 
tiro, ao boliciro, resultou mallograr-se a tentativa. 

Separaram-se então. O Rei, Pedro Teixeira, que o 
acompanhava, e o conductor estavam feridos. Invertendo 
caminho, pela calçada da Ajuda, que puderam alcançar^ 
desceram á Junqueira, onde D. José, depois dos sacramentos, 
recebeu o primeiro curativo em casa do cirurgião-mór Soares 
Brandão, O duque, tinha deixado os assassinos, e recolheu 
passada a meia noite. Largou os disfarces e voltou ao salão. 
Continuava a tertúlia. Nada impede de acreditar que todo 
aquelle tempo estivessem alli os Tavoras. O duque podia 
ler ido ao paço, ou a qualquer outra parte que allegasse. 

Na manhã seguinte, advertidos pela criadagem do rumor 
publico que lhes attribuia o crime, correram ao duque de 
Aveiro. Explicar-se-ia assim o conciliábulo que reuniu os 
accusados em casa d'elle, na manhã de 4, e de que o processa 
lhes faz carga. Eram cúmplices, ao menos sabiam do facto, 
e juntavam-se para concertar a defesa? Sendo assim, pare- 
ceria mais sensato terem feito isso na véspera, mallograda 
o crime, como sabiam. Declarou-se o duque então? Em tal 
caso, como se ha de conciliar o facto com a entrevista pedida 
nesse dia á amante do Rei, e o mais que fez, com o fim 
de criminar os Tavoras? A deliberação tomada em commum 
foi certam.entc a de affrontarem o perigo, na esperança de 
que entretanto o Rei succumbiria. No primeiro momento 
temeram-se, e José Maria, moço valente, passou a trazer 
sempre as pistolas no arção. Mas o silencio guardado no 
paço, o mysterio de que se buscava rodear o accideiite> 
inspiraram-lhes enganosa segurança. 

No mesmo dia 4, o duque de Aveiro apresentou-se 
audazmente na Ajuda, a pedir noticias do Rei. O marquês 
de Angeja, camarista, disse-lhe que levara uma queda. O 
duque, socegado, passado algum tempo, sahiu de Lisboa. 
Na feira de Palmella andou a*Jardeando a costumada arro- 
gância, com Manoel de Sousa Calhariz, e uma escolta de 
mulatos, valentões ao serviço d'este fidalgo. Era já então 



SALVADOR DURÃO PRIMEIRA TESTEMUNHA 19Í 



crença geral que elle dera os tiros, e os íntimos provavelmente 
o felicitavam pela sua coragem. De outra vez seria mais feliz. 
Tranquillizado, machinava agora contra Carvalho. — «Tomara 
que déssemos uma fumaça a Sebastião José,» dizia a um dos. 
sicários i. Nisto romperam as prisões. Tão completo era o 
socego dos Tavoras que o marquês velho, alta noite, ao 
sahir de um baile, sabendo que tinha a casa cercada, dirigiu-se 
ao paço, a pedir explicações. Ahi foi preso. O dia seguinte 
era 14 de dezembro. 

A 15 apparece o denunciante Salvador Durão, rapaz de 
dezenove annos, que foi quem primeiro depoz no proccLSO. 
Elle e a sua conversada, criadita da duquesa de Aveiro, 
fornecem a base de toda a acção judicial. È singular que um 
e outro por espaço de três meses guardassem o terrível 
segredo, quando aliás, em successo Ião estrondoso, tudo 
impellía á loquacidade. Depois do processo desappareceram. 
Nem lhes foi conferido o foro de nobreza, promet^tido por 
decreto aos delatores plebeus, nem a recompensa pecuniária, 
se a tiveram, foi de vulto, porque não deu na vista aos. 
contemporâneos, que de todo esqueceram estes comparsas 
do pavoroso drama. 

Entre os depoimentos dos dois ha divergências. A 
rapariga só completou as declarações ante ameaças, e depois 
que a encerraram na mesma enxovia com o namorado. È 
evidente que o pouco que teriam ouvido e presenciado o 
cx)mpletaram de imaginação. Os nomes dos presos da véspera 
eram-lhes já um indicio. As inverosimilhanças puilulam. 
Depois de tão grave commettimento, os conjurados, em um 
quintal, ao alcance da rua, trocam impressões em voz alta, 
como se a todo o mundo quizessem publicar o seu feito. O 
duque de Aveiro quebra o bacamarte de encontro a luna 
pedra. «Valham-te os diabos, diz, que quando eu te quero não 
me serves !» — O marquês de Távora receia que o Rei não 
tenha morrido. «Não importa, torna o duque, se não morreu^ 
morrerá.» E outro conjurado conclue: «O ponto é elle sahir.» 



1 Iiílcrrcgaíorio de António Alvares Ferreira. 



192 DIVERGÊNCIAS NOS DEPOIMENTOS DOS NAMORADOS 



O Távora mais moço pergunta: «O que é feito do João?» 
Por estas palavras Jocão Miguel criado do duque, que nada 
confessou no tormento, perdeu a vida. Na obscuridade de 
uma primeira noite de novilunio o denunciante, que não 
tinha trato com os fidalgos, reconheceu-os a todos pela vozi 

Entretanto no paço e Inas ruas, em toda a parte na cidade, 
imperava o terror. As delações pejavam as enxovias. Excellente 
occasião para as vindictas particulares, para os rancores 
d'aquelle a quem a nobreza desdenhosa continuava a designar 
por Scbasiião José. Em volta do Rei criara-se uma atmosphera 
de susto. Muitos dias seguidos estiveram de guarda a elle 
os secretários de Estado, que se revezavam a pernoitar em 
aposento contiguo á alcova real i. A primeira vez que appa- 
receu ao corpo diplomático, na recepção pelo anniversario 
da Princesa sua filha, «abatido e quasi sem força, mal escondia 
no ar constrangido, simulando contentamento, o susto e a 
tristeza que o dominavam» -. Opprimido de pavor, por muito 
tempo ninguém logrou convencel-o a sahir do paço. Debalde 
os familiares mais Íntimos, a própria Rainha, o incitavam 
a ir a Salvaterra. Esse paraiso perdera todo o encanto para 
elle. Tudo obra de Carvalho, que o aterrava com o prospecto 
de uma grave revolução imminente. Por isso D. José, que 
a principio quizera sepultar em silencio a aventura da noite 
fatal, consentiu no sangrento castigo ^. Inquieto pela vida 
do ministro, tanto como pela sua, inopinadamente lhe mandou 
dar uma guarda de corpo a cavallo, sem a qual elle, d'ahi 
por diante, nunca mais sahiu. 

Não se presuma que de sangue frio, e só por satisfazer 
um instincto feroz, Carvalho inventasse a conspiração. Toda 
a sua vida a obsessão constante dos tramas o perseguiu. 
Contra a sua pessoa e contra o Estado um exercito ide 
phantasmas se agitava na sombra. Agora tinha aili nas mãos, 



^ Despacho de Khevenhuller, 17 dezembro 1759. Rev. cit. 1S90. 
paT^. 407. 

^ kitm, id. 

3 Desp. de Khevenhuller, rev. cit, pag-. 408. 



TERROR DO REI, DO PAÇO E DA CIDADE 193 



evidente e palpável, o conluio, nas confissões do sombrio 
processo. E as denuncias choviam de toda a parte. Os parentes 
próximos, os amigos dos regicidas foram logo eliminados 
pela detenção perpetua, condemnados por elle no seu foro 
intimo, sem processo nem apparencia de lórma judicial, 
apanhados á noite sem estrépito, sepultados para sempre nas 
masmorras. Depois as ligações extenderam-se: dos amigos 
Íntimos ás visitas, aos dependentes, aos simples conhecidos, 
a todos aquelles que, em conversa — quantas vezes falseada 
pelos delatores? — no sigilio de uma carta, colhida no gabi- 
nete negro de abertura, ousavam manifesíar-se em favor das 
victimas ou censurar os perseguidores. 

Os perversos satisfaziam á larga o instincto da cobarde 
denuncia, que dois séculos de inquisição haviam inoculado 
no povo. Pávida e affeita á oppressão, Lisboa mergulhava era 
um mar de espanto e silencio. As cinzas dos suppliciados de 
Belém, esparsas ao vento, pairavam sobre e!la, como se de 
um vulcão sahissem a soterral-a. Do mais alio ao iníimo 
degrau da escala social ninguém estava seguro da liberdade. 
Respirava-se a medo, no perpetuo terror dos esbirros, como 
em Veneza ou, séculos atraz, em Roma, na era sombria das 
proscripções. E por dezoito annos foi assim sempre. 



VI 



Das confissões arrancadas na tortura, de testemunhos 
singulares, inducções forçadas, e o espectro da universal 
conspiração, se urdiu a sentença dos regicidas, talvez menos 
contra elles que contra os seus suppostos inspiradores, os 
jesuítas. Das mulheres compromettidas nas declarações do 
duque de Aveiro uma só foi justiçada, a marquesa de liavora. 
A truculência dos juizes poupou a duquesa de Aveiro e a 
condessa de Athouguia, e a razão seria que ao propósito de 
Carvalho bastava sacrificar a primeira, grande amiga dos 
jesuítas, principalmente do mais que todos detestado Gabriel 
Malagrida. 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 13 



194 A MARQUESA DE TÁVORA SEDUZIDA PELOS JESUÍTAS 

Quatro padres, dissera o duque, o tinham incitado ao 
crime. D'esses somente um nomeia a sentença, João de 
Mattos, agregando-lhe, em vez d'esse, outros dois, João 
Alexandre e Malagrida, como habiíuaes conselheiros da 
marquesa de Távora. A sentença tende a demonstrar que a 
alma da conspiração foi ella, induzida pejos jesuítas, princi- 
palmente por Malagrida. Suggestionados e no tormento, Luiz 
de Távora e o conde de Atliouguia disseram isso. Devia ser 
falso o testemunho. O missionário tinha ido para Setúbal em 
novembro de 1756. De então até setembro de 1758 nunca a 
marquesa lá foi, nunca elle veio a Lisboa. O escudeiro d'ella, 
c certo, depoz que um.a vez fora sua ama encontrar-se coin 
o jesuita na serra de Arrábida, e que os dois se carteavam^ 
José Maria de Távora tinha ido a Setúbal aos exercícios de 
Santo Ignacio, disse um criado seu. isso que monta? Teriam 
falado, e não se duvida que sobre o governo, o casamento 
da Princesa e os jesuítas. Malagrida não occultava o seu 
ódio ao ministro, perseguidor da Companhia de Jesus, nem 
os seus presentimentos de visionário sobre o Rei. O que disse 
á marquesa e ao filho a muitos havia repetido. Papeis que 
o compromettessem não appareceram, e o processo do Santo 
Oíficio, por melhor que fosse a vontade dos inquisidores, inada 
contra elle revelou. Afora as suspeitosas declarações, extor- 
quidas aos Tavoras no excesso da dôr pliysica, só existem, 
a condemnar o jesuita, as vagas imputações da sentença de 
janeiro, e a illusão do rancor pombalino, que a tradição 
perfilhou. 

Como quer que fosse. Carvalho aítingira um fim mtiito 
ambicionado. Contra a communidade aborrecida dos jesuítas, 
podia invocar agora, com provas, contestáveis muito embora, 
um facto odioso e terrível. A contenda com elles prometíia-Ihe 
assim decisiva victoria. Neste sentido ordenou o seu proceder. 

A 13 de dezembro, presos os Tavoras, e publicado o 
decreto com a revelação do attentado, foram pela tarde 
cercadas as casas dos jesuítas, dando o visitador ordem para 
que nenhum sahisse. Desde ahi toda a communicação com 
extranhos lhes foi vedada. A hora dos officios divinos, as 
egrejas d'elles abriam-se, como as outras, mas entravam ioga.* 



CUMPLICIDADE DOS JESUÍTAS NO REGICÍDIO 195 

soldados e, em fila atravez da nave, separavam da commu- 
nidade os assistentes. Era um apertado bloqueio. Os criados 
de dentro também não sabiam. Os viveres entravam revistos 
pelas sentinellas, e com tal exacção que se cortavam os 
repolhos, as abóboras e fructas maiores para vêr se algo de 
suspeito continham. De noite, dobrada vigilância; as senti- 
nellas passavam palavra. Duas vezes por dia o commandaníe 
contava os religiosos i. 

Inquerido pelo Núncio sobre a razão d'esta severidade. 
Carvalho respondeu que assim mandara para defesa dos 
jesuítas, ameaçados da cólera popular, por haverem participado 
na conspiração centra o Rei. E este regimen continuou até 
serem transferidos, algum tempo depois, para diversos 
encerros. 

É de conceber a perturbação que reinava naquelles claus- 
tros, o receio que, ainda innocentes, os padres haviam de expe- 
rimentar. Um d'elles escrevia para Madrid: «O mundo (de 
que estamos totalmente separados, porque até os estudantes 
se prohibem de entrar nas casas e aulas) diz que nos implicam 
no insulto de 3 de setembro. O porquê e como não o posso 
alcançar.» Outra caria dizia: «Lá terá Y. R. individuacs noticias 
da consternação em que nos achamos, os que assistimos nesta 
corte, porque, sendo cá públicos, não faltará natural d'esse 
reino que as escreva. E nesta só digo chegamos á ultima 
calamidade, cheia ainda de sustos e receies». Confidencia do 
padre João de Mattos, um dos indiciados na sentença. Ambas 
as cartas, interceptadas, deram a Carvalho ensejo de afíirmar 
a culpa d'este jesuita e a connivencia de todos, interpretando, 
em rebate da consciência accusadora, inquietações que a 
suspeita de modo bastante justificava -. 

A 22, em toda a parte á mesma hora, magistrados e 
soldados invadiram, para buscas, os conventos e casas da 
Ordem na capital. Era na apparencia disposição do visitador. 



^ Ordem do Secretario de Estado Thomé Côríe Real. Biol. Nac. 
Cod. 852. 

2 Deducção chronologlca. Parte I, § 895. 



196 RESOLUÇÕES DA JUNTA CONTRA OS JESUÍTAS 

a fim de verificar se lá teriam géneros vindos das missões, 
tabacos, assucar e outros, para clandestinos negócios; na 
realidade intento de topar em algum esconderijo com arma- 
mento e pólvora para a temida rebellião, A diligencia sahiu 
baldada, por mais que os emissários esquadrinhassem egrejas, 
cellas, cozinhas, gavetas e telhados. O propósito bellicoso 
existia somente na imaginação de Carvalho e d'aquelles a 
quem tinha confiado o seu plano. 

No Ínterim, Malagrida escrevera de Setúbal ao juiz da 
Inconfidência, dizendo ter graves communicações a fazer-lhe. 
Carvalho, ancioso por mais delações, mandou ir á isua presença 
o missionário, que de cabeça erguida, affrontando o inimigo, 
lhe falou qual propheta dos templos bíblicos. Interrogado 
sobre o que tinha a declarar respondeu que por voz intima 
soubera achar-se o soberano ameaçado de um grande perigo; 
que a Varias pessoas se tinha dirigido para que o acautelassem, 
porém debalde, porque nada se fizera até ahi por desarmar 
a divina cólera. Assim as publicas infelicidades tinham de 
continuar até serem revogadas as leis sobre os Índios do 
Brasil, e as demais, contrarias aos jesuítas. Disse, e sahiu 
intemerato, deixando talvez confuso, ante a sua tranquilla 
segurança, o arbitro temido de tantos destinos. Desenganado 
Carvalho por este modo, é evidente que a entrevista lhe não 
suscitaria mais benignidade com os filhos de Santo Ignacio, 
ou com Malagrida pessoalmente. 

Dias após as execuções, a Junta de inconfidência, que 
condemnara os regicidas, reunia-se para tratar do que se 
devia fazer com os jesuítas, e resolveu as seguintes provi- 
dencias : sequestro dos bens ; recommendação aos bispos para 
em pastoraes^ explicarem a nefanda parte dos padres no 
attentado de 3 de setembro; dissolução das communidades, 
indo os religiosos do quarto voto, os mais graduados, 
missionar para a Africa; encarceramento d'aquelles que o 
governo entendesse merecedores; substituição das escolas da 
Companhia por outras, nas mesmas localidades, custeadas 
com o producto dos sequestros. Esta ultima resolução, 
adoptada, foi a origem da organização do ensino publico, 
realizado depois. Sobre a extincção do corpo monástico, 



SEQUESTRO DOS BENS DOS JESUÍTAS EM LISBOA 197 

Carvalho tomou em seguida alvitre mais radical. Ao sequestro 
dos bens, em proveito da coroa, procedeu-se desde logo, 

Possuia a Ordem sete casas religiosas na capital, treze 
collegios nas provindas, e quatro nas Ilhas, além das chamadas 
residências, noviciados e casas professas ; em Angola um 
collegio; os estabelecimentos da índia, que com os da Africa 
oriental constituíam a província de Goa; os do Brasil sul, 
e vice-provincia do Maranhão, que abrangia os actuaes Estados 
do Amazonas, Pará, Maranhão, Piauhy e Ceará. Pertenciam 
também á assistência de Portugal os provinciados do Malabar, 
do Japão e da China, dos quaes, todavia, somente o seminário 
de Macau offerecia presa accessivel. A verificar-se a fama 
das riquezas, aítribuidas á Sociedade, riquissimos seriam os 
despojos para o sempre esfaimado thesouro real. 

Começou a operação em Lisboa. Ia um desembargador 
com esbirros e tropa; exigia o dinheiro, arrolava as alfaias, 
mandava transportar os objectos susceptíveis de descaminho, 
Âs vezes não se contentava com o encontrado ; pedia mais. 
Foi o que succedeu em Arroios, onde o magistrado, achando 
exigua a quantia, suspeitou que o procurador lhe sonegasse 
muito. Instancias, ameaças nada valeram. Os quadrilheiros 
buscam por toda a parte, sondam paredes e soalhos; afinal 
teem de se render á evidencia, o presumido thesouro não 
existe. No hospício de S. Francisco de Borja é que deveriam 
estar as maiores sommas, porque lá residiam os procuradores 
das missões ultramarinas. Havia as caixas das províncias de 
Gôa, Japão, China, Malabar, Brasil e Maranhão; talvez os 
duzentos mil cruzados que a Rainha de Hespanha deixara. 
Em uma cella, o toque das paredes descobre uma cavidade. 
Cá está afinal o thesouro! pensavam, Chamam-se pedreiros, 
testemunhas, o escrivão para lavrar o auto. Aberta a parede 
encontram-se cacos de barro; o pecúlio dos jesuítas, se acaso 
alli esteve, desapparecera. Mas logo correu na cidade haver-se 
encontrado grande somma de dinheiro, O caso acabou em 
galhofa, menos para os seis procuradores que foram, terminado 
o inventario, para os cárceres de S. Julião i. 



MuRR, Geschichte der Jesuiten in Portugal. II, 41 e seg. A 



198 SEQUESTRO NAS PROVÍNCIAS E NO BRASIL 



Fora de Lisboa o sequestro realizou-se de modo egual. 
Os padres viam chegar um destacamento. Entrava o encarre- 
gado, juiz ou desembargador, com o seu escrivão, reunia a 
communidade e intimava a ordem de ninguém mais sahir. 
Arrecadava dinheiro e papeis. As provisões, se as havia, 
cereaes, vinhos, azeites, vendiam-se á porta em leilão. Nas 
propriedades agrícolas iicitavam-se os productos, o gado, as 
alfaias; as terras davamrse de renda. Exigiam-se as dividas 
activas, mas as passivas não eram pagas. O apurado entrava 
para os cofres reaes i. 

Foi grande a desillusão. De alto valor só os utensílios 
de culto le as livrarias. O resto, a não serem os edifícios e 
algumas terras, a todos visíveis, presa insignificante. Já o 
exame effectuado pelo cardeal reformador havia demonstrado 
que a riqueza era diminuta. Em algumas casas havia deficit; 
outras, onde os religiosos se achavam em maior numero, 
como os collegíos de Coimbra e Pará, mantinham-se com 
subsídios das mais prosperas. 

No Brasil foi a colheita melhor. O sequestro naquelle paiz 
antecipara-se ao do reino, assim como a reclusão dos reii- 
giosos. O que em Portugal se fazia pelo attentado contra 



preoccupação das riquezas occulías dos jesuítas é de todos os tempos 
e paizes. Ao geral Ricci, preso, apoz a exíincção da Ordem por Cle- 
mente XIV, perguntavam pelas grandes sommas que dcv:a ter escon- 
didas, ao que c padre em chasco tornava que aquillo era iin sogno, 
iiii delírio, una vera mania. Até aos nossos dias permaneceu a crença 
intacta. Em 1891 publicou a Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro, 
Cí3mo burla do primeiro de abiil, a noticia de um grande cíiescuío. 
achado nas demolições a que andavam procedendo no morro do Cas- 
tello, onde fora casa dos jesuitas. Cento e tantas caixas e sacos, 
com muitos milhões de cruzados, assim de moeda como de ouro cni 
pó, c grande numero de importantes documentos, jornaes sisudos c'a 
Europa transcreveram a noticia: O Petit Journal de Paris, que avalia 
a somma em 60 milhões de francos; o grave Correio da Bolsa de 
Borlin, que chega a cem milhões e satisfaz a curiosidade dos capita- 
listas, seus leitores habituaes, com o inventario completo do mira- 
culoso achado. 

^ MoRR, obra cit., II.. 58 e seg. 



o SANTO OFFICIO CONTRA OS JESUÍTAS 199 

O Rei, na America era consequência dos actos de rebellião 
attribuidos aos padres. No Rio de Janeiro perdiam elles a 
fazenda Santa Cruz, com muito gado, e escravos em grande 
numero; os géneros de commercio em deposito, entre os 
quaes avultava o mate, extrahido pelos indios no Paraguay; 
•a fragata, que com a insignia da Companhia, flammula e 
canhões, todos os annos sahia em visita aos diversos portos. 
«Com tudo isto — observa uma testemunha que não era 
affeiçoada aos padres — não tse lhes achou dinheiro de 
consideração no sequestro» i. 



VH 



Ao mesmo tempo, emquanto impetrava do Pontífice 
autorização para submetter ao juizo secalar os jesuítas qtie 
complicara no attentado de setembro. Carvalho ia pondo em 
acção a machina temível do Santo Officio. Em maio, o 
inquisidor geral D. José de Bragança publicava um édito 
em que, sem nomear a Sociedade, enunciava as doutrinas 
condemnadas pela Sanía Sé, que os manifestos do ministro 
lhe imputavam, e ordenava que, sob pena de excommunhão, 
viessem ao tribunal dar parte as pessoas que taes doutrinas 
ouvissem defender ou divulgar ^. 

As negociações em Roma não progrediam ao gosto do 
governo. No mês de abril uma carta régia dera conta ao 
Pontífice das providencias adoptadas contra os jesuíta^;, 
apontava-os como princípaes autores da tentativa de regicídio, 
communícava a resolução de os expulsar do reino dentro em 
pouco. O procurador da coroa requereu á Santa Sé que, na 
forma de concessões anteriores, a Mesa de Consciência € 
Ordens fosse autorizada a devolver á justiça secular os eccle- 



1 José Basílio da Gania no poema Uruguay, canto II, nota. 

2 iMuRR, II, 32. 



20a INSTANCIAS EM ROMA CONTRA OS JESUÍTAS 



siasticos participantes no attentado. Nos justiçados de janeiro 
não se falava. Os Tavoras, o duque de Aveiro passavam á 
categoria de subalternos assassinos, como os assalariados 
malfeitores que deram os tiros. O acto era dos jesuítas, 
machinado e promovido por elles ; não só os que a sentença 
declarara cúmplices, ou os religiosos do reino, mas todos os 
membros da corporação. Este foi o thema das accusações á 
Companhia, que d'ahi por deante Carvalho, no governo ou 
no desterro, não deixou jamais de proclamar e defender. 

Em Roma, como se comprehende, a convicção era ouíra. 
A par de ferrenhos inimigos tinham os jesuítas na Cúria 
valiosos addictos; e o próprio Clemente XIÍÍ, ao contrario 
do 'seu antecessor, era todo por elles. Carvalho sabia isso e, 
certo de não vencer pelos argumentos a reluctancia dos 
prelados mfluentes, alvitrava, ao seu delegado ante a Cúria, 
ganhal-os pelo suborno. «É m.uito melhor e mais barato — 
dizia — fazer a guerra com dinheiro que com exércitos 
armados.» E offerecia para o effeito baixelas de praia, 
porcelanas da Saxonia, diamantes em bruto, que de Lisboa 
podia mandar-Ihe. «Por agora remelto quatro anneis capazes 
de se offerecer, para ganhar ou principiar a fazer a boca 
doce a alguns bons amigos» ^ Pensava por este modo captar 
os recalcitrantes; e como auxiliares desejáveis indicava os car- 
deaes Torregiani e Rezzonico, o primeiro secretario de Estado, 
o segundo parente do Papa. Mas o empenho foi baldado, porque 
ambos os pretendidos collaboradores se conservaram incorrupti- 
veis. 

De mão dada com os adversários dos jesuítas, o embai- 
xador, sem escrúpulos e audaz, não perdia ensejo de açular 
a opinião contra a Sociedade, inundando Roma de pasquins, 
parte sabidos, se é exacta a fama, do prelo clandestino que 
no seu palácio existia. 

As autoridades romanas defendiam com desvelo os 
jesuítas. Quando sahíu á luz, na traducção italiana, a Relação 
Ábbreviada, os exemplares foram apprehendidos e o impressor 



i Gomes, Alargais de Pombal, 165. 



A CÚRIA DEFENDE OS JESUÍTAS 201 

encarcerado. Agora prohibia-se ás typographias de Roma 
publicarem a ,'sentença dos regicidas. A policia perseguia quem 
estampasse libellos contra os jesuítas, e deixava correr sem 
opposição os que elles, em desaggravo próprio, espalhavam, 
sem pouparem, apodos ao governo de Portugal e seus agentes. 

 supplica do procurador da coroa deferiu Clemente XÍIÍ 
destituindo da immunidade os ecclesiasíicos convictos de 
haverem participado no crime de setembro; porém só esses, 
e apenas neste caso, contra o intento de Carvalho que 
pretendia a definitiva revogação. O Papa explanava a recusa, 
observando que tão horroroso f^cto não havia probabilidade 
de se repetir, por isío a concessão nos termos pedidos não 
tinha razão de ser. Ao mesmo tempo escrevia ao Rei, impe- 
trando indulgência, e remissão da ultima pena para aqueíles 
que o tribunal, com os novos poderes, reconhecesse culpados. 

A razão não satisfez ao ministro, ou porventura buscava 
elle occasião de romper com a Cúria, por não encontrar nella 
apoio para estrangular a Companhia de Jesus, o que, naqiiellá 
época, era já a preoccupação soberana do seu espirito. Dera-se 
também uma derogação ás praxes diplom.atlcas, que consistiu 
em se expedir a correspondência pontifical e o breve com 
a autorização concedida, sem prévio conhecimento e accordo 
do ministro em Roma. Por este só motivo ou por todos, o 
governo português excusou-se a receber os diplomas. 

Sobreveio discussão acre, em Lisboa com o Núncio, em 
Roma, pelo ministro Francisco de Almada, com a chancelaria 
papal. Clemente XÍII cedia já, outorgando a licença perpetua 
para os procedimentos, comtanto que na Mesa de Consciência 
houvesse entre os juizes um delegado pontifical. Mas, no 
remate, surgiu novo empeno. Almada pretendia que a nova 
concessão não alludisse á primeira, rejeitada; Torregiani, 
encarregado das relações diplom.aticas, persistia :em mencional-a 
no breve, e d'esta reciproca obstinação se caminhou para a 
ruptura formal. A expulsão do Núncio foi o desfecho da 
contenda, evidentemente buscado. E isso, de ambas as partes, 
por causa dos jesuítas : Carvalho estomagado pela resistência 
da Cúria aos seus intentos; o Papa doído da brutalidade 
com que elle os pretendia realizar. 



202 A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS 

No pé em que assim ficava a questão, via-se Cangalho 
impedido de levar á Junta de Inconfidência, e portanto ao 
patíbulo, os jesuitas indiciados. Não que o detivessem escru- 
pulos do desacato juridico: mas tinha de respeitar a vontade 
do Rei, submisso catholico, que só contrafeito investia com 
os direitos do Papa. Manietado por esta banda, arremeçou-se 
com dobrado ardor á revindicla, dentro das formas permittidas. 

Os jesuitas reclusos, nas enxovias uns, outros nas prisões 
de Estado, aguardavam, em comprehensivel anciedade, o 
arbítrio do governo. Com a data de 3 de setembro, primeiro 
anniversario do crime, de que os diziam autores, foi publicado 
um decreto, que desnaturalizava os nacionaes, e ordenava 
a expulsão de todos, com excepção d'aquelles que, não sendo 
ainda professos, abjurassem os votos. Para as pessoas que, 
sem autorização, viessem a ter com os proscriptos communi- 
cação verbal ou epistolar, estatuía a pena de morte. 

Das províncias foram-se os padres encaminhando para 
Lisboa. Faziam a jornada em seges, cada uma escoltada por 
dois soldados, e no couce, a cavallo, os irm.ãos que não 
tinham proferido votos. Julgava-se que seriam transportados 
para as colónias de Africa, mas a decisão tomada foi a de 
remetter es expulsos ao Pontífice seu patrono, a quem 
incumbiria dar-lhes es meios de subsistência, que já não 
tinham. A primeira turma de cento e vinte e três padres 
aportou a Civita-Vecchia, no Estado romano. Outras segui- 
riam depois. Tal foi a replica do conde de Oeiras — titulo 
de Carvalho desde junho antecedente, premio da acção san- 
grenta contra os Tavoras — ao desafio que o procedimento 
da Cúria representava. 

Para os portugueses o exílio era realmente castigo; esses 
constituíam as levas de deportados. Os extrangeiros, porém, 
teriam por branda pena o verem-se restituídos ás suas terras ; 
por isso ficavam em Portugal, nas masmorras de Almeida, 
na torre de S. Julião, ou no solar do duque de Aveiro, lem 
Azeitão, convertido em prisão de Estado. 

No mês seguinte, de outubro, partiram mais dois navios, 
d'esta vez para Génova, onde não foi permittido aos padres 
o desembarque, pelo que tiveram de continuar a viagem. 



VISÕES DE MALAGRIDA NO FORTE DA JUNQUEIRA 203 

como OS primeiros, até Civita-Vecchia. Seguiram-se outros 
transportes. À proporção que das províncias -ultramarinas iam 
chegando os desterrados, applicava-se a regra estabelecida: 
os padres nacionaes para os dominios do Papa, os forasteiros 
para as prisões. 

Em caminho morriam muitos, alguns pela edade avançada, 
outros de privações e moléstias : onze succumbiram na viagem 
da America, vinte e oito desde a índia e Macau. 

Pouco a pouco abrigavam os Estados do Papa mais de 
m.il d'estes peregrinos. Era fito de Carvalho collocar tni 
embaraços o Pontífice e o Geral da Companhia, pela presença 
de tantos religiosos, a quem tinham de proporcionar não 
somente agasalho, mas — o que era m.ais grave — occupação 
profissional. Todavia nem todos os jesuítas portugueses 
sahiram do reino. Muitos, a quem se lançavam culpas, 
permaneceram nos cárceres. D'este numero todos os do 
Pará-Maranhão. 



VIII 



Malagrida achava-se no foríe da Junqueira, logar dos 
presos políticos. 

Septuagenário já, tinha a saúde arruinada pelas fadigas 
<ias missões, pelos jejuns, e vigílias; o intellecto combaiido 
da fraqueza ph3'sica, afogado nas chimeras do mysticismo, 
sacudido a espaços pelo ímpeto da prophecia. As visões 
repetiam-se. ígnacio de Loyola, S. Francisco de Borja, outros 
santos da sua Ordem., habitantes vários do empíreo, desciam 
a visítal-o no cárcere. Tinha allucinações do ouvido. A ditado 
de uma voz mysteriosa, puzara-se a escrever a Vida de Santa 
Anna e a do Antechristo. De vez em quando viam-no ps 
companheiros ou os guardas voltar-se para a janella em 
brados: Quem me chama? Quem me fala? Era o sossôbro 
completo da razão. 

Apprehenderam-lhe um dia os papeis. Carvalho, ao lêl-os, 
exultou. Para os sócios de captiveiro, para os serxaçaes dá 
prisão, o jesuíta não passava de um demente, com raras 



204 CARVALHO VINGAVA-SE FINALMENTE! 



folgas de lucidez; ao ministro e seus asseclas approuve 
taxarem o louco de heresiarcha, e dar por blasphemia os 
dislates da sua imaginação desvairada. Excellente presa para 
a Inquisição. 

Carvaliio vingava-se finalmente. Para elle era o velho 
missionário um inimigo pessoal, que desde o terremoto o 
affrontava. Um anno tinha iuctado a exigir da Santa Sé a 
concessão, que lhe permittiria entregar ao verdugo a enca- 
necida cabeça, de onde o siso desertara. Até que, ao cabo 
de tanto esforço, o tinha á mercê. Dentro do tribunal 'iá 
estava seu irmão Paulo de Carvalho, inquisidor, a substituir 
o infante D. Jo^é de Bragança, desterrado em julho ide 
1760 para o Bussaco; fora, os sycophantas, numerosos como 
os teem sempre as tyrannias, publicavam em grita os crimes 
do mentecapto; e, para afeiçoar no extrangeiro a opinião, 
havia o concurso do afamado padre Norberto, ou Platel, 
frade sem habito, foliculario adverso aos jesuítas, que viera 
a Lisboa pôr ás ordens de Carvalho a sua penna venaí ^. 



1 Pedro Curei Platel, cujo verdadeiro nome é Parisot, conhecido 
lambem por padre Norberto, tinha sido frade capucho. Secularizado 
em 1759 tornou a vestir o habito e a deixal-o depois. Foi um dos 
mais acerbos inimigos da sociedade de Loyola, e protegido por isso 
do cardeal Passionei, grande adversário d'eila. Da índia, onde foi 
missionário, trouxe os elementos de um escripto sobre as missões do 
Malabar, no qual denunciava as praticas gentílicas, enxertadas no culto 
pelos jesuítas, publicação que deu grande escândalo, e foi acolhida com 
alvoroço pelos dcsaffeiçoados á sociedade. Condemnado o livro em 
Roma, o autor teve de fugir, para evitar a prisão, e após varias 
peregrinações chegou a Lisboa cm 1760, com o fim de offerecer os 
serviços da sua pcniia a Carvalho, que os acceitou. Dentro em pouco 
usava da maior familiaridade na casa do ministro; trabalhava com 
ellc, compilava notas para os escriptos acerca da Companhia de Je- 
sus, alguns dos quaes lhe são aítribuidos. D'este3 é u.ma sátira em 
francez, publicada em Lisboa, que termina assim: 

Monarques qui voulez moiirir dans votie lit ' 

Faltes dans vos Ltots ce qu'à Lisbonne ou fit! 

D'elle lambem é um relato do supplicio de Malagrida, em lórma 



CARVALHO, CONDE DE OEIRAS, DENUNCIA MALAGRIDA 205 

Então succedeu esta cousa incrível: Sebastião José de Cangalho 
quiz ser em pessoa o delator de Malagrida no Santo Officio, 
por crimes contra a fé, E, tomada a denuncia, com o seu 
punho, como num decreto régio, assignou: Conde de Oeiras, 
O que o ministro depoz revela os abysmos de rancor, 
que na alma lhe cabiam, Accusa o jesuita de ganância, de 
hypocrisia, de actos e pensamentos sacrilegos, de impostura. 
No Brasil, a pregar, incitava ás mulheres a despojarem-se 
de suas jóias com evidentes fins de avareza e cobiça. Inter- 
rogado pelo governador do Pará sobre a applicação dos 
donativos recusara sempre dar explicações. Participara no 
crime dos Tavoras, sendo a conspiração tramada em Setúbal 
nos exercicios espirituaes, A narrativa da entrevista de Mala- 
grida com o ministro faz parte do depoimento com as ameaçasj 
proferidas sobre o Rei, Por ultimo vem a denuncia dos 
escriptos apprehendidos, que eram, no dizer de Car\'alho, 
um sacrilégio horroroso, e constituiam a parte substancial da 
accusação, Pedro Cordeiro, juiz da Inconfidência, Oliveira 
Machado, secretario do mesmo tribunal, ao mesmo tempo 



de carta, contendo, entre outras falsidades, ter o rei assistido ao 
auto de fé, e haver convidado os ministros extrangeiros. O governo 
julgou conveniente refutar essas invenções, mandando publicar em fran- 
C0Z a descripção do acto e a sentença ( Arrest des inquisiteurs ordinalre 
et deputes de la Saitite Inqiiisition contre le père Gabriel Malagrida 
jésuite. Lisbonnc, chez António Rodrigues Galhardo, 1761). O Tacto 
d'€sta publicação e as basofias indiscretas de Platel fizeram-lhe per- 
der o favor de Pomba), O ex-capucho retirou-se de Lisboa em 1763, 
deixando no prelo uma obra bastante extensa, que três annos depois 
sahiu á lu/. E a reedição do primjeiro escripto sobre a índia, recapitu- 
lando o seguimento os maleficios, imputados aos jesuítas, que faziam 
objecto da intensa pugna de libellos, travada entre elles e seus adver- 
sários. Tem a approvação do Santo Officio e da régia censura. Inti- 
tula-se: Mémoires historiques sur les affaires des jésuites aver. ie 
Saini-Sicge, ou Voa verra que le roi du Portugal en proscrivant de 
áouícs les ierres de sa domination ces réligieux revoltes, et le roi de 
France voulani qu'à Vavenir leur société n'ait plus liea dans ses Etais, 
n'oní fait qu'éxecuter le projet déjà forme par plusiears grands papes 
de la supprimer dans toute VEglise. — Á Lisbone (sic) chez François 
Louis Ameno, MDCCLXVI — 7 vols. 



206 DELÍRIOS DE MALAGRIDA 



carcereiro no forte da Junqueira, depuzeram a seguir. Nunca 
um réo tivera contra si denuncia tão bem amparada. 

As masmorras do Santo Officio eram já então depen- 
dência das prisões de Estado. Dizia-se que alli desappareciam 
as victimas com tal mysterio que até com supposto nome 
as inscreviam na entrada. Pauio de Carvalho presidia lao 
tribunal. Abstrahindo isso, b.astaria a qualidade terrível das 
testemunhas para impor aos juizes um cruel veredicto. Um 
d'elles, suspeito de lenidade, foi afastado com a falsa honra 
da promoção a bispo de Angola, que, segundo a voz publica^ 
violentado acceitou i. 

Transferido do ergástulo da Junqueira para o Rocio, 
Malagrida cada vez mais se atufava na insânia. O delirio 
tornara-se constante. Desciam a praticar com elle os anjos, 
Maria virgem., e o próprio Jesus Christo. Tinha por imagi- 
nário director espiritual um sacerdote, fallecido havia muito. 
O padre António Vieira falava-lhe sobre os Índios do Brasil 
e as missões. A marquesa de Távora, degolada, assegurava-lhe 
achar-se no purgatório, isenta de maior castigo por intercessão 
d'elle, Malagrida. A Virgem tinha vindo pessoalmente absol- 
vel-o de seus peccados; e, como os theoiogos da ínqu?siç.ão 
lhe quizessem demonstrar que era tudo isso illusão ou 
impostura, appareceu-lhe o Salvador a confirmar-lhe a absol- 
vição. Em espirito assistia ás reprehensões que na outra vida 
davam a D. José a rainha sua mãe, e sua irmã, rainha de 
Hespanha, pela perseguição á Companhia, tratando-o de 
tyranno, peor que Nero. Nesse tempo suppunha o jesuíta, 
por uns dobres de sinos apercebidos desde o cafcere, ter 
o soberano morrido. 

Todavia nem sempre as visões eram celestes. Como a 
todos os escolhidos, o demónio tentava-o. Em figura de 
mulher introduzia-se na cama com elle, desaíiando-lhe os 
impulsos de septuagenário continente, tardio desforço da 



1 O facto foi consigmcio nas memorias da época. O ministro da 
Áustria faz d'fclle menção em despacho de 28 Abril 1761. Duhr PoiU' 
bal, 79. 



AUTO DE FÈ DE 20 SETEMBRO DE 1761 207 

natureza subjugada. Em grandes angustias, no torpor de um 
meio sonho luxurioso, revolvia-se na enxerga. Despertava 
surpreso, offegante; cabia çiepois em enorme prostração de 
corpo, e fundo abatimento moral. Christo então socegava-lhe 
os temores da consciência. Uma voz intima dizia-lhe que 
nem venialmente havia peccado. Mas o espia do Santo Ofíicio, 
encerrado com elle, presenciava-lhe os movimentos, a aflliccão, 
e com alvoroço foi denuncial-o. Os inimigos do infeliz tinham 
contra elle mais um pregão de deshonra: a miséria de Onan. 

Deu o caso motivo a longos e repetidos interrogatórios. 
A curiosidade soez e malsã dos inquisidores deieitava-se em 
o questionar sobre as circumstancias, a intensidade e a 
frequência das titilações e dcstillarões, presentidas nos transes 
em que mais se depauperava aquelle organismo decrépito. 
Malagrida revoltava-sc ; exclamava ser aquillo matéria do 
tribunal da penitencia e não do Santo Ofiicio. Outras vezes 
desvairava. Uma occasião, entrando o medico no cárcere 
para o tratar de uma hérnia, o ancião perguntou se lhe via 
no corpo signal de haver peccado com mulher; e, como 
fosse a resposta affirmativa, saltou da cama em brados, 
ofíerecendo o membro a exame para demonstrar que 
assim nãc era. 

O processo seguiu os ordinários tramites da Inquisição; 
somente, contra o costume, foi rápido, por satisfazer a Car- 
valho, impaciente da vingança. Sobre o crime à^z 3 de setembro 
nenhuma luz. Malagrida confessou o mesmo que ao seu amigo 
hav"a dito. Ab alto fora avisado de se achar imminente sobre 
o Re' um grande castigo, por causa dos missionários do Pará. 
Tentou precavel-o mas sem effeito. A revelação não foi mais 
que um vago presagio; da conspiração nunca soube; tra- 
gasse-o alli o inferno se mentia! 

O jesuita esteve na Inquisição nove meses. A ninguém 
surprehendeu vêl-o sahir no auto da fé, a 20 de setembro 
de 1761, de mordaça na boca, e com a fatal e ridicula carocha, 
signal da ultima pena. 

Havia dois annos se dizia que não escapava á fogueira. 
A solemnidade da festa foi grande. Carvalho que tinha a 
Inquisição por um dos úteis estabelecimentos da religião de 



208 VINTE E UMA HORAS DE TRAGEDIA 

Portugal, e como tal pilar do Estado, quiz dar ao acto a 
máxima imponência. Celebrava a sua desforra da Companhia 
de Jesus, o supplicio d'aquelle sobre quem toda a sua raiva 
convergira, exacerbada pelos óbices que na lucta tinha en- 
contrado. O jesuita, se ainda raciocinava, sabia que era 
para o seu cruel inimigo a victima de eleição. «Sobre mini 
despeja este homem toda a ira que tem accumulada,» escrevera 
elle uma vez a Clemente XIII i. Os factos provaram que 
dizia certo. 

Das sete horas da manhã ás quatro da .'madrugada seguinte 
durou a tragedia, com grande concurso de espectadores, a 
que não faltaram, attrahidos pela curiosidade, os membros 
do corpo diplomático. Eram muitos os condemnados e as 
sentenças longas. A de Malagrida levou duas horas a ler-sc. 
Cerca da meia noite cessou o espectáculo da justiça ecxzle- 
siastica. A Relação, perante a qual foi conduzido o here- 
siarcha, pronunciou-se, e. havendo-se misericordiamente e sem 
effiisão de sangue, segundo o hypocrita formalismo do Tri- 
bunal da Fé, mandou applicar ao réo a pena de garrote, 
queimal-o em seguida e espalhar ao vento as cinzas. 

Era impressão geral que á execução do missionário se 
seguiriam as dos outros jesuítas acousados da conspiração. 
Carvalho não ousou, não poude. Entre elle e as victimas 
erguia-se, "barreira insuperável, o religioso pavor que habi- 
tava o animo do Rei. 



* Hist, pffrsecutlonis S. J. in Lusitânia, Murr, Journal cit. VIII. 102. 



CAPITULO VII 



O PACTO DE família 



Os ingleses em Portugal. Carvalho cultor da alliança britannica. 
Exportação do ouro cohibida. O Terreiro do trigo. — II. Guerra 
dos sete annos. Apprehensão de navios franceses no Algarve. 
Reclamações da França. Attitude conciliante da Inglaterra. — ■ 
III. Embaixada especial de lord Kinnoul. Casamento da prin- 
cesa do Brasil. Expulsão do Núncio. Desterro dos infantes de 
Palhavã. Desintelligencias com o enviado francês. — IV. Pre- 
parativos da paz geral. Nova politica da Hespanha. Oeiras 
recorre ao apoio diplomático da Inglaterra. Assigna-se o Pacto de 
familia. — V. Portugal e a liga dos Bourbons. O projecto 
de invasão. Declaração da guerra. — VI. Estado da administra- 
ção militar em Portugal. Soccorro da Inglaterra. Providencias 
tardias de Oeiras. A guerra e seus resultados. 



I 

Desde 1703, por ef feito do tratado, conhecido pelo nome 
do seu negociador Methuen, Portugal era a mais excellente 
colónia da Grã-Bretanha, cujas manufacturas viviam princi- 
palmente d'esse concurso valioso. A immigração era constante, 
e — dizia um contemporâneo — , «o inglês fallido em Londres 
vinha recuperar as suas perdas a Portugal; o irlandês, mise- 
rável na sua pátria, escapava á forca em Londres para ir 
fazer fortuna em Lisboa» i. O commercio achava-se todo 



^ Rélation Historiqne dii tremblement de terre survenu à LIs- 
bonne. Ió4. 

o MARQUÊS Dt POMBAL E A SUA ÉPOCA — 14 



210 OS INGLESES EM PORTUGAL 

nas mãos de súbditos britannicos. De uma relação officiaí 
sem data, mas do tempo de D, José, verifica-se existirem 
na capitai mais de cem casas de negocio d'eiles. Havia muitos 
nas profissões mecânicas: tanoeiros, sapateiros, alfaiates, 
cabelleireiros e até engommadeiras '. De Inglaterra tudo se 
importava: ferramentas, bagagens, o vestuário e o pão. Com 
as minas do Brasil em producção intensa, escasseava o nume- 
rário. Nas provincias havia logares onde jamais os habitantes 
tinham visto uma peça de ouro; em compensação as moedas 
com a effigie de D. João V eram na Inglaterra mais vulgares 
que as do rei Jorge ^ 

Em 1773, já quasi a terminar o reinado de D. José, um 
confidente de Luiz XV, em relatório acerca de Portugal,, 
escrevia: «As pretenções dos mercadores ingleses tendem a 
fazer da feitoria uma espécie de republica independente no 
seio de Portugal. . . O exercito, a marinha, os estaleiros, os 
arsenaes, as escolas militares, tudo é mandado e dirigido 
por ingleses... Os cortesãos, os ministros vivem com os 
cônsules na mais intima familiaridade. . . Toda a gente deve 
dinheiro aos ingleses, que a troco d'isso alcançam quanto 
querem» ^ A arrogância e o viver faustoso d'estes extran- 
geiros, os privilégios que invocavam, a macula de hereges 
que tinham para o povo crente, tudo magoava o sentimento 
nacional. Todavia, tantas relações de interesse monetário e 
politico o tempo dominador havia criado entre os dois povos 
que, para rompel-as, seria mister esforço em demasia intenso 
para a energia portuguesa. 

Pombal, que passa por incarnar a opposição firme ao 
absorvente predomínio d'estes intrusos, mostrou-se, sem em- 
bargo de algumas velleidades de libertação e occasionaes 
resistências, propugnador da amizade britannica, e decidido 
cultor d'ella, por onerosa que ás vezes a considerasse. Foi 



1 Co!L poiTib., Cod. 692. 

2 Rél. Hist. cit. 57, 106. 

3 <-.Vléinoire sur la politique étrangère remise par Mr. de Broglie.» 
BouTARic, Coirc^pondance sécrite de Louis XV, Paris 1866. II, 201 c seg. 



CARVALHO E A ALLIANÇÂ BRITANNICA 211 



politica sua constante manter a todo o custo a protecção da' 
Inglaterra; ao mesmo tempo emancipar-se da tutela com- 
mercial, e coarctar o que havia de exagerado nas regalias 
de que gozavam os súbditos da nação amiga. Mas conciliar 
os dois intentos era impossível. Nunca o resultado corres- 
pondeu ás esperanças, e o ministro encontrou o alliado sempre 
tíbio no soccorro, exigente nas compensações e sôfrego na 
ganância com que á sombra dos tratados enriquecia. 

Já quando embaixador em Londres tivera não poucas 
occasiões de perceber isso. E, todavia, impunha-lhe a neces- 
sidade escurecer tantos contras, para não perder o apoio 
moral e effectivo da alliança. Do mesmo modo não perdia 
o ponto de mostrar á Inglaterra o alto valor da nossa amizade. 
Por estes principios, orientou sempre a sua politica. 

Elles resaltam nas instrucções para D. Luiz da Cunha, 
nomeado em 1752 ministro em Londres. Carvalho fez-lhe 
vêr que a cobiçosa Inglaterra jamais hesitou em sacrificar 
os seus alliados; que na índia trabalhava a Companhia por 
expulsar os portugueses; que os tratados de 1642 e 1654 
eram onerosos para nós somente. Mas, ameaçados sempre 
pela Hespanha, da alliança não podiamos prescindir. Ao 
ministro cumpriria exaltar-lhe o valor, suggerindo que para 
a Inglaterra o commercio; e os portos ds Portugal não tinham 
na Europa equivalentes; que a Hespanha, inimiga nossa, o 
era também d'ella, por causa de Gibraltar perdida. Dando-se 
o caso provável de uma guerra com a França, o que seria 
dos ingleses, se esses portos lhes faltassem ? Para mais esti- 
mulo, tentasse elle aguçar o ciúme do chatim ambicioso. A 
França trabalhava para conseguir um tratado, egual ao de 
Methuen, que traria a ruina do commercio britannico, por 
serem de melhor gosto e mais baratos os lanifícios franceses i. 

Desde o começo da gestão pombalina, entre os dois 
governos havia attritos, por não respeitarem os commerciantes 
ingleses as leis offensivas de seus interesses. Uma d'essas, 



1 Memoria secretissima para D. Luiz da Cunha. Ms. CoU. Pomb., 
Cod. 610. 



212 EXPORTAÇÃO DE OURO COKIBIDA 

mui importante, vedava a exportação do ouro, A disposição 
não se devia a Carvalho, nem era nova. Fora ordenação de 
D. Manoel que, sob penas de morte e confisco, defendera 
que por mar se levasse ouro ou prata, para fora do reino e 
senliorios de Portugal '. O ministro resuscitava-a, com o fim 
de impedir a drenagem do precioso metal para Inglaterra, 
onde as peças portuguesas corriam de par com os guinéos. 
Tentativa inútil. Os ingleses obstinados illudiam constante- 
mente a prohibição. De vez em quando davam-se tomadias, 
prisões. O embaixador reclamava, e os rigores da lei cediam 
ás conveniências da alliança. O governo ou cerrava os olhos ás 
violações, ou capitulava deixando impunes os infractores ^. 
Em 1760 informava o conde de Merle ao governo francês 
que todas as quinzenas sabiam de 500 a 800 mil francos de 
valor em ouro, e era assim sempre no correr do anno. Toda 
a riqueza que as frotas traziam do Brasil passava para a 
Inglaterra, e não chegava para pagar a importação ^. Seígundo 
um panegyrista suspeito de Pombal, o enviado Tirawley, 
quando chegou, mostrara ao Rei ser impraticável a prohi- 
bição: «V. M. pôde reprimir os seus súbditos, mas não 
restringir-lhes as necessidades» *. É de crer que o embaixador 



1 Synopse Chronologica, 2.°, 7. ■ • ■ 

^ Em 1752 os guardas da alfandega tentaram uma vez deter, no 
acto do contrabando, três officiaes de um barco de guerra. Um d'elies 
poude fugir para bordo: o segimdo livrou-se dos perseguidores; só o 
terceiro foi apprehendido, e com elle a maquia de 45 mil cruzados 
em ouro, que os transgressores escoltavam. O preso foi solto, è ao 
cabo de algum tempo restituída aquella somma. Viera a Lisboa tratar 
do caso um enviado especial do governo inglês, lord Tirawley, em 
reforço ás reclamações do ministro residente. (Quadro elementar, XVIII, 
351). Em 1767, conta o ministro de França que a um official do 
paquete inglês se tinham apprehendido 40 mil francos de ouro. No 
dia seguinte o dinheiro foi entregue ao ministro Hay. (Quad, elem., 
VII, 230). Tomadias de menos importância deviam ser communs, como 
era o contrabando um facto constante. 

3 Quad. elem., VI, 207. 

* Administração de Sebastião José de Carvalho e Mello, trad. 
Lisboa 1842, II, 10. 



REGULAMENTO DO TERREIRO DO TRIGO 213 



tal não dissesse, mas os factos justificariam de sobra taes 
palavras. 

Outro motivo de conflictos foi sempre o regulamento 
do Terreiro do trigo, ao qual os ingleses, principaes impor- 
tadores de cereaes, pretendiam ix)r vezes eximir-se. Em 1753 
pedira o ministro Castries autorização para os seus compa- 
triotas venderem trigo a bordo dos navios e nos armazéns 
próprios, o que os portugueses só no Terreiro podiam fazer; 
e para conseguir isso allegava que, pelos tratados, gozavam 
os súbditos britannicos de privilégios que não tinham os 
oacionaes. Irritou-se Carvalho com a pretenção, e azedou-se 
a controvérsia a tal ponto que D. Luiz da Cunha foi incum- 
bido de solicitar ao governo inglês a revocação do embaixador. 
Houve-se, porém, tão desastradamente que da sua intervenção 
esteve para resultar um conflicto grave. O Rei negou-lhe 
uma vez audiência, e por momentos se temeu que o mandasse 
sahir da Inglaterra. O governo de Jorge II não permittia em 
Londres a liberdade de discursos que os seus agentes usavam 
em Portugal. Carvalho, ao contrario da arrogância que a 
tradição lhe attribue, reprehendia pelo seu pouco tacto a 
D. Luiz da Cunha. «Quanto mais fortes e mais convincentes 
são os factos — escrevia-lhe — tanto mais é a obrigação que 
os ministros teem de os adoçarem no modo das palavras» i. 
O embaixador devia retirar-se para a Hollanda, no caso de 
ter effeito o propósito, que receava, de o despedirem. 

Ajustou-se a contenda sem aggravo para os diplomatas, 
que ficaram cada um no seu posto; mas o fundamento perma- 
necia. A questão reviveu depois, e com ella outras novas : 
Companhia do Grão-Pará, Companhia dos vinhos, navegação 
para o Brasil, direitos particulares dos ingleses, a cada momento 
um conflicto. Ante as inhibições rigidas da lei portuguesa, 
a Inglaterra em expansão reclamava privilégios e liberdades. 
Preço da occasional protecção que Portugal em 1661 começou 
a pagar com a cessão de Tanger e Bombaim. 



1 Officio de 14 janeiro 1754. Coll. pomb., Cod. 639. 



214 GUERRA DOS SETE ANNOS 



II 



Em 1755 a guerra, vaticinada por Carvalho, rebentou 
entre a França e a Grã-Brctanha. Mal se persuadia o ministro 
então que á guerra seria Portugal também arrastado, annos 
depois, por effeito da mesma alliança, que como defensão 
em tanto estimava, 

A neutralidade portuguesa era de certo parcial com a 
Inglaterra. O gabinete de Versailles bem o sabia, mas, na 
expectativa de um tratado de commercio, em que também 
a França pudesse participar das riquezas do Brasil ^, conten- 
tava-se de obter que os favores ao adversário não excedessem 
de uma justa medida. Sem duvida essa neutralidade era para 
o governo português agradável e commoda, mas breve um 
incidente infeliz lhe veio demonstrar que, para a manter 
intangível, lhe fallecia o poder, e que, violada ella, nenhum 
meio tinha de alcançar reparação, que a outra parte julgasse 
satisfactoria. 

Pouco afortunados no mar e na terra por quasi quatro 
annos, os franceses dispuzeram afinal vibrar um golpe 
profundo ao inimigo, invadindo a sua ilha. Todas as forças 
navaes deviam fazer juncção, para renovar a tentativa hespa- 
nhola da Invencivel armada. Prevenida, a Inglaterra anteci- 
pou-se. Em julho de 1759, o almirante Rodney destruía no 
Havre a frota de transporte, em via de apercebimento. Duas 
outras esquadras continham os franceses em Brest e Dun- 
kerque, e lao encontro de uma divisão, vinda do Mediterrâneo, 
sahiu o almirante Boscawen, que a 17 de agosto a destroçou 
nas costas do Algarve. No ardor do combate, os ingleses 
perseguiram o inimigo até perto dos nossos fortes. Três 
barcos franceses foram incendiados, outros dois capturados; 
restavam dois, que a custo escaparam. 



^ Instr. de Choiseui ao conde de Merle. Recueil cies instructions 
aux ambassadeurs, 328. 



o CASO DE LAGOS 215 

Segundo a versão francesa, alguns tiros da esquadra de 
Boscawen attingiram as muralhas; dois homens do campo 
foram mortos por balas perdidas. Este caso de Lagos, como 
foi designado, ia pôr em sérios embaraços o governo 
português. 

O commandante francês refugiara-se em Lagos com as 
tripulações, que dos navios perdidos conseguiram salvar-se. 
Aili 03 náufragos receberam carinhoso tratamento, que 
Luiz XV mandou agradecer, mas, ao mesmo passo, protestava 
o embaixador conde de Merle contra a offensa da neutra- 
lidade, praticada pelos ingleses. Do facto resultara damno 
á sua nação; urgiam providencias; quaes seriam ellas, e qu^ 
disposições tomava a corte de Lisboa ante a violação das 
aguas territoriaes e o insulto ás baterias pela esquadra 
britannica? 

Absorvido na lucta com os jesuítas, e em dissensão com 
a Santa Sé, Carvalho julgou nonada a reclamação. A depen- 
dência com a Inglaterra não compadecia exagerados melin- 
dres. O ministro de França era-lhe pessoalmente antipathico, 
amigo dos seus inimigos, censor acerbo da sua politica. 
Accumulados motivos para se não mostrar queixoso do 
alliado. 

Merle tinha grandes prevenções com Carvalho; todas 
as communicações que fazia á sua corte, neste ou em outros 
negócios, e em geral na apreciação dos actos do governo 
português, o revelam. Suas instrucções diziam-lhe que o 
ministro, gosando de toda a confiança do Rei, d'ella abusava^ 
segundo a voz commum; que não tendo a fortuna de pertencer 
á alta nobreza, supposto fosse de boa familia, desvelava-se em 
tornar suspeitos aquelles fidalgos que não queriam supportar 
o seu jugo. Diogo de Mendonça ^«sujeito de entendimento 
claro, instruído, e bem intencionado — fora victima da inveja 
d'este collega, que lograra medíocre consideração nas cortes 
de Londres e Vienna, onde estivera ministro. Tudo isto, não 
obstante a recommendação de que «um embaixador se não 
deve guiar por sentimentos pessoaes ou affeições intimas, 
mas tem de subordinar as suas inclinações particulares ao 



216 RECLAMAÇÕES DO CONDE DE MERLE 

interesse dos negócios que lhe são incumbidos» i, tudo isto 
levou o conde de Merle, improvisado diplomata, a encarar 
com desdém, o ministro parvenu, que lhe cumpria afagar, e 
a acolher pressuroso os adeptos da nobreza e dos jesuitas, e 
todos aquelles que se achavam em conflicto com o governo 
de Carvalho, Como se vê, nenhuma pessoa era mais compe- 
tente para, em vez de apaziguar o incidente diplomático, 
exacerbal-o. 

Mais de ura mês passara sobre o acontecimento, quando 
Merle apresentou a primeira reclamação. D. Luiz da Cunha, 
que da embaixada de Londres viera para o gabinete, como 
secretario dos negócios extrangeiros, respondeu por uma 
evasiva: ia dar parte ao rei e pedir instrucções. Em outubro, 
Merle, instigado por Choiseul, primeiro ministro, representou 
de novo, obtendo somente uma ambigua resposta: El-Rei 
fora informado de que effectivamente alguns commandantes 
ingleses se haviam excedido na lucta; dera ordem para se 
reclamar á corte de Londres, e contava com a conveniente 
reparação. Os termos não satisfaziam ao embaixador que, 
insistindo sobre a captura dos navios, inquiria que providencias 
pensava o governo de Lisboa tomar para coagir o de Londres 
a restituil-os. Embaraçosa pergunta para 'D. Luiz da Cunha 
que, tão bem quanto o diplomata francês, sabia que não 
seria fácil dobrar-se por escrúpulos de correcção o gabinete 
britannico, e muito menos por impotentes ameaças 2, 



1 Instr. cit. Recueil des Instructions, 323 e seg. 

- L inútil dizer que são apocryphas as cartas insolentes e ine- 
ptas, que se suppõem dirigidas nesta occasião por Carvalho a lord 
Chatham, e das quaes nos próprios archivos da família Pombal existia 
uma (X)pia, de data posterior (Coll. Pomb., Cod. 678). D'este falso 
«scripto diz F. L. Gomes: «A linguagem é ameaçadora e tão gros- 
seira que a não supportaria o ministro da nação mais servil.) ( Le 
Aiarquis de Pombal, 199). E Pinheiro Chagas: «Se estes despachos 
não fossem evidentemente apocryphos bastariam para destruir a repu- 
tação do marquez de Pombal.» (Hist de Portugal nos séculos X^f// e 
XIX, I, 243). A invenção é do autor da Administração de Sebastião 
José de Carvalho e Mello, etc, panegyrico de Pombal publicado pela 
primeira vez em francês, em Amsterdam, em 1786, e attribuido a 
Dezoteux-C ormatiu. 



ATTITUDE CONCILIADORA DA INGLATERRA 217 



Entretanto é certo que na Inglaterra foi maior o sobresalto 
do que a emoção em Lisboa. Pitt, o soberbo ministro, veio 
ao encontro das queixas, offerecendo satisfação. Collig-e-se 
do seu despacho secreto ao ministro em Lisboa Mr. Hay. 
Pitt só conhecia os factos pela rama. Desconfiava terem-se 
dado na refrega circumstancias infelizes, e mencionava que, 
pela falta de informações, ficara o rei Jorge em grande ancie- 
dade. Queria por isso saber se «os navios de S. M. teriam 
respeitado sufficientemente as costas de Portugal; se os 
navios franceses não teriam sido apresados com offensa da 
jurisdicção territorial de S. M. Fidelissima» i. 

D'aqui se deprehende que o ministro em Lisboa não 
fizera immediata participação dos acontecimentos, com seus 
pormenores. Ou ignorava estes, ou lhe pareceram, como ao 
governo português, de somenos importância. Não recebera 
portanto queixa alguma. Teria nesse tempo o representante 
de Portugal, Martinho de Mello, feito qualquer reclamação? 
O despacho de Pitt exclue a hypothese. Tudo leva a crer 
que somente a instancias de Merle o gabinete de Lisboa se 
moveu, e assim mesmo frouxamente. 

Pitt receava ingenuamente aggravar quem se não sentia 
aggravado. Não que o respeito da neutralidade operasse em 
seu animo. Porém, irritado pela affronta, seduzido com pro- 
messas, Portugal poderia lançar-se nos braços da França. 
E não affectaria isso a sorte dja guerra? Occorriam-lhe acaso 
as insinuações de Carvalho, sobre as conveniências da alliança 
e os riscos de a perder. Pensando em tal, apphcou-se a 
terminar, sem attritos, o incidente desagradável. 

Ordenou, pois, ao ministro Hay que apresentasse toda 
a sorte de desculpas á corte de Lisboa; que affiançasse a 
amizade e a consideração do monarcha britannico, e offere- 
cesse toda a reparação compativel com o decoro d'este. Na 
inquietação dos primeiros instantes accrescentava : «Se forem 
de sufficiente magnitude as circumstancias do aggravo, 



1 Pitt a Mr. Hay, 12 Setembro 1759. M.\hon', Hisiory of England, 
ed. Tauchnitz, IV, 397. 



218 MAiS RECLAMAÇÕES DA FRANÇA 

tamanho desejo o Rei sente de dar a tnais publica e ostensiva 
satisfação ao soberano de Portugal que penso não terá duvida, 
em lhe mandar para esse effeito uma embaixada extraordi- 
nária.^) Declarava, todavia, que em nenhum caso as presas 
seriam devolvidas, e os actos do almirante reprovados. A 
taes exigências Hay respondesse «dizendo o bastante para 
de vez fechar a porta a qualquer expectação» ^ Fora, com 
effeito, desmedido culto á justiça receber com desprimor os 
que vinham carregados dos louros da victoria. 

Em Lisboa continuava-se a dar ao caso mesquinha impor- 
tância. No mês de janeiro, passados cinco do acontecido, 
ainda D. Luiz da Cunha escrevia a Martinho de Mello como 
em assumpto da véspera. «A noticia — diz elle — pôz S. M. 
em grande perplexidade, entre os dois extremos do zelo 
pela sua alta e indispensável representação e a fina amizade 
que tão cuidadosamente cultivou sempre com El-Rei britan- 
nico» 2. Nada transparece aqui da indignação que uma sentida 
offensa despertaria. Alguns dias depois, ao saber que para 
Lisboa partia o emissário, portador das desculpas, o ministro^ 
porta-voz de Carvalho, dá soltas a seu jubilo, escrevendo: 
«Esta noticia confirma a El-Rei na mesma illimitada confiança 
que antes tinha na amizade de El-Rei britannico, e na razão 
que teve em mandar suspender as reclamações» ^ Assim, 
já anteriormente as instancias pela satisfação haviam cessado; 
provavelmente desde que o Enviado Hay transmittira ao 
conde de Oeiras as propostas de Pitt. 

No intervallo, Merle continuava a reclamar, e o desem- 
baraço com que os ingleses se julgavam, entre nós, em terra 
própria, dava nascença a queixas novas. Em Faro o cônsul 
entendia-se com os navios de guerra, para entrarem no porto, 
em ameaça a um barco francês que estav^a descarregando. 
Em Vianna do Castello quatro chalupas armadas por súbditos 



1 Pitt a Mr. Hay. Hist. of England, cit, VI. 39é. 
- D. Luiz da Cunha a Martinho de Mello, 12 janeiro 17G0. ColL 
Pomb., Cod. 634. 

3 Idem, 22 janeiro, id. 



EMBAIXADA ESPECIAL DE LORD KINNOUL 219 

britannicos sahiram a barra, e foram tomar a um corsário 
d'aquella nação a presa que levav-a. E de suppôr que com o 
auxilio de gente portuguesa. Tudo isto irritava mais o 
governo de Versailles, e dava azo a protestos vehementes 
na forma, e ás vezes, no fundo, ameaçadores. 

Em janeiro soube-se que vinha o embaixador especial 
lord Kinnoul. A colónia britannica, descontente com as auto- 
ridades, rejubilou, cuidando que o diplomata viria tratar de 
seus aggravos. Merle, tomando pela realidade os seus desejos, 
vaticinava um rompimento com a Inglaterra. Desenganou-o 
Choiseul com justos raciocinios, como depois o desenganaram 
os factos. 

Chegando o embaixador a Lisboa, em 8 de março, com 
uma escolta de três navios, Merle suspendeu por alguns dias 
as reclamações. Mas o proceder dilatório do governo portu- 
guês não podia durar sempre. Em Paris, Choiseul dirigiu 
ao nosso representante uma nota desabrida. Às queixas peio 
caso dos navios accresciam outras, motivadas por desattenções 
pessoaes, de que o Enviado em Lisboa, explorando em proveito 
da sua intima hostilidade a situação, com razão ou sem ella, 
se queixara. A nota declarava que, a não se fazer a devida 
justiça, tomaria a França efficazes providencias para salva- 
guardar a sua dignidade. 

Apertado pelas circumstancias. Carvalho expediu a lord 
Kinnoul uma nota, em que pela primeira vez durante as 
negociações requeria a entrega dos navios. Embaraço do 
embaixador; estupefacção do governo britannico. Pitt real- 
mente não sabia como responder a este — palavras suas 
tcxíxiaes — inesperado pedido, muito embora o conde do 
Oeiras amigável e confidencialmente houvesse declarado não 
esperar que o attendessem i. 

Assentado como fora pelo governo britannico não retra- 
ceder as presas de Lagos, e não podendo, sem offensa a 
Portugal, fazer d'isso ostensiva declaração, torna-se claro que 
a resposta não seria fácil. Kinnoul recebeu instrucções para 



i Pitt a lord Kinnoul, 30 maio 1760, fiisí. of England, cit., VI. 401. 



220 AUDIÊNCIA A LORD KINNOUL 



ladear o assumpto, evitando prònunciar-se. O melhor seria 
não discutir esse ponto escabroso. Renovasse as desculpas, 
fazendo ver que o monarcha inglês dera já o máximo teste- 
munho de sinceridade e affecto ao seu alliado. Entendia Pitt 
que o governo português devia sentir-se com isso satisfeito, 
e assim foi. Longe da apregoada energia que a tradição neste 
lance attribue a Pombal, o ministro, indifferente ao aggravo^ 
impava de orgulho, tendo por excusada generosidade a incom^ 
pleta satisfação com que nos embahia o alliado. As conse- 
quências havia de sentil-as dentro em breve. 



III 



A 21 de março foi a régia audiência a lord Kinnoul. 
O embaixador exprimiu o pesar do seu governo pelo invo- 
luntário desacato, praticado por Boscawen; alongou-se em 
protestos da amizade da parte do seu soberano, e vagamente 
deixou entrever que outros assumptos da sua missão seriam 
tratados com os ministros. Restituição dos navios? Privile- 
gies da feitoria britannica? Companhias de commercio? Os 
não iniciados divagavam em conjecturas. Cada um traduzia 
a reserva ao melhor de suas aspirações. Os nossos historia- 
dores referem que, em troca d'esta amabilidade, obtivera 
lord Kinnoul concessões vantajosas a seus compatriotas. Não 
é exacto. A verdade é que o embaixador se retirou de Lisboa 
no desagrado d*elles, por se não ter realizado nenhum dos 
benefícios que esperavam da sua vinda. 

Imaginando triumpho seu a lisonja em que o embalava 
a Inglaterra, Oeiras manifestava impressivamente o seu ju- 
bilo. Lord Kinnoul era o seu bom, amado e prezado amigo — 
termos com que numa carta o designa — ;o discurso um mani- 
festo e perdurável penhor dos affectos entre as duas cortes; Fitt 
o maior dos estadistas i. Escrevendo a Martinho de Mello, 



1 Conde de Oeiras a lord Kinnoul, 26 março 1760. Coll. Ponib., 



MERLL E D. LUIZ DA CUNHA 221 



conta desvanecido as gentilezas da família real ao embaixador. 
No anniversario do infante D. Pedro fora elle convidado, 
único do corpo diplomático, para um sarau intimo no paço, 
e ouvira cantar S. M. a Rainha e as infantas, caso virgem na 
corte portuguesa. De anglophobia, consoante á lenda, nem 
sombra no espirito de Carvalho, a propósito do incidente 
de Lagos. 

D'ahi a pouco Merle, reclamando novamente, fazia notar 
que a reparação dada pela Inglaterra não seria cabal sem 
a restituição dos navios. D. Luiz da Cunha respondeu tergi- 
versando, como sempre, e appellou para a parte nebulosa 
do discurso de Kinnoul. O conde de Merle sabia que o 
embaixador britannico alludira a certos assumptos, que havia 
de tratar com os ministros. Do numero fazia parte o caso 
das presas. Desse o governo francês tempo ao nosso, para 
chegar á desejada conclusão. E, em tom de amigo, particu- 
larmente lhe confiava que todas as sympathias de Portugal 
eram pelo seu paiz, não pela Inglaterra. Sem falar na iden- 
tidade de crenças religiosas, havia a considerar que de França 
descendia a familia reinante, e mais se apertara o liame pelo 
casamento do actual soberano na casa de Bourbon -. 

Com tal discurso Merle, pouco affeito a blandícias, cahiu 
das nuvens. Maior surpresa teve quando, dias passados, em 
um jantar diplomático, D. Luiz da Cunha se desfez em corte- 
sanias com elle. Dava-se isso na própria occasião em que 
o Enviado francês acabav^a de manifestar com estrépito as 
suas prevenções. 

Questões de pragmática haviam desde muito creado surda 
malquerença entre as cortes de Lisboa e Versailles. Reinando 
D. João V, discutira-se com acrimonia o grave ponto seguinte: 
quem faria a primeira visita, o embaixador recem-chegado 
ao secretario dos extrangeiros, ou este ultimo ao embaixador? 
O tratamento de Fidelíssimo ao Rei, de Excellencia aos seci'e- 
tarios de Estado, havia sido objecto de longas controvérsias 
também. Ao presente, novo conflicto surgia, levantado por 



» Off. do Conde de Merle, 1 abril 1760. Quad. FAenj., VI, 219. 



222 PRECEDÊNCIA ENTRE MERLE E KINNOUL 



lord Kinnoul, e exacerbado pela aversão existente entre 
Oeiras e o representante francês. 

Convém saber que, nas divergências com a Santa Sé, 
dois membros do corpo diplomático tomavam parte, asso- 
ciando-se aos grupos antagonistas: Merle, favorável ao 
Núncio; Khevenhiiller, ministro de Áustria, declarado adepto 
da politica pombalina ^. 

Pelo Núncio Acciajuoli foi o ministro de França avisado 
de que se projectava dar a precedência a lord Kinnoul em 
uma recepção de gala, pelo anniversario da Rainha, prece- 
dência que Alerle para si reclamava, e o embaixador britannico 
exigia, invocando o caracter extraordinário da sua missão. 

Era costume, nas audiências festivas, receber o monarcha 
os representantes extrangeiros cada um por sua vez, na ordem 
estabelecida pela pragmática, e depois collectivamente as 
outras pessoas admittidas ao beijamão. A pretenção de lord 
Kinnoul produzira desagrado no corpo diplomático, e Merle 
tomou a si vindicar, se preciso fosse com escândalo, os 
direitos de todos. Fez constar que tencionava comparecer á 
audiência um dos primeiros, e disputar o passo, no extremo 
caso á força, ao representante da Grã-Bretanha. Ao mesmo 
tempo propalou-se que este ultimo chegaria ao palácio real 
levando por guarda de honra todos os ingleses de Lisboa. 
Foi isto, para os compatriotas de Merle, um toque de alarme. 
No dia da recepção, reuniram-se em grande numero na casa 
do embaixador, e atraz do coche seguiram em cavalgada. 

O inflammado fidalgo em vez de, como lhe cumpria, 
trajar de gala, puzera o garrido uniforme dos mosqueteiros, 
corpo em que era porta estandarte: todo escarlate, chapco 
de plumas brancas, na sobreveste a cruz e quatro flores de 
prata. O vestuário com a sua rubra côr, as tradições belll- 
cosas d'aquella milicia, eram de per si só um desafio; e a 
conhecida petulância de Merle não consentia duvidas acerca 
das suas intenções. Lord Kinnoul, prudente, deteve-se em 



1 Cf. Maloiei, Aiéinoíf-eb, II, 308, Relatório diplomático no ap- 
peiidice. 



CHOISEUL E MERLE 223 



caminho, só comparecendo no paço mais tarde, quando já 
o seu antagonista se havia retirado. E assim á noite poude 
este, triumphante, escrevendo a Cho^seul, dar conta do feito 
como um relato de batalha. — «A porta do régio gabinete 
abriu-se e logo entrei, como era o costume. Lord Kinnoul 
demorou-se em visita ao conde de Oeiras, e só appareceu 
terminados os meus cumprimentos. D. Luiz da Cunha deu 
nesse dia um jantar ao corpo diplomático, onde tive todas 
as distincções e preferencias que poderia desejar» i. 

Taes incidentes e o proceder sempre hostil do conde de 
Merle convenceram a Oeiras de que a França andaria em 
cata de pretexto para nos declarar a guerra. Não era esse 
então o propósito de Luiz XV. Comminações e palavras 
arrogantes não passavam de artifícios da diplomacia. Tantos 
revezes em campanha, e as exigências apertadas do erário 
não lhe permittiam buscar novos inimigos. Paz com a Gra- 
Bretanha, em condições acceitaveis, era a sua presente aspi- 
ração, a menos de attrahir a monarchia hespanhola a uma 
ailiança, pela qual trabalhava, e com que o equilíbrio das 
forças em lide se restabelecia. 

Ao embaixador em Lisboa, propenso a arrebatamentos, 
Choiseul frequentes vezes recommendava moderação. Insi- 
nuava-lhe que a sua posição o constituía mero espectador 
dos factos da administração interna, e não exagerado censor, 
como em criticas indiscretas se manifestava. Todavia, os 
ásperos attritos continuavam, e em maio de 1760 o governo 
português queixotu-se d'elle em Versailles. A resposta de 
Choiseul foi conciliatória: desculpava os actos de Mede, mas 
offerecia retiral-o de Lisboa, sendo preciso. 

Ao mesmo tempo Oeiras, receoso, referia tudo á corte 
de Londres, e pedia soccorros. Pitt respondeu assegurando 
o auxilio da Inglaterra. «Pôde S. M. F. ficar certo que El-Rei 
terá sempre a defesa do reino e domínios de Portugal, seu 
antigo e natural alliado, como objecto caro á honra e ao 
interesse da sua coroa e do seu povo, e seu primeiro cuidado 



M.\ioi;f.t, Mémoires, 11, 328. 



221 EXPULSÃO DO NÚNCIO 



logo após o da conservação dos domínios britannicos». Entre- 
tanto recommendava que fosse o paiz apercebendo as suas 
forças de terra e mar para a eventualidade de um ataque ^. 

Em junho effectuou-se o casamento da Princesa do Brasil 
com o infante seu tio. Domada a fidalguia, expulsos os 
jesuítas, Carvalho nada tinha a temer de D. Pedro, cuja insi- 
gnificância intellectual reconhecia. Mas o motivo da união 
foi imprevisto. No antecedente mês o embaixador de Castella 
apresentara em nome de Carlos III um pedido formal para 
o infante D. Luiz. Assim como de surpresa fora o pedido, 
de súbito se resolveu o consorcio, até ahi rejeitado. Dal-o 
como projecto firme, «m véspera de se realizar, era o só 
meio de despedir o pretendente, sem offensa do vizinho 
hostil e poderoso. / 

Ao casamento seguiu-se o facto estrondoso da expulsla 
do Núncio, que não puzera luminárias na data festiva. 

O cardeal Acciajuoli era um pobre homem, de curta 
intelligencia, mas de grande bondade ; de nenhum modo o 
ardiloso intrigante que os despachas de Carvalho deixam 
suppôr 2, Não tendo convite para a solemnidade, penalizado 
e com a tristeza estampada no semblante, passou a tarde a 
contemplar da janella os coches que regressavam da festa 
na Ajuda. À noite não accendeu as lanternas protocollares, 
nem no interior da casa apparecia uma luz, — innocente € 
justificado desforço, que o conde de Oeiras, sequioso de 
pretexto, como tal utilizou, para fazer sentir ao cardeal o 
peso da sua cólera. 

Mas, ao que parece, não foi apenas resentimento pela 
anodina demonstração, tão pouco o só desejo de affrontar 
a corte pontifical, o que deu motivo á violência. O ministro 
desconfiara de um trama urdido em Roma — obra dos jesuítas 
se entende — para introduzir a cizânia na família real. Eram 
agentes o Núncio e o conde de Merle. Tratava-se de incitar 



1 Pitt a lord Kinnoul, 30 maio 1760, Mahon, Hist. oj England, 
IV, 40C. 

2 Cf. Memorias do bispo do Pará, 104. 



DESTERRO DOS INFANTES DE PALHAVÃ 225 



OS infantes bastardos de D. João V — es meninos de Palhavã 
— a declararem-se pretendentes á Princesa i. Por extrava- 
gante que o plano pareça, mormente tendo os infantes ordens 
menores, esta mesma circumstancia explicava que a Curía 
participasse, offerecendo a dispensa dos votos. O interessante 
do caso é ter o próprio Mede julgado, decerto por atoardas 
correntes, pretender Carvalho dar a Princesa por consorte 
ao menino D. António -. 

O outro infante, D. José, quizera renunciar o cargo de 
inquisidor; — sem duvida, o ministro pensava, para abrir 
caminho ao seu intento — ; e, «no dia dos desposorios apresen- 
tou-se no paço com uma figura luctaosa e imprópria do 
dia». Ambos achincalhavam do infante, e repetiam com 
escarneo a voz corrente acerca da sua virilidade. Um mis 
depois, por decisão do Conselho de Estado, eram presos 
os dois e desterrados para o Bussaco -^ 

As solemnidades do casamento foram occasião de novas 



1 Conde de Oeiras a Martinho de Mello, 23 agosto 1760, Coll. 
Pcmb., Cod. 634. 

2 Quad. Elem., 6.o, 201. 

3 Pombal, no fcu processo, attribuiu a estas pretenções ambicio- 
sas o castigo dos infantes. Entretanto a opinião comnuim dava-llie por 
criusa urt; conflicto pessoal, em que o ministro fora affrontado. O 
desembargador Ignacio Ferreira Souto, que foi juiz dos Tavoras, in- 
tendente geral da policia, escrevera um livro, sob o titulo Traciatus 
<le incUcumscripta potestate regis, em defesa das regalias da coroa 
e. contra a Egreja. Solicitada ao Santo Officio a licença de impri-' 
mir, o exame descobriu na obra proposições condemnaveis. O autor, 
sabendo d'isso, procurou o censor, e após alguma discussão, arrebn- 
tou-Ihe o manuscripto, que levou comsigo. Informado o inquisidor ge- 
ral, mandou logo dois familiares, o conde de S. Lourenço e o vis- 
conde de Villa Nova de Cerveira, intimar ao desembargador a en- 
trega do livro, e a resposta foi que estava na mão do conde de 
Oeiras. Convidado este então a ir ao palácio de Palhavã explicar-se 
com o inquisidor, ahi a conversa degenerou em disputa, resultando 
ser o ministro esbofeteado pelo infante D. António, que estava pre- 
sente, tendo de fugir, perseguido por €lle de espadim em punho. 
Poz o acontecimento em grande cólera a D. José, e o conselho de 
Estado, convocado para dar parecer, opinou por severo castigo, h:i- 

O AURQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 15 



226 DESINTELLIGENCIAS COM O ENVIADO FRANCÊ5 

divergências, em assumptos de ceremonial. Para dar satis- 
fação ao representante da Inglaterra pelo arranco de Merle, 
sem descontentar a este, estabeleceu-se que, d'ali por deante, 
a precedência entre diplomatas da mesma graduação seria 
determinada pela data das respectivas credenciacs. D'este 
modo ficava ao embaixador da França o logar que pretendia 
seu, antes do Enviado britannico, mas só pelo facto accidentai 
da sua nomeação anterior, não em virtude de preeminência 
attribuida á sua nação, como allegava. Esta solução do 
conflicto, desagradável a Mede, não o foi menos a Choiseul. 
Ambos manifestaram altamente o seu despeito. A posição 
do diplomata francês em Lisboa era cada vez menos agradável. 
Havia tnuito que elle desejava deixar o posto ; fez-lhe Choiseui 
a vontade, 'e, indisposto como estava com o gioverno português, 
não lhe nomeou successor. Mede fizera quanto a seu alcance 
esteve para turbar a harmonia entre os dois paizes. Oeiras, 



vendo mesmo quem, por lisonja ao ministro, ciiegasse a pronôr a 
ultima pena para os dois infantes, que foram por fim desterrados. 

Esta é a versão que as memorias do tempo registaram. O mi- 
nistro da Áustria assim o transm.ittiu á sua corte. (Officio de 3 
de fevereiro 1761. Duhr, Pombal, pag. 78). O embaixador francês, 
sem os pormenores, egualmente attribue o facto a desintclligencias 
acerca da publicação de um livro contrario á Santa Sé. (Offic>o de 
29 de julho 1760. Quad Elem., 2.o, pag. 270). Depois dos infantes 
ioram presos muitos religiosos. Os dois fidalgos, exilados poucos dias 
depois do casamento da princesa, mandou-os Carvalho transfe.nr, um 
para o forte da Junqueira, o outro para o Castello da Foz do Douro. 
Interrogado em Pombal sobre a razão d'este procedimento, o ministro 
respondeu que a prisão do visconde de Villa Nova de Cerveira fora 
— < económica, correctoria e da natureza d'aquellas que sómeníe os 
inonarchas, \^v\z% suas immediatas ordens, podem mandar fazer.'> — , e 
com isto varias futilidades á mistura; a do conde de S. Lourenço 
pela amizade com Malagrida, e para o subtrahir á sua influencia. 
Ora o jesuita achava-se no forte da Junqueira desde janeiro de 1759; 
o conde foi preso em junho do anno seguinte. As explicações, obscu- 
ras e tortuosas, deixam entender que a verdade seria para o interro- 
gado difficil de relatar, e concebe-se a reluctancia, a ser exacto o 
caso affrontoso de Palhavã. Este seria pois o motivo que determin(Mt 
a punição dos infantes, sem todavia excluir a verdade das preten- 
sões matnmoniaes, que não poderiam agradar. 



ASCENSÃO DE CARLOS III AO THROxVO DE HESPANHA 227 



com a politica de subserviência á Inglaterra, facilitara-^lhe o 
intuito. Acastellavam-se nuvens no firmamento, e não tardaria 
a borrasca. 



IV 



Entrando 1761, a França, infeliz nos combates e falha 
de recursos financeiros, desejou a paz. Intervieram os neutros, 
propondo um congresso em Augsburgo para os ajustes, 
porém Choiseul, cavilloso, insinuou qae as negociações entre 
França e Inglaterra corressem mano a mano, sem: intromissão 
das potencias, a quem ficavam para resolver no congresso 
os restantes litigios. Não perdera a esperança da liga com 
a Hespanha, que as transformações decorridas na corte de 
Madrid pareciam agora favorecer. 

Em agosto de 1758 enviuvara Fernando VI, que falleceu 
passado um anno, alheio durante esse tempo aos cuidados 
do governo, e todo entregue á dôr em que a sua intelligencia 
íraquissima completamente sossobrou. Subiu ao throno o 
rei de Nápoles, seu irmão, com o nome de Carlos III, e 
á influencia de Portugal, que com a rainha Maria Barbara 
prevalecia, substituiu-'se a da França; á firme neutralidade o 
tradicional antagonismo com a Inglaterra. Ao mesmo tempo 
as relações com a corte de Lisboa mudaram de aspecto. O 
UQVO rei começou por exigir a revogação do tratado^ de 
limites. Feito sobre este ponto o accordo em fevereiro de 
1761, seguiu-se pedido de casamento não attendido. 

Supposto nessa época não manifestasse o governo 
português apprehensões acerca de Hespanha, é certo que os 
dois acontecimentos assas lh'as podiam causar. O tratado 
não chegara a cumprir-se pela resistência dos Índios, que a 
final seria vencida, se não julgassem os hespanhoes onerosa 
a troca de territórios. Entretanto o desejo de possuírem a 
colónia do Sacramento não se extinguira, e o que pelos meios, 
diplomáticos se não podia haver, talvez a força das armas 
o resgatasse. Por outro lado a recusa da Princesa era, se 



228 OEIRAS ANTE A NOVA POLITICA DE HESPANilA 



não um golpe ás ambições dynasticas tradicionaes, que não 
perdiam ensejo de se declarar, com certeza um ag-gravo á 
soberba da régia estirpe e da nação. Ambos os motivos, 
embora não dessem razoável pretexto á guerra, preparavam 
fácil ouvido ás acrimoniosas instigações da França. 

De Inglaterra tinha a monarchia hespanhola offensas, 
sem duvida — navios capturados, usurpações e violências na 
America, recusa do direito de pesca na Terra Nova — mas 
acima 'de tudo afírontava^a o progresso de um poderio colonial, 
que já ameaçava subverter-lhe o seu próprio. O momento 
era azado para se realizar o projecto de Choiseul. 

Oeiras, entretanto, nada temia senão da França. Acre- 
ditava que a derogação do tratado de limites, correspon- 
dendo aos desejos dos castelhanos, conquistara a gratidão 
d'elles; que o cunhadio dos soberanos seria neste, como no 
antecedente reinado tinha sido, fiança de relações amigáveis. 
Via porém Luiz XV, desembaraçado de contendores, prompto 
à ãggredir Portugal. Juljgava o perigo imminente, e toda a 
sua diplomacia, neste periodo, se subordina a essa pre- 
occupação. 

Principiou elle por insinuar a admissão de Portugal ao 
congresso, para decidir os litigios com a França, e tornar 
as potencias solidarias da resolução. Em ultimo caso, se fosse 
a pretenção irrealizável, declarasse a Inglaterra garantir os 
domínios de Portugal, em qualquer parte do mundo. Simulta- 
neamente congratulava-se com o governo britannico pela 
revogação do infeliz tratado de limites, que annos antes 
promovera com tanto ardor i. Qual a razão da m.udança? 

Reconhecia agora que a Hespanha tivera no tratado todas 
ás vantagens, recebendo uma praça de guerra e consideráveis 
territórios, em troco de «sete miseráveis aldeias de Índios», 
para cuja occupação se tinham dispendido «vinte e seiis milhões 
de cruzados», além de ser ella a origem d'essa pertinaz lucta 
com os jesuítas, que era a sua mais absorvente preocciípação. 



^ «Reflexões sobre as cartas escriptas a Martinho de Mello. 
1761». Coll. Pomb,, Cod. 634. 



OEIRAS RECORRE AO APOIO DíPLOMATiCO INOLES 229 

Mas o que sobretudo agia em seu animo era o receio de 
que o pacto pudesse invalidar a tão necessária alliança com 
Inglaterra, Effectivamente nelle existiam clausulas, pelas 
quaes se declarava sem effeito o tratado de Utrecht, e as 
partes contratantes se obrigavam á reciproca defensão dos; 
dominios de cada uma, na America Meridional. Não tomaria 
a Grã-Bretanha d'isso pretexto para nos recusar o auxilio, 
na hora do perigo? Esta falha, não vista em 1750, dilata va-se 
cm brecha enorme, ameaçando ruir o melhor baluarte da 
defesa nacional. Era tarefa do ministro em Londres acudir 
a esse risco. Para isso Martinho de Mello devia argumentar. 
que, ainda subsistente o tratado de limites, as garantias do 
de Utrecht se achavam em vigor; e, annullado aquelle, qualquer 
fundamento com que se pretendesse illudir o encargo com 
maior razão seria baldado. 

Martinho de Mello obteve a confirmação da alliança pelas 
duas personalidades que accionavam a politica da Inglaterra: 
William Pitt no parlamento e no gabinete, lord Bute nos 
conselhos Íntimos do Rei. Oeiras respirou. Mas o êxito de 
suas exigências não foi além. A pretenção, evidentemente 
exagerada, de fazer Portugal participe do congresso, não 
lh'a attenderam. Teve de contentar-se com a declaração, 
satisfactoria para a vaidade nacional, de não serem também 
admittidas a Hespanha, a Hollanda e a Sardenha. Solicitou 
então que, ao menos, as divergências com a França se ajus- 
tassem lá. Também não conseguiu. À Grã-Bretanha convinha 
negociar de mãos livres, para não sacrificar alguma das 
vantagens colhidas na guerra. E o ministro, verificando a 
tibieza de uma tão pregoada amizade, com amargura considera 
que o saxão egoista é agora o arbitro dos mares, e por isso 
abandona sem receio Portugal, «que se não poderá jamais 
unir a outra potencia em detrimento da Inglaterra» i. 

A amizade, a gratidão nada valendo, restava o interes- 
se, e Oeiras offerecia revogar em favor dos ingleses a lei 
prohibitiva da sabida do ouro, comtanto que no tratado de 



i «Reflexões sobre as cartas escriptas a Martinho de Mello), cit. 



230 A ANTIGA E EFFICAZ ALLIANÇA INGLESA 



paz se incluísse a garantia do território português, e a In- 
glaterra declarasse ter por aggravo próprio qualquer offensa ao 
alliado. 

Assentado depois entre França e Inglaterra ajustarem 
fora do congresso as condições reciprocas, as instancias do 
governo português descobrem que o facto é para elle in- 
quietador. Oeiras suggere que será necessário estipular no 
pacto que sobre os navios capturados até certa data não 
haverá reivindicações, tieni mesmo contra terceiros; e que a 
França renuncia a qualquer procedimento pelas occorrencias 
nas costas do Algarve i. 

A forma instante das solicitações, o gradual decrescer 
das exigências, as promessas € argumentos com que busca 
mover a indifferença da Grã-Bretanha, tudo patenteia a 
inquietação de Oeiras neste periodo. Elle via já sobre o 
reino inerme o poder immenso da França; reconhecia a 
fallencia de meios contra o ataque. Tentava por isso estimular 
o zelo do alliado, insinuar razões de interesse ou gratidão. 
Apontava-lhe a inveja das nações, pelas grandes vantagens 
que o commercio inglês auferia em Portugal. Recordava os 
esforços da França, as publicações feitas nesse paiz e ra 
Hollanda, com o fim de iUuminar o nosso governo e leval-o 
a repudiar a amizade britannica. «Nada d'isso — observava 
— fez impressão no animo do Rei. Mas o que mantém S. M, 
neste systema é o interesse de conservar a antiga e efficaz 
alliança da Grã-Bretanha». D'ahi passava a descrever a depen- 
dência em que aqueíle paiz se achava de Portugal. Lembrava 
quanto a estagnação de negócios, consequente ao terremoto, 
fora alli duramente sentida; que, se tardavam as frotas do 
Brasil, logo na Bolsa de Londres o preço do ouro subia. 
Tudo isto eram razões que ao governo britannico cumpria 
ponderar, comprehendendo que seria resguardar os proprics 
interesses defender os do alliado ^. 



^ Officio a Martinho de Mello, 19 maio 1761, Coll. Pomb., 
Cnd. 634. 

'-' Officto a Martinho de Mello, 31 outubro 1760, Coll. Pomb., 
Cod. cit. 



o PACTO DE família 231 



Ao passo que o governo português nada conseguia da 
Inglaterra, Choiseul via cumprido o seu empenho d€ soli- 
darizar Carlos III com os interesses da França, Por instigação 
sua, o gabinete de Madrid iniciava as reclamações em Londres, 
quando a negociação das pazes estava em começo. Desde 
esse instante toda a idéa de congraçamento se dissipou no 
espirito de Choiseul, e seus esforços tenderam só a preparar 
o rompimento de Hespanha com a Inglaterra. Realizado este, 
Portugal seria um vantajoso campo de batalha. 

Em junho de 1761 dava elle a entender, ao encarregado 
de negócios em Lisboa, que qualquer coasa machinava, em 
detrimento nosso, de concerto com a Hespanha. E epilogava: 
«O tempo e os successos hão de fazer que os portugueses 
se arrependam do seu procedimento» '. Em julho mandava-lhe 
que não falasse mais sobre os navios capturados, <':por isso 
que os ministros portugueses se achavam impossibilitados 
de justificar o modo como naquelle assumpto se haviam 
portado» ^ D'esta arte as relações diplomáticas assumiam 
caracter cada dia mais acerbo. 

Entretanto as condições onerosas de Pitt triumphante 
€ a intencional pertinácia de Choiseul que, firme em suas 
reivindicações, exigia o retorno das presas feitas no mar, 
prenunciavam) já a paz impossível. Subira ao cume a desintelli- 
gencia quando o plenipotenciário francês sahiu com uma 
nota a desposar as queixas da Hespanha. Pitt repelliu a 
ameaça, implícita na inter\enção, recusando em absoluto 
tratar do assumpto com a França. Passado um mês, a 15 
de agosto, assignava-se em Paris o Pacto de familia. 

Excusado é recordar as estipulações conhecidas do 
tratado. Basta mencionar a convenção addicional, estatuindo 
que a Hespanha atacaria Inglaterra, e Portugal seria intimado 
a juntar-se aos aggressores. Esta parte suggeriu-a Carlos III, 
que se lisonjeava de impor a alliança a seu cunhado ^ Mais 



1 Quadr. Elem., VII, 15. 

2 Idem, VII, 17. 

3 Ferrf.k DLL Rio, Historia dei reinado de Carlos III, Madrid 
1856. I, 29S. 



232 MACHINAÇÕES DA FRANÇA E HESPANHA 



perspicaz, Choiseul, concordou, certo da recusa que lhe daria 
o ambicionado pretexto para a guerra. 



V 



A accessão de Portugal á liga dos Bourbons de nenhum 
modo era possivei. Renegar o paiz as tradições da sua poli- 
tica, voltando-se contra a Inglaterra, seria perder na contenda 
a melhor parte do seu império colonial, se não todo elle. 
Alas a recusa punha-o a braços com o hereditário inimigo, 
o castelhano, e com o novo adversário, em cujo temor p 
governo português desde três annos vivia. Contra a França 
e a Hespanha unidas era imprescindível o soccorro da Ingla- 
terra. Isso lhe divertia forças, e a desfalcava em homens e 
recursos pecuniários; pelo que Cho'seul, atilado, dizia que 
a guerra com Portugal, quaesquer que fossem os resultados, 
seria sempre de proveito para a França i. Castella ganharia 
pelo menos a colónia do Sacramento, e acaso algum território 
no sul do Brasil. De qualquer modo Choiseal tirava da corte 
portuguesa o desejado desforço. 

Informado das machinações da França e dos bellicos 
preparativos da Hespanha, era intuito de Pitt antecipar-se 
com a declaração de guerra ; mas não logrou convencer a 
maioria do gabinete, crente nos protestos pacíficos de Madrid. 
Despeitado, sahiu do ministério no próprio momento em que 
as suas predicções se cumpriam. 

Hespanha ganhava tempo, para se manifestar somente 
quando já não houvesse de temer pela frota das índias. A 
22 de setembro surgia em Cadix o grosso do comboio. Duas 
naus, que se tinham atrazado, chegaram ao porto em 2 de 
novembro. O embaixador, lord Brisíol, communicava «que todts 
as riquezas esperadas da America se achavam a salvo» •'; 



^ \Mémoire% du duc de Choiseul, Paris 1904, pag. 393. 
3 M.\HON, Hist. ol Englund, IV, 260. 



ANTECIPANDO A INVASÃO DE 1S07 233 



e observava que desde logo a linguagem da côrce de Madrid 
era arrogante e .mui outiva do que fera até então. Reconhecendo 
tarde a sua imprudência, o governo britannico rompeu as 
hostilidades no principio de janeiro. 

Luiz XV fazia-se representar em Lisboa por Jacob 
0'Dunne, com a categoria somente de ministro plenipoten- 
ciário, e não de embaixador, pelas razões de pragmática^ 
motivo dos conflictos anteriores. Este diplomata tinha de 
orientar-se por instrucções do governo hespanhol, recebidas 
em Madrid. A sua missão consistia o tensivamente em exp:r 
ao governo português que a neutralidade se lhe tornava 
impossível, e por isso conviria bandear-se com os Bourbons ; 
na realidade as negociações eram. somente um disfarce, para 
cohonestar com as formulas da diplomacia a premeditada 
invasão. 

O projecto devia-se a Choiseul e, dizia este, «produziria 
effeito immenso se os hespanhoes o teem sabido pôr em 
pratica» -. Antecipando a marcha dos franceses em 1807, as 
tropas deviam caminhar directamente sobre a capital inde- 
fesa. A realizar-se isso, é difficil conjecturar qual a resolução 
de D. José. Acaso anteciparia egualmente a fuga de D. João VI, 
transferindo como elle, para o Brasil, a sede da monarchia. 
O intento foi na occasião attribuldo a Carvalho, Mas não era 
propósito de Carlos III levar as cousas a tal extremo e, para 
não inquietar demasiadamente a sua irmã, entendeu afastar 
da capital o theatro das operações. Por isso, rejeitando o 
plano assentado, de avançar sobre Lisboa por Almeida, 
deliberou assenhorear-se do Porto, entrando as forças por 
Trás-os-Montes. D'ahi em grande parte resultou o mallogro 
da invasão 2, Poi preciso transferir a base de operações de 
Ciudad-Rodrigo para Zamora mais ao Norte. Deu-se tempo 
a chegar o soccorro inglês e o conde de Lippe ; e a campanha, 



1 .Viémoires du duc de Choiseul. 388. 

- <'Dc qien diablos fué el pensamiento de ir à Miranda y lira- 
ganza cn vez de Almeida?) admirado perguntava Tanucci, confidente 
c antigo ministro napolitano de Carlos III, ao ministro csquilache. 
FtRRER DhL Rio, Carlo:< III, l.o, 323. 



234 PORTUGAL E O PACTO DOS BOURBONS 

cujo plano foi depois novamente mudado, terminou sem 
vantagem dos invasores, pelos erros da primeira hora. 

De qualquer modo era propósito dos alliados "tomarem 
alguma parte de Portugal em reféns para, no remate da 
guerra, obterem da Grcã-Bretanha valiosas compensações. 
Existia também, parece, um projecto de campanha ultrama- 
rina. Oeiras persuadia-se que os franceses tentariam repetir 
a façanha de Duguay-Trouin, tomando o Rio de Janeiro. 
Por qualquer motivo, a esquadra destinada ao Brasil não 
partiu; as dilações da Hespanha, os incompletos preparativos, 
annullaram o desígnio dos alliados. 

Em Madrid, 0'Dunne, impaciente, urgia pelo immediato 
ataque, considerando a sua vinda a Lisboa dispensável; mas 
oppunham-lhe que, antes de romper em guerra, cumpria fazer 
as intimações, ainda na certeza de que seriam desprezadas. 

Afinal o Enviado francês somente em fevereiro sahiu 
de Madrid, com instrucções communs para si e para o repre- 
sentante de Hespanha. 

A 27 ainda nada tinha communicado ao governo portu- 
guês. Chegara de Madrid ordem suspensiva para dar tempo 
ao avanço difficil da artilharia, no terreno montanhoso, por 
onde se fazia a invasão'. Só a 16 do mês seguinte os plenipo- 
tenciários entregaram a D. Luiz da Cunha o memorial que 
convidava o soberano português a desligar-se da alliança de 
Inglaterra e, como cunhado de Carlos III, a adherir ao pacto 
dos Bourbons. As tropas franco-hespanholas aguardavam na 
fronteira o assentimento de S. M. para irem guarnecer as 
suas praças marítimas, que os ingleses poderiam ameaçar. 
Exigia-se resposta peremptória dentro de quatro dias. 

Oeiras discutiu a nota arrogante dos alliados com ha- 
bilidade e firmeza. Era seu empenho ganhar tempo, para 
melhor preparar a resistência. Por isso respondeu sem asso- 
mos, em tom de benevolência e cordura. Fazia protestos da 
mais recta neutralidade; affirmava o seu desejo da paz; 
allegava que as calamidades do terremoto, ainda em parte 
por sanar, os trabalhos da organização económica, as pertur- 
bações da politica interna, não permittiam á nação av'enturar-se 
em uma guerra offensiva. E, depois, que razão tinha o 



RETÍRAM-SE OS DIPLOMATAS FRANCÊS E HESPANHOL 235 



monarcha português de guerrear uma potencia, que nenhum 
aggravo lhe havia feito? A esta parte repHcavani os emis- 
sários: «Que maior offensa do que ter uma esquadra inglesa 
bombardeado outra francesa, em um porto de Portugal?» * 
E formulavam o dilemma: ou o paiz não recebera satisfação 
da Grã-Bretanha, e assistia-lhe por isso o direito de lhe 
fazer guerra, ou a satisfação fora dada, e nesse caso, faltando 
restituir os navios á França, era esta potencia que tinha 
o direito de fazer guerra a Portugal. 

A correspondência dilatou-se até 23 de abril, quando os 
diplomatas exigiram passaportes, retirando-se para Hespanha 
em seguida. Ás ameaças de invasão replicara Oeiras que 
seria menos custoso ao monarcha deixar cahir a ultima telha 
do seu palácio, aos leaes vassalos derramarem a ultima rrotta 
do seu sangue, que sacrificar Portugal o decoro da coroa, 
trahindo a sua alliança -. O parallelo das telhas do palácio 
com o $angue dos vassalos é typico do século XVIII, e 
caracteriza o progresso que fizera a idéa da supremacia régia, 
desde o tempo em que o Príncipe perfeito tomara por divisa 
o pelicano. 

Tão amigo dos mesquinhos despiques como das estron- 
dosas vinganças, Oeiras, sob o pretexto das pragmáticas, 
mandou reter na raia os ministros que se retiravam, até que 
o representante português, recolhendo de Madrid, passasse 
também. Ao mesmo tempo o exercito dos alliados penetrava 
em Trás-os-Montes. 



VI 



O rompimento do governo inglês com Carlos III produziu 
cm Lisboa alvoroço enorme. Ã confiança de viver em paz com 



1 Segunda promemona em 1 de abril de 1762. Qiiad. Elem.y 
II, 256. 

- Resposta de D. Luiz da Cunha á segunda memoria do embai- 
xador de Hespanha. Qiiad. Elem., 11, 265. 



236 O DESCALABRO DA ADMINISTRAÇÃO MILITAR 



O visinho dissipou-se. Agora ao perigo remoto, que se temii 
da França, outro immincnte e próximo accrescia. Mesmo em 
neutralidade, o littoral português era para as esquadras britan- 
nicas um ponto estratégico, de que os adversários tinham 
o máximo interesse em as desalojar. Em taes circumstancias, 
difficil seria deixar o paiz de se ver envolvido na contenda. 

Tarde seguia Oeiras o conselho de Pitt, cuidando de 
pôr o reino em estado de defesa. O descalabro da adminis- 
tração militar era mal chronico e, na apertura do momento, 
irremediável. Muitos annos havia — antes mesmo do perdu- 
lário D. João V — que a voragem do paço e da corte absor\':a 
quanto a nação podia dar. Achavam-se as fronteiras abertas, 
as praças desmanteladas, os regimentos incompletos, os 
depósitos de artigos b^llicos vazios. Os officiaes eram incom- 
petentes, muitos d'elles fâmulos de casas fidalgas, mais 
occupados nos lavores do amo, que os promovera, que no 
serviço de campo ou quartel. E era escândalo dos extrangeiros 
verem-nos servir á mesa, de habito de Christo ao pescoço, 
orgulhosos da sua humilhação de lacaios. Aos sojdados faltava 
instrucção e disciplina. «Com o rosário em uma das mãos,— 
refere um viajante — , um chapéo esfarrapado na outra, pediam 
esmola;: i. Roubavam, e assim devia ser, porque os soldos 
andavam sempre em atrazo. As forças navaes ao mesmo 
abandono. Em tudo attinente á guerra, penúria, incapaci- 
dade, descuido. 

Oeiras tinha sido por seis annos ministro da guerra, 
posto em que o substituta D. Luiz da Cunha, seu homem de 
palha, que, como elle, conjunctamente geria os negócios 
extrangeiros; e nisto, egualmente aos restantes ramos da 
administração, a só vontade deliberante era a sua. Por tal 
motivo não podia repudiar a responsabilidade d'esta situação 
deplorável. Em 1754 elaborara a reforma do exercito, elevado 
nos cálculos a dezoito mil homens. Effectuara a promoção de 
officiaes, que desde muitos annos, por economia, se não 



1 Carias de Aríhur William Costigan, Ms. da Bibl. Nac, Coll. 
Pomb., Cod. 082. 



A MÀ SJTLJâCAO do exercito 237 



tinha realizado. Havia regimentos com quatro somente, e 
até menos, todos nos postos subalternos, em que se conser- 
vavam decrépitos. A providencia fora judiciosa e benéfica, 
mas depois a sua attenção, pretendendo abraçar, do mais 
importante ao Ínfimo, todos os objectos da acção de um 
governo excessivam ente centralizado, esquecera esÍQ, que 
aliás lhe não foi em nenhum, tempo predilecto. 

A penúria do erário, que em todo o período da gerência 
pombalina fez lastimável a situação de credor do Estado, 
experimentavam-na também as tropas. Em novembro de 1761 
andava o atrazo dos soldos em dezoito meses. Nas vésperas 
da guerra foram pagos seis meses por conta. Os soldados, 
por necessidade e inveterado habito, mendigavam. Quando 
0'Dunne, portador do ultimatum, chegou a Lisboa, um grupo 
de sargentos appareceu-lhe á porta a pedir esmola, e com 
elles um capitão i. Era o cumulo do degradamento, porém 
forçado, porque aos militares, que reclamavam a paga, impu- 
nham as leis severos castigos. 

Com tal miséria em perspectiva, os voluntários pouco 
acudiam ás fileiras. O recrutamento era á força. Aproveita- 
vam-se os ajuntamentos populares para ir colhendo os vadios, 
e no lance iam filhos famílias, serviçaes domésticos, operários, 
tudo o que no tumulto se podia a garrar. No auto de fé de 
JMalagrida, os soldados puzeram cerco ao Rocio e ruas visi- 
nhas ; avançaram os esbirros, e a caçada foi prodigiosa. Estas 
rusgas foram o triumpho e a origem da fortuna de Pina 
Manique, naquelle tempo juiz do crime. Das províncias vinham 
os recrutas em gargalheiras, e por toda a parte as ordenanças 
andavam activas á cata dos desertores. O duque de Broglie, 
inform.ado por espiões, fazia a synthese de tudo isto, dizendo 
a Luiz XV que «as tropas pouco numerosas, mal pagas, 
mal vestidas, mal armadas, e em peor estado ainda quanto 
á disciplina, eram constituídas pelo que da ralé da nação se 
podia apanhar» ^, 



i Officio de 23 fevereiro 1762. Quad. Eíem., 7.o, 50. 

2 BonTAKic, Correspondance secrèíe de Louis XV. 2.°, 194. 



238 O AUXíLíO DA INGLATERRA 



Em taes circumstancias mais do que nunca se impunha 
o appello á Inglaterra. Lord Kinnoul, em nome de Pitt, 
emphaticamente promettera auxilio, quando preciso, e a 
declaração fora sincera. Mas a vontade agora predominante 
no gabinete era opposta á de Pitt, Lord Bute, com a auto- 
ridade de valido, que era, do soberano, manifestou-se contrario 
á intervenção. Os tratados não obrigavam, desde que Portugal 
os rompia, com o permanente desprezo das regalias do 
commercio britannico. O monopólio da Companhia dos Vinhos 
constituia um attentado, contra o qual os representantes da 
Inglaterra, um após outro, haviam protestado, sem que nada 
demovesse o governo português. E este não era o só motivo 
de reclamações. 

Impotente com o ministério, Martinho de Mello recorreu 
á opposição parlamentar. Venceu, mas não sem obstáculos. 
Já o inimigo estava dentro de Portugal, e ainda na Camará 
dos Communs surgiam difficuldades. O gabinete, violen- 
tado, propuzera afinal o credito de um milhão esterlino, 
para o soccorro. Mas houve quem impugnasse a verba por 
excessiva, como excessivo era o encargo de tomar a nação 
inglesa por sua conta a alheia defensa. 

Foi então que Pitt, vindicando a politica que no governo 
seguira, sustentou a proposta e conseguiu fazel-a approvar. 
«Também eu não quero — exclamou — que o encargo de 
defender o alliado pese exclusivamente sobre nós. Não digo 
que tomemos ás costas o rei de Portugal, sim, porém, que 
o pousemos de pé, firme nas pernas e de espada na mão:>! ^ 
A eloquência sardónica de Pitt foi convincente, mas quão 
humilhante para a causa patrocinada! O famoso estadista 
conhecia a situação militar de Portugal. Verdade é que a 
de Hespanha não se mostrava melhor. Lord Tiravvley, velho 
militar que viera com outros officiaes pôr-se ao serviço de 
Portugal, escrevia a Pitt que «dez mil homens de boas tropas, 
na fronteira, tanto poderiam marchar sobre Lisboa como 
sobre Madrid; a facilidade era a mesma» -. E as operações 



1 .M\HON, Hisi. of England, 4.o, 266. 

2 Idem, 27'1. 



o CONDE DE LIPPE E O EXERCITO 239 



da subsequente campanha assas lhe justificaram as palavras. 
Entretanto, a superioridade numérica dos hespanhoes 
levaria os nossos de vencida, como effectivamente levou no 
primeiro Ímpeto, a não ser o soccorro, aliás mesquinho, da 
Orã-Bretanha. Seis regimentos de pé e um de cavallaria for- 
mavam o contingente. Vieram também armamentos, munições 
e dinheiro; mas o primacial elemento, para o êxito relativo 
das nossas armas, foi o conde de Lippe que, coadjuvado por 
officiaes extrangeiros, organizou e fez manobrar a incohe- 
rente chusma das forças nacionaes. 

Ate chegar o grande táctico, Oeiras, homem de acção, 
de sangue frio nas contingências mais graves, foi acudindo 
com palliativos de occasião ás defficiencias que não soubera 
evitar nem prever. A poder de decretos levantou um exercito 
que, na estima, se devia elevar a quarenta mil homens. D'esíe 
numero Lippe aproveitou oito mil que, sob o commando 
dos forasteiros, cooperaram com as tropas inglesas. Outra 
parte disseminou-se nas guarnições. O resto foi posto de 
banda, como estorvo e elemento de indisciplina e fraqueza. 

De golpe, consoante ao seu génio, intendeu o ministro 
crear um exercito. De golpe determinou corrigir abusos de 
que em dez annos de poder jamais se advertira. O primeiro 
decreto, tendente a esse fim, ordena a reducção das bagagens 
dos generaes; limita o numero de iguarias nas mesas dos 
chefes — uma coberta de vinte pratos sorteados de cosinha, 
e outra coberta respectiva de f ructas e doces» — e na dos 
ajudantes de campo ~ «um prato de sopa, outro de cozido, 
outro de assado, outro de guizado, e quatro pratos de sobre- 
mesa» — 1. O documento é suggestivo e, na gravidade do 
momento, dá a nota dos costumes militares, e do sestro 
minucioso do homem, que dentro da nação deprimida, era 
a única vontade. 

Os decretos produziam soldados, mas não lhes insufflavam 



1 Decreto de 2 abril 1762. Outro, de 5 de abril, muda as de- 
r.cmniações dos generaes, supprimindo as antigas de Sarg^ato mar de 
òataiJia e Mes.de de campo general. 



240 TIBIEZA DOS INVASORES 



O amor dos combates; recalcavam abusos apparentes, mas 
nào extirpavam hábitos de iiidolencia e rotina, incrustados 
no cérebro de gerações successivas. Sem embargo dos regu- 
lamentos, difficil era pôr em acção perfeita e isochrona as 
rodagens do motor por tantos annos desconjuntado. 

Tirawley, que assumiu antes de Lippe o commando, em 
vão se debatia contra a mi vontade geral. Oeiras, omni- 
sciente e seguro da eíficacia dos seus decretos, desattendia-iha 
os avisos. Incom.patibilidades, e ciúmes de nação para nação, 
revclavam-se a cada instante. Resultou um conflicto, e o 
general, veterano de muitas batalhas, irascivel e maniaco, 
regressou ao feeu paiz, não sem ter antes feito a D. José 
amargas recriminações sobre o valido i. 

O conde de Lippe, com o auxilio das tropas extranhas, 
e pondo em vigor a férrea disciplina que guardou o sea 
nome, fez valer, como depois Wellington, as qualidades 
marciaes dos portugueses. Mas onde estes combateram 
sósinhos, sob o mando de seus próprios officiaes, a guerra 
foi uma serie de humilhantes desastres, de capitulações, entre 
as quaes a de Almeida aos sitiantes mesmo surprehéndeu. 

Por seu turno, os invasores operavam com tibieza, sem 
precedente nos fastos da guerra. Em Hespanha dizia-se qu2 
por concerto de Isabel Farnese com o primeiro ministro Wall, 
para não resultar damno á Rainha sua filha; em França 
acreditaram no motivo, ou em outro, porque a conquista^ 
pretendiam, só de propósito poderia gorar ^ E o facto é 



1 iJm espião de Lisboa informava o gabinete francês de que 
<Jord Tirawley falara com demasiada liberdade a el-rei D. JosvS, e 
lhe dissera entre outras cousas que o tinham enganado a elle, rei 
Fidelissimo, e a S. M. Britannica; que Portugal estava vendido aos 
castelhanos, e que havia um concerto para sacrificar o reino e com 
elle os ingleses; que saindo elle da sala da audiência, depois de 
ter falado a el-rei, o conde de Oeiras, que se achava na sala iiii- 
mediata, lhe exlranhara de haver falado em seu desabono peranie 
cl-rei, a que o lord respondera que assim era, mas que não tinha 
dito a 'metade do que podia dizer.» 8 agosto de 1762, Quad. Elen., 
T.o, 76 e 77. 

2 BouTAKic, Correspondance secrète cit. II, 195. Conta-se que 



A GUERRA PHANTASTICA 241 



que gorou. O commando do exercito foi confiado ao marquês 
de Sarria, velho gottôso, pela primeira vez general em chefe. 
Depois da queda de Almeida deram-lhe por successor Aranda, 
notável depois como estadista, porém, como elle, guerreiro 
mediocre. Mudando outra vez o plano da campanha, tentava 
este penetrar no Alemtejo ; mas revezes uns sobre outros — 
embora não fossem os combates mais que escaramuças — os 
impraticáveis caminhos, a escassez de viveres, as copiosas 
chuvas de outono, as deserções, as doenças, desanimaram 
o invasor, que em novembro se recolheu a quartéis de inverno, 
dentro da sua fronteira. Já então se tinha assignado a paz 
em Fontainebleau, no dia 3. 

Em Portugal chamaram-lhe a guerra phantastica ' . O 
primeiro ministro foi arguido de trahição, porque — diziam — 
a entrega de Almeida se effeituou por ordem sua. Mas em 
testemunho da realidade cruel ficavam os campos assolados, 
por determinação do governo, para embaraçar pela fome a 
invasão e, á beira dos caminhos, as ossadas dos castelhanos, 
chacinados pela gente rural, quando retardatários ou perdidos 
se afastavam do grosso das tropas. Os franceses, que tomaram 
parte na expedição, asseguravam que os montanheses de 
Trás-os-Montes e da Beira tinham sido na campanha os 
mais temiveis contendores. 

Entretanto, na America, onde o desejo da conquista era 
nos castelhanos poderoso, a colónia do Sacramento cahiu 
em poder d'elles. Em seguida penetraram no Rio Grande, 
occupando a villa de S. Pedro, sede da capitania. Mas, infe- 
lizes contra os ingleses, rendiam-se em Havana e Manilha. 
Para recuperar estas possessões, Carlos IH abriu mão da 



o duque de Crillon, francês, commandante do exercito que operava 
contra os ingleses em Minorca, conversando com a rainha em Madrid, 
extranhara os mesquinhos resultados da campanha em Portugal. Ao 
que Isabel Farnese pouco satisfeita replicou iv Então que mais queria 
o duque? que se tirasse o throno a minha filha? «Cf. Bourooino, Voya-^e 
du ci-devant Diic du Chatelet en Portugal, Paris, anno \'\, II, 19. 

1 Ct. Vida de Sebastião José de Carvalho e Mello. Ms. Bibl. Nac. 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 16 



242 RESULTADOS DA GUERRA 



Florida. A França, mais castigada, perdia o Canadá, a Luisiana, 
e o Senegal. 

Portugal sahiu indemne, mercê da Inglaterra, que não 
consentiu tratar a paz sem o alliado. O duque de Bedford, 
plenipotenciário em Paris, exigiu que como preliminar se 
estipulasse que as hostilidades cessavam nos dominios portu- 
gueses, e que as praças conquistadas seriam restituidas. 
Merecida lealdade e não favor do governo britannico. A 
fidelidade da nossa parte á alliança tinha sido a causa apparente 
da guerra, e a irritante questão de Lagos lá estava entre os- 
reaes motivos da aggressao. 



CAPITULO VIII 



A ALLIANÇA INGLESA 



I. Situação politica em seguida á paz. Oeiras receia novas ag- 
gressões. Instancias poi auxilio em Londres. Agitação em Lis- 
boa contra os hereges. — II. Discussão sobre os limites no 
lírasil. Novas complicações com a Hespanha. - III. Politica 
doble da Inglaterra. Preparativos de guerra em Portugal. — 
IV. Revolta dos sombreiros em Madrid. Attitude amigável ao 
governo português para com Carlos III. Causas prováveis da 
revolta. Os jesuítas expulsos dos domínios castelhanos. Oeiras 
suspeita da Inglaterra. Proposta portuguesa sobre os negócios 
de Roma. Caso do principe de Parma. — V. Oeiras recon^ 
cilia-se com a alliança. O commercio inglês e as suas reclama- 
ções. Nova divergência entre Hespanha e Inglaterra. — Vi. Re- 
nova-se a questão de limites. Successos na fronteira do Brasil. 
Politica defensiva de Oeiras contra as exigências inglesas. 
Guerra cm perspectiva com a Hespanha. O desfecho da contenda. 



Assignou-se a paz, mas os sentimentos de hostilidade e 
desconfiança entre Hespanlia e Inglaterra perm.aneciam. 
Póde-se dizer que a guerra terminou por arbitrio do governo 
britannico contra o voto da nação. Assegurava-se que muitos 
membros do parlamento tinham sido subornados, que lord 
Bute enriquecera, peitado pela França para acceitar um con- 
certo inconveniente. A Hespanha, até onde era possível, 
illudia as obrigações do tratado. Não satisfizera ao que tinha 



244 TEMORES DE AGQRESSAO EM PORTUGAL 



feito com a Inglaterra, e a nós, da colónia do Sacramento 
restituiu-nos somente o que, no seu critério, ella era, isto é, 
a praça de guerra, que ficava insulada em território exclusi- 
vamente occupado por castelhanos. Além d'isso, cerca de 
cincoenta léguas de costa, do cabo de Santa Maria á boca 
do Rio-Qrande, quatro fortes e as povoações que nos haviam 
conquistado, tudo continuava em poder d'elles. 

Reapparecia ao mesmo tempo entre nós o temor de 
nova aggressão, e o governo, d'esta vez mais cauteloso^ 
aparelhava a resistência. Em dezembro de 1764 encommendava 
a Martinho de Mello doze mil espingardas, tendas de cam- 
panha, canhões e obuzes ; mas, caso typico do desazo que 
na administração militar se mantinha, não mencionava a 
nota os calibres da artilharia, de sorte que teve o encarregado 
da acquisição de confiar a matéria ao arbítrio dos fornece- 
dores. Contrataram-se muitos officiaes extrangeiros, e foi o 
conde de Lippe solicitado a vir de novo assumir o commando 
das tropas. Por ordem do governo, exigiu o nosso ministro 
em Londres o pagamento de 70:000 libras, resto em divida 
do subsidio de 200:000, concedido em 1762 para as despesas 
da guerra; e conjunctamente pediu a intervenção do gabinete 
britannico e auxilio de tropas, para coagir a Hespanha a 
retroceder as conquistas da America. 

Com a França, as nossas relações, em seguida á guerra, 
readquiriram a cordialidade antiga. Voltava, é certo, á teia 
a cansada questão de Lagos, que o embaixador Saint-Priest, 
nas suas instrucções, teve ordem de revocar. Se a corte de 
Lisboa, por complacência ou fraqueza, não tinha exigido da 
Grã-Bretanha a justa reparação, cumpria-lhe, ao menos por 
equidade, empenhar-se para que os navios fossem restituídos 
e a França recebesse a conveniente indemnização. Em breve, 
porém, a diligencia cahiu no esquecimento, supplantada por 
assumptos de mór valia, entre esses a realização de um 
tratado de commercio, anhelo já antigo da corte de Versailles. 

Mas também d'esta banda Oeiras nutria receios. Conje- 
cturava que a França não tinha abandonado as pretenções 
ao Amazonas, e nos atacaria do Norte pela Guyana, quando 
Qs hespanhoes ao Sul penetrassem no Brasil. E factos em 



RECEIOS DA FRANÇA NO AMAZONAS 245 



si de nenhuma circumstancia lhe confirmavam as apprehensôes. 
Por esse tempo o governo francês solicitara autorização para: 
um de seus súbditos, irmão do astrónomo Godin, voltar 
pelo Amazonas a Quito, onde, para acompanhar o sábio 
La Condamine em viagem de exploração scientifica, deixara 
a familia. O motivo pareceu fuíil, e se julgou traça de um 
espia. Não foi recusada a licença na corte, mas no governo 
do Grão-Pará tudo se fez por impedir a viagem. Madame 
Godin, êxul e desprotegida, num assomo de arro|o e desespero, 
aventurou-se á jornada, rio abaixo, com seus filhos e fâmulos; 
mas, inexperiente e vencida de trabalhos e privações, de 
doenças e mortes de companheiros, com pouco caminho feito 
voltou atrás. Os incidentes d'esta triste peregrinação contam-se 
entre os mais trágicos dos annaes das viagens, e o caso de 
Madame Godin, como mais tarde o de Humboldt, também 
no Amazonas i, permanecem na historia a dar testemunho 
da obcecada desconfiança com que Portugal defendia aos 
extrangeiros a entrada de seus domínios. Pouco depois, em 
1767, o modo como foi recebido no Rio de Janeiro Bougain- 
ville, que fazia a sua viagem de exploração austral, defu 
motivo a insistentes reclamações por parte da França. 

No extrangeiro acoimavam de phantastico o temor de 
Oeiras. O gabinete de Madrid repulsava as suspeitas de 
intuito hostil e, se bem que o concurso de tropas e artilharia, 
na vizinhança da raia, parecia em tal caso contradictorio, 
explicava que o facto correspondia á conveniência de aquar- 
telamentos, difficuldade de transportes desde a guerra, e 
outras circumstancias de ordem intima, sem reflexo algum 
na poHtica internacioiíal. Em Londres, o seu representante 



^ Em 1800, governando D. João VI, então príncipe regente, foi 
expedida ordem aos differentes governos do Brasil para ser capturado 
um tal barão de Humboldt, natural de Berlim, que constava andar 
em investigações scientificas, tencionando penetrar nas regiões deser- 
tas, e desoonhfcidas até ahi aos naturalistas, na provincia do Ma- 
ranhão, o que para o governo era caso muito suspeito. D. Rodrigo 
de Sousa Couxinho, futuro conde de Linhares, foi quem subscreveu 
a ordem. 



246 RECEIOS DA HESPANMA NO SUL 



affiançava os intentos pacíficos do governo castelhano; e o 
embaixador francês fazia, em nome de Luiz XV egual decla- 
ração, ao mesmo tempo que particularmente segurava ao 
nosso Enviado que, se a Hespanha nos aggredisse não poderia 
contar, apesar da alliança, com o apoio francês i. Mais tarde, 
lord Grenville dizia no parlamento, em tom de mofa, ser «o 
medo que os portugueses teem da Hespanha motivo de 
multiplicarem as cousas ao infinito» ~, e pronunciava-se contra 
o pedido de soccorros, que o nosso governo fazia com 
instancia. O próprio conde de Lippe, chamado com urgência, 
parecia não dar credito aos boatos de guerra, e fazia saber 
que só viria no momento preciso de pôr as tropas em 
movimento. 

As seguranças que de toda a parte lhe vinham não 
applacavam comtudo o receio de Oeiras, obstinado além. 
d'isso em rehaver os terrenos da America. As controvérsias, 
por este motivo travadas em diversos tempos, entre as chan- 
celarias de Londres e Lisboa, testemunham a preoccupação 
constante do ministro e a politica egoista do alliado, indif- 
ferente logo que não estava em risco o seu commercio, nem a 
base de operações navaes, que possuia no território portu- 
guês. As solicitações repetidas de Martinho de Mello julga- 
ram-se em Londres importunas. Aos pedidos instantes de 
intervenção e soccorro — Lippe considerava indispensável a 
cooperação de tropas inglesas — Grenville, chefe do gabinete, 
e Halifax, secretario de Estado, um após outro replicayam 
exigindo satisfação ás queixas da colónia britannica. Era um 
meio de desviar a questão, frustrando os argumentos que 
não havia meio de rebater. Levando para esse terreno a 
discussão, reclamavam sobre a quebra de privilégios, mono- 
pólios das Companhias, embaraços ao commercio e certos 
factos miúdos, de interesse meramente individual. «Tantos 
eram os vexames — arguia lord Halifax — que se tornava 



^ Martinho de Mello ao conde de Oeiras, 14 outubro 1764, Co!l. 
Pomb., Cod 612. 

2 O mesmo ao mesmo, 7 abril 1766, Cod. cit. 



INSTANCIAS POR AUXÍLIOS EM LONDRES 247 

evidente não se querer em Portugal a amizade da Ingla- 
terra» 1. A isto retorquia Martinho de Mello que a guerra 
passada e a que se preparava tinham por objecto defender 
os interesses e as vantagens d'esse mesmo commercio, que 
se dizia tão molestado. Não havia melhor prova de affeição, 
iiem alliança mais lealmente cumprida. 

No mês de março, um despacho de Oeiras expunha 
miudamente as razões com que o Enviado português devia 
fortalecer essas instancias. Se a alliança da Inglaterra não 
podia garantir os tratados, qual a conveniência que d'ella 
colhíamos? Já a Hespanha se preparava para nos acommetter 
de mãos dadas com a França; e, como tudo mostrava, devia 
ser o principal theatro da lucta na America. Entendia a 
Grã-Bretanha ser-lhe o nosso paiz útil, e considerava os 
portos do reino indispensáveis ao seu commercio? admittia 
que o Brasil sustentava a Bolsa de Londres, e o ouro das 
Minas engrossava o já enorme cabedal do seu banco? Nesse 
caso porque não acudia prestes a defender as vantagens 
de que aquellas potencias ardiam por esbulhal-a? 

Á invocação d'estes interesses, que o ministro reputava 
decisiva, Halifax, com frio desapego, redarguia ter effecti- 
vamente a nação inglesa com Portugal uma alliança para em 
qualquer eventualidade lhe acudir e o defender. Mas nem 
por isso lhe cabia tomar por si só o encargo de guardar 
as colónias, que deixávamos inermes, nem haviamos de 
pretender que estivessem as tropas britannicas de sentinella 
ás nossas minas, ou fossem as suas esquadras em tempo de 
paz impedir o transito aos navios castelhanos. Aconselha- 
va-nos a pôr em defensão o Rio de Janeiro, que se achava 
em deplorável estado, de muralhas arruinadas, artilharia 
imprestável, e guarnecido por quinhentos homens somente. 
A esse respeito communicava o parecer de um official britan- 
nico, que apostava a sua honra em como seria capaz de 



1 Martinho de Mello ao conde de Oeiras, 1 janeiro 1765, Cod. cit. 



248 egoísmo do GOVERNO INGLÊS 



tomar a cidade com um só batalhão em vinte e quatro horas ^. 
Estando assim a principal praça, não seria de admirar que 
qualquer inimigo entrasse no Brasil á vontade, como em 
sua casa. 

Acerca da restituição de territórios e da própria posse 
da colónia do Sacramento, Halifax entendia não ter isso 
para o nosso dominio na America a importância, que lhe 
attribuiamos ; opinião defensável, pelo tratado de 1750 annu- 
lado, e pelo que depois se fez definitivo. O duque de Cum- 
berland, tio do Rei, a quem Martinho de Mello, por derradeiro 
recurso fora implorar, para influir no animo de Jorge III, 
furtou-se á instancia, allegando que o mandar nessa occasião 
uma esquadra ao Brasil correspondia a declarar guerra á 
Hespanha, cousa que a todo o custo cumpria evitar, na 
quadra em que tantas dissensões agitavam interiormente o 
paiz. D'este modo a Inglaterra, encerrada no seu egoismo, 
encontrava nelle toda a sorte de pretextos para rebater as 
concepções pessimistas, e porventura chimericas, do ministro 
de D. José. 

Não desanimava elle todavia de insufflar no gelo d'esta 
amizade alguma scentelha de devotamento. Um caso fortuito, 
symptoma não extranhavel do fanatismo nacional, pareceu-lhe 
de molde para isso. Corria em Lisboa, exaltando as paixões 
más da gente baixa, um escripto mystico, attribuido a certa 
freira, no género de muitos sabidos a lume em seguida ao 
terremoto. Era uma exhortação ao povo, para desaggravar, 
no dia da sua festa, o Santíssimo Sacramento, que a impie- 
dade de tantos hereges, existentes no reino, offendia. Das 
Ínfimas camadas o impulso ganhou o clero superior. Algtms 
prelados ordenaram preces publicas. Dispoz-se que ás oito 
horas da noite, naquella data, repicassem os sinos, abrissem 
os templos e se expuzesse o sacrário. Era certo, em taes 
circumstancias, concurso numeroso ás egrejas; e então o que 
não seria para temer? Uma palavra imprudente, um aceno 



^ Martinho de Mello ao conde de Oeiras, 14 outubro 1764» 
Cod. cit. 



AGITAÇÃO EM LISBOA CONTRA OS HEREGES 249 

malévolo, podia arrojar a turba aos peores excessos. Derra- 
mou-se o pânico em Lisboa. As pessoas timoratas fugiram 
da cidade. A Casa dos vinte e quatro deu rebate, avisando 
o ministro; e este, com seu pulso vigoroso, afastou a tormenta. 
Na hora aprazada para a demonstração estavam por oraem 
das autoridades fechadas as egrejas; as tropas em armas; 
dois religiosos, cabeças do movimento, em custodia. A 
tentativa abortava completamente i. 

Oeiras não vacillou em se convencer de que, por sua 
attitude, havia desfeito um trama odioso dos inimigos do 
paiz no extrangeiro; um conluio do Geral dos jesuitas com 
o dos dominicos, hespanhol de nação, para indispor comnosco 
a Inglaterra. Numa visão de terror representou-se-lhe Lisboa 
subversa; a gentalha desenfreada; á testa, de crucifixo em 
punho, a vomitarem maldições, os frades que, como em 
1506, conduziam a gentalha ao massacre dos Ímpios. E esses 
eram agora os ingleses, hereges, apontados como taes, á 
publica execração. Como que um novo terremoto, com as 
mesmas desordens e o mesmo pavor. A alliança inglesa 
perdida, a Europa horrorizada, e na sombra, tripudiando, o 
jesuita vingativo, de braço com a Hespanha, o inimigo cruel 
de todos os tempos, ambos a exultarem da nossa ruina. 

Estariam de facto os ingleses ameaçados? Se uma com- 
moção de caracter religioso rebentasse, não ha duvida que 
seriam elles as victimas da eleição. O que absolutamente se 
pôde rejeitar é o trama como Pombal o imaginou. Não existia 
accordo no exterior, nem preparação no paiz, para um movi- 
mento dessa ordem. Os ânimos batidos pela violenta tyranniá 
não davam para revoltas. O numero restricto dos compromet- 
tidos, quando a mais leve suspeita seria prova exuberante 
do delicto, dissipa toda a idéa de conspiração. E, todavia, 
desde que o ministro enxergava ao fundo os jesuitas, não 
é licito contestar-lhe sinceridade. Sinceramente, pois, cuidava 
ter salvo a capital de uma conflagração, sinceramente invocava 
mais um direito ao reconhecimento da Inglaterra. Martinho 



^ Oabinefc Histórico. XVI, 142, e Coll. Pomb., Cod. Ó34. 



250 DEVOLUÇÃO DOS TERRENOS LITIGIOSOS NA AMERICA 



de Mello, informado dos factos, possuía mais um elemento 
para encarecer a dedicação da alliança. Ao deixar o governo, 
por morte de D. José, Oeiras jactava-se ainda de ter 
impedido «um horroroso motim, que não deixaria pessoa 
alguma viva, nem pedra sobre pedra no palácio de S. M., 
nas casas dos seus ministros e em outras da cidade de Lisboa, 
semelhante ao de S. Domingos contra os judeus em 1506» ^. 
Mas entre os coevos, de imaginação menos viva ou mais 
isenta, o incidente não deixou impressão que perdurasse -. 



II 



Entrementes o embaixador português Ayres de Sá insistia 
em Madrid pela devolução dos territórios em litigio na 
America. Grimaldi, negociando em nome da Hespanha, tergi- 
versava, interpretando á sua conveniência os artigos da paz. 
Determinavam estes que nas colónias se repuzesse tudo no 
estado anterior, consoante aos tratados preexistentes. Qual 
d'elles? perguntava Grimaldi. Evidentemente o de Utrecht; 
e esse dera a Portugal a colónia do Sacramento, não porém 
as ilhas que reclamávamos no estuário do Prata; tão pouco 
as terras firmes, até ao oceano e á capitania de S. Pedro, 
em posse dos castelhanos. Certo não podiamos sustentar que 
o território adjacente á praça — a alcance de um tiro de 
canhão, segundo o tratado — abrangesse assim um raio de 
duzentas léguas. A convenção de Paris, invocada por nós, 
pela qual cessaram em 1737 as hostilidades, fora simplesmente 
uma trégua. Não reconhecia factos consumadoiSi, e a usurpação, 
que haviamos feito no Rio -Grande, não constituia direito, 



^ «Memoria e relação dos papeis (de inconfidência, secretíssimos) 
que tenho mandado á Real presença da Rainha minha Senhora, para 
os pôr em segura custodia.» 4 março 1777. Coll. Pomb., Cod. 6Q'J. 

2 Fr. Cláudio da Conceição no Gabinete Histórico, tomo xvi, 
cap. 13, faz menção do facto, como não sendo de consequência, se bem 
que nos dias 24 e 25 de março estivessem de prevenção as tropas. 



ARGUMENTAÇÃO DE ORIMALDI 251 



que ao governo de Carlos III cumprisse respeitar. Subindo 
ao throno Fernando VI, tinham-se estabelecido negociações 
para a permuta de territórios; mas de 1750 até á morte 
d'aquelle príncipe nunca fora possivel realizal-a. Os povoados, 
que a Hespanha tinha de entregar, passaram com muito 
sacrifício de vidas e dinheiro á posse dos portugueses; mas 
estes não mostraram jamais tenção de abandonar a Colónia, 
como se tinham obrigado. Carlos III terminara a contenda, 
promovendo a derogação do tratado. Per effeito d'ella retro- 
gradavam á Hespanha os povoados; mas por espaço de seis 
meses o governador de Buenos Ayres reclamara debalde a 
execução d'essa clausula. A todas as instancias oppimham 
os occupantes não terem ordens da metrópole; até que aquelle 
official, em 1762, entrara em campanha, antes de saber que 
na Europa as duas nações se achavam em guerra. El-Rei 
Catholico cumprira pois á risca as disposições do tratado, 
e o território, que não entregava, era legitimamente seu i. 

Tal era em resumo a argumentação de Grimaldi. A 
memoria, em que a desenvolveu, soava em certos trechos 
um tom de ameaça, que aggravou os receios, e levou ao 
auge a impaciência de Oeiras. Eil-o pois novamente a in- 
sistir pela interferência do gabinete britannico, interferência 
não já officiosa, mas no sentido de comminação, quasi 
ultimatum. A Hespanha ameaçava o Brasil, cujo ouro alimen- 
tava as manufacturas e o credito publico da Inglaterra. Perdida 
esta colónia, nenhum laço mais, nenhum interesse unia 
Portugal ao seu alliado. Sabiam isso os governos de Paris 
e de JVIadrid, e por esse motivo pretendiam esbulhar-nos da 
possessão, para desfazer a alliança. Comtudo, assegurava, 
«uma ameaça firme e decisiva de S. M. Britannica bastará, 
segundo todas as apparencias, para conjurar todo o perigo» -. 

Não foi attendida a insinuação e, a pouco espaço, novo 
incidente poz a corte de Lisboa em sobresalto. O ministro de 



1 Memorial de Grimaldi, 6 fevereiro 1765, Coll. Pomb., Cod. 635, 

2 Conde de Oeiras a Martinho de Meilo, 16 fevereiro 1705. 
Idem. 



252 NOVAS COMPLICAÇÕES COM A HESPANHA 



Hespanha pedia em abril seguinte (1765) restituição das 
propriedades confiscadas por effeito da guerra aos súbditos 
de sua nação ; e invocava o tratado de Utrecht, pelo qual 
tinham os vassallos de ambas as coroas o prazo de seis meses 
para sahir do paiz inimigo e dispor de seus bens. Portugal, 
respondendo á violência da invasão com outra violência, 
reduzira o termo a quinze dias, rompendo o tratado ; e agora, 
na discussão diplomática, assentava o seguinte principio sin- 
gular: que o estado de guerra annuUava qualquer convenção 
precedente a ella i. 

Mais exacto seria allegar que o governo de Luiz XV 
tomara contra os portugueses egual providencia, — «por 
justa represália», o decreto rezava; e o de Madrid não proce- 
dera divereamente. Mas o ministro attonito de vêr contestada 
a sua jurisprudência, achava nisso um recrescer das ameaças, 
e nova razão para acicatar a inércia britannica. 

Martinho de Mello importunava em Londres a toda a 
gente, ministério, politicos influentes, pessoas da corte e do 
parlamento. Pela centésima vez enumerava os prejuízos immi- 
nentes para a Inglaterra. Pois o que seria do paiz, perdido 
o Brasil? A opinião unanime dos ingleses era que nenhum 
sacrifício parecia excessivo para obviar a tal damno. Porque 
se não rendia o governo á razão? Mas todo o esforço da 
dialéctica resultava improfícuo. O estado combalido das 
finanças — 140 milhões sterlinos de divida — impedia as aven- 
turas. Estava lavrando nas colónias da America um fermentar 
de mau presagio, e no interior as desavenças de partidos 
davam azo a preoccupações. Primeiramente se devia acudir 
ao domestico; depois se cuidaria dos alliados. E Martinho 
de MellOj melancólico, recordava os factos da véspera : em 
1762 a Inglaterra pudera mandar uma expedição á Havana, 
e não destinara mais que uma exigua força á defesa de 
Portugal. Tinhamos afinal de contar somente com os meios 
de casa. «Só quando a Grã-Bretanha nos vir poderosos e 



1 Officio de ministro de França Saint Priest, Quad. Elem., VII, 
201. 



AQUÉM E ALEM DO GUADIANA 253 

resolutos — dizia — ha de tratar-nos como alliados e não como 
dependentes» i. Descobrira assim o diplomata o âmago d'es3a 
indifferença, tão conhecida do primeiro ministro, seu superior, 
que por uma contradição, filha do desejo, sobre ella agora 
se queria cegar. 



III 



Para acabar a paz ajustada, restava ainda á Hespanha 
um ponto em litigio com o governo britannico. Exigia este 
o preço do resgate de Manilha — dois milhões de pesos 
offerecidos pelo arcebispo governador, para conjurar o saque 
da cidade, assediada pelos ingleses. Carlos III, pertinaz, recu- 
sava; o gabinete de Londres insistia, e o debate tornou-se 
assas violento para em Madrid suppôrem que a Inglaterra se 
dispunha a reabrir as hostilidades, acompanhada por nós. 
D'esta sorte, de cá e de lá do Guadiana existiam receios, 
astutamente aproveitados pela corte britannica, para de uma 
parte jungir Portugal, com a mira no seu amparo, á alliança, 
e conserval-o na sujeição commercial; de outra, para forçar 
Carlos III, pela ameaça, á fiel execução dos tratados, e no 
terreno mercantil extorquir-lhe as vantagens que ambicionava. 
Em Madrid o seu representante mandava espreitar os passos 
do Enviado português, na inquietação de que algum accordo 
particular desvanecesse a cizânia; e, num arroubo de confiança, 
que passaria por leviano se não fosse arrogante, chegou a 
manifestar-lhe um dia que o interesse do seu governo em 
Portugal, era idêntico ao de França com Hespanha: manter 
a desconfiança para firmar a existente dependência 2. 

Suggerida ou natural que fosse a discórdia, certo é que 
esta lavrava, e para os menos perspicazes o horizonte obscu- 
recia. Do Brasil chegara aviso de andar uma divisão castelhana 



1 Carta ao conde de Oeiras, 7 abril 1766, Coll. Pomb., Cod. 611. 

2 Ayres de Sá ao conde Oeiras, 25 abril 1766, Coll. Pomb., 
Cod. 612. 



254 AS FORÇAS ARMADAS DE PORTUGAL 

de quatro naus e cinco fragatas singrando na costa. Um 
considerável corpo de tropas ameaçava alli a fronteira meri- 
dional; e na Europa, a agglomeração de forças na raia dava 
indicios de não serem também pacificos, d'este lado do 
Atlântico, os intuitos da Hespanha. 

Não é portanto de extranhar continuassem entre nós 
os aprestos militares. O effectivo do exercito que, realizada 
a paz, se considerava inútil conservar no mesmo pé, restabe-. 
leceu-«e de novo. Muitos officiaes tinham sido então licen- 
ciados; para os substituir, Martinho de Mello contractou em 
Londres extrangeiros, principalmente allemães e ingleses que, 
mais disciplinadores e hábeis na arte da guerra, suppriam' 
a insufficiencia notória dos nacionaes. Seguindo o aviso da 
Inglaterra, promovia-se a defesa do Brasil, para onde alguns 
d'esses militares foram destacados, afim de organizarem a 
defesa colonial. 

Martinho de Mello computava nesse tempo o exercito 
em trinta mil homens, e dava a esquadra com doze naus. 
Uma carta sua ao conde de Oeiras encarece o luzimento 
das tropas, que vira manobrar em Villa-Viçosa, sob as ordens 
do conde de Lippe, com garbo não inferior ao dos granadeiros 
bretões. Lisonja ao ministro, jactancioso de primar em tudo 
a que se applicava; cegueira do patriotismo, ou, porque 
havemos de lh'o recusar? expressão da verdade, tudo isso 
podia ser. Mas, após a retirada do general em chefe, iQ 
desleixo era quasi o mesmo de outr'ora. Os soldos andavam 
em dia ainda, mas o cuidado pelos fardamentos decahira, 
e os recrutas escasseavam i. Lippe que, instado no anno 
antecedente para voltar, promettera o seu concurso, exigia 
que primeiro se preparasse tudo convenientemente : parque 
de artilharia, armas, viaturas, cavallos, e municiamento das 
fortalezas ; «mas, accrescentava, nada é mais importante do 
que um contingente de tropas inglesas» ^. Vê-se d'ahi que 



^ Ofíicio do Saint-Priest, Qiiad. Elem., 7.o, 205. 
- Conde de Lippe a Martinho de Mello, 10 janeiro 1765, Coll. 
Pomb., Cod. 612. 



POLÍTICA DOBLE DA INGLATERRA 255 



era ainda mediana a sua confiança no soldado português, 
O ministro francês Saint-Priest achava que, nas cousas 
militares, «o conde de Oeiras tinha pouco expediente» '. Ura 
viajante inglês, por informação de officiaes seus patricios 
ao serviço de Portugal, refere que «apenas o conde de Lippe 
se foi embora a execução dos regulamentos começou a 
relaxar-se; o ministro, que nunca gostou de tropa, pouco 
depois publicou leis que abrogavam muitos d'elles» ^. Ao 
mesmo Saint-Priest parecia impossível que Oeiras pensasse 
em arremetter contra a Hespanha, no estado deplorável erii 
que se achavam as finanças que «com uma nova guerra 
ficariam de todo em todo arruinadas» ^. Outro diplomata, 
o conde Welsperg, representante de Áustria, communicava 
ao seu governo: «As queixas pela falta de dinheiro isão 
geraes, e cada vez maiores. Os pagamentos da corte e do 
thesouro dia a dia são mais difficeis.» \ Sem embargo, o 
ministro, para recobrar os terrenos na America, e antecipar-se 
aos golpes do visinho, não tinha outra idéa senão a guerra. 
Em setembro mandou um despacho a Conway, secretario 
de Estado britannico, requerendo novamente o soccorro 
militar, que os tratados affiançavam. 

O governo inglês continuava a excusar-se; e quando se 
lhe arguia que o golpe dos Bourbons, apontado contra nós, 
ia por derradeiro feril-o a elle, replicava que a debilidade 
dos (castelhanos permittia a Portugal defender-se com vantagem 
em ambas as partes do mundo. Quando interviesse a França, 
então sim, competia ás armadas da Inglaterra fazel-a recuar. 
Nestas solicitações e recusas, intermeadas com a discussão 
sobre as regalias e queixas da colónia inglesa em Portugal, 
passaram as relações diplomáticas até ao anno seguinte. Nessa 
época pareceu o ministério accessivel ás razões de Oeiras, 
ou lhe approuve valer-se d^ellas para as conveniências da 



1 Qiian. Elein., 7.c>, 205. 

' Cartas de Arthur William Costigan, Coll. Pomb., Cod. 682. 

5 Qaad Elem., 7.o, 166. 

* Di'HR, Pombal, 46, 



25'í AGITAÇÃO NA AMERICA INGLESA 

sua politica. Tinham-se as colónias da America levantado 
contra a lei do sello, primeiro dos aggravos que conduziram 
á separação. Na Inglaterra grande fervor agitava os ânimos. 
Dividiu-se a opinião em dois partidos; mas as pessoas de 
juizo ponderado, os mais eminentes politicos eram pela imme- 
diata revogação do edito infeliz, e foi esse alvitre o que o 
governo abraçou. 

Não logrou todavia realizal-o sem grande contradita no 
parlamento, O debate foi longo e renhido; durou muitos 
dias. Pitt interveio com o peso da sua eloquência, que logo 
fez pender a balança ; e Conway triumphou accusando a 
opposição de impellir o paiz a uma guerra intestina, no 
próprio instante em que seria preciso acudir a Portugal, 
ameaçado de invasão na peninsula hispânica e no Brasil. Foi 
nessa occasião que lord Grenville, defendendo a lei que tinha 
sido obra sua, proferiu a escarninha phrase, atraz citada, 
sobre o temor, em que sempre nós, portugueses, vivíamos 
da Hespanha. 

Bem sabia Conway que as suas palavras haviam de ter 
eco fora do parlamento; que a opinião, sobresaltada pelo 
que occorria nas colónias, mais impressionada seria pelo 
risco de perder o commercio do Brasil. Declarou-se ella 
intensamente em favor do g^overno, e a lei inconveniente foi 
derogada. Depois d'isso nenhuma allusão mais ao facto invo- 
cado nas camarás ; nenhuma disposição que permittisse a 
Portugal uma esperança. O estratagema produzira o effeito; 
não havia razão de se pensar nelle outra vez. 

Senão quando, um successo imprevisto de todo em todo 
transmudou a situação, e orientou por algum tempo em rumo 
diverso a politica de Oeiras. Desenganado da Inglaterra, 
entrava afinal a reconhecer que só com o esforço próprio da 
nação devia contar perante as ameaças de Castella, quando 
em fins de março de 1766, a revolta dos sombreiros em Madrid 
lhe deparou ensejo de converter em gratidão a inimizade, 
que julgava romperia contra nós em actos de violência. 



POMBAL NÃO FOI UMA EXCEPÇÃO 257 



IV 



A commoção popular, que obrigou Carlos IH a fugir 
da capital, e teve por consequência a expulsão dos jesuítas 
de Hespanha, e por ultimo a anniquillaçao da ordem, proveio 
de causas que, á primeira vista mesquinhas, todavia se radi- 
cavam nesse descontentamento geral, em toda a parte 
suscitado pelo absolutismo no decimo oitavo século. Reis 
philosophos e ministros esclarecidos, á porfia reformavam 
os costumes, destruíam os abusos, introduziam leis novas, 
e se esforçavam por tirar das ruínas do passado a Europa 
nova. Pombal não foi uma excepção na sua época. Frederico 
o grande, Maria Theresa, a própria Catharina da Rússia^ 
vogavam na rota, marcada pela philosophia. Tanucci, Aranda, 
Struensee abatiam instituições e estylos anachronicos, que 
se não compadeciam já com a civilização reinante. Mas a 
obra dos soberanos e estadistas era incompleta, e attendia 
menos ás necessidades dos povos do que ás conveniências 
do throno. Tendia tudo a consolidar o poder régio, e o 
que se fazia a bem dos vassallos visava a reverter proveito 
ao monarcha. Não obstante o propósito, isso foi o inicio da 
mudança, que a revolução francesa apressem. 

Em Hespanha, o ministro Esquilache, trazido de Nápoles 
por Carlos III, era da nova escola. Duas reformas suas deram 
causa a vivo desgosto: a prohibição do trajo nacional de 
capa e chapéo de abas largas, e a illuminação nocturna das 
ruas, ambas no interesse da ordem publica. Offendeu-se o 
orgulho pátrio dos castelhanos de que um extrangeíro preten- 
desse excluir o vestuário, que por gosto, conveniência e 
habito de muitos annos lhes era caro. A determinação sobre 
as luzes implicava com a economia das famílias : açambarcou 
por algum tempo o sebo, com que as menos abastadas se 
illumínavam, e forçou ao consumo do azeite, o que trans- 
tornava os usos de muitas pessoas, e para os pobres seria 
talvez gravoso encargo. De mesquinhas causas resultam ás 
vezes effeitos grandiosos; e tão frívola pareceu a d'esta 

o MARQUÊS DE PO.VifíAL E A SUA ÉPOCA — 17 



258 VINGANÇA PELA BIZARRIA 



sublevação que o govefrno se lançou a buscar a origem d'ella 
em outras de mais envergadura, attribuindo-a primeiro a 
machinações da França, depois a meneios da Companhia de 
Jesus, que por isso pagou. 

Esta suspeita, que lisonjeava a idéa fixa de Oeiras, 
suggeriu-a elle desde logo, e de gosto contribuiu para manter 
nessa pista, evidentemente falsa, a Carlos III, que outras 
razões tinha já para suspeitar dos jesuitas. A primeira voz 
do succedido correu Oeiras á casa do embaixador de Castella, 
a offerecer os serviços do seu soberano: soccorro de tropas, 
se fosse necessário e apertada vigilância na raia, para não 
deixar escapula aos inculpados. O Enviado Ayres de Sá 
repetiu a offerta em Madrid, já quando a reservada attitude 
do gabinete francês incitava á presumpção de ser elle o que 
fomentara a revolta. Tão generoso proceder do governo de 
Lisboa, que só tinha aggravos da Hespanha, produziu viva 
impressão, e foi em Madrid encarecido ao extremo. Dizia-se 
na corte que «El-Rei de Portugal se tinha bem vingado 
d'El-Rei Catholico pela bizarria» i. O embaixador português 
passou a ser o diplomata de mais credito no paço, onde 
levava as insinuações de Oeiras, em nome da rainha D. Ma- 
ria Anna, como advertências de irmã a irmão. Ao publicar-se 
o indulto pelo crime de sublevação, mandou lella inculcar que 
o facto prejudicava as averiguações em andamento, para a 
descoberta dos motores. Aqui transluz não o interesse "fraterno 
da Rainha, mas a dureza implacável do ministro; e de seu amo*, 
o taciturno D. José. Perdoar era um acto; ide debilidade contra 
o qual, em um e outro, todas as fibras do prganismo se re- 
voltavam. Não podia verter-se no esquecimento a offensa *á 
majestade real, diminuída em seu prestigio por essa impunida-= 
de. Por muito menor delicto, em 1757, vinte e seis sentenças 
capitães se tinham pronunciado, além das outras penas com que 
foram castigados os tumultos do Porto. Mas ás razões de ordem 
politica accrescia o sentimento do ministro contra os jesuitas. 



1 Avres de Sá ao conde de Oeiras, 25 abril 1766, Coli. Pomb.j 
Cod. 636. 



SQUÍLLACE E ARANDA 259 



Choiseul usava dizer que elle tinha sempre um a cavallo no 
nariz i. 

Todas as ciasses em Hespanha se achavam nesse tempo 
indispostas com o governo ; o povo pelo peso dos tributos 
e carestia dos géneros; os frades, os clérigos e a nobreza por 
lhes não respeitarem as immunidades; todos por aversão aos 
extrangeiros, trazidos pelo Rei, e ás novidades do governo. 
A influencia da corte francesa parecia baixar, supplantada nos 
conselhos por uma politica menos cegamente atrelada á do 
ramo principal dos Bourbons. E assim, «franceses, jesuitas, 
militares, grandes, magistrados, ecclesiasticos, depois do motim 
principiado, fizeram tudo que podiam para conduzir S. M. 
a despedir o ministro Squillace» -; informava o representante 
de Portugal. O Rei viu-se forçado a ceder á vontade dá 
nação e destituiu o ministro. Começou então a autoridade de 
Aranda, castelhano esse, homem de pulso, capaz de subjugar 
as velleidades de nova rebeilião; a par d'isso propenso 4 
França, impregnado do espirito da Enc3Tlopedia e, como tal, 
declarado adversário dos jesuítas. 

Estes últimos já tinham também queixas de Esquiiache. 
Lastimavam-se de se lhes mostrar o governo sempre hostil, 
não sendo a menor de suas penas o favorecer a corte a- 
canonização pretendida do famoso Palafox, qu€ fora bispo no 
México, clássico espantalho da Companhia. Era muito d'elles 
o antigo ministro marquês de Enseiíada, grande terciário^ 
referia Ayres de Sá, isto é, secular filiado á ordem, jésuite de 
robe coiirte ; e não deixa de ser plausível que, por ciúme 
politico, tivesse elle acirrado descontentamentos, dos que 
levaram á revolta. De toda a forma é certo que o marquês 
foi desterrado, e o seu affecto aos jesuítas serviu de indicio 
contra elles. 



^ Cf. Saint pRiPST, Histoire de la chute des jésuites. Paris 18J4, 
pag. 33. 

2 Ayres de Sá a D. Luiz da Cunha, 24 abril 1766, Coll. Pomb., 
Cod. 636. Squillace, nome verdadeiro do ministro, transcripto em cas- 
telhano Esquiiache. 



260 A GUERRA AOS JESUÍTAS 

Segundo historiadores graves i, alguém inculcara íao 
monarcha que a Sociedade de Jesus machinava depôi-o, e 
para o fim se valeria de documentos, adrede preparados, que 
o davam por filho adulterino, e como tal illicitamente reinante. 
Por esse facto revertia a coroa a D. Luiz, seu irmão. Uma 
carta apocrypha do Geral, padre Ricci, provava a conspiração. 
Pela terceira vez, em pouco tempo, á ordem jesuítica se 
attribuia o propósito de eliminar um soberano desaffecto 
e levar ao poder outro príncipe. A isso tendera o attentado 
do duque de Aveiro, de que a davam por cúmplice. Em França 
lançou-se-lhe á conta a tentativa de Damiens, contra Luiz XV, 
que vivia em perenne terror dos jesuítas, e desconfiado do 
Delphim Seu filho, cuja protecção elles possuíam. A identidade 
dos processos não faz honra á inventiva d'essa gente ardilosa, 
e duas experiências mallogradas, em Paris e Lisboa, não 
Seriam incentivo á terceira. Sem embargo, poderia acudir 
a idéa ao espirito de seus emulos, fortalecer-se pela analogia 
das situações, e abalançar-se algum mais ousado a exploral-a, 
consciente da falsidade. Tudo quanto se passou, na guerra 
intentada á Companhia de Jesus, testifica a credulidade e a 
falta de escrúpulos dos seus adversários. 

De qualquer modo, Carlos III achava^se capacitado de 
que a revolta dos sombreiros resultava de um trama contra & 
sua pessoa, que não vingara por circumstancias fortuitas. 
Os aprestos da conspiração estavam feitos para a quinta-íeira 
santa. No acto da visitação das egrejas os conjurados cercavam 
o monarcha; talvez lhe poupassem a vida, mas lançariam mão 
de violências para lhe imporem condições. Os jesuítas eram 
da conspiração, com certeza. Suas investigações haviam 
semeado o descontentamento no povo. Houve quem dissesse 
vêl-os distribuir dinheiro aos amotinados, e o fervor da plebe 
acalmou-se quando elles, como pacificadores, intervieram. Tal 
era a convicção do Rei, baseada nos suspeitos inquéritos. A 
expulsão foi por isso resolvida. Executou-se quasi um anno 



' Ranke c d'esse numero. Vej. Die rômischen Pãpste, Leipzig. 
1885, 3.0, 137. 



ALLIANÇA CONTRA A INGLATERRA 261 

depois, a 2 de abril, por ordens secretamente expedidas, e 
que se cumpriram no mesmo dia e á mesma hora, por toda 
a parte, no território castelhano, 

Oeiras exultava, vendo um dos seus anhelos mais caros 
realizados. «Para conseguir isto era capaz de dar |uma provinciV 
de Portugal», dizia Saint-Priest i. Não iria tão longe, mas 
a prevenção contra o vizinho importuno, tradicional inimigo, 
esvaeceu-se, como por maravilha. Deixando de parte as 
questões em litigio, logo em maio alvitrava o pôr-se ponto 
em todos os negócios políticos, para fazerem as duas 
monarchias causa commum perante a Cúria romana, e 
exigirem a suppressão dos jesuítas. Em setembro dá ordens 
para que os governadores do Brasil façam transportar, por 
conta do Estado, os regulares que as autoridades castelhanas 
entregarem nas fronteiras. Ao mesmo tempo manda suspender 
as hostilidades no Rio Grande, e retornar quaesquer terrenos- 
adquiridos pelos nossos desde maio. O gabinete de Madri<í 
correspondia de modo affectuoso e confiante. Dava a entender 
que a questão de limites se poderia concluir «a favor de 
Portugal». Propunha uma alliança defensiva para garantia 
reciproca das possessões sul-americanas. Suggeria que o 
inimigo commum podia afinal ser a Inglaterra ^. '<Se aquelía 
potencia — dizia Grimaldi — tomasse por conquista algumas 
terras aos hespanhoes, adquiriria com isso mais facilidade 
para extender o seu império sobre o Brasil, e, apossando-se 
de uma parte d'este, ficariam as índias hespanholas mais 
ameaçadas e 'expostas a seus insultos» ^. D'esta forma demon- 
strava a vantagem commum do pacto. 

Hypnotizado pela visão da roupeta, que o enfurecia. 
Carvalho acceitou a insinuação, e tanto mais que do lado da 
Grã-Bretanha é que lhe parecia soprar agora o vento hostil, 
O 'monopólio das Companhias do Grão-Pará e dos Vinhos 
continuava a ser em Londres objecto de escândalo. Alli se 



1 Quad. Elem., 7.o, 203. 

2 Quad. LUm.. 8.o, 130, 131. 

3 Idem, 7.0, 276. 



262 OS jesuítas ENTENDIDOS COM OS INGLESES 

tinha dado á estampa um pamphleto sob o titulo de .Memorias 
do cônsul e feitoria britannica em Lisboa, no qual se achavam 
expostas com vivacidade as reivindicações contra a adminis- 
tração pombalina. As gazetas chamavam incessantemente para 
os factos a attenção do governo, e este por seu turno insistia 
nos protestos, a que o primeiro ministro português, inflexível, 
cerrava os ouvidos. Um novo representante, Littleton, fora 
escolhido pela sua reputação de energia, para dar impulso 
ás reclamações infructuosas de Kinnoul e Hay. Em Lisboa, 
a Golonia gritava seus descontentamentos. Oeiras persua- 
dia^e já que a celeuma de Londres era também obra dos 
jesuítas. Em todo o caso, enervado pela opposição aos seus 
planos económicos, e entregue ao deslumbramento da victoria 
sobre aquelles odiados inimigos, não podia ser inaccessivel 
á suggestão; mormente quando Choiseul llie inculcou que 
os ingleses pensavam em fomentar uma sublevação no rio 
da Prata, com o concurso dos regulares. À novidade, o 
ministro, attingido na corda sensível, tornou inflammado que 
tal proceder seria «como uma declaração de guerra, que 
faria mudar todo o systema da corte de Portugal» i. Inoculada 
esta persuasão no espirito de Carvalho, triumphava a politica 
dos Bourbons. 

Convicto, o ministro escrevia ao conde da Cunha, vice-rei 
do Brasil, dizendo-lhe que «a expulsão dos jesuítas de 
Hespanha convertera em amigos os nossos inimigos, e 
segundo toda a apparencia em inimigos os que eram nossos 
amigos e alliados» 2; e referia acharem-se os jesuítas de 
intelligencia com os ingleses, a quem tinham prom.ettido 
introduzil-os em todos os domínios portugueses e castelhanos 
ao sul da linha equinocial, provocando para isso uma suble- 
vação dos indígenas com pretextos de religião. Continuava 
mostrando que esta acção combinada do governo britannico 
e Companhia de Jesus, de três modos poderia manifestar-se: 
«Primeiramente fornecerem os ingleses aos jesuítas tropas, 



1 Quad. Elem., 7.o, 277. 

- Officio do Conde de Oeiras ao conde da Cunha, 20 junho 
1767, Saint Pkiest, Chute cies jésuites, 293 e seg. 



I 



INIMIGOS PÉRFIDOS E DECLARADOS 263 



armas e munições, e esconderem os braços que davam os 
golpes, cobrindo os militares com as roupetas da Com- 
panhia, como já por vezes se havia feito; e dizer a corte 
de Londres que íudo isso era o effeito do immenso poder 
dos jesuitas, se bem que semelhante poder militar seja tão 
fraco quanto chimerico, como a experiência da ultima guerra 
nos mostrou. , . Na segunda hypothese os ingleses, levados 
pela sua cobiça insaciável, pela alta opinião que teem do 
poder e dos tramas dos jesuitas, e pelo pouco caso que nós 
sabemos que elles fazem das forças que temos naqueUas 
partes, poderão tentar estabelecer-se alli, e mandar expedições, 
àllegando, como pretexto do rompimento com a cnrte de 
Madrid, que eila lhes não quiz pagar o resgate de Manilha, 
e desculpando-se para comnosco com pretextos simulados, 
taes como estes: que as conquistas no território castelhano 
nos não offendem; ou que elles não vão atacar a margem 
septentrional do rio da Prata, que confessam pertencer a 
Portugal, segundo os ti atados, senão as possessões de Hes- 
panha, na margem meridional d'aquelle rio, e paizes contíguos. 
Em ultima hypothese, poderão os ingleses também atacar 
os domínios de S. M. á força aberta, declarando-nos a guerra, 
e tomando por pretexto um grande numero de imposturas 
e de calumnias, que os supraditos jesuitas teem divulgado 
contra nós ultimamente nos papeis públicos, que diariamente 
circulam na cidade de Londres.» De toda a maneira, concluía 
elle, seria inconveniente a Portugal a presença dos ingleses 
naquellas paragens, e bastava o irem acommetíer lá a 
Hespanha para nós termos de os considerar e tratar como 
inimigos pérfidos e declarados», que só fitavam a esbulhar 
Portugal de suas possessões i. 

A insinuação era infundada, e traça de Choiseul, sôfrego 
de nos afastar da Inglaterra, considerando agora desejável 
a tríplice alhança, cuja proposta em 1762 tinha sido um fingi- 
mento. Além d'isso pretendia realizar um tratado de commercio 
vantajoso, e, lisonjeando a paixão favorita de Oeiras, que 
era o ódio aos jesuitas, estava certo de triumphar. 



1 Officlo cit., Saint Priest, 293. 



264 OS jesuítas EM FRANÇA 

Desde a 'guerra, a situação da Sociedade em França tinha 
mudado completamente. Cedendo á vontade dos parlamentos, 
Luiz XV mandara expulsar os jesuítas, confiscara-lhes as 
propriedades, e supprimira finalmente o instituto nos seus 
dominios. Depois d'isso os religiosos tinham sido autorizados 
a voltar a França, mas secularizados. A extincção definitiva 
pelo Pontífice era o que se não pedira ainda. Animado por 
estes factos, e cuidando já levar os Bourbons na orbita da 
sua politica, Oeiras correspondeu ás propostas de Choiseul 
com um projecto de acção conjunta de Portugal, França e 
Hespanha, para forçar o Pontífice a supprimir o instituto de 
Loyola, e dar-se na arrogância da Cúria romana o golpe 
decisivo. No seu orgulho, chegava a pensar que por este 
passo !se alcançaria a reforma dos abusos introduzidos na 
Egreja, e que, extirpados elles, acaso voltariam ao grémio 
catholico as nações que do mesmo viviam apartadas i. Por 
sua influencia, pois, o protestantismo desappareceria. 

Desde ahi a idéa d'esta intervenção absorv^e-lhe todos 
os cuidados. Em novembro, o embaixador Ayres de Sá 
apresenta em Madrid um memorial que recapitula o estado 
da questão com a Santa Sé, e mostra a insufficiencia tios 
meios suaves para se conseguir do Papa, coacto pelos jesuí- 
tas, a extincção da Sociedade. Oeiras fizera approvar no 
Conselho de Estado um voto seu, longamente deduzido, para 
que as potencias interessadas na questão dos jesuítas, decla- 
rassem guerra ao Papa, com o motivo da protecção que 
ainda dispensava áquelles inimigos das coroas -; e o parecer 
foi submettido á consideração do gabinete hespanhol. Mas 
o ardor do ministro português não encontrou correspondência. 
O conselho, convocado para apreciar o projecto, opinou que, 
á vista da resistência, mais acertado seria appellar para p 
novo conclave, que não tardaria, como os annos e as enfer- 
midades de Clemente XIII bastante indicavam. Grimaldi fez 
ver a Oeiras que, longe de despertar emi Roma a descon- 



1 Quad. Elem., 7.o, 257. 

2 Collecção dos Negócios de Roma no reinado de El-rci D. José I. 
Lisboa 1874, 2.o, 283. 



CLEMENTE XIII E O DUQUE DE PARMA 265 

fiança, e de lançar um desafio á Cúria, convinha manifestar 
a vantagem que teria o Pontificado em se desfazer de uma 
corporação arrogante e dominadora, qual era a dos jesuitas. 
Falava nisto a convicção do genovês, ou era a voz do seu 
antagonismo com Oeiras? 

Choiseul mostrava-se egualmente partidário do adiamento 
e da brandura, Parecia-lhe improvável o acceder Clemente XIII 
ás exigências das cortes, tanto mais que difficilmente poderiam 
ellas responder quando o Papa lhes oppuzesse que, expulsos 
como tinham sido os jesuitas, nenhum receio já deviam 
inspirar '. Aos arroubos de Oeiras sobre a possibilidade 
de voltarem os Estados da Reforma ao aprisco romano 
observava: «É difficil de conceber que um scisma actual das 
potencias catholicas venha a determinar as nações protestantes 
a voltarem ao seio da Egreja» 2. 

Foi então que o conflicto da Santa Sé com o duque de 
Parma, sobrinho de Luiz XV, e Carlos III, levou estes sobe- 
ranos a adoptarem o proceder enérgico, que o gabinete de 
Lisboa tinha preconizado. Aquelle principe promulgara nos 
seus Estados certas leis que diminuíam as immanidades da 
Egreja e a jurisdicção papal. Clemente XIII respondeu com o 
breve famoso de 30 de janeiro de 1768, declarando nullos os 
éditos de Parma, e, em caso de resistência, excommungado 
o duque, de cuja obediência os vassallos ficavam por esse 
facto desligados. Ao mesmo tempo resuscitou a questão da 
autonomia dos Estados de Parma e Placencia, reivindicando 
direitos antigos de suzerano para a coroa papal. 

Este acto violento foi tomado pelas cortes, em contenda 
com o Papa, como affronta commum. A casa de Bourbon, 
offendida em um de seus membros, tinha de se desaggravar. 
As contemplações cessaram, e os Estados romanos foram por 
duas partes invadidos pelas tropas napolitanas e francesas. 
Avinhão e Benevente iam ser o penhor das potencias, 
emquanto de Madrid, de Paris e de Nápoles, ao mesmo tempo, 
se reclamava a abolição dos jesuitas. 



' Choiseu! a Simonin. Gomes, Marquis do Pomba!, 219. 
2 Idem., 221. 



266 OUTRA VEZ NOS BRAÇOS DA INGLATERRA 

Era o plano de Oeiras integralmente praticado, exclu- 
indo porém da execução o autor, que pressuroso se offerecia 
a participar na acção diplomática commum. De Madrid manda- 
vam-lhe dizer que «escrevesse elle aos três ministros de 
Hespanha, França e Nápoles, para autorizal-os a pedir satis- 
fação também por parte de El-Rei Fidelissimo, visto que 
não havia em Roma ministro de Portugal» i ; e Choiseul, 
informado de que o commendador Almada recebera ordem de 
partir para Roma, fazia ver que, substituída pelas represálias 
a acção diplomática, cessara o motivo da intervenção da 
corte de Lisboa, que só no futuro poderia ser útil; entretanto 
fizesse Almada individualmente as reclamações que julgasse 
favo>raveis ao êxito da causa, para as quaes promettia o 
apoio do embaixador fiancês -. Era declinar positivamente 
a intromissão do extranho em negocio privativo da familia. 

Oeiras absteve-se e cahiu em si Reconheceu que «nem 
Inglaterra nos queria atacar, nem França se achava no caso 
de nos fiarmos d'ella»; e considerou-se afinal vencido pelos 
jesuítas que «sem pólvora, sem bala, sem navios, sem vassallos 
de que pudessem formar grandes exércitos, teem prevalecido 
por tantos annos na face de todo o universo, attonito e incré- 
dulo do mesmo que está presenciando» ^'. 

D'este modo a questão dos jesuítas effeituara quasi sepa- 
rar-nos da Inglaterra. A mesma questão nos reconduzia aos 
braças d'ella. 



V 



Desde os acontecimentos do anno antecedente, Carlos III 
acariciava a antiga idéa da alliança com Portugal. Em junho 
ou julho de 1767 escrevera á irmã, pedindo-lhe fosse media- 
neira do projecto, que para Oeiras tinha a melhor recom- 



1 Coll. Neg. Roma, II, 304. 

2 Quad. Elem., 7.o, 290, 292. 

3 Coll. Necr. de Roma, 2.o, introd., §§ 30 e 146. 



OEIRAS REPELLE A ALLIANÇA HESPANHOLA 267 

mendação no interesse commum contra os jesuítas. Mas o 
despeito fazia gorar a combinação. Bastava a tibieza da 
corte de Madrid para descoroçoar o ministro, que em 14 de 
abril repellia o projecto de tratado, dizendo a Qrimaldi que 
Portugal não tinha «motivo justificado e decente para romper 
com a Grã-Bretanha, sua antiga alliada» i. Já então comparava 
o pouco, que lhe offereciam, ao que^ por meras visões, 
arriscara de perder. Na Hespanha não descobriu sinceridade. 
Sem embargo dos protestos, Grimaldi obstinava-se em guardar 
toda a margem septentrional do Prata. E era esse o engodo 
com que pretendia deixássemos a alliança da Grã-Bretanha, 
garante dos tratados, pelos quaes o direito áquelle território 
nos era reconhecido! A idéa do perigo britannico desva- 
neceu-se. O antigo alliado apparecia ainda o mais útil. E 
esse era o fiador dos pactos de Utrecht e Paris que, ou 
breve ou tardiamente, haviam de ser respeitados. 

Também, ao mesmo tempo, voltava Choiseul ao seu modo 
de ver antigo, segundo o qual, no anno seguinte, dizia ao 
embaixador Clermont d'Amboise: «É uma illusão pensarmos 
que a união entre as cortes de Londres e de Portugal possa 
deixar de existir»; e qualificava duramente o proceder de 
Oeiras, a quem inculpava de enganar a Hespanha «com 
demonstrações pérfidas de confiança e amizade» '^. Mais tarde, 
em 1775, Vergennes, seu successor, considerando a Pombal 
«falso e despido de escrúpulos», recordava que elle enganara 
Saint-Priest «com sua perfídia e duplicidade», fingindo-se 
inclinado á alliança com a França e a Hespanha, para afinal 
tomar compromissos mais fortes perante a Inglaterra ■"'. 

Esses novos compromissos existiam realmente? De modo 
nenhum. A ovelha um instante desgarrada voltara ao redil, 
e era tudo. Grimaldi tinha elaborado, é certo, um projecto 
de tratado, que, submettído a Oeiras, este capitulou de 
«contradictorio e insulíante», taxando a manha politica de 



^ Quad. Elcm., 18.o, 398. 

'■^ Insir. aux ambassadeurs, cit., 361. 

3 Idem, 375. 



268 OEIRAS E ORIAIALDI 

«encoberta provocação» i. Ao menos assim o dizia em 1775, 
para se desculpar do breve galanteio em que andara, num 
momento critico para a Inglaterra, com os inimigos d'ella. 
Em todo o caso, jamais pudera vencer a desconfiança que 
Grimaldi lhe inspirava. A este, mancommunado com os 
jesuitas, attribuia um folheto, espalhado em Lisboa e no 
Porto, no qual se dizia «que os ingleses opprimiam os portu- 
gueses e os tratavam como escravos» -. Agentes do mesmo 
conluio excitavam na Inglaterra a opinião publica, insistindo 
nos aggravos que se dizia receberem os ingleses em Portu,'íJ:al. 
Oeiras de tal sorte se impregnara da aversão á Companhia 
xáe Jesus, que vivia em constante terror d'ella. Qualquer 
tropeço á sua vontade, qualquer incidente desfavorável á sua 
politica, provinha d'esse implacável inimigo. No mesmo ódio 
envolveu a Grimaldi, que lhe recusava o concurso, e de sua 
ogeriza com elle resultou não se chegar, durante o seti 
governo, a um entendimento permanente com a Hespanha. 

Por outra parte continuavam os ingleses a reclamar. 
Renovavam-se as divergências sobre o Terreiro do trigo. 
As Companhias de commercio, com seus privilégios, eram 
outro motivo de constante desaccordo. Já em 1760 lord Kinnoui 
reclamara debalde. Até á creação das Companhias todo o 
trafico do Brasil dependia do credito que os ingleses 
concediam aos commerciantes nacionaes. Privados es'tes, peio 
monopólio, d'aquelle productivo negocio, não podiam pagar 
as suas dividas. Cessara o contrabando para a America hespa- 
nhóla, que produzia muita prata, exportada para a Inglaterra, 
As remessas de ouro, pelos paquetes e navios de guerra, 
ianf diminuindo. A Companhia dos Vinhos trouxera grandes 
prejuízos ao commercio britannico. Tudo isto acirrava o 
descontentamento. 

A firmeza apregoada do ministro Littleton dissolvia-se 
ante a obstinação de Oeiras, até que em 1772 Robertoi 
Walpole o veio substituir, cheio de esperanças mas sem 
melhor fortuna. Debalde a Ciíy pelas gazetas inílammava 



' Quad. Elem., 8.o, 397. 
2 Idem, 398. 



DESACATOS DOS INGLESES 269 



em Londres a opinião. Oeiras, inimigo da imprensa, não 
desdenhava d'ella quando lhe convinha appeliidal-a em 
soccorro do poder. Na lucta com os jesuítas inundara !a 
Europa de pamphietos, desde a folha avulsa até aos volumes 
massiços da Deducção chronologica. Em 1770 mandara publicar 
em inglês o Discurso anglo-lusitano, resposta a Memoria do 
cônsul e da feitoria de Lisboa, de 1766, e ás arguições dos 
periódicos, tanto como aos protestos da diplomacia. Rebatia 
as allegações da quebra de privilégios, defendia a Companhia 
dos Vinhos e as do Brasil, e aos lamentos sobre a pavorosa 
situação do commercio com Portugal oppunha as estatísticas 
do Banco de Inglaterra, nas quaes se verificava que a impor- 
tação de ouro português tinha sido em q^uatro annos, de 
1766 a 69, de 3,552:572 libras esterlinas, além de muito mais 
que passava clandestinamente, sobretudo em navios do 
Porto. 

A controvérsia produziu nos residentes ingleses uma 
irritação, que mais de uma vez esteve perto de rebentar 
em conflicto formal. Os capitães de navios, sujeitos a impo- 
sições que reputavam vexatórias, deixavam-se facilmente 
inspirar da mesma animosidade, e não hesitavam, se possuíam 
a força, de fazer alarde d'€lla e desprezo do paiz. Em dezembro 
de 1770, querendo a torre de Belém impedir a entrada de 
uma fragata, que vinha do Levante, onde a peste grassava, 
a guarnição a bordo tomou postos de combate, ameaçando 
a terra com sua artilharia. Estava a praia coalhada de povo; 
D. José, no terraço de Belém, assistia indignado e confuso 
ao desacato i; o navio passou, e a providencia sanitária 
exceptuou-se em favor d'elle. Em outra occasião fundeou 
urna nau em frente á torre, declarando o commandante não 
sahir d'alli até que os aggravos da colónia tivessem repa- 
ração 2_ Póde-se pensar que estivesse ébrio o official, mas 
o caso é typico do estado dos ânimos, e da situação do paiz. 
Entretanto, de uma parte a fraqueza e a necessidade, da 



1 Quad. Eletn., 7.o, 363. 

2 Idem, 18.0, 385. 



270 O CONFLiCTO DAS ILHAS FALKLAND 

outra os interesses commerciaes e políticos kvavam os 
governos á indulgência reciproca. 

Não eram estes somente os motivos de discordância. 
Um direito pelo qual os ingleses sempre pugnaram, tendo 
opportunidade, era o de seus navios visitarem os nossos 
portos de ultramar. A convenção com a Hollanda em 1041, 
e o tratado de 1654 com Cromwell excluíam toda a contes- 
tação. Mas o governo português defendera-se sempre, e 
Oeiras sustentava que essa faculdade em nenhum tempo 
se julgara exequível, pronunciando-se contra ella o clamor 
dos naturae(s e a (evidente demonstração da ruína das colónias. 
Com o tempo a obrigação cahira em abandono, e podia 
considerar-se de facto annullada, sem embargo das recla- 
mações. Eis que um navio da Companhia das índias, o 
Argyle, aporta ao Rio de Janeiro, com o fim de baldear 
carga para o Duque de Portland, da mesma Companhia, que 
se destinava aos mares do Sul, e chegou dentro em pouco. 
O Vice-Rei embarga os navios, prende as equipagens, e 
manda os capitães em custodia para o reino. Protesto do 
ministro britannico, accêsa discussão, e afinal entrega dos 
navios e indulto, a que o governo português se não excusaria 
sem alhear a amizade, em que punha tanto preço, e que g€ 
antolhava o só amparo seguro contra ambições mais ameaça- 
doras. De seu lado a Inglaterra ganhava assas com o 
commercio do Brasil, para sem pena renunciar á affirmação 
quasi platónica de um direito, que não adeantava sensivelmente 
os interesses positivos d'esse mesmo commercio. Além d'isso 
jconsiderações de politica internacional concitavam á mode- 
ração. 

Entre Hespanha e o nosso alliado surgira novo conflicto, 
disputando entre ,si as duas nações a posse das ilhas Falkland, 
e a esse conflicto as obrigações do Pacto de família, tanto 
como a linha da sua politica, chamavam também a França. 
O governo britannico dispuzera por isso mandar a Lisboa 
uma esquadra, que fazendo d'alli base estratégica, impedisse, 
como em 1758, a juncção das forças navaes de Brest e 
Toulon. Contra esse intento protestava o Enviado português, 
invocando as regras da neutralidade, que a sua corte entendia 



MADRID CONCILÍA-SE COM A INGLATERRA 271 



manter. Mas não pareceu de peso a razão ao ladino alliado^ 
que recusava intervir com a força para nos beneficiar, e não 
hesitava em nos envolver na lucta para vantagem sua. As 
observações do nosso ministro redarguiu lord Rochford que 
seria difficil manter-se Portugal indifferente nesta guerra; 
e, acceitando agora a these de Oeiras, vezes sem conta 
refutada, «tanto mais que o Pacto de familia de dia e de noite 
nos ameaçava» i. 

O horizonte desannuviou-se com a sabida de Choiseul 
do poder. Os homens chamados ao conselho de Luiz XV 
tião tinham os ímpetos belhcosos d'aquelle ministro, e ia 
Hespanha privada de apoio cedeu. O soberano francês 
escrevera secretamente a Carlos III, para o dissuadir de 
velleidades guerreiras : «V. M, não ignora quanto o espirito 
de independência e fanatismo se tem propagado no meu 
reino. . , Os parlamentos pretendem disputar-me a autoridade 
soberana que tenho da mão de Deus. . . A guerra nestas con- 
dições seria uma horrível desgraça para mim e para os meus 
súbditos. . . Se V. M. puder fazer algum sacriiicio para manter 
a paz sem prejuízo da honra, prestará grande serviço ao 
género humano, e a mim em particular» 2 Sósinho, o gabinete 
de Madrid conciliou-se com a Inglaterra, e a sua attenção 
íornou-se á questão do Brasil. 

A gratidão de 1766 desvaneceu-se no intervallo; os 
propósitos de aíliança também; ficava de pé o antagonismo 
antigo, e a questão de limites, agora disputada com mais 
fervor que em tempo algum. 



VI 



A má fé com que a Hespanha faltava ás condições do 
tratado de paz accendera de novo as hostilidades no local 



^ Francisco de Mello e Carvalho ao conde de Oeiras, 18 outu- 
bro 1770, CoU. Pomb., Cod. 635. 

- H. Masson, le Cardinal de Bernis depub son ministère, Paris 
1884, pag. 174. 



272 GUERRA NA AMERICA, PAZ NA EUROPA 

da contestação. Sem falarmos nos pequenos conflictos da 
fronteira, desde 1767 que os portugueses entravam em 
campanha, tentando em vão reconquistar o Rio Grande, 
perdido em 1763, e que os castelhanos indebitamente conser- 
vavam. Em novembro de 1773, Vertiz, governador de Buenos 
Ayres, acommetteu sem resultado as fortificações do Rio 
Pardo. Em fevereiro de 1776, novo ataque frustrado dos 
nossos ao Rio Grande. 

Entretanto o governo de Lisboa mandava tropas de 
reforço, e para o commando superior o tenente general 
Henrique Bõhm, um dos mais hábeis e distinctos officiaos 
vindos com o conde de Lippe. Guerreando na America, os 
dois governos queriam manter na Europa as apparencias da 
paz. Parte das nossas tropas embarcaram clandestinamente 
no Algarve; em Hespanha procediam de modo idêntico. 

De Pernambuco mandou Pombal transportar um batalhão 
de negroís e outro de mulatos, confiando que a catadura d'essa 
gente infundiria terror nos castelhanos. Induzira-o a tal o 
haverem-lhe referido que, na guerra de Bohemia, as tropas 
francesas, á vista dos pandiiros, com seus trajos extrava- 
gantes, experimentaram grande susto i. Com este infantil 
recurso, próprio das civilizações inferiores, o ministro cuidava 
supprir as defficiencias da organização militar. E certo qu:e, 
em abril, já o total das forças enviadas da metrópole, com 
as que passaram das capitanias vizinhas, excedia no Prata 
o effectivo dos castelhanos. Mas a falta de cohesão d'esses 
elementos desparelhados, a ausência de espirito militar, a 
incapacidade e o desanimo prompto dos officiaes, tiravam 
ao conjunto a efficacíia, que de outra forma se poderia esperar. 

A organização do adversário não era superior, como 
já em 1762 se tinha verificado. Vertiz pedia soccorros que 
de Madrid por sysíema lhe regateavam. Apezar de tudo 
Grimaldi preferia negociar. Ao embaixador português offerecia 
acceitar qualquer acco.do ainda mesmo cedendo a Hespanha 



^ Off. ao marquez de Lavradio. Varnhaoen, Hist. Geral do Brasi', 
2.a ed., 2.0, 936. 



PRINCÍPIOS DA GRÂ-BRETANHA 273 



direitos seus i. Simultaneamente requeria a intervenção da 
França para um pacifico accommodamento. 

Ao pedido de Madrid, o rei, que era então já Luiz XVI, 
correspondia buscando interessar a corte de Londres, á qual 
insinuava que o rompimento entre Hespanha e Portugal podia 
pôr em armas a Europa inteira. Não era esse o pensar do 
gabinete britannico, e, em Lisboa, o ministro Walpole abria-se 
com o Enviado francês, expondo-lhe que era a disputa frivola, 
e 03 portugueses se illudiam julgando que a Inglaterra iria 
provocar uma conflagração geral, ajudando-os contra a 
Hespanha, unicamente para elles recuperarem as possessões 
que haviam perdido 2. 

Não destoava isto dos princípios que a Grã-Bretanha 
sempre seguira, prompta a defender o nosso território na 
metrópole, sua base es'tráteg-ica, mas indifferente á sorte das 
colónias, onde não estavam em risco os seus interesses. Além 
d'isso, os negócios domésticos na America davam de sobra 
que pensar, para que alguém entre os políticos cuidasse de 
se immiscuir em conflictos extranhos. 

Pombal via isso, e, tentando desviar o governo britannico 
d'aquelle objecto, tão ponderoso, para o que elle próprio 
tinha a peito, imaginou fazer a sua voz ouvida em Londres, 
por um estratagema pueril. Escreveu ao embaixador Luiz 
Pinto de Sousa, pela via ordinária, para ser a carta violada 
no transito, expondo as suas idéas acerca da questão ameri- 
cana, e o interesse que tinha a Inglaterra em sustentar »os 
direitos de Portugal na disputa com a Hespanha. Mais lhe 
valera isso, dizia, do que a guerra nas colónias, cujo desfecho 
lhe seria contrario, como o exemplo das nossas luctas no 
Brasil com os hollandeses fazia vaticinar ^. Na opinião d'elle, 



' (ijuizo que íenho forx-nado das dezesete cartas estampadas em 
Londres, etc.^'-, escripto de Pombal, impresso diversas vezes. Orig. Coll. 
Pomb., Cod. 691. 

= Qaad. Elem., S o, 115. 

3 Pombal a Luiz Pinto de Sousa, 28 novembro 1775. Tem á 
margem a nota seguinte: «Carta particular remettida pela posta ordi- 
nária no Paquetboat qu2 partiu em domingo 3 de dezembro, para que 
abrindose no correio de Londres, como é do seu costume, ficasse 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 18 



274 GRIMALDl NO RIO DA PRATA 



O ministro dos extrangeiros, lord Rochford, em vez de se 
deixar vencer de um medo servil e terror pânico, perante a 
Hespanha e a França, devia antes considerar no seguinte: 
«Se um amigo fiei e um alliado constante, publicamente aban- 
donado e sacrificado aos inimigos communs, apesar dos 
tratados mais claros e expressos, não pôde trazer depois de 
si consequências muito mais funestas, do qiue aqtiellas que 
a perda de duas grandes batalhas faria recear?... Se é compa- 
tivel com a reputação, com a dignidade e com os interesses 
de Inglaterra, aquella ostentação que a corte de Madrid está 
fazendo, para persuadir que tem reduzido a Giã-Bretanha ao 
miserável estado de abandonar os seus alliados, e de necessitar 
dos auxilios de Hespanha para reduzir á sua obediência os 
vassailos rebeldes da America inglesa?» E, justificando a 
desinteresse dos conselhos com o affecto que sempre tivera 
ao alliado, acabava por invocar a razão politica, pois «em 
Inglaterra se não podiam dar golpes que a nós nos não 
ferissem». Singular escripto em que a sagacidade dos conceitois 
parece contender com a candura do ardil, e em que a vaida,de 
da tentativa amesquinha o acerto do vidente na gravíssima 
questão da America. 

Proseguindo na sua disposição de regular d'ahi por 
deante sem armas os negócios do rio da Prata, em novembro 
de 1775, Grimaldi mandou ao governador de Buenos Ayres 
que suspendesse as hostilidades. Da nossa parte se deveriam 
dar eguaes ordens para o Brasil; mas por desleixo, impedi- 
mento ou propósito, não se expediram logo, e o vicerei 
marquês do Lavradio somente no l.o de abril teve conhe- 
cimento d'ellas. Nessa data os nossos acommettiam os caste- 
lhanos desprevenidos, no Rio Grande, e apoderavam-^e 
finalmente da povoação. 

Para Vertiz, fiado na trégua, pelas ordens que recebera, 
fora o ataque uma surpresa. Indignado, pedia reforços, para 
rehaver o perdido, e castigar a perfidia dos que, a despeito 



o ministério d'aquella corte na intelligencia da miserável situação em. 
que se acha.\ Judicií Biker, O Marquez de Pombal, alguns documentos 
meditos, Lisboa 1882, pag. 35. 



ORIMALDI NO RIO DA PRATA 275 



das convenções, o aggrediam. Foi quando o marquês de 
Lavradio, recebendo o aviso de Lisboa, mandou suspender 
as operações de guerra. Grimaldi, esse increpava de má fé 
os portugueses, e Pombal desforçava-se irrogando-lhe a in- 
juria suprema de o tratar de jesuíta — «instrumento escolhido 
pelos restos da Sociedade, para tirar vingança de Portugal 
e de Hespanha», como dizia ao embaixador francês '. 

Emquanto, pelas vias diplomáticas, o gabinete de iVladrid 
exigia satisfação, ia aprestando tropas que em agosto ou 
setembro deviam partir para vingar a affronta recebida. E 
a Inglaterra o que fazia? Surda aos pedidos de auxilio, insistia 
nas reclamações. Quando a diplomacia afrouxava, a feitoria 
de Lisboa acenava para a capital britannica ás gazetas que, 
fustigando o governo, impunham actividade ao embaixador. 
Roberto Walpole pouco justificava essa pratica. Sempre na 
brecha, mais de uma vez desafiou a impaciência de Pombal. 
Pertinaz nas reivindicações, abonava os direitos da Grã-Bre- 
tanha com «os importantes serviços prestados a Portugal», 
e, se bem que estes autorizassem a pedir novos privilégios, 
contentava-se com exigir a manutenção dos existentes -. Que 
juizo fazia Carvalho de taes serviços sabemol-o ja. Considerava 
os ingleses sempre tardios adiados; queixava-se da frialdade 
e inacção que mostravam em nos defender. E, não obstante, 
via-se pela fatalidade das circumstancias forçado a segu- 
rar-lhes constante dedicação. Em 1770 recommendava ao 
enviado Francisco de Mello Carvalho que, se a Londres 
chegasse um boato de negociações para alliança de Portugal 
com França e Hespanha, se desse pressa em desmentil-os 
perante o secretario de Estado ^. Algum tempo depois correu 
na Inglaterra que estava feito um tratado de comm.ercio com 
a França. Commoção grande na Bolsa. Ia pois a Grã-Bretanha 
perder o fecundo manancial de ouro, que para ella era o 
commercio lusitano? Walpole corre á presença do ministro, 
que o tranquilliza, certificando-lhe não existir o tratado, nem 



^ Officio de Blosset ao conde de Vergennes. Quad. Elem., 8 o, 124 
^ Memoria de Roberto Walpole, Coll. Pomb., Cod. 637. 
3 Officio de 20 novembro, Id., Coll. Pomb., Cod. 635. 



276 A EXPEDIÇÃO DE COOK 



em tal se cuidar; e, repetindo o estribilho: «S. M. deseja 
que entre os extrangeiros sejam os ailiados sempre prefe- 
ridos», rematava dizendo que «tudo eram intrigas (de Orimaldi 
e dos jesuítas) para com discussões desagradáveis perturbar 
a harmonia das duas cortes» i. 

No meio de tudo isto, Pombal permanecia fiel ao 
propósito de excluir, tanto quanto possivel, o commercio 
britannico, e intransigente em afastar de nossos dominios 
o pouco seguro alliado. Em 1776, ao mesmo passo que 
vedava a entrada nos portos do reino aos navios dos insur- 
gentes da America, consentia que um pequeno barco inglês 
de seis peças fosse aprisionado em Bissau, e conservava 
preso o capitão, sem embargo das reiteradas e severas 
reclamações de Walpole ^. Mais intensa era ainda a preoccu- 
pação tocante ao Brasil. Atemorizava-o a idéa de fazerem 
os ingleses por lá escala na derrota para a índia, projecto 
que se desvendava na tentativa mallograda do Arf^yle. O 
facto dera motivo a controvérsia, que em 1775 ainda não 
havia terminado. Às «fortíssimas queixas» de Walpole redar- 
guiu Pombal com uma, a seu ver «insuperável confutação». 
E quanto mais aquelle insistia nos protestos, tanto mais o 
ministro era firme na defesa, aproveitando o incidente para 
estabelecer definitivamente a prohibição. Para Pombal «este 
era o grande ponto», consoante a nota de seu próprio punho 
lançada em um tomo da correspondência relativa a estes 
casos. 

Fiel a esta concepção, só com o silencio respondeu ao 
pedido do governo britannico, para que no Brasil, sendo 
preciso, se prestasse soccorro, de viveres ou qualquer outro, 
á expedição de Cook ás regiões antarticas, que s<: aprestava 
então. Debalde a chancelaria de Londres repetia as instancias 
e extranhava a mudez. À perspicácia do nosso representante, 
eco das idéas de Pombal, repugnava que tal viagem tivesse 
unicamente por objecto «descobrir novas plantas, aperfeiçoar 



1 Coll. Pomb., Cod. 637. 

2 Quad. Elem., y.VlU, 409. 



HOSTILIDADES NAS FRONTEIRAS DO BRASIL 277 



a astronomia, e açgeographia». O suspicaz diplomata observava: 
«Uma nação maritima e ambiciosa como esta não se contenta 
somente com plantas, e se acharem algum estabelecimento 
bom e conveniente no mar do Sul, fique V. Ex.a certo que 
o hão de fazer»: E continuava dogmático: «Se elles descobrem 
um grande continente, tão grande como qualquer das partes 
do mundo conhecidas, calcule V. Ex.a as consequências, e 
a revolução na Europa e no mundo»! i Tinha razão o exclu- 
sivismo nacional; mas o entrave, quão frágil! posto á margem 
da civilização, não impediu que esta desabrochasse em esplen- 
didas conquistas, nesse mar immenso, explorado por Cook. 

Ao lado do governo português, o de Hespanha, egual- 
mente cego ao rasto luminoso do progresso, dava-lhe força 
moral para a negativa, incrédulo como elle dos fins desin- 
teressados da expedição. Em ambas as nações da Península 
o mesmo ignaro ciúme, o mesmo conceito erróneo dais 
grandiosas aspirações da humanidade. 

Mas este era o só ponto em que entre ellas havia accordo. 
Na America o terreno das hostilidades não ficara circumscripto 
ao Rio Grande: em outros pontos da fronteira occidentai, 
em Matto Grosso, e até no extremo Norte, na região distante 
do Rio Branco, se davam recontros, á disputa dos postos. 
Grimaldi, truculento, exigia o retorno das tomadias, e satis- 
fação pelo ataque de abril, pela apprehensão de dois navios, 
aliás já relaxados pelo Vice-Rei do Brasil, e ainda por maus 
tratos infligidos alli aos prisioneiros, depois repatriados. 
Insinuava que era vão contarmos com soccorro da Inglaterra 
que, absorvida na lucta contra as colónias, nada faria em 
favor nosso. Da mesma forma pensava o embaixador francês 
Blosset, que de Lisboa escrevia ao seu governo não compre- 
hender que Pombal fizesse tanto por arrastar o paiz á guerra 
«quando o seu único alliado se não encontrava em estado 
de o soccorrer» ^. 

Desde 1775 da nossa parte se havia proposto que a 
questão se ventilasse em urq. congresso, a convocar em Paris, 



1 Officio de 26 maio 1772, Coll. Pomb., Cod. 637. 

2 Quad. Elem., 18.o, 255. 



278 RESERVA IMPENETRÁVEL DE POMBAL 



mas com a noticia do ataque do Rio Grande haviam parado 
as negociações. Os governos de França e Inglaterra que, 
como intermediários, buscavam ajustar as difficuldades, 
punham em duvida a boa fé de Pombal, que debalde se 
excusava, invocando as distancias e «as nunca vistas demoras 
que em todo aquelle anno havia experimentado a navegação 
do Brasil» ^ Por essas causas — dizia — só tarde as suas 
ordens puderam chegar ás forças em campo. Em Londres 
lord Weymouth, secretario de Estado, manifestava ao nosso 
representante estarmos na obrigação de provar que os 
portugueses não tinham sido os aggressores, e que as ordens 
não tinham ainda chegado ao Brasil quando a acção occorreu ^, 
Em Paris, o ministro dos extrangeiros Vergennes considerava 
«cheias de falsidades e contradições» as memorias justifica- 
tivas do nosso governo. «Tal é — accrescentava — o juizo que 
El-Rei e o seu conselho fizeram d'esses documentos» ', O 
próprio nosso representante na França, Vicente de Sousa 
Coutinho, deixava entender duvidas sobre a sinceridade do 
primeiro ministro. A suspeição geral empecia o êxito da 
intervenção. 

O que todos viam era o governo português caminhar a 
largos passos para a guerra formal. Debalde Walpole, em 
Lisboa, aconselhava que restituíssemos os postos conquis- 
tados. Em Londres e Paris, os nossos diplomatas, instados 
no mesmo sentido, não sabiam como responder ás instancias 
das chancelarias. Pombal encerrava-se em reserva impene- 
trável, deixava-os privados de instrucções, paralysando assim 
os esforços dos medianeiros. A verdade é que a experiência 
de 1762 lhe dissipara todo o medo á Hespanha, e que o 
mesquinho successo de abril o enfatuava. Se da Grã-Bretanha 
lograsse qualquer soccorro, tinha por seguro sahir da contenda 
victorioso. 

Em outubro de 1775, enviava a Luiz Pinto de Sousa a 
resenha dos seus recursos bellicos : «Temos os nossos arsenaes 



1 Idem, 253. 

2 Id., 258. 

3 Quad. Eletn., IS.o, 275. 



RECURSOS BELLICOS DE PORTUGAL 279 



e armazéns do exercito cheios de toda a artilharia, armamentos 
e munições de guerra para sustentarmos por algtms annos, 
sem a necessidade de fazermos entrar de fora do reino nem 
um só arrátel de pólvora; temos as nossas tropas tão bem 
displinadas e providas como as deixou o marechal general 
conde de Lippe; temos a província do Alemtejo, que é a 
mais importante e a mais vizinha da corte, fechada com a 
praça de Elvas, e com a outra, inexpugnável, do Alonte da 
Praça, a ella superior, que foi a maior e mais útil obra do 
referido conde. . .» i Continuava fazendo o elenco das forti- 
ficações e meios de resistência nas outras fronteiras, e rema- 
tava a exposição notando ser o ensejo opportuno para a 
Inglaterra mandar um contingente de tropas e officiaes 
aguerridos, egual ao de 1762, que, como então, bastaria para 
restabelecer o equilíbrio das forças em campo. 

Mas o tempo ia passando, e o desejado soccorro [não 
chegava. Debalde, por instigar o zelo do alliado, Pombal 
relembrava o cansado argumento: «Qual seria a potencia da 
Europa com que a Inglaterra supprisse a falta da confederação 
de Portugal? Quaes seriam os paizes onde a 'mesma Inglaterra 
fizesse, em beneficio do seu commercio, o consumo das 
mercadorias que introduz no continente doestes reinos, e que 
d'elles passam ao Estado do Brasil?» ^ Para dar mais uma 
vez arrhas da sua dedicação, mandava repellir dos portos 
os navios das colónias da America, levantadas contra a 
Inglaterra, e prohibia que em circumstancia alguma se lhes 
prestasse o minimo soccorro. Ao mesmo passo, externava 
o seu intimo sentimento, invocando a solidariedade dos 
príncipes, e affirmando a sua indignação dos «vassallos tão 
publica e formalmente rebiellados contra o seu natural sobe- 
rano» 3, Era a mesma sanha contra a reacção popular, que 
castigara o motim do Porto, e propuzera o concurso a 
Carlos III para jugular a revolta dos sombreiros, A consequência 



i Oft. a Luiz Pinto de Sousa. Idem, Id. 583. 

2 Documento publicado poi Soriano, Hist. da guerra civil, 2.», 633. 

3 Edital, 5 julho 1776. 



280 PLANOS BELLICOSOS DE POMBAL 



foi cahirem sobre a navegação portuguesa os corsários dos 
rebeldes, em desforço, com grandes damnos da mesma. 

Sem embargo das razões e blandícias, o governo 
britannico não propendia a favorecer os intuitos pugnazes do: 
nosso. Calava-se ou contemporizava, na expectativa da 
mudança politica, que resultaria da morte do Rei, prevista 
para breve. Em setembro de 1776, Luiz Pinto avisa a Pombal 
que, na opinião do ministério, D. José não poderá viver muiio, 
e que «neste supposto tudo se transformará na corte» ^. Mas 
a prevenção não obsta a que em Lisboa persistam na 
mesma trilha. 

Estava o anno a findar, D. José nos paroxismos da 
enfermidade, e agonizante por isso o poder do ministro. 
Maravilhava, pois, vel-o buscar com tanto afan uma guerra, 
a que porventura seriam adversos os futuros soberanos. 
Talvez elle, porém, nessa cartada intencionalmente jogasse 
o seu destino. Vencedor, como tudo lhe prenunciava, quem 
ousaria esbulhal-o da autoridade? Vencido, quem o poderia^ 
egualar na experiência, para regular a situação politica? íia 
energia, para restaurar a jnaçâo á consciência de si? Em ambas 
as conjuncturas seguraria o logar ao lado do throno; mas é 
licito suppôr que no triumpho houvesse posto todas as 
esperanças. 

Indifferente aos desenganos, Pombal não descontinuava 
de chamar o auxilio da Inglaterra, Nada coiíseguindo do 
governo, recorreu, como na passada guerra, á opposição, 
cujos membros instigava a inculcarem a obrigação dos 
tratados, e a indignidade do gabinete, que os não cumpria. 
A proeminente figura do partido era Pitt, já então Jord 
Chatham, o mesmo que em 1762 fizera votar o soccorro a 
Portugal, e que agora propugnava a paz com as còfonlas, 
e uma politica vigorosa contra a coalisão dos Bourbons. 
Parecia-lhe o êxito por este lado mais provável, O Enviado 
português não poupava por isso esforços para grangear o 



1 Carta confidencial de Luiz Pinto de &)usa. CoH. Pomb , Cod. 
69b. 



INUTILIDADE DA ALLIANÇA INGLESA 281 



apoio dos chefes whigs. Para esse fim ministrava, sobre os 
acontecimentos do Brasil e negociações diplomáticas, notas 
que deviam servir para a discussão no parlamento ou para 
a publicação nas gazetas. Lord Manchester foi o intermediário. 
Tudo, porém, sahiu baldado. 

Em 1777, a 24 de fevereiro, falleceu D, José. No mesmo 
dia, a expedição, que fora de Hespanha vingar o desastre 
do anno antecedente, no Rio Grande, tomava-nos a ilha de 
Santa Catharina. Apesar de previsto o ataque, de reunidas 
todas as forças disponíveis, o proceder das nossas tropas 
foi deplorável. De nada serviram os batalhões de gente de 
côr, que, no conceito de Pombal, a exemplo dos pandiiros, 
deviam infundir no inimigo terror insuperável. A capitulação 
foi vergonhosa, e de tal modo incomprehensivel, que o 
ministro teye depois que se defender de a haver elle próprio 
ordenado. A verdade é que a organização militar do paiz, 
de que Pombal, como vimos, se jactava, enfermou sempre 
dos mesmos males de abandono e incapacidade, herança dos 
reinados anteriores que annullava as virtudes militares da 
nação. Em 21 de maio cahia a colónia jdo Sacramento em 
poder das forças de Buenos Ayres. A disputa de tantos annos 
ficava assim definitivamente ultimada; as bravatas do ministro, 
sem ef feito; a inutilidade da alliança inglesa evidenciada. 



CAPITULO IX 



EXTiNCÇÀO DOS JESUÍTAS 



Os jesuítas c a politica de Hespanha. As reformas da instrucçSo. 
Autonomia da Egreja portuguesa. Tentativas de conciliação abor- 
tadas. A Dediução Chronologica. — II. Eleição de Clemente XIV. 
O novo pontífice e as potencias. Suggestões de Pombal sobre 
a abolição dos jesuítas. — III. Reatam-se em Portugal as rela- 
ções com a Santa Sé. Nova aggressão ao rei attribuida aos je- 
suítas. Concessões do Pontífice ao governo português. Vernev 
expulso de Roma. Trégua nas exigências das cortes. — IV. 
A Hespanha dirige as negociações em Roma. Hesitações de Cle- 
mente XÍV. Publica-se a bulia de suppressão. Morte de Oan- 
ganelli. — V. Receios em Madrid e Lisboa da reacçio jesuítica 
Eleição do Pio VI. Pombal suspeitoso do novo Pontífice. 



Os dissentimentos com a Hespanha e a Inglaterra não 
impediam a Pombal de pensar nos jesuítas; pelo contrario, 
elles continuavam a ser a sua preoccupação máxima, e, cada 
vez que um inesperado estono á sua politica, uma critica 
aos seus actos, lhe provocava a irritabilidade, os jesuítas 
eram, como vimos, os responsáveis, o perpetuo inimigo que 
muito importava combater. 

A diversão com Grimaldi não fora mais que um incidente 
da mesma pugna. Pombal teve sempre o genovês por instru- 
mento d'aquelles religiosos. Guerra do Pacto de familia^ 



284 OBSESSÃO DE POA1BAL CONTRA OS JESUÍTAS 



questões da America, divergências em Paris ou Madrid, 
contrariedades na Inglaterra, para elle tudo isso eram machi- 
nações da Companhia de Jesus e de Grimaldi. Desde que este, 
em 1762, negociara o famoso tratado com a França, não 
cessara nunca de nos hostilizar; e ainda, expulsos de Hespanha 
os filhos de Loyola, ficara elle, ministro influente^ ao lado 
de Carlos III, para empecer as deliberações que lhes fossem 
nocivas, e o bom entendimento com a corte de Portugal i. 
Tal era a sua arreigada convicção. 

Quanto aos padres, em todo o tempo, desde que encetara 
com elles a contenda, mesmo nas situações mais criticas e 
durante os mais absorventes labores, nenhum pensamento 
era assas poderoso para lhe desterrar do espirito a lembrança 
de tão temido adversário. Dizendo uma vez Choiseul, ao 
ministro de Portugal D, Vicente de Sousa Coutinho, que 
o negocio dos jesuítas, supposto fosse grande, era dos que 
menos o preoccupavam, por ter muitos outros de mais valia 
em França e na Europa, Pombal, instruído de taes palavras, 
commentava-as assim : «Não ha negocio tão grande que não 
seja menor que este, barateado pelo duque» -. 

Era uma permanente obsessão, exteriorizada a cada passo 
em actos e palavras, e que á legislação pombalina impoz 
o iseu cunho, em algumas das suas mais notáveis resoluções. 
D'este numero é tudo o que diz respeito á instnicção publica. 



i Vej. por exemplo o documento intitulado: Compendio ctnalytico 
das negociações entre as cortes de Lisboa e Madrid desde 1759 até 
ao fim do anno de 1775, onde se lê que «o Marquez (de Qrimaldi) 
e CS jesuítas seus associados fizeram divulgar em Lisboa e no Porto 
um libello diffamatorio, intitulado Prophecia politica, no qual se tra- 
tava de persuadir que os ingleses opprimiam os portugueses e ©s 
tratavam como escravos, e o contrario publicavam na praça do com- 
mercio, e em outro logares públicos da capital de Inglaterra^ rema- 
tando a dita exposiç?o, que «de tudo isto se concluía que as inten- 
ções do marquer. de Grimaldi nunca foram sustentar os interesses de 
El-rei Catholico e manter a paz entre as duas coroas, mas servir os 
jesuítas, conconendo para os seus projectos hostís;>. Quad. Elem., 18.o, 
393 e seg. 

" Coll. Neg. de Roma, 3.o, 50. 



INSTRUCÇÂO PUBLICA E SANTO OFFICIO 285 

Desde a lei que fechou as aulas gratuitas dos jesuitas, em 
1759 1; até á estrondosa reforma da Universidade, treze 
annos depois, tudo o que em tal matéria se decretou teve 
por fim, affirmava o ministro, combater a ignorância, e 
supprimir os erros, que durante dois séculos a pedagogia 
jesuitica havia instillado na mentalidade portuguesa. Vincu- 
lada ao ensino pela vigilância dos livros, a Mesa Censória 
fitava a desarreigar doutrinas perniciosas, que a Companhia 
tinha propagado, a divulgar obras e autores por ella condem- 
nados -. Em relação ainda com a formação do intellecto 
nacional, a reforma do Santo Officio — guarda da crença, 
crisol seguro das idéas — , abonava-se com o propósito de 
eliminar pretendidos effeitos da influencia jesuitica, que no 
tribunal introduzira praxes abomináveis, cruéis disposições 
que transgrediam, como o legislador affirmava, «todos os 
direitos, natural, divino e positivo, toda a caridade christã, 
e até os dictames da mesma humanidade» ^. O que não 
impediu que ficasse o tormento em vigor para os heresiarchas, 
nem que altos espiritos fossem ainda perseguidos sob o novo 
regulamento. A verdade é que o ministro, affeiçoado á 
instituição, tinha somente em mira confiscal-a para a defesa 
do Estado, considerando-a tribunal régio, e não dependência 
ecclesiastica como fora até então. Mas nem os jesuitas tinham 
parte nisso, nem elles foram os instigadores das barbaridades, 
que o mundo inteiro verberava. Em compensação, haviam 
já fornecido ao tribunal duas victimas famosas : António 
Vieira, condemnado um século antes por offensas á fé, e 
ultimamente o visionário Malagrida. 

Como as providencias acima, muitas outras em todos 
os ramos da administração, ordens, despachos, actos quoti- 
dianos do governo, obedecem á predominante idéa de esmagar 
o jesuita, pela qual, de 1759 em diante, se norteia o reinado, 
Maleficios em (que realmente cria, ou invocados por conve- 



1 Alvará de 28 julho 1759. 

2 Lei de 5 abril 1768. 

3 Preambulo á lei de 1 setembro 1774. 



286 AUTONOMIA DA EGREJA PORTUGUESA 



niencias da causa, por elles, taes como Pombal os apontou^ 
a consciência nacional julga ainda hoje a Companhia de Jesus. 

Pela despedida do Núncio, em 1760, as relações entre 
a corte de Lisboa e o Papa haviam cessado. O embaixador 
português sahira também de Roma, c desde então a Egreja 
lusitana tinha por chefe verdadeiro o primeiro ministro, não 
o Pontifice. As decisões, que até ahi se iam buscar a Roma, 
foram devolvidas aos bispos, subordinados á coroa. Dispensas 
matrimoniaes, provisão de beneficios, sagração dos novos 
diocesanos, tudo era competência do episcopado. Canonistas 
ao serviço do governo — entre esses António Pereira, na 
Tentativa theologica foi o mais celebre — assim o demon- 
stravam. Faltando a Bulia da Cruzada, o patriarcha, a pedido 
da Casa dos Vinte e quatro, dera indulto da abstinência ide 
ovos e lacticinios na quaresma. A autonomia religiosa da 
nação era, póde-se dizer, completa, e o ministro omnipotente, 
em tudo a ella respectivo, suggeria, intervinha e dispunha. 

Isso porém não caminhava sem attritos, porque o espirito 
romanista da população reagia. Nem todos acceitavam as 
dispensas dos bispos, e d'estes, poucos eram a concedel-as, 
por escrúpulo e submissão á Santa Sé. Muitos matrimónios, 
por essa causa, não se realizavam. Com a abstinência foi 
o mesmo; ás timidas consciências não socegava a concessão 
do Patriarcha. Ao mesmo tempo, o rendimento, que o Estado 
auferia da bulia, relativamente avulíado, fazia falta ao erário 
sempre exhausto. Com isto tudo contava o Pontifice para 
a sua victoria final. 

Desde 1764, o Rei, catholico timorato, desejava o conflicto 
apaziguado, e por vias indirectas o fizera constar a Cle- 
mente XIÍI. Como a hostilidade da corte pontifícia se imputava 
principalmente ao secretario de Estado Torregiani, o Patriarcha 
de Lisboa, servindo de intermediário, escrevia directamente 
ao Papa. Este, á vista dos desejos de congraçamento mani- 
festados, entendeu chegada a occasião de Oeiras capitular 
e, fazendo-se esquivo, quiz impor condições: primeiro que 
tudo pedia o restabelecimento dos jesuítas no reino, persua- 
dido que a França e a Hespanha, seguindo o exemplo, os 
readmittiriam também. Por sua vez, Oeiras exigia que nos 



INÚTEIS TENTATIVAS DE CONCILIAÇÃO 287 



jesuítas se não falasse ; que o destino dado aos bens confis- 
cados á Companhia fosse approvado; finalmente que o 
cardeal Torregiani nunca mais interviesse em assumptos 
referentes a Portugal. E, a propósito, exclamava irritado que 
o Geral dos jesuitas era o verdadeiro Papa, e Clemente Xill 
um imbecil, que devia ser deposto, por tantos abusos que 
em seu nome deixava commetter i. O Papa, vendo que o 
adversário se não dobrava, escrevia afinai a D. José e ao 
ministro, no amavioso tom ritual da Santa Sé, exorando .a 
reconciliação. Mas um e outro responderam de modo que 
toda a lesperança fenecia. Sob as formulas da apparente vene- 
ração, a epistola do Rei era aggressiva, a do ministro irónica, 
e em ambas resumbrava o patente desapreço á tentativa do 
Pontifice, 

Inconsciente dos perigos da situação, e cego pelo amor 
sobreposse ao instituto de Loyola, Clemente XIII respondera 
ao acto da suppressão dos jesuitas em França com o breve 
celebre Apostolicum pascendi, em que confirmava a existência 
da Sociedade tal qual se achava instituída, e pretendia defcn- 
del-a das múltiplas accusações, que em toda a parte, nos 
paizes catholicos, contra ella se levantavam. O effeito d'essa 
leviandade foi deplorável. Redigido em segredo, nos aposentos 
do Papa, com a collaboração do Geral da Companhia, padre 
Ricci ; ignorado pelos cardeaes, e pelo próprio secretario de 
Estado; este documento escandalizou a opinião imparcial, e 
até dentro do Vaticano produziu surpresa e desgosto. 

No anno seguinte, em setembro, a publicação de outro 
breve, o Animar um saluti, em idêntico sentido, mereceu egual 
reprovação, e attrahiu sobre o Pontifice e seus protegidos 
animosidade ainda maior. Ao tempo em que Clemente XIII 
tomava a deliberação de escrever ao rei de Portugal e a 
Oeiras, sahira este contra elie oo:n um edito que certamente 
havia de lhe desvanecer toda a esperança de pazes. Esse 
decreto feroz ^ declarava sem effeito o breve Animarum 
saluti, mandava entregar ás autoridades as copias existentes. 



1 Officio de Simonin, 24 julho 1767. Quad. E/em., Vil. 215. 

2 28 agosto 1767. 



288 NOVAS MEDIDAS CONTRA OS JESUÍTAS 

e impunha aos detentores, que desobedecessem, a pena de 
confisco dos bens, e as mais estabelecidas por lei nos casos 
de conspiração para offensas á régia majestade. Investindo 
com os jesuitas, prohibia as cartas de confraternidade, mediante 
as quaes os seculares se filiavam á Companhia; considerava 
réos de lesa-majestade aquelles que taes cartas impetrassem 
ou recebessem, e os que tendo-as não as fossem accusar ie 
dar por nullas, em acto publico ante um magistrado. Réos 
de lesa-majestade seriam também os jesuitas expulsos que 
voltassem ao reino, incorrendo as pessoas que com lelles 
tivessem communicação verbal ou por escrípto na pena de 
degredo, comminada egualmente aquelles que, sabendo dos 
factos incriminados os não fossem denunciar. Divulgado isto 
foi enorme a consternação em Roma. Carlos III, expulsando 
de Hespanha os jesuitas, prohibira também a communicação 
com elles e as cartas de confraternidade, mâs o decreto de 
Oeiras excedia na violência tudo quanto até então: se fizera. 

Este não foi todavia o golpe mais rijo. Não satisfeito, 
o ministro ia atacar o inimigo em outro terreno. Nesse 
mesmo anno sahiu á luz a Dedacção chronologica, «obra 
porventura a mais importante de quantas se teem publicado 
contra os jesuitas», diz um historiador ecclesiastico ^, Dois 
grossos volumes, e o terceiro de Provas, cxcerptos e docu- 
mentos em abono do texto, composiçã,o de estylo duro je 
fastidiosa leitura, abundante em factos, mal interpretados uns, 
aleivosos outros, sem autoridade para o imparcial- estudo 
da questão, mas que, apparecendo em plena refrega, resoaram 
na Europa com um fragor de mina que estoira, destroçando 
muralhas. 

A primeira parte occupa^e dos jesuitas, desde que 
entraram em Portugal, e, revendo a historia pátria, fal-os 
intervir, como funestos agentes, em todos os successos fataes 
ou condemnaveis que occorreram depois, a principiar no 
desastre de Alcacerquibir e terminar no attentado contra 



1 Theiner, Histoire du pontijicat de Clément X/V, trad. Paris 
1852, l.o, 94. 



A OBRA DOS jesuítas 2S9 



D. José; para isso encadeia os factos em uma serie ,de 
suscitadas intrigas, conspirações e revoltas, por meio das 
quaes a Companhia tentara sempre subordinar ás suas 
ambições o supremo poder do Estado. A segunda parte 
argúe os direitos dos soberanos contra as pretenções de 
supremacia da Santa Sé, rejeita os índices expurgatorios, publi- 
cados sem o régio beneplácito, e, sempre com invocação 
de factos históricos, mais ou menos exactos, faz intervir os 
jesuitas em tudo o que, desde que tiveram existência, em 
semelhante matéria foi passado. Ambas as divisões constituem 
appenso a uma petição do procurador da coroa contra os 
abusos da corte de Roma e os manejos perniciosos dos seus 
protegidos. 

Tudo quanto dois séculos de justas queixas, de rivali- 
dades e má fé, haviam juntado contra estes religiosos se 
acha compendiado nos dois pesados tomos. Parlamentos de 
França, tribunaes vários, governos coloniaes, historiadores, 
praxistas, follicularios, espiões, todos cumulativamente são 
chamados a depor. A these de Carvalho é esta : até á entrada 
dos jesuitas, Portugal foi culto, prospero e poderoso; em 
seguida, as letras agonizam, o commercio definha, a nave- 
gação decáe, o poder militar abate, perdem-se as virtudes 
civicas, e desapparece o equilíbrio nas relações assim entre 
a coroa e a Egreja como entre o Rei e os vassallos ^. Esta 
obra nefasta exercita-se por uma acção continua. Desde o 
reinado de D. João MI os jesuitas conseguem introduzir-se 
na Universidade e arruinam a instrucção. Educam D. Sebastião 
no fanatismo e impellem-no á jornada de Africa. Por morte 
d'elle, intrigam a favor de Felippe II, e, quando investido 
na coroa, fazem morrer cerca de dois mil ecclesiasticos ie 
pessoas doutas, contrarias ao dominio extranho 2, Na corte 



1 Veja-se na Parte I a Divisão I : Em que se contem o compendio 
do estado em que estavam em Portugal as virtudes e lettras, no anno 
de 1540, em que entraram neste reino os denominados jesuítas. 

2 É o caso referido pelo conde da Ericeira no Portugal restaurado. 
Parte I, Liv. I: c^Os castigos dos que falavam qualquer palavra contra 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 19 



2)0 QUEM COMíK)Z A DFDUCÇÃO CHRONOLOGICAI 

de D. João IV preponderam, e urdem a desgraça de Francisco 
de Lucena. A Affonso VI, rei sensato e bom, fazem perder o 
throno, a liberdade e a consorte. Pedro II é levado por 
elles a requerer ao Papa o perdão geral dos hebreus, contra 
o voto das cortes e da nação; criam assim um conflicto 
grave da Cúria com o Santo Officio. Reinando D. João V, 
instigam-no á creação dispendiosa da Patriarchal, e tramam 
a propósito das missões do Oriente e do Brasil. Finalmente 
continuam os malefícios sob o governo de D. José, até rema- 
tarem pela tentativa monstruosa do regicídio. Tal é, em 
vagos traços, o tremendo libello opposto por Carvalho ao 
esforço impotente de Clemente XIII, libello inconsistente 
pelas próprias demasias, mas cujo espirito domina ainda hoje, 
nos juízos sobre o debate e na interpretação da historia. 

Quem reuniu e poz em forma os elementos d'este famoso 
escripto? Quem compoz a Deducção chronologica? Por multo 
tempo se julgou fosse o Procurador da coroa, a quem por 
um estratagema, talvez por ser d'elle a Petição de recurso, 



o governo, e dos que não haviam servido el-rei na conquista do rei.ao 
eram tantos, ainda que occultos, que se não perdoava nem aos religio- 
sos; porque aquelles, a que a tyrannia suppunha delinquentes, oram 
arrebatados de improviso, e levados á torre de S. Gião, de onde 
os lançavam ao mar, que não querendo occultar tanto delicio, trazia 
os corpos ás redes dos pescadores, e retiravam-se d'ellas os peixes, 
oífendidos do insulto, recusando ser mantimento dos homens, que mu- 
dando as disposições de Deus, lhes queriam dar homens por ali- 
mento; e foi necessário que a instancia dos pescadores o arcebispo de 
Lisboa fosse em procissão benzer o mar, profanado com tantos sacrilé- 
gios, para que elle, como succedeu, continuasse a pagar o tributo do 
peixe, que de antes costumava». Outro autor, Manoel Rodrigues Lei- 
lão, no Tratado analyiico e. apologético sobre o provi me nf > dos bis- 
pados em Portugal, com provável exagero diz que «foram mais de 
dois mil os religiosos e ecclesiasticos mortos occultamente». Hecatom- 
be movida pelos jesuítas, pretende a Deducção chronologica, (Parte l, 
§ 253) «em ordem aos seus próprios e vastíssimos interesses, quaes 
eram os de extinguir neste reino os homens letrados e a litteratura, 
para não terem nelle contraditores». Esta só accusação define o nie- 
thodo e os intuitos da obra. 



os EFFEITOS DA DEDUCÇAO CHRONOLOGICA 291 



Oeiras fez que fosse a obra attribuida, mandandoí imprimir 
no f rontispicio : dada á luz por José de Seabra da Silva, Não 
ha todavia duvida que o autor foi Oeiras. O estylo é 
bem d'€lle, e paginas inteiras, additamentos, notas e correcções 
de seu punho, a começar pelo titulo, no original existente, 
tudo dá a prova de que a Deducção foi não só concebida pelo 
ministro, como inteiramente redigida também. Certo que teria 
collaboradores. Por abalisado que fosse no direito ecclesias- 
tico, e erudito na litteratura referente aos jesuitas, não poderia 
sósinho, nesta quadra, a mais afanosa da sua vida, coliigir 
o material immenso de factos, citações e juizos, quie constituem 
o fundo da obra. O próprio José de Seabra, o m'onge Cenáculo, 
o theologo António Pereira, Verney, collaboradbr em Roma 
do ministro Almada, o famoso Platel quando esteve em 
Lisboa, — porque o trabalho é de annos — a todos esses, sem 
arrojo de conjectura, se pôde attribuir algum contingente no 
estrondoso libello, 

A impressão produzida pela Deducção chronologica foi 
enorme. Em França e Hespanha os adversários dos jesuitas 
acolheram-na com jubilo de fácil explicação. De Paris e 
Madrid os Núncios mandaram exemplares para Roma, fazendo 
ver que não somente os jesuitas sahiam do ataque mal feridos, 
senão também a Santa Sé, incriminada de acatar mais os 
interesses d'elles que os da Egreja e da christandade. Somente 
a Torregiani, incapaz sempre de bem comprehender o alcance 
dos acontecimentos, pareceu este de pouca importância. A 
seu ver, a publicação, satisfazendo a curiosidade malévola 
dos adversários da Companhia, era menos em menoscabo 
d'esta que dos soberanos portugueses, culpados de haverem 
deixado a instrucção nacional chegar á situação miserável, 
em tão vivas cores descripta no libello ^ 



i Coll. Pomb., Cod. 443 a 446. 
- TntiNER, CAéiv.enl XIV, l.o, 97. 



292 A QUESTÃO DE PARiWA 



II 



O conflicto com o duque de Parma, surgindo em seguida, 
deu ensejo a Oeiras de in-aginar chegada o momento 
em que poderia forçar o contendor á submissão. Por isso 
o ministro Almada partiu de Lisboa, a juntar-se aos repre- 
sentantes dos Bourbons. Afinal ia-se dar nos jesuítas o golpe 
decisivo, pensav^am em Lisboa. Mentida esperança! A morte 
inesperada de Clemente XIII annullou o projecto, e o assumpto 
foi adiado até á eleição de outro Papa. Os Bourbons abando- 
navam também a questão de Parma. A dos jesuítas era a 
que ia ter a primazia, e todo o empenho d'elles foi logo 
arrancarem ao conclav"e, pelo nome vencedor, o mandato 
da extincção da Ordem. 

Carvalho proclamava a necessidade de um proceder 
enérgico. Confiança no Sacro Coilegio não tinha. «Os votos 
— dizia — são ordinariamente comprados, como agora os estão 
comprando os jesuitac, com mais de dois milhões de despesa» ^ 
Conversando com o ministro de França, affirmava não ficar 
adm.irado se visse eleger Pontífice o próprio Geral da Com- 
panhia -. Propunha, pois, occuparem as potencias o Estado 
romano, e intimarem aos cardeaes que não elegessem um de 
entre elles, mas sim individuo extranho ao Sacro Coilegio, 
solução efficaz, e que os cânones não vedavam. Choiseul, 
porém, mais ponderado, não concordou. Tinha meios de 
conseguir sem violência o seu fim. «O conclave está advertido 
de que o Papa, que não secularizar a ordem dos jesuítas, 
se arrisca a não ser reconhecido pelas potencias» '^, replicava 



1 Instr. a Almada, 8 abril 1769. Coll. Negócios de Ronui, III, 55. 
- Sitnonin a Choiseul, 7 março 1769. Quad. Elem., VIII, 324. 
3 Instr. cit. Coll. Neg. de Roma, III, 55. 



ELEIÇÃO 13E CLEMENTE XlV 293 

ao embaixador português, que lhe submettia o alvitre do 
impaciente Cangalho, 

Choiseul, avisado pelo cardeal Beriiis, que se achava 
lio conclave, estava a par do que no secreto da assembléa 
occorria. Com antecipação assegurava a Car\'aiho que no 
mez de maio haveria Pontífice novo, e não se enganou. No 
espaço que decorreu fervilharam no sagrado recinto as 
astúcias, as combinações, as intrigas. Impellido por Bernis, 
Ganganelli dia a dia foi vencendo a distancia que do ambicio- 
nado soHo o separava. A 19 de maio cingia a tiara, mediante 
o pacto, declarado ou tácito, de anniquilar a sociedade, que 
as coroas detestavam ' ; decidido, porém, logo em seguida, 
a tergiversar, ganhar tempo, illudir a obrigação, desde que, 
afinal eleito, socegada a anda do poder, mediu a responsa- 
bilidade c os riscos do seu empenho gravissimo. 

Apesar d'isso, o novo pontificado inaugurou-se com 
actos de ruim presagio para os jesuítas, Successivamente 
Clemente XIV negava a audiência ao Geral, excusava-se de 
;i:>'sisiii, como era habito de seus predecessores, á festa de 



1 A questão do compromisso de Ganganelli, anterior á eleição, 
tem sido muito debatida pelos historiadores. Os que favorecem a Com- 
panhia affirmam, os defensares de Clemente XIV negam a existência 
do pacto. Dizia-se que a promessa fora dada por escripto ,íos cardeaes 
hespanhoes. Um escriptor notável. Crétineau-Joly, ferrenho sectário dos 
jesuitas, affirma ter visto o documento. Mas o testemunho é suspeito, 
e o facto é que elle atC' hoje não foi encontrado nos archivos de 
Hespanha. Segundo Bernis, que estava no caso de bem saber, Gan- 
ganelli escrevera um bilhete dizendo simplesmente que, na sua opi- 
nião, o soberano pontifice podia em consciência extinguir a sociedade 
dos Jesuítas, observando fís regra-^ canónicas e as da prudência e da 
justiça, (despacho de 20 de novembro de 1769). Ao padre Deshaises, 
conclavista de Bernis, com quem teve uma conferencia antes da elei- 
ção, o futuro papa disse que -quanto aos jesuitas estava convencido 
que a destruição d'elles era necessária, e cuidaria d'isso dentro das 
formas indispensáveis.;; (Masson, le cardinal de Bernis, Paris 1884, 
108). Talvez sejam invenções; mas tudo o que se passou no conclave, 
e os actos de Clemente XIV, seguintes á exaltação, são factos que 
não deixam duvida de que, acceitando a tiara, elle sabia já que aquella 
tarefa irrevogavelmente lhe incumbia. 



294 O NOVO pontífice E AS POTENCIAS 



Santo Ignacio, no principal templo da Companhia, € prohibia 
se publicasse a collecção de trechos laudatorios, que a 
propósito da sua exaltação os collegios de Roma lhe offere- 
ciam. Desde logo, por natural pendor ou affectado receio, 
adoptava a praxe de viver segregado com seus familiares, 
como quem pretendia furtar-se a nocivas influencias, ou temia 
a revindicta do grande acto, que tinha tm mente praticar. 
No recesso dos seus aposentos do Vaticano passava os dias, 
acompanhado apenas por um leigo de confiança, que era 
o seu mais intimo amigo e lhe servia de mordomo e cosi- 
nheiro. Por confidentes Íntimos tinha o padre Buoníempi, 
seu confessor, e o monsenhor Macedónio, a quem secreta- 
mente incumbia de fazer por escripto ou de voz, aos 
embaixadores, as communicações, que julgava para si de 
compromettimento. 

Ao receber pela primeira vez os representantes dos 
governos interessados em destruir os jesuítas, não hesitou 
em lhes dizer que o desejo d'elles seria cumprido. A Car\'alho 
mandou fiança escripta da promessa. Tomando a iniciativa 
das relações diplomáticas, abriu com elle correspondência, 
pedindo que o Núncio fosse recebido em Lisboa, e em troca 
d'isso assegurava despacho ás dependências que a corte 
portuguesa tinha da Santa Sé. «Quanto aos negócios — 
continuava — de interesse commum com as outras cortes, 
pedimos-lhe que tenha em nós confiança, e não permitta 
virem os alliados com exigências descabidas, e não condu- 
centes ao fim que temos em vista» ^ É de notar que princi- 
piava a missiva pondo á disposição da corte portuguesa um 
capello de cardeal. O mesmo era que nomear Paulo de 
Carvalho, irmão do ministro. A offerta facilitava com certeza 
o intento do Papa. 

Acompanhava a carta outra de Macedónio, referindo a 
situação embaraçosa de Clemente XIV, sem confiança nos 
ministros de França le Hespanha, e pouco seguro' da lealdade 



1 Breve ao conde de Oeiras, 28 agosto 1769. Coll. Neg. de Roma, 
3.0, 61. 



RESTABELECIMENTO DE RELAÇÕES COM A SANTA SÉ 295 



dos seus. E claramente, em nome d'elle, exprimia o propósito 
de extinguir os jesuitas, e a promessa de o fazer logo que 
as circumstancias tal permittissem. 

O acto inesperado do Papa surprehendeu a Oeiras. 
«A novidade que causaram a referida carta, e a papeleta que 
a acompanhou, fizeram susp-eitar n^elias a falta de sinceridade 
e artificio curial»^. Esta foi a impressão do momento. Refle- 
ctindo, porém, achou de boa politica corresponder ás dispo- 
sições do Pontifice, que lhe resolviam difficuldades da 
administração interna, e satisfaziam o expectante anceio do 
soberano pela reconciliação. N'este sentido meditava: «Nada 
se perde em receber o Núncio e se abrir correspondência 
entre as duas cortes, nem quanto ao passado, nem quanto 
ao futuro. . , Pelo que pertence ao passado, porque toda a 
satisfação que S. M. pedia era contra os ministros do Papa 
Clemente XIII, e estes se acham já declarados indignos pelo 
Santo Padre reinante. . . Pelo que pertence ao futuro, porque 
S. M. em nada cederá, com a chegada do Núncio, dos seus 
interesses sólidos e sustentáveis, antes fará tudo que reces- 
sario fôr para os conservar» -. 

Era o que Ganganelli buscava, receioso de ver Portugal 
separar-se de \ ez do grémio catholico. Com perfeita inde- 
pendência, sob a mão férrea do ministro, a machina eccle- 
siastica ia funccionando sem Núncio, nem subordinação alguma 
á Santa Sé. Habituada a nação ao regimen, tomando o 
governo gosto pela emancipação, era de temer o apartamento 
definitivo. Que melhor obra para um Pontifice que trazer 
á obediência este filho da Egreja extraviado? Além d'isso, 
acicatado por França e Hespanha, para destruir os jesuitas, 
parecia-lhe ainda Oeiras o solicitador mais ncfrcgo, e que 
primeiro convinha applacar. A purpura, que o irmão do 
ministro não vestiu, por fallecer entretanto, transferida por 
isso ao favorito D. João da Cunha; a offerta do seu letrat.o, 
privilégios para a capella de Oeiras, indulgências, distincções 



i ColL Ne^. de Roma, 3.o, 61. 
2 Idem, ici., 63. 



29ÍI SUQGESTÕES SOBRE A ABOLIÇÃO DOS JESUÍTAS 



pessoáes, em que o orgulho do fidalgote elevado aos fastígios 
se comprazia; em assumptos do governo ecclesiastico absoluta 
condescendência; tudo isso valeu a Canganelli a bemquc- 
rença d'aquelle que como contendor mais temia. 

Como primeiro favor, Oeiras ia deixar por algum 
tempo em ma'turação os negócios dos jesuítas.- As confidencias 
do Papa tinham-lhe avivado a suspeita com que olhava a 
Grimaldi, a Choiseul, e aos ministros que em Roma os repre- 
sentavam. Persuadido que possuía a confiança de Clemente 
XIV, ia-lhe dando alvitres para facilitar a extincção, Aconse- 
Ihava-o a entabolar secretas negociações com Tanucci, 
primeiro ministro de Nápoles, para este mandar avançar 
tropas até perto de Roma, e d 'esse modo, certoi de subjugar 
as resistências, poder elle sem receio decretar a desejada 
abolição. A Almada recommendava que com os outros diplo- 
matas usasse de toda a reserva, nada deixando transpirar das 
correntes negociações. Para que, violada a correspondência, 
não fosse o segredo conhecido, o Papa seria designado pof 
conselheiro douto, Macedónio por amigo bem informado. Quando 
se tratasse de novas representações sobre os jesuítas, fizesse 
elle notar aos collegas que era inútil affligir o Santo Padre 
com instancias verbaes, desde que as cortes lhe não davam 
o auxilio material, único meio de levar o negocio á termi- 
nação. Assim Oeiras voltava ao propósito antigo de realizar 
com o apparato da força aquillo que os Bourbons só quería.m 
sem a presumpção de violência. 

Neste sentido escrevia ao Papa: «Se Portugal fosse tão 
vizinho dos Estados de Vossa Santidade como o é da fronteira 
de Hespanha, posso assegurar que El-Réi poria logo todas 
as suas tropas ás ordens de Vossa Santidade^) ^ Mas como 
tal se não dava, aquelle tinha a vantagem de ficar ^r 
algum tempo desembaraçado de insltancías. Carvalho assim 
lh'o affiançava: «Quanto ao negocio da causa commum com 
as outras cortes, que teem instado pela extincção dos jesuítas, 
ficando El-Reí, pela carta de Vossa Santidade, na certeza 



Carta de 5 outubro 1769. Coll. Neg. de Roma, 3.o, 64. 



PROMESSAS DE GANGANELLI 29' 



em que Vossa Santidade o pãe de que quer effectivatnentc 
extinguir os jesuítas, logo que para isso tiver prudente segu- 
rança, e vendo claramente que Vossa Santidade a não teve, 
nem tem, nas circumstancias em que até agora se achou, 
não cabia na consummada circumspecção e filial ternura do 
dito monarcha mandar ao seu plenipotenciário outra instnicção, 
que não fosse a que elle secretissimamente communicará a 
Vossa Santidade). ^ A insírucção era a que atraz fica mencio- 
nada, sobre a necessidade de darem as potencias ao Papa 
o soccorro militar, e como nem ellas o propunham, nem 
elle o solicitava, a dilação era forçosa e a sua justi- 
ficação curial. 



III 



Em dezembro ficou assente o restabelecimento das 
relações entre a Egreja portuguesa e o Pontífice, sendo o 
cardeal Conti indigitado para Núncio. Em termos de gratidão 
Ganganelli escreveu a D. José e a Oeiras, a testemunhar 
o seu jubilo, não se descuidando de alludir em phrases 
mysteriosas e de vaga promessa ao negocio dos jesuítas. 
(iValtro importantíssimo quas'í commune affare si stà attiial- 
mente lavorando, diz ao ministro. A D. José promette, sul 
punto dei commune affare ben noto delia Sacra Maestà Vostra, 
dar egual satisfação que ao Rei de Hespanha 2. Com estes 
artifícios entretinha o arrogante solicitador, já domado, e 
pensava adiar indefinidamente a questão. 

Prometterido sempre tudo, esquivando-se em seguida, 
Ganganelli estava de boa fé. Era o seu caracter um mixto 
singular de exuberância, astúcia e timidez. Sem freio na 
palavra, deixava-se levar pela facúndia invencível, excedia o 



1 Idem, Id., 65. 

^ Breves de lU át dezesibro de 1769. Coll. Neg. de Roma, 
3.0, 72, 73. 



208 AGGRESSÃO CONTRA O REI ATTRIBUIDA AOS JESUÍTAS 

seu propósito, e depois, afflicto, recuava, evadia-se, procu- 
rando ganhar tempo, na expectativa do successo imprevisto 
que o libertasse do involuntário compromisso. Foi assim que 
longo prazo esperou que a morte do Geral Ricci, gravemente 
enfermo, lhe permittiria solver, com relativa facilidade, a 
questão dos jesuítas. Fallccendo elle, prohibia a eleição de 
outro Geral; meio caminho andado para secularizar a ordem. 
Mas o facto com que contava não se realizou. Em grande 
consternação viu o doente perdido convalescer. Mas, quando 
assim não fosse, porventura no momento opportuno hesitaria 
ainda. E d'esta arte, de recuo em recuo, foi acossado até 
mais não poder recusar o acto decisivo, ante o qual, por 
longo tempo, em frémitos de pavor estarrecia. 

Entretanto, um caso succedido em Portugal veiu pertur- 
bar-lhe o relativo descanso das preoccupaçòes sobre o temido 
negocio. Em 3 de dezembro de 1769, sáhindo D. José para 
a caça, em Villa Viçosa, ao cruzar a cavallo o portão da 
tapada, acommetteu-o ás pauladas um homem, que, cosido 
com o muro alli se embuscara. Facilmente se livrou o 
soberano, com um galão da montada, sahindo incólume. O 
aggressor, pobre de espirito, rude camponio a quem tinham 
embargado uma besta de carga, seu ganha-pão, imaginara 
vingar o aggravo na pessoa do Rei. Prenderam-no logo, e, 
facto extranho neste reinado sangrento, foi-lhe poupada a 
vida. Tido por louco, morreu no cárcere passados annos. 
O tribunal, que sentenciou os Tavoras, d'esta vez não teve 
de Se pronunciar, tão patente seria a bestial estupidez, ia 
demência formal do criminoso. Explicando a singularidade 
do attentado, correu tempos depois por verídica a seguinte 
historia. Tendo o homem uma pretenção a despachar, Fran- 
cisco Xavier de Mendonça, secretario de Estado, que acom- 
panhara o Rei a Villa Viçosa, por se livrar das importunações 
d'elle, que se queixava, dissera-lhe por chiste: Isso não é 
commigo, é com El-Rei. Vae-lhe dar com um pau; e o imbecil 
assim fez, do que resultara morrer de desgosto o faceto 
ministro. Anecdota evidentemente forjada, por isso que o 
caso passou a 3 de dezembro, e Mendonça fallecera imuitos 
dias antes, a 15 de novembro. 



NOVOS ATAQUES AOS JESUÍTAS 2Ç9 

Na corte não s€ admittia perder tão azado pretexto de 
intrigas, que a facção dominante explorou contra aquelles 
que, subjugados muito embora, temia sempre. O cardeal da 
Cunha, creatura de Oeiras, insinuou que bem podia ser 
mandante do assalto o infante D. Pedro, e não será conje- 
ctura temerária imaginar que o primeiro ministro não seria 
extranho á suggestão. Tratou-s2 o caso em conselho, mas 
tão descompassada iera a calumnia, que o próprio Rei, desaf- 
feiçoado ao irmão, ainda após o casamento, a repelliu defen- 
dendo-o i. O intento de inutilizar o futuro monarcha foi d'esta 
vez, como das outras, burlado. 

Ao menos, deu o acontecimento matéria para novo 
ataque aos jesuítas. Em Roma o Enviado português apre- 
sentou ao Papa um memorial em que, descripto o facto, 
considerava os jesuítas m.andantes e responsáveis, e recla- 
mava em termos acrimoniosos a immediata suppressão da 
Ordem. Em mais commedida forma, o cardeal Bernis, embai- 
xador de França desde o conclave, em nome das cortes 
bourbonicas, reforçou as queixas de Almada, ficando porém 
muito áquem d'elle na satisfação exigida. «Não se pede que 
a sociedade dos jcsuitas seja punida e exterminada — dizia 
elle — pede-se que seja desarmada e fique impotente» -. 
Era o bastante para infamar os jesuítas, a quem se assacava 
tnais um crime; não, todavia, para contentar as cortes de 
Lisboa e Madrid, que só com a extincção ficariam satisfeitas. 
Oeiras manifestou o seu desgosto, e Bernis, que pensara, 
com esta intervenção, dar arrhas de lealdade ás duas cortes, 
continuou a ser-lhes suspeito ?'. Sem embargo, julgava elle 
de tanto valor a sua representação, e o caso de Villa Viçosa 
tão importante, que escrevia a Choiseul: «A sorte dos jesuítas 



1 Cf. a nota de José cie Seabra, transcripta no seu Elogio pelo 
marquez de Rezende, pag. 35. 

- CoU. Neg. de Roma, 3.", 144. 

•^ «Si après ce ménioire je suis encore accusé à la cour de .Ma^ 
drid de jésuitismc, il y aura dans cette accusation autant de malheur 
que d'injustice; . Bernis a Choiseul, 16 janeiro 1770. Theiner, l.o, 543. 



300 OEIRAS FEITO MARQUES DE POMBAL 

está hoje decidida. Só a morte do Papa, ou qualquer aconte- 
cimento semelhante, a poderá demudar» i. 

Em junho de 1770 chegou a Lisboa o Núncio, que foi 
recebido com excepcionaes honras, e, a 25 de agosto, um 
decreto annunciou que as relações com a corte pontifícia 
se achavam restabelecidas, nas condições anteriores ao rompi- 
mento de 1760. Tanto em Roma como em Lisboa a recon- 
ciliação foi considerada facto de grande alcance. Celebra- 
ram-no, em ambas as capitães, solemnidades religiosas. 
Clemente XIV mandou cunhar medalhas commemorativas, 
para distribuir aos príncipes catholicos. D. José, alliviado 
do peso, que lhe opprímia o timorato espirito, premiou o 
seu ministro com o titulo de marquês de Pombal. O povo, 
romanista por habito e tendência, julgou mais accessivel a 
salvação. E até, fora de Portugal, o partido anti-jesuitico 
viu no acontecimento um indicio de victoria. Almada procla- 
mava que o seu Rei, fiado na palavra, que lhe dera .o 
Pontifice, de supprimir os jesuitas, não lhe quizera ficar 
somenos em generosidade; por isso admittira o Núncio. 
Bernis entendia que, liberto o Papa de cuidados sobre os 
negócios de Portugal, não tardaria a cumprir as suas pro- 
messas acerca da extincção -. 

A verdade é que o successo fazia ganhar tempo a Gan- 
ganelli e dava fôlego aos jesuitas, que se não julgavam 
em risco immediato. Entretido em regular a situação do 



i Idem, itl. 543. 

2 Neste sentido coinmunicava a ChoiseuL- «O ministro de Por- 
tugal diz francamente que El-rei. seu amo, se fia na palavra do Papa, 
que projnetteu supprimir os jesuitas, e não quer, tendo a corte pvortu- 
guesa recebido tantas attenções d'elle, ficar-lhe atraz em generosidade». 
D referindo como o Papa, sósinho e no maior segredo, cxjnseguira 
chegar a entendimento com o governo português, accrescentava : v<Eis 
aqui a origem da demora e dos mysterios, que embaraçaram por tanto 
tempo a nossa negociação. O assumpto da nunciatura de Portugal 
fazia pôr de parte e esquecer todos os outros.» 26 setembro 1770. 
Thkiner, l.o, 620, 527. 



CONCESSÃO DO pontífice AO GOVERNO PORTUGUÊS 301 



Núncio, e os assuraptos do governo eccksiastico, Pombal 
deixava de parte a magna questão. Era essa a esperança 
do Pontífice que, bem succedido até alii, não^ perdia ensejo 
de conciliar, com graças novas, as sympathias da corte 
portuguesa. Recobrada a sua autoridade — que aliás o ciúme 
regalista de Oeiras a cada instante peava — sanccionara 
a creação de novas dioceses e a escolha dos prelados; refor- 
mara o instituto dos Cónegos regrantes, contra o qual o 
ministro tinha birra ^; a Nicolau Pagliarini, impressor das 
clandestinas publicações' de Almada, no tempo de Clemente 
XIII condemnado á prisão em Roma, foragido, e em Lisboa 
secretario e confidente de Pombal na correspondência sobre 
os jicsuitas, concedia remissão da culpa, e ainda, para o 
compensar, a dignidade de cavalleiro da Milícia áurea; emfim, 
toda a condescendência em matéria ecclesiastica, eortezias, 
gentilezas, com tanto que á teia não viesse o temivel negocio 
da Companhia de Jesus. 



1 A esta Ordem, qiK o Papa remodelava por castigo e Gom cen- 
suras, pertencia o bispo de Coimbra, D. Miguel da Annunciação, pa- 
rente dos Tavoras, preso no forte de Pedrouços, por crime de febelUão, 
que consistiu em tentar substituir a sua autoridade á da Mesa Censória, 
publicando uma pastoral em que condemnava certos livros, cuja lei- 
tura prohibia. Cumpre notar que os autores eram dos que a M''sa 
egualmente excluía, menos dois, Febronio e Dupin, que defendiam as 
máximas regalistas contra o Pontífice. Nisso estava o desafio e a culpa 
pela qual foi o bispo castigado. 

Na mesma congregação dos Cónegos regrantes predominara frei 
Gaspar da Encarnação, e floresceu a seita dos jacobeiis ou sígillistas, 
por elle favorecida, que dividiu em dois campos adversos o episcopado 
português. Era preceito dos adeptos declararem os penitentes no con- 
fissionario os cúmplices do peccado, para depois, instruídos os prela- 
dos, estes proverem ao caso, pelos meios a seu alcance, evitando as 
reincidências. Considerando que era isso violar o sigillo sacramental, 
os adversários d'essa doutrina, deram-lhe o nome de sigítlismo. .\ppa- 
recida cerca de 1740, proscripta pela Inquisição e por vários bispos 
portugueses, condem.nada por Benedicto XIV, a seita não se extinguiu, 
gerando perturbações e acirrando o fanatismo. Segundo parece, a ordem 
dos Cónegos regrantes, fiel aos princípios de frei Gaspar, era quem 
ultimamente a fomentava, e porventura animava ainda seus membros 



302 EXPULSÃO DE LUIZ ANTÓNIO DE VERNEY 



Em Lisboa Pombal também não regateava attenções ao 
representante da Cúria. Succedia, por exemplo, que os supe- 
riores religiosos e os bispos, habituados á independência 
durante o período da discórdia, reluctavam em novamente 
se subníetterem ao Núncio; certos emolumentos a este 
devidos não eram pagos; o cardeal Conti reclamou, e logo 
lhe foram restabelecidas as regalias de que se via desti- 
tuído. Dois frades capuchos, leccionando theologia, avan- 
çaram proposições que o Núncio julgou suspeitas ; queíxou-se 
elle, interveiu Pombal, e os religiosos foram privados da 
cathedra i. Tudo isto manifesta o empenho, que de ambas 
as partes havia, em dissipar completamente as nuvens 
anteriores. 

Em í77i foi expulso do Estado romano Luiz António 
de Verney, celebre pela polemica a que deu motivo a sua 
obra Verdadeiro methodo de estudar, cujos princípios consti- 
tuíram a base da reforma dos estudos, iniciada no anno 
precedente pela creação da Junta de providencia literária. O 
facto, muito censurado em Roma, foi ainda uma fineza a 
Pombal. Verney, secretario da legação, mais íntelligente e 
infinitamente mais culto que o ministro Almada, decahíra-lhe 
das graças e vivia em perpetuo conflicto com elle, não se 
esmerando, por sua parte, em considerações com um superior, 
de cujo entendimento fazia pouco apreço. O ministro queixa- 
va-se para Lisboa das excessivas despesas e exigências de 
Verney, e das suas desattenções pessoaes, rematando por 



o espirito de opposição com que os parciaes d'aquelle ministro acolhe- 
ram a elevação de PombaK Tudo isto eram razões para o proceder 
d'este, em parle pelo interesse do Estado, muito também como repre- 
sália. Cí bispo de Coimbra e alguns religiosos estavam presos. Contra 
a congregação, Clemente XIV prestou-lhe de bom grado o seu poder. 
Nove conventos foram supprimidos, os religiosos transferidos para Ma- 
fra, cujo prior, de nomeação régia, passou a ser o Geral da ordem. 
A hoí;t:li(lade d'estes religiosos foi assim domada. Aos sigillistas amea- 
çava a lei de 12 de junho de 1769, com a ultima pena. Fosse ou 
não verdadeira a imputação feita aos Cónegos regrantes, depois d'i^so 
o sigillismo desappareceu. 

1 Cí. Theiner, 2.0, 82, 190. 



TÁCTICA DE CLEMENTE XIV 303 



accusal-o de inconfidência. À vista d'isto foi despedido, por 
ordem de Pombal, e o Pontifice o desterrou dos Estados 
romanos. Propalou-se que fora condemnado á morte em 
Lisboa, e, por commutação da sentença, banido do reino, 
Almada publicava que elle se achava vendido aos jesuitas 
e se tornara suspeito ao Papa, qiíe por isso o exilou ; mas 
o despeito, a vingança, tiveram de certo maior parte no 
successo do que as culpas de Verney K 

Desafogado da parte de Portugal, Ganganelli só tinha 
realmente importunações da Hespanha. A França, em posse 
de Avinhão, de boa mente abandonaria, a troco d'aquelle 
território, a empresa commum, e só por comprazer, como 
que arrastada, acompanhava as solicitações. A occasião 
pareceu propicia ao Papa, para ensaiar, em Madrid e Paris, 
a táctica da acção pessoal, que tanto a contento lhe surtira 
em Lisboa. Escreveu a Luiz XV e a Carlos III, ao primeiro, 
que suppunha desinteressado do assumpto, com promessas 
vagas, ao segundo, mais exigente, dando como resolvida ,a 
abolição, ie promettendo communicar-lhe o plano d'ella, em 
tempo devido. 

Passou sobre isto um anno, todo o de 1770, sem nada 
adeantar a questão. Todos os pretextos serviam ao Papa 
para illudir a promessa: informaçõ-es que esperava dos bispos 
de França e Hespanha; difficuldades na formula da extincção; 
urgentes assumptos do governo ecclesiastico; e, cansaço ou 
paciente confiança, os Estados que, tempos antes, com tanto 
ardor pediam a suppressão, acceitavam sem protestos as 
delongas, a custo justificáveis. 

Em dezembro de 1770, Choiseul, no régio desagrado, 
deixou o ministério. Por esse facto, o partido favorável em 
França aos jesuitas julgou-se fortalecido. Em Roma, Bernis, 
cujas instancias de longo tempo tinham afrouxado, maníi- 
nha-se quedo. O embaixador de Hespanha Azpuru descon- 
fiava d'elle; Almada desconfiava dos dois. 



1 Cf. Theiner, 2.0, 12; Cartas de Almada na Coll. Pomb., Cod. 
640; Theophilo Braoa, Hist. da Universidade, 3.o, 283. 



304 TRÉGUAS NAS EXIGÊNCIAS CONTRA OS JESUÍTAS 



Este ultimo pouco também inquietava agora os jesuitas. 
Não "parecia o mesmo irrequieto c violento antagonista do 
tempo de Clemente XIII. Pombal, captivo das promessas 
e lisonjas do Papa, ou talvez por ceder á vontade do Rei, 
]á não alentava os Ímpetos do embaixador. De abril de 1770 
a novembro de 1772 cessa a correspondência do governo 
português com o Pontifice, acerca dos jesuitas. O próprio 
Almada que, nas cartas particulares ao ministro seu primo, 
não deixava de mencionar as diligencias e instancias que 
fazia, as manobras dos adversários, as alternativas de espe- 
rança e receio que experimentava, de certo tempo em deante, 
porventura sabendo que importunava, cala de vez o favorito 
assumpto de outr'ora. Dir-se-ia que, da parte de Portugal, 
a negociação hibernava também. Ganganelli triumphava, com 
a sua táctica dilatória. Por alvedrio próprio, Almada a inter- 
vallos voltava á carga e, sendo de génio arrebatado e rude 
falar, não raro se excedia nos discursos i. Mas o Papa fica- 
va-se inabalável. Âs mais directas intimações, colleando, 
evadia-se, e em arrazoados, protestos, desculpas, consumia 
o tempo, fatigando o contendor, emquanto esperava o impre- 
visto successo, que lhe havia de aplainar o desfecho da 
empresa que aborrecia. Entretanto, buscava distrahir os 
Bourbons com os mesmos engodos, que haviam domado o 
conde de Oeiras. A Bernis dizia pôr toda a sua confiança em 
Luiz XV, e que sob a protecção d'elle se coilocava. A 
Carlos III escrevia que, abaixo de Deus e da Virgem e do 
patriarcha S. Francisco, o tinha pelo seu mais poderoso pro- 
tector. Seu coração era todo francês e hespanhol, confirmava 
ao embaixador de França 2. E, com taes manhas de frade 
ingénuo, pensava adiar indefinidamente o compromisso fatal. 



1 «Eu insisti continuamente até me render (sic) tedioso, e, quan- 
do o Papa se impacientava commigo, rasserenando-me (sic) lhe pe- 
dia perdão, dizendo-lhe que o meu nascimento e o meu caracter me 
obrigavam a tal excesso». Francisco de Almada a Pombal, Roma 18 
agosto 1773. Coll. Neg. de Roma. 3.o, 182. 

- F. Rousseau, Règne de Charles III d'Espagne. Paris 1907. l.o, 
302, 304. 



A HESPANHA DIRIGE AS NEGOCIAÇÕES EM ROMA 305 



IV 



Desde 1770, por desejo de Carlos III, quem dirigia as 
negociações era a Hespanha' representada por Azpuru, arce- 
bispo de Valência. O homem, porém, invalido, já no terceiro 
ataque de apoplexia, era incapaz do esforço preciso, e, de 
activo e fino em principio, volvêra-se bonachão e crédulo, 
desde que o Papa lhe acenara com um capello de cardeal. 
D'esta banda, pois, descançava também Clemente XIV. Havia 
dois annos que o negocio parecia abandonado, e em Roma 
chegaram a suppôr que até o gabinete português d'elle se 
desinteressava. 

Até que finalmente os ares se toldaram. Consciente da 
sua invalidez, o arcebispo pediu a demissão que em Madrid 
anelavam por lhe dar. Foi-lhe successor D. José Monino, 
fiscal do Conselho de Castella, sujeito de conhecida energia, 
e declarado inimigo dos jesuítas. 

Logo á primeira audiência, em junho de 1772, reco- 
nheceu o Papa ter ante si um contendor que não poderia 
burlar como os outros. O momento temido da resoluçãoi 
final avizinhava-se. Até Bernis, ultimamente tão brando, e 
Almada, cujo zelo se manifestava por fortuitos accessos, insti- 
gados pelo castelhano, cobravam energias novas, e cada um, 
pelas influencias de que dispunha, buscava agir no Papa e 
dispôl-o para o golpe, havia tanto demorado. 

Tentando ainda enganar as exigências de Mofíino, disse- 
Ihe Ganganelli, na segunda audiência, que ia prohibir aos 
jesuitas o receberem noviços, e cortar-lhes os subsídios, entre 
esses os que o seu antecessor estabelecera aos padres 
expulsos de Portugal — os hespanhoes era o governo de 
Madrid o que os sustentava. Mas o embaixador retrucava 
que os remédios palliativos não serviam, e somente a cura 
radical, que era a extincção da Ordem, satisfaria os soberanos. 
Então o Papa, embaçado um momento com a réplica, tentando 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 20 



306 MONINO REPRESENTANTE DA HESPANHA 



porém sempre a evasiva, tornava-Ihe que o deixassem a 
elle fazer as coisas, que o seu plano era o melhor, Audias 
et videbiSy assegurava, despedindo emfim com a sua habitual 
bonhomia a Monino, um intante descoroçoado i. 

Para adeantar o despacho, obstando a um pretexto de 
delongas, já por vezes invocado^ o castelhano offereceu um 
projecto de extincção, que er^ obra sua. Com este golpe 
não contava Qanganelli. Coagido a mostrar que realmente 
proseguia na execução do compromisso tomado, ao cingir 
a tiara, mandou em setembro fechar o Collegio Romano 
e o dos Irlandeses, estabelecimentos celebres de educação, 
a cargo dos jesuítas. Era o primeiro passo. Pouco a pouco 
fugia-lhe dos pés o terreno. Mofíino insistia sempre, e, per- 
suasão ou terror, — que ambos os meios o castelhano empre- 
gava — Clemente XIV comprehendeu que era chegada a 
hora de pagar a lettra assignada. A 3 de dezembro decla- 
rou-se finalmente prompto a decretar logo a extincção. O 
arcebispo de Petra foi incumbido de redigir a bulia, de 
accôrdo com Moiiino. 

O estado de alma do Papa, naquelle tempo, era de fazer 
dó. O Enviado castelhano, com a sua presença, aterrava-o. 
Seus confidentes, Buontempi, Macedónio, o próprio leigo 
Francisco, seu fâmulo, peitados pelos embaixadores, perse- 
guiam-no com instancias pela decisiva resolução. E elle vacil- 
lava, opprimido dos receios, que sempre o pungiam, desde 
que a promessa fatal lhe escapou, da morte por veneno, 
da revolução que o arrojasse de Roma, de um scisma, pela 
opposição do clero e dos monarchas, nos paizes alheios á 
coUigação dos Bourbons. 

Em novembro mandou, por intermédio de Almada, pedir 
Lonselho a Pombal, expondo-lhe os temores acerca do scisma, 
sem duvida na esperança de que o seu grande amigo lhe 
facultasse aix)io. Mas antes da resposta tinha dado o passo 
tremendo. Quando, a 21 de dezembro, Pombal a expediu. 



1 Monino a Grimaldi, 2/ agosto 1771. Ferrer nn. Rio, Canos 
Hl, vol. 2.0, 386. 



HESITAÇÕES DE CLEMENTE XIV 307 

já Monino e o arcebispo de Petra trabalhavam na minuta 
do breve. A 4 de janeiro estava prompta e, vencidas as 
íinaes hesitações — á ultima hora Ganganelh receava que 
dissessem ser o acto resultado do pacto feito no conclave — 
foi remettida em 11 de fevereiro ao Rei de Hespanha, para 
a approvar e transmittir aos outros soberanos, interessados 
na abolição. A resposta de Pombal, longe de acoroçoar os 
receios do Papa, fora, como se concebe, destinada a rebatel-os. 
No m.esmo intuito D. José escrevera também. 

Attribuiu Pombal grande influxo aos seus conscfhos 
na deliberação do Pontífice. «Estas cartas, régia e ministerial, 
foram as que acabaram de resolver o Santo Padre a formar 
a bulia da extincção dos jesuítas, a communical-a ás cortes 
catholicas pela mediação de EI-Rei de Hespanha, e a dar 
finaim.ente o ultimo golpe na venenosa hydra jesuítica» i. 
Assim, na sua ingénua vaidade, o ministro apreciava os factos. 
Cotejar as datas é verificar a illusão em que se achava. 
Desconhecendo os secretos passos de Mofiino, tinha-se por 
attendido mentor de Ganganelli, e principal artífice da abo- 
lição. Entretanto, o mesmo facto, que mencionava, da inter- 
venção de Carlos III, devia fazel-o suspeitar o muito que 
á Hespanha caberia na decisão do Pontífice. Longe d'isso, 
explicava a seu modo o succedido. A corte de Madrid era a 
que nada fizera, mas, pela jactância própria do génio caste- 
lhano, pretendia que lhe fosse attribuida a primacial parte. 
Ao Papa convinha-lhe patrocinar a impostura, porque, appro- 
vada a bulia em Madrid, não occorria receio de que em; 
Paris ou Nápoles lh'a rejeitassem; tão pouco em Vicnna, 
onde Carlos III era egualmente attendido. 

D'esta arte D. José, conhecendo as circumstancias, cumu- 
lado de considerações pelo Papa, não podia levar-lhe a mal 
o proceder, que só para outrem seria desprimoroso. «S. M. 
percebeu e admirou a delicadeza do Santo Padre;> ^^ dizia 



1 Coll Neg. de Ruma, 3.o, 15. 

2 «Kota precisa para a intelligencia da carta de El-rei Catbohcox. 
Coli j\eg. de Roma, 3.o, 165. 



308 SUPPRESSÀO DA ORDEM fyOS JESUÍTAS 



Pombal, louvando o alvitra, candidamente ou para se não 
dar por achado da posição secundaria em que ficava, no 
desfecho da questão, que elle, antes que ninguém, tinha 
levantado. Porventura o jubilo de ver alfim cumprido o voto 
d€ tantos annos lhe abafava as queixas do orgulho. Basta- 
va-lhe salvar as apparencias, o que fez, interpretando ao 
s€u g^eito o proceder do Papa. Este, encantado e surpreso 
do êxito que não esperava, não cabia em si de contentamento, 
e a cada visita do ministro Almada, exprimia a sua admiração 
por Carvalho: Grand uomo! grand nomo! fortunato monarcal 
dizia sempre i , celebrando, é licito suppôr, mais que o grande 
homem, a sua própria finura. 

A minuta da bulia recebeu-se em Lisboa no mez de 
março. Acceitou-a Pombai, e acceitaram-na os gabinetes de 
Nápoles (e Paris. Somente a imperatriz Maria Theresa impu- 
gnou o texto, por lhe não conferir a livre disposição dos 
bens da Sociedade, privilegio assumido pelas potencias que 
antes a tinham expulsado. Com a intervenção da Hespanha 
sanou-S€ a difficuldade; alterou-se naquella parte a redacção, 
e o mandamento do Pontifice foi communicado aos jesuitas 
em a noite de 16 de agosto. A Ordem que por tantos 
annos dominara na christandade, que fora a mais devotada 
milicia do catholicismo e do Papa, cessava desde aquelle 
momento de legalmente existir. O Geral Lourenço Ricci e 
os seus três assistentes ficavam reclusos, á disposição do 
Pontifice, o primeiro para sempre, indo morrer no castelio 
de Santo Angelo, aonde mais tarde o trasladaram. 

A noticia da suppressão publicou-se em Lisboa a Q de 
setembro de 1773. Cumprido o que fora por tanto espaço o 
objecto de suas vehementes aspirações. Pombal entendeu 
dar ao seu contentamento o máximo relevo. Houve manifes- 
tações de regosijo no paço, nas ruas e nos templos. Por ordem 
do governo, Lisboa poz luminárias, sendo comminadas penas 
de multa e cadeia, aos desobedientes; D. José escreveu ao 
Papa exprimindo o seu reconhecimento ; e por todos os modos, 



' Almada a Pombal, 18 agosto 1773. Idem, 1S2. 



AGITAÇÃO DOS JESUÍTAS 309 



e em lodo o reino, a victoria alcançada a tanto custo se 
celebrou . com estrépito. 

Dentro em pouco, todavia, Pombal reconheceu que não 
era completo, como julgava, o seu triumpho. Os jesuítas conti- 
nuavam a agitar-se, e em todos os paizes fomentavam pro- 
testos, e tentavam levantar a opinião publica contra o golpe 
que os anniquillava. Na Itália com mais êxito, pela influencia 
do numero. Em toda a parte se movia o beaterio. Além dos 
artigos, pamphletos e sátiras contra o Papa e governos que • 
intervieram na suppressão, appareceram as prophecias. Theresa 
Poli, freira de Viterbo, Bernardina Renzi, camponeza vidente, 
annunciavam a morte de Clemente XIV. A primeira, que os 
jesuítas sagraram logo por Santa Theresa do século, predisse, 
por communicação da Virgem, a restauração triumphante da 
Companhia, e o acabamento de seus perseguidores: D. José 
estrangulado no próprio logar onde os Tavoras padeceram ; 
Carlos III no tumultuar de uma insurreição; Luiz XV, de 
modo miserável, como tinha vivido i. 

Em Portugal divulgou-se um folheto italiano de versos 
intitulado Alegria dos pastores, que reproduzia algumas das 
sátiras € prophecias que os membros da Sociedade extincta 
espalhavam. Uma carta, pode ser que apocrypha, do bispo 
de Cochim ao arcebispo de Cranganor, ambos jesuítas, datada 
de abril de 1767, corria de mão em mão, com a defesa de 
Malagrida, e a analyse da iniqua sentença, proclamando-o 
martyr e comparável a Christo, pois como elíe, depois de 
ter feito prodígios e prophecias, fora preso, incriminado de 
sedições, arrastado de tribunal em tribunal, por fim levado 
ao supplicio pelas mesmas ruas onde antes em triumpho 
passara. Mas, condemnados pela Mesa Censória, ambos os 
cscriptos, queimados pelo algoz, rebuscados pela policia, em 
pouco tempo desappareceram -. 

Infelizmente para o credito dos jesuítas, o golpe, desfe- 
chado a Ganganelli, presagíando-lhe a morte por castigo 



TnKiNFK, Clémen' XIV , 2.o, 482 e seg. 
Editaes da Mesa Censória. 28 abri! 1774, 



310 MORTE DE GANOANELLI 



divino — , o que já haviam feito antes da extincção — rico- 
clietou sobre elles; e, quando, a 22 de setembro de 1774, 
o Pontífice falleceu, não faltaram vozes a increpal-os de lhe 
terem ministrado peçonha. O rumor, que logo na occaslão 
da morte se propagou em Roma, cresceu em seguida á 
autopsia, de cujos resultados, cada qual, segundo as infor- 
mações mais ou menos certas que possuía, e a phantasia do 
seu critério indiv^idual, tirava íllações sobre o modo do enve- 
nenamento; na sagrada partícula ao commungar; em uma 
chávena de café; em uns figos, offerenda de um ínsuspeitado 
cura suburbano. Os médicos consideraram a morte natural; 
os embaixadores, porém, julgavam de outra forma. Moíiino 
tinha duvidas; Bernis affirmava que o Papa morrera enve- 
nenado; Almada devia pensar como Pombal, que attribuiu 
á «ferocidade jesuítica» a deaspparição do «maior Pontífice 
que se havia assentado na cadeira de S. Pedro desde S. Gre- 
gório Magno» 1. 

Os jesuítas eram víctimas da sua ruim fama — na verdade 
em semelhante matéria nunca justificada — , e da inepta 
violência dos seus ataques. Aos sessenta e nove annos de 
edade, gottoso e herpetico, affecíado de preoccupações graves, 
atemorizado por ameaças e prophecias, Ganganelli muito 
naturalmente foi declinando e em cinco meses succumbiu. 
A hypothese da acqua toffana pode-se dispensar. Os jesuítas 
foram os que, suggerindo antes as prophecias, celebrando 
depois com ruidosa alegria a morte do seu inimigo, e congra- 
tulando-se pela rehabilítação próxima, deram vulto á suspeita, 
de que até hoje não lograram expungír-se totalmente. 

Para Pombal renasciam os cuidados. O monstro, que 
suppunha destruído, resuscitava com toda a sua malignidade, 
e 03 governos tinham de recomeçar com o novo conclave, 
com o novo Pontífice, a lucta, porventura tão acerba como 
nos tempos de Clemente XIII e Clemente XIV. 



1 Coll. Neg Roma, 3.», 220. 



o SUCCESSOR DE QANGANELLI 311 



V 



Qu€ successor o partido jesuítico, pujante ainda, buscaria 
dar a Ganganelli? A preoccupação, vehemente em Pombal, 
pungia também a Carlos III, que escreveu á Rainha sua 
irmã, pedindo o concurso de Portugal, para evitar que a 
eleição recahisse em sujeito parcial da ordem suppressa. A 
resposta, que Pombal minutou, revela a importância que tinha 
para elle o assumpto, «Depois das revoluções e estragos 
dos arianos, nem a paz da Egreja, nem as vidas dos prín- 
cipes catholicos, nem o socego e obediência dos seus vas- 
sallos, se teem visto ameaçados de perigos tão grandes, como 
são os que se acham imminentes n'esta presente conjunc- 
ctura:/ 1. Com estas e semelhantes considerações, nas quaes 
seria fácil a Carlos III verificar que a Rainha escrevera 
por ditado de Pombal, a carta incluía o aviso de que o 
ministro português em Roma em tudo procederia de accordo 
com o de Hespanha, e transcrevia as instrucções ao mesmo 
expedidas, com as idéas da corte de Lisboa sobre a attitude 
que as potencias deviam tomar ante o conclave. Insistindo 
nos princípios que na antecedente eleição exprimira. Pombal 
novamente afíirmava que o Pontífice podia não ser um dos 
card^aes, e nada obrigava a que elle fosse italiano. Citava 
exemplos da historia: vários Papas eleitos por imposição 
dos Imp-eradores da Allemanha e Reis de França, outros 
sem coacção de espécie alguma, como- Gregório X em 1271, 
que era um simples ermitão, e em 1362 Urbano V, abbade 
de Cluny. Quanto á nacionalidade, além dos Papas de Avi- 
nhão, todos franceses, houvera muitos allemães, dois hespa- 
nhoes, João XXI português, um natural de HoUanda, outro 
de Cândia; emfim nem as leis da Egreja, nem as tradições 



í 19 outubro 1774. CoU. Neg. de Roma, 3.°, add., pag. 31. 



3:2 DECLARAÇÃO DAS POTENCIAS AO SACRO COLLEGIO 



exigiam que fosse o chefe da christandade nativo da Itália '. 
Se o eleito sahisse adepto dos jesuítas, não o deviam as 
potencias reconhecer; em ultimo caso appellariam para um 
concilio. A exposição, vertida em italiano para Carlos III, 
mais familiar com esta lingua que com a castelhana, melhor 
a comprehender, não fez no animo d'elle a impressão que 
Pombal imaginara. O Rei de Hespanha continuou a dirigir 
segundo a própria inspiração a campanha contra os jesuítas 
e, atoado aos Bourbons, Portugal tinha de caminhar. 

Ao receber os despachos de Lisboa, Almada — visconde 
de Villa Nova de Souto de Elrei, como Mofíino era conde 
de Florida Blanca por serviços prestados na suppressão dos 
jesuítas — Almada, que se achava no campo em Frascati, 
correu a conferir com o Enviado castelhano, e, por indicação 
d^elle, mandou ao conclave uma declaração, de sentido egual 
ao da que os representantes de Hespanha, França e Nápoles 
haviam feito, logo que o Sacro Collegio se reuniu. A memoria, 
pouco extensa, dizia que Portugal acompanhava as três cortes 
na causa commum ; esperava que a escolha de Pontífice se 
realizasse sem precipitações e com o assentimento dos sobe- 
ranos; insinuava responsabilidades graves perante o tribunal 
de Deus, os príncipes e o mundo inteiro, se a intimação não 
fosse attendida. 

A leitura produziu forte impressão no conclave; alguns 
cardeaes protestaram contra os termos da mensagem. Monino, 
informado pelo cardeal Orsini, ministro de Nápoles, inter- 
veio mandando uma declaração, na qual em termos ásperos, 
como era seu costume, sustentava que a corte portuguesa, 
longe de se haver excedido, muito mais poderia dizer, c 
que os cardeaes lhe deveriam ficar reconhecidos pela mode- 
ração, 

O resultado foi responder logo o decano que o Sacro 
Collegio se achava cheio de respeito pelas coroas, e que 



- cMotivos que serviram de base ás instrucções expedidas em 
20 de outubro d'este presente anno de 1774, sobre o estado do Con- 
clave;. CoU. Neg. de Roma, 3.o, add., 27. 



os PARTIDÁRIOS DOS JESUÍTAS NO CONCLAVE 313 



tudo se havia de executar de accordo com ellas e paci- 
ficamente. 

A intimativa do Enviado castelhano, cuja firmeza os pur- 
purados conheciam, semeara o pavor entre os zelantes, parti- 
dários dos jesuitas, que se preparavam para levar de surpresa 
a eleição A intervenção inesperada do plenipotenciário portu- 
guês tinha-os abalado. A reprimenda de Florida Blanca mos- 
trava-lhes que entre as cortes existia entendimento, e que as 
mal encobertas ameaças podiam converter-se em factos con- 
cretos, de lamentáveis consequências para o prestigio da 
Egreja. Neste jogo contra os jesuitas continuava a ganhar 
pontos a Hespanha, o que Pombal não queria admittir. Por 
isso, assim como aos conselhos que dera attribuia a decisão 
final de Clemente XIV, á impressão fulminante dos seus 
argumentos filiava agora a submissão do conclave. De que 
maneira? No seu pensar o memorial castelhano, tão efficaz, 
era simplesmente a exposição de motivos que acompanhava 
as instrucções para o ministro Almada, e que traduzida remet- 
tera com ellas a Carlos III. Tanto assim que Moiíino dizia 
não ter guardado copia do seu escripto, como excusa de o 
não mostrar ao representante de Portugal, que assim ficaria 
informado. «A relação do ministro de Castella fez ver clara- 
mente, por uma parte, que o bilhete ou memorial extenso 
e ostensivo, com que elle retorquiu ás queixas dos cardeaes, 
e bateu e aterrou o conclave, consistia no Papel dos motivos 
que lhe foi d'esta corte; por outra parte, que por isso se 
excusou artificiosamente, com a causa da pressa que fingiu, 
de o remetter ao Visconde de Villa Nova, porque era o 
mesmo Papel dos motivos, e porque se quiz arrogar o mere- 
cimento de haver prostrado a soberba dos cardeaes» i. Conl 
estas razões. Pombal accommodava o seu despeito, mas 
deve-se crer que sem fundamento. A capacidade de Florida 
Blanca, para lidar com a finura romana, já antes fora provada, 
e de modo cabal. 



1 Colt. Neg. de Roma. 3.o, add., 12. 



314 ELEIÇÃO DE PIO VI 



Passou-se isto em novembro, e até muito adeante no 
mês seguinte o conclave nada fez. O tempo consumia-se 'em 
meneios preparatórios, secretos entendimentos, captações, 
intrigas, promessas, com que os dois grupos adversos, o 
affecto ás coroas, e o dos zelantes — «que consistem nos 
cardeais rebeldes ao Papa defuncto, e, ou fautores dos seus 
assassinos, ou co-réos do seu assassinato» explicava Pombal i 
— cada um mais ferrenho, tentava fazer vingar a sua parcia- 
lidade. Em janeiro surge a candidatura do cardeal Pallavicini, 
primo co-irmão de Grimaldi, condição bastante para d'elle 
dizer Pombal que era «jesuíta por nascimento e por edu- 
cação, como natural genovês — genovês era como sabemos 
também Grimaldi — jesuita por profissão e por paixão a 
todo o mundo notórias, porque ninguém ignora que foi 
creatura do Papa Clemente XIV) 2. Além disso havia Grimaldi 
de suggerir a Carlos III que, em consideração do parentesco 
com elle, se fizera a eleição, e que a Hespanha por este 
modo dominaria na corte de Roma, triumpho soberbo do 
rival, que a emulação do ministro de D. José não podia 
conceber. Mas o próprio Pallavicini o libertou do cuidado, 
pedindo aos collegas que não fossem por deante com o 
projecto, de que, parece. Florida Blanca tinha sido inspirador. 

Afinal, em fevereiro, com quatro meses de conclave, não 
podendo mais supportar a clausura, as facções congraça- 
ram-se, juntando os votos em um candidato rejeitado em 
dezembro, o cardeal Braschi, que subiu ao throno com o 
nome de Pio VI. No próprio dia da eleição, o cardeal Conti, 
que fora Núncio em Lisboa, escrevendo á pressa um bilhete 
a Pagliarini, tranquillizava a Pombal, dando-lhe acerca do 
novo Pontífice as melhores esperanças : ::Conheço já os senti- 
mentos do Papa, que são dignos de um S. Leão ou um 
S. Gregório. Pode a corte de Portugal contar — e isto digo 
sem hypcrbole — que tem um Pontífice português» ^. Ã 



^ Idem, id. 14. 

2 ColL Neg. de Roma, 3.o, add., 15. 

3 14 fevereiro 1775. Idem, 98. 



POMBAL SUSPEITOSO DO NOVO PONTÍFICE 



vista d'isto, Pombal congratula va-se pelo resultado do con- 
clave, ((^m tudo inesperado pela prudência humana, em tudo 
dirigido pela provid€ncia divina, em tudo semelhante á pro- 
digiosa eleição precedente, que deu á Egreja um Clemente 
XIV, € em tudo cheio de auspicies e de esperanças de que 
o seu santo successor Pio Vi em tudo será egual ao santís- 
simo padre succedido> K 

Mas em breve o aprazimento se desvaneceu. Pombal não 
encontrava em Pio VI a artificiosa doçura, a malleabilidade 
affectada, com que o captivara Ganganelli ; nem o via pro- 
seguir resoluto e truculento a lucta com a facção jesuítica. 
Em novembro notava acerca d'elle: '^O Papa foi mostrando 
cada dia mais, e já tem feito ver, que não segue as pacificas 
máximas do seu antecessor Clemente XIV, mas sim as dos 
curiaes, que fizeram tão infeliz o outro pontificado de Cle- 
mente XIII;; -. Exprobrava-lhe <:o nenhum caso que fez do 
assassinato do santo padre», a sympathia pelos sequazes dos 
jesuítas, o desprezo, que não occultava, pelos cardeaes que 
lhes eram contrários. Arrepellava-se por serem postos em 
liberdade os padres, Assistentes de Portugal e Hespanha que, 
com o Geral, tinham mandado as terribilidadcs, commettidas 
pela Ordem nos dois paizes. Montava isso a qualificar de 
iniquo o proceder antecedente dos monarchas. Dentro em 
pouco se veria renascida a Companhia, e o padre Ricci, 
Geral, a passear nas ruas de Roma. Irritado com taes factos, 
cuja importância a sua idéa fixa do ódio aos jesuítas exag- 
gerava. voltava ao propósito antigo dos meios coercivos. 
«Desde que o Papa vir que tudo isto se tolera, sem que 
se lhe faça ver um resentimento, que contenha os seus vastos 
projectos...; ■' ia escrevendo; mas interrompidas findam aqui 
as considerações. A empresa contra os jesuítas interrompida 
ficava tembem. Pombal datava estas notas de 11 de novembro 
de 1775. Um anno depois tinham desapparecido da arena 



1 CgU. Ntg. Roma 3.°, add., 22. 

2 Idem id.. 110. 
^ Id. id., 111. 



316 PERSEGUIDORES E PROTECTORES DOS JESUÍTAS 



politica os três estadistas que dirig-iam a lucta contra a Com- 
panhia. Tanucci em Nápoles, Grimaidi em Madrid, deixavam 
ao mesmo tempo o poder. Adoecera D. José da enfermidade 
fatal, que o havia de levar, e desde essa data póde-se dizer 
que a autoridade de Pombal terminou também. A confraria 
que encontrara protectores em Frederico, o grande, e Catha- 
rina da Rússia, conquistava lentamente o terreno perdido. 
Em 1814 apparece rediviva, no pontificado de Pio VII. 



CAPITULO X 



O APOGEU E O declínio 



I. Pombal e a sua obra. Inauguração da estatua equestre. Casos de 
D. Isabel de Sousa e D. Leonor de Alorna. As Observações se- 
cred^simas. Presumida tentativa contra a vida de Pombal. Incêndio 
da Trafaria. — II. Situação económica na administração pom- 
balina. Decadência geral do commercio. As companhias. Prospe- 
ridade ephemera das industrias. Reformas na legislação. — III. 
Descalabro financeiro. Estado precário do exercito c da marinha. 
O novo regimen da Universidade. A Mesa Censória. — IV. 
Morte de D. José. Pombal renuncia os seus cargos. A demissão 
a pedido. — V. Sabida para Oeiras. Jornada para Pombal. In- 
dignação em Lisboa contra o estadista caído. Estado real da 
fa/enda publica. .\ viradeira. O ataque dos credores. Os de- 
vedores e os ingratos. — VI. Embaraços pecuniários. .\ ques- 
tão das Aguas livres. Os processos. 



Desembaraçado desde a extincção dos jesuítas da sua 
preoccupação suprema, Pombal poude consagrar-se mais livre- 
mente á administração interna, e nesta parte não foram os 
últimos annos do seu governo os menos operosos de todo 
elle. Infatigável, aos setenta e sete annos, conservava a 
energia da juventude, a actividade do periodo culminante da 
existência. Ao terminar o reinado, o embaixador francês, 
marquês de Blosset, acha que elle, «são de corpo e de espirito, 



ilS A REGENERAÇÃO NACIONAL 



se julga immortal, e fala de vastos projectos, que nem seus 
filhos poderiam em vida realizar» i. 

No longo estádio de mais de um quarto de século deixara 
pelo caminho, desapparecidos para sempre, alguns dos com- 
panheiros: seu irmão Francisco Xavier de Mendonça, D. Luiz 
da Cunha, arrebatados pela morte; Thomé Corte Real que 
a doença impossibilitara; Diogo de Mendonça e José de Seabra 
arrojados aos distantes exilios. Da primeira hora restava elle 
só. Os ministros, seus actuaes collaboradores, Martinho de 
Mello, da marinha; Ayres de Sá, dos negócios extrangeiros ; 
o cardeal da Cunha, ministro assistente, seriam os epígonos 
da regeneração nacional. 

Esta fora realizada por elle, assim entendia, de modo 
efficaz. A tensão do poder régio attingira o máximo. A 
Santa Sé, finalmente, humilhara-se; a inquisição obedecia-lhe; 
os jesuítas eram uma tribu dispersa na Europa oriental, a men- 
digar a protecção de Frederico lí, protestante, ou da imperatriz 
Catharina, scismatica. Com a repressão de 1756 no Porto 
para o povo, com a de 175Q para a nobreza, excluira-se o 
risco de qualquer reacção violenta contra a autoridade. Â 
vontade real, no âmbito que lhe era licito pretender, nenhuma 
força extranha se contrapunha; e, para definitivamente assentar 
o direito, fizera declarar informe, absurdo, ignorante, mais 
ainda, apocrypho, o livro celebre em que o doutor Velasco, 
lente da Univesidade, um blasphemo, vindicando a acclamação 
de D. João IV, pronunciara, respondendo aos castelhanos, 
que o poder dos Reis lhes vem dos povos, que a estes é 
licito destituir os monarchas intrusos ou tyrannos ^. 

Conseguido isto, para o serviço d'essa vontade, cumpria 
tornar o paiz independente e prospero. Para esse fim o tinha, 
até onde lhe foi possível, emancipado dos extrangeiros, dando 



' Memoria. 2 janeiro 1777. Quad. Elem., 8.°, Introd. pag. LXII. 

* Justa acclamação de sereníssimo rei de Portugal D. João 'V, 
Lislraa 1646, por Francisco Velasco de Gouvêa, livro condemnado por 
uma junta de lentes e desembargadores, a requerimento do Procurador 
da Coroa, em iU de abril de 1767. 



POMBAL E A SUA OBRA 319 

impulso ao comm^rcio, á navegação, á agricultura, e susci- 
tando industrias novas. Desde a Companhia do Grão-Pará, 
que tantos protestos levantara, outras havia creado, com intuito 
de impellir as classes abastadas ás empresas mercantis, « 
espertar as iniciativas. D'essas fundações a mais notável fora 
certamente a Companhia do Alto Douro, sustentada por vinte 
annos contra os ataques vehementes da Inglaterra, e cujo 
privilegio, terminado o primeiro período, renovara em 1776 
por prazo egual. 

Não encontrando na população ^os capitais disponíveis, 
as aptidões technícas, o impulso nativo para as industrias 
fabris, cuidou de as estabelecer elle próprio e, com os capitães 
do Estado, creara as fabricas de sedas e louças em Lisboa, 
as de lanifícios na Covimã, Fundão e Portalegre, de tecidos 
de algodão em Alcobaça, de chapéos em Pombal, e varias 
outras; a Guilherme Stephens, inglês, adeantara 80:000 cru- 
zados dos cofres públicos, para montar a florescente fabíca 
de vidros da Marinha Grande. Por este meio, e com as isenções 
fiscaes, os privilégios, alentara as manufacturas, e as acclimara 
no paiz. Nesse fito, além de outras providencias, prohíbira 
a introducção de chapéos do extrangeiro, e a de louça que 
não fosse do Oriente. Para educar o trabalho nacional, fizera 
que viessem de fora do reino mestres de relojoaria, fundi- 
(,Õer, cutelaria, estuques, cerâmica, tinturaria e outras artes: 
e rematara a obra de fomento material instituindo a AuLa de 
conimcrcío, a primeira que houve na Europa, e de onde em 
l^ouco tempo sahiram auxiliares hábeis na escrípta, na arru- 
mação das contas e na arithmetica, preciosos coUaboradores 
que até ahi faltavam nas casas de negocio e nas estações 
publicas. 

Nas artes liberaes, a architectura e a esculptura haviam 
medrado. O plano da reedificação da cidade, em seguida ao 
terremoto, devia-se ao architecto Eugénio dos Santos, que 
elle soubera escolher entre os da escola de Mafra, onde a 
monstruosa construcção de D. João V fora um seminário de 
artistas notáveis. A disposição regular das novas casas e 
das ruas, o majestoso traçado da Praça do Commercio, o 
monumento soberbo do Rei D. José, tornavam Lisboa rival 



320 CHRISTÃOS NOVOS E ESCRAVOS NA METRÓPOLE 



das mais sumptuosas capitães, immunizada de outra catas- 
trophe por um dúctil arcabouço de madeira nas edificações. 

Ao mesmo passo, havia providencias de outra ordem, 
• que para a sua administração seriam eterna gloria. Expellindo 
os jesuitas, sacudira do paiz, como julgava, a lepra que por 
duzentos annos o tinha gafado. A reforma da Universidade, 
com o applauso da Europa culta, era d'isso a brilhante conse- 
quência. Investindo com a superstição e o preconceito secular, 
restituirá aos christãos novos a consideração social, e dero- 
gara as leis que os excluiam dos cargos públicos e das ordens 
militares. Em voos de mais alcance, emancipara os indios da 
America da tutela de missionários e colonos, e concedera-lhes 
direitos eguaes aos dos outros portugueses; e, honrando a 
civilização da Europa, extinguira a escravidão no reino, decla- 
rando livres os negros que de futuro entrassem, e os indi- 
víduos que nelle viessem a nascer de ventre captivo, alguns 
pela mestiçagem de gerações successivas mais alvos do que 
os seus pretendidos senhores. 

Tudo isto representava uma enorme somma de trabalho, 
e um diuturno luctar contra a opposição do interior e as 
difficuldades, a que uma nação pequena e fraca está sujeita 
perante as ambições do exterior. Por essa razão, o seu nome 
de estadista genial ficaria na historia. Assim considerava elle 
a sua obra, e assim lh'o repetiam em torno, não faltando ia 
admiração do extrangeiro, surpreso das energias de um 
governo tantos annos apagado e frouxo na sua acção diplo- 
mática e administrativa. O embaixador francês, por exemplo, 
encontrava conjuntas nelle as qualidades que separadamente 
distinguiram a Richelieu, Mazafin e Alberoni i. 

A inauguração da estatua equestre, a 6 de junho de 
1775, fora a apotheose do regimen. Sob a figura do soberano 
era o ministro o divinizado. O terremoto arrasara Lisboa para 
lhe dar a elle o ensejo d'este triumpho. Atravez 3o Rei, 
que era a sombra do poder, recebia elle, poder verdadeiro, as 



5^ ;Mem. do marque/ de Blosset. 2 janeiro 1777. Quari. Elem., 
8.0, Introd. pag. LXI. 



A INAUGURAÇÃO DA ESTATUA EQUESTRE 



hom-enagens que para o outro decretara. O guerreiro, no 
corcel de batalha, com o seu olhar de bronze — Síatu-a stafucr, 
como rezava o pasquim coUado no sopé, e nada melhor que 
este dito caracteriza a commemoração — o guerreiro, lá 
na alto, nào era mais que um symholo, o do absolutismo 
robustecido, e por elle Pombal confiscado, em proveito da 
sua obra de engrandecimento próprio e revivificação do paiz. 
As serpes, esmagadas aos pés do cavallo, representavam os 
inimigos que o ministro vencera, as intrigas que annuUara; 
e, aos lados do pedestal, allegorias triumphaes reportavam^e 
a elle, alli presente no medalhão, que não era, como a estatua 
superior, a imagem de uma abstracção, mas o homem real, 
d-e cabelleira e casaca, semblante carregado, ao peito a cruz 
de Christo, tal qual usavam vêl-o aquelles que nesta hora 
com fervor o acclamavam, ou despeitados a meia voz o 
maldiziam. 

Em tal momento, nenhuma satisfação faltava ao seu 
orgulho. Possuía o poder régio por direito de conquista, e 
á roda de si, dispensador supremo dos favores, via a malta 
famélica de clientes e lisonjeiros a mendigarem-lhe os sorrisos. 
Já três annos antes, logar-tenente do Rei, e com a pompa que 
só ao Rei pertencia, fora a Coimbra dar solemne consagração 
á reforma da Universidade. Marquês de Pombal desde 1770, 
emparelhava com a mais luzida nobreza do reino. Fora do 
paiz tinha um nome feito, e era a sua pessoa o alvo, nas 
discussões, dos ataques e dos louvores. Para a politica inter- 
nacional D. José não existia. Era a entidade symbolica em 
nome de que um homem de universal fama manifestava os 
seus intuitos e vontades. Nas cortes extrangeiras falava-se 
no Rei somente a propósito da aventura dos Tavoras. 

Dentro do paiz tudo obediente se acurvava ao seu ârbitrio. 
Não havia resistência que o seu jugo não dobrasse, nem 
excessos ou erros de mando que o applauso não cobrisse. 
Da abjecção geral emergem, porém, sem macula, duas gra- 
ciosas figuras de mulher, duas creanças de forte coração, que 
ousam affrontar o potentado, e vindicam a dignidade humana, 
ultrajada pela cobardia de tantos que não tinham por desculpa 
a fraqueza do sexo. 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 21 



322 ISABEL DE SOUSA E LEONOR DE ALORNA 



Isabel de Sousa, filha do ministro de Portugal em Paris, 
D. Vicente de Sousa Coutinho, obrigada ao quinze annos 
a desposar o filho segundo de Pombal, futuro marques, 
resiste ás solicitações do marido, joven como ella, ás insi- 
nuações, ameaças, ardis e provavelmente a tcda a sorte de 
violências moraes, e guarda coração e virginal pureza para 
aquelle que já antes escolhera, forçando o ministro temido 
a requerer, três annos passados, a annuUação do matrimonio 
e abrir mão da fortuna, com que ideara arredondar a da 
sua já grande casa. O encerro em um convento, até á accessão 
de D. Maria I, foi o preço que á gentil heroina custou a 
resistência. 

Leonor de Almeida, o culto espirito, a poetisa, depois 
marquesa de Alorna, prisioneira de Estado, com sua mãe, 
aos oitenta annos de edade, como parenta dos Tavoras, aos 
dezoito lança em desafio a um grande, o arcebispo de Lace- 
demonia, que por infracção á disciplina monástica, recebendo 
a occultas a visita do irmão, lhe comminava a ira de Pombal, 
os dois versos de Cornéille : 

Le rcvur d'Eléonoie est trop noble et trop franc 
Pour ciaindrc ou respecter le bourreau de son sari cr.' 

O repente audacioso da donzella não foi punido. Ao 
semi-deus injuriado bastava por vingança asphyxiar-lhe a 
juventude no claustro, e apartal-a para sempre da liberdade 
e do amor '. 

Omnipotente, afeito ás subserviencias e lisonjas, Pombal, 
elevado ao coronal das ambições, conservava comtudo, entre 
o fausto da corte, a virtude austera da parcimonia, aprendida 



- A anecdota, que ficou, parece, em tradição na família, acha-se 
desmentida pela própria heroina, na descripção da visita, em carta ao 
pae, publicada na biographia, infelizmente incompleta, pela Snr.a D. 
Maria Amália Vaz de Carvalho no Boletim da segunda classe da Aca- 
demia das Sciencias de Lisboa, volume 6.0 (1912), sendo a realidade 
muito menos dramática; vale, todavia, para a historia, como outros casos 
e dito? suppostos, que symbolizam um período. 



AS OBSERVAÇÕES SECRETÍSSIMAS 323 

nos annos, forçadamente sóbrios, da mocidade. Em contraste 
com a grandt representação politica, o seu viver era rnodesto. 
Tirante a escolta de cavallo que, desde a execução dos 
Tavoras, lhe seguia a carruagem, nada mais ostentava que 
exteriormente o exaltasse. Passado o terremoto, residiu 
sempre em uma barraca, contigua á que servia de paço 
ao Rei. Não tinha fausto de mesa ou de equipagens. Os 
creados eram poucos. Em 1766 andava em Lisboa na mesma 
carruagem em que, dezeseis annos antes, fizera a jornada 
de Vienna de Áustria ^ Não usava jóias mais que o habito 
de Christo de brilhantes. Baixella de prata tinha a que lhe 
servira em Londres e Vienna, de sorte que, quando eram 
numerosos os convivas, nos jantares de ceremonia, maiidava 
pedir por empréstimo as peças precisas, aos coílegas do 
ministério -. A economia de quem quer juntar fortuna, para 
deixar aos filhos, era a regra da sua vida. 

Em compensação, nenhuma honra achava em demasia 
para os seus actos de estadista. Foi assim que, ao inaugurar-se 
a estatua, no auge da grandeza e da satisfação própria, 
entendeu fazer o balanço do reinado, e pôr-lhe a rubrica 
d'aquelle em cujo nome, no espaço de vinte e cinco annos, 
para bem ou para mal, sacudira um povo dócil, espavorido 
de seus Ímpetos. Para esse fim levou ao Rei um memorial, 
que era o compendio da sua administração, e o altisonante, 
panegyrico d'ella 3. Não que se arrogasse méritos pessoaes; 
tudo dizia feito por indicação do sobeí"ano, a quem a majes- 
tade do throno infundia tino e saber. Do mesmo modo com 



1 Ratton, Recoí dações. 187. 

' Apologia primeira: «Representação que o marquez de Pombal, 
com carta de 2 de abril de 1777, mandou a seu filho, para a pôr 
na presença da rainha, em defesa da calumnia de se haver enrique- 
cido com prevaricação na administração da fazenda real». Coll. Pomb, 
Cod. 6Q5, e também impressa em Smith, Memoirs, etc. 

'■^ Observações secretíssimas do Marquez de Pombal na occasião 
da inauguração de estatua equestre, no dia 6 de junho de 1775, e 
entregues por elle mesmo, oito dias depois, ao senhor rei D. losé l, 
muitas ve/es impresso. 



324 AS OBSERVAÇÕES SECRET/SS/MAS 



as ordens régias S)e havia de desculpar dos actos crueijs. 
D'elle próprio havia somente «a fidelidade, o /elo, o amor 
ao real serviço», c a fortuna de ser o escolhido executor das 
(ãliuminadas e prudentes resoluções», que um cérebro augusto 
elaborava. Mal amanhadas lisonjas, que só a boçalidade mais 
soez enganariam. Atravjz da solerte adulação, nunca a vaidade 
humana com mais soberbia se affirmou. 

Sem mais recato, e sem temsr o desmedido, a que 
ninguém já se abalança, Carvalho proclama renascida a época 
brilhante de D. Manoel e D. João III; opulento mais do que 
então o commercio, florescentes as industrias, prospera a 
agricultura, as artes em progresso, as boas lettras volvidas 
á perfeição das melhores épocas. E, num arroubo de satis- 
fação, exalta «o estado da philologia ou das bellas lettras, 
que servem de base a todas as sciencias», commemora o 
affluxo das prosas e das poesias - foram mais de seiscentos 
os autores — que appareceram na Mesa Censória a celebrar 
a inauguração, em português, latim, greg-o, hebraico e ará- 
bico «com a pureza de estylo e elegância dos séculos dos 
Demosthenes, dos Homeros, dos Tullios, dos Virgilios, dos 
Horacios €m Roma, e dos Teives, Andrades, Gouveias, 
Rezendes, Barros, Camões e Bernardes em Portugal» '. Como 
se vê, três annos do novo regimen universitário tinham bas- 
tado, segundo o dizer seu, para sacudir do paiz a ignorância, 
e soerguer a litteratura da abjecção, que os jesuítas tinham, 
em dois séculos, preparado. Com isto, baixando ás coisas 
Ínfimas, sem curar do ridículo, até a multidão das bandejas 
de prata, nos pantagruelicos festins da solemnidade, o luxo 
dos trajos e carruagens, o adearítamento a que chegou neste 
reinado feliz a calligraphia, de modo que «quando até o 
anno de 1750 era rara a pessoa que escrevesse uma carta 
com boa lettra, ha hoje — affirmava — a mesma raridade 
em encontrar quem escreva mal» ^; tudo é thema para enal- 
tecer o seu governo benéfico e fecundo. 



^ Observações secretissimas, IV. 
•1 Observações secretíssimas, III. 



PRESUMIDA TENTATIVA CONTRA A VIDA DE POA\BAL 325 

A este impar de vaidades, ás louvaminhas dos thuribu- 
larios, veiu dar final consagração a presumida tentativa contra 
a sua vida, mostrando que o ministro s€ considerava pessoa 
á parte entre os vassailos, affim na intangibilidade e prero- 
gativas á do Rei. Foi um caso de anarchismo, por antecipação 
de mais de cem annos. Segundo a versão sahida a lume, o 
genovês João Baptista Pele, forasteiro ma! conhecido em 
Lisboa, propuzera-se assassinal-o, por meio de um petardo, 
collocado sob o assento da carruagem, e preparado para 
rebentar durante o trajecto para o terreiro do Paço, no dia 
dos festejos. A coincidência do assassínio com a soiemni- 
dade; a falta de testemunhas, a não ser o único denunciante; 
a sui>erabundancia de provas — bilhetes accusadores que o 
criminoso, em vez de destruir, parecia apostado a deixar por 
onde pudessem ser apanhados - a persistente negativa 
atravez dos tormentos, tudo leva a crer que a protervia dos 
espiões inventou este attentado. Cúmplices ou mandantes, 
para empresa de tal lote, só dois ou três embuçados, vaga- 
mente entrevistos, e o autor desconhecido dos bilhetes, cujo 
teor, exuberante em detalhes compromettedores, de longe 
insinua falsidade. É certo que do processo, dirigido, como 
o dos regicidas, pelo primeiro ministro, consta haverem-se 
encontrado no quarto de Pele os explosivos, moldes de fecha- 
duras, que se verificou serem da cocheira de Pom'baí, e 
outros utensílios do crime. O infeliz, que tinha no bolso as 
chaves, emmudecia, não atinando a explicar como tinham vindo 
aquelles objectos a sua casa; e as façanhas dos que hoje 
chamamos agentes provocadores, autorizam a presumir que 
não seria a estupefacção simulada. 

Detido Pele, em seguida a uma vã correria, com os 
esbirros no encalço, foi declarado réo de lesa-majestade. Como 
para co.m os Tavoras puzeram-se de banda as leis do reino : 
julgamento summario, condemnação inevitável. Pena, eguaí^ 
mente ao arbitrio dos juizes, a que em França padecera 
Damiens o regicida. Tortura ordinária e extraordinária, 
mãos decepadas, o corpo esquartejado por cavallos, crueldade 
nunca vista em Portugal. A agonia do infeliz foi atroz, mas 
PoD.bal tinha uma vingança de rei. 



326 INCÊNDIO DA TRAFARIA 



Não obstante o servilismo em que vivia sepultado o paiz, 
não faltaram murmurações. O horror da execução, a insuffi- 
ciencia da prova, como se viu da sentença publicada, a des- 
proporção da pena a um delicto frustado, se é que algum 
houve, do que muitos duvidavam, tudo isso acirrava a publica 
aversão ao tyranno, a qual por latente não era menos real. 
Já, sopitando o terror, corriam boatos de reacção. Dizia-se 
que, na inauguração da estatua, planeara elle proclamar 
herdeiro da coroa o príncipe D. José, excluindo-se a mãe, 
natural successora, a princesa do Brasil; que muitos fidalgos 
tinham ido, com armas occultas, á cerimonia, para se opporem 
á declaração ; que as tropas municiadas estavam de prevenção 
para abafar qualquer distúrbio, ou inconveniente manifes- 
tação ; que finalmente o projecto havia gorado por se pronun- 
ciar contra elle a corte de Hespanha, cujas tropas se moviam 
para a fronteira '. 

Se foi certo, mais havia de acerar isso em Pombal a 
tendência á repressão, e ao furor nos castigos. A ultima de 
suas explosões, de todas a mais cruel, foi o incêndio da Tra- 
faria, com muitas mortes e prisões. Já o Rei adoecera para 
morrer, e a fúria do ministro crescia, com os prenúncios, 
que via desfavoráveis, da sua futura sorte. Com o pretexto 
de que lá se acoutavam, com os pescadores, muitos fugitivos 
á recruta, então activa pelos prospectos de guerra com a 
Hespanha, o juiz Manique, esbirro prompto ás violências, 
atravessou o Tejo, á frente de soldados, em uma sombria 
noite de janeiro, para incendiar as pobres choupanas, de 
colmo e taboas, onde dormiam os labutadores do mar com 
suas famílias. O intento, peio modo da execução, tanto seria 
de colher no pânico os transfugas, como destruir, qual ninhada 
de feras, os habitantes. Ao crepitar das chammas, precipita- 
vam-se os desditosos de encontro ao cerco, mulheres, creanças 
e velhos no tor\'elinho. Houve mortes; a compaixão dos 
soldados poupou a muitos, porventura illudindo as ordens. 
Conhecido o facto, o clamor sobre a barbaridade foi geral. 



1 Gramoza, Succcssos de Portugal, I, 73. 



I 



S!TI;AÇÃ0 ECONOAUCA na administração pombalina 327 



Carvalho justificou-se mais tarde, dizendo que o logar era 
um couto de criminosos, os pescadores não pagavam os 
tributos, espancavam os fiscaes, e que o Rei para os punir 
ordenara se arrazasse a povoação. Salvo o mandado do sobe- 
rano, que agonizava, deve ter sido o caso assim. Sangue e 
ruina era o que Pombal, nos estos da sua ira insensata, 
proferira. 



II 



Ia terminar o reinado, e a situação do paiz divergia 
muito do que a jactância do valido apregoava. A opulência 
geral, provada nas baixeilas, nos opiparos banquetes, nas 
custosas carruagens, nos gastos particulares, por occasião das 
festas da estatua ; a riqueza do commercio. e das manufacturas, 
o progresso da lavoura, o florescer das colónias, a satisfação 
do povo pela prosperidade que um governo benéfico sobre 
clle derramava, fazendo, no dizer de Pombal, admiração aos 
extrangeiros «que nunca haviam entendido que Portugal, em 
tão poucos annos, houvesse accumulado riquezas tão supe- 
riores á sua comprehensão» 1; essa opulência, esse conten- 
tamento, esse pasmo, eram illusões do amor próprio, argu- 
mentos mais ou menos sinceros contra os emulos, direitos que 
o ministro invocava á gratidão publica e ao favor do Rei ; tai 
qual nos Estados modernos a remuneração de serviços, com 
que um chefe de partido avança á conquista, ou um governo 
abalado pretende a conservação do poder. 

É certo que, na progressiva decadência em que vinha 
o paiz, já desde quando os thesouros da índia nelle se despe- 
javam, decadência que nem o affluir de ouro e diamantes 
do Brasil logrou interromper, o terceiro quartel do século 
XVIIÍ, olhado a distancia, parece offerecer uma pausa. O 
contraste com o desalentador período seguinte, faz vêr um 
renascimento na relativa animação do commercio, sobretudo 



1 Observações secretíssimas, XVI. 



328 DECADÊNCIA GERAL DO COMMERCIO 



O maritimo, c no desabrochar de industrias novas, dando 
impulso ao trabalho nacional. Não ha negar que, no consulado 
pombalino, o poder absoluto, ao serviço de uma indómita 
vontade, estimulou, por instantes, o organismo derrancado 
da nação. Mas, consumidas na violenta excitação as derradeiras 
energias d'esse corpo enfraquecido, o abatimento tinha de 
ser em seguida, e realmente foi, mais intenso e prolongado. 

Entretanto, o reviver fictício da actividade portuguesa, 
em paralielo com o lethargo de tantos annos, illude o obser- 
vador desprevenido, e, quando no reinado seguinte a inevi- 
tável queda se lhe depara, mais deasstrosa e fatal, a figura 
do ministro apparece aureolada de grandeza, á qual presta 
maior brilho a insufficiencia ou a má estrella dos successores. 

A verdade é que, só á custa de enormes sacríficios, e por 
meio dte providencias, com o correr do tempo insustentáveis, 
c despertar da nação para a vida económica transitoriamente 
se realizou. No próprio momento em que as creações de 
Pombal parecem inaugurar uma nova era de riqueza e bem- 
estar, situação mui outra se nos revela, nos brados do povo 
clamando sua miséria, nas angustias do thesouro sob o 
constante assedio dos credores. 

Sem embargo da fama em contrario, a gestão económica 
de Po:;ibal foi quasi sempre infeliz. Providencias, em que 
fundava seguras esperanças, davam afinal precário resultado, 
depois de haverem introduzido graves perturbações na vida 
económica, generalizado o descontentamento, arruinado não 
poucas fortunas. Logo «m seguida á Companhia do Grão- 
Pará, Pombal, tomando gosto, fundara a do Alto Douro. Em 
1759 a de Pernambuco e Parnahiba; em 1773 a Companhia 
geral das reaes pescas do Algarve. Fontes de opulência para 
alguns, poucos, favorecidos, todas ellas foram para o povo 
maldição. Do clamor a que as duas primeiras deram motivo, 
quando se instituíram, falou-se atrás. Imagine-se agora o 
exaspero dos lavradores da Extremadura, das regiões do 
Mondego e do Vouga, quando os esbirros do corregedor 
lhes iam intimar que arrancassem as vinhas i, para muitos, 



1 Ui de 26 outubro 1765. 



AS COMPANHIAS POMBALINAS 329 



sua única riqueza. Das suas, de Oeiras, Pombal vendia o 
producto, a bom preço, á privilegiada Companhia. Por effeito 
d'esta violência, da perturbação geral dos negócios, prove- 
niente do monopólio, muitas casas se despenharam na ruína. 
O trafico com o Brasil diminuirá consideravelmente, e as 
próprias Companhias, apesar dos seus privilégios e das res- 
tricções em que se amparavam, arrastavam difficil existência. 
A do Grão-Pará, de Í766 em diante, nunca mais distribuiu 
dividendos. Na colónia queixavam-se negociantes e agricul- 
tores. Por incúria da Companhia escasseavam as fazendas que 
só ella podia levar da metrópole; os productos da terra paga- 
va-os a mesquinho preço; os escravos da Africa, que tinha 
obrigação de levar, e cuja introducção era o motivo da sua 
existência, umas vezes não chegavam para as necessidades, 
outras, se vinham em maior numero, não podiam ser vendidos 
em condições de lucro para a Companhia, pela pobreza dos 
moradores. Na colónia e no reino era egual o descontenta- 
mento. Quando, em 1778, a concessão terminou, o jubilo 
foi tamanho em Lisboa que o commercio mandou celebrar 
um Te-Deum em acção de graças. 

Apesar dos privilégios e favores do Estado, os 
titulos d'esta e das outras Companhias corriam depreciados. 
Acudiu Pombal determinando que, nas execuções e partilhas, 
os juizes as considerassem não como dividas contingentes 
mas por dinheiro liquido ^ ; depois, impondo pesadas multas, 
a quem os comprasse abaixo do valor nominal -. Tudo, 
porém, debalde. 

A Companhia de Pernambuco e Parahiba fundara-se com 
grande capital. Promoveu adeantamentos na colónia com 
prejuizo dos accionistas, que por fim não tinham frete para 
o numero excessivo de barcos empregados no trafico. É de 
notar que a cultura do algodão só foi introduzida em Pernam- 
buco depois de extincta a Companhia. D'esta e da outra 



1 Alv. 21 junho 1760. 

2 Alv. 30 agosto 176S. 



330 A COMPANHIA GERAL IX) ALGARVE 



do Grão-Pará sumiram-se os fundos, que restavam quando 
o privilegio acabou, nas mãos dos liquidadores '. 

A protecção ás pescarias do Algarve veiu a dar na mina 
de uma industria que, desde o tempo do infante de Sagres, 
lôra o viveiro tão fértil de onde os arrojados navegantes 
sabiam. A Companhia geral obteve o privilegio da pesca 
dos peixes chamados reaes, atum e corvina, com varias 
isenções fiscaes, e o direito de expropriar armazéns, casas, 
embarcações, redes, cordoalhas, e mais utensílios que os 
particulares tivessem no mesmo trafico -■. Depois d'isso, com 
o fito de expulsar os pescadores hespanhoes, que vinham 
numerosos á costa portuguesa. Pombal incumbiu a industria 
da sardinha a um syndicato ou Kartell — assim diríamos 
hoje — composto de oito sociedades, com certas vantagens 
e obrigações, entre estas a de manterem no trafego cada 
uma seis barcos, além dos de transporte, e os apparelhos 
necessários. Creou para sede d'este ramo da industria a 
Villa Real de Santo António, e, querendo promover o desen- 
volvimento da povoação nova, mandou destruir pelo fogo 
a de Monte Gordo, alli próxima, onde residiam os pescadores 
e barqueiros, obstinados cm nãO' se transferirem á villa. 
Ensaio do assalto á Trafaria, três annos depois. Tão pro- 
ducentes foram estas providencias que, ao findar o reinado, 
as sociedades, faltando-lhes a coacção do governo, quasi todas 
se dissolveram; dos quarenta e oito barcos do encargo ficaram 
dez no mar; os pescadores emigraram para Hespanha, de 
Ayamonte até Cadiz; e a decadência accentuou-se nos annos 
seguintes, ferida a industria algarvia de modo fatal ^ 

Despojados em proveito dos monopólios os pequenos 
capitalistas, violentados es trabalhadores, empobrecido o com- 
niercio, por toda a parte no paiz, metrópole ou colónias, 



' Ratton, Recordações, 242. 

~ Alv. 15 janeiro 1773. 

^ Cf. a «Memoria sobre a decadência da pescaria do Monte 
Gordo», f>or Constantino Botelho de Lacerda Lobo, nas Memorias eco- 
nómicas da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 3.°, 351 e seg. 



TESTEMUNHOS DOS DIPLOMATAS AUSTRÍACOS 331 



reboavam as queixas. A este respeito são impressivas ;as 
informações que á corte de Vienna transmittiam os seus 
representantes. Kail em 1763: cA pobreza e a miséria são 
geraes, e cada dia augmentam a ponto difficil de se imaginar. 
O commercio está completamente desbaratado, e recebeu 
agora o ultimo golpe com a chegada da frota, que não 
trouxe um decimo do que se esperava, para contentar os 
credores extrangeiros, que fiaram as fazendas, e ir entretendo 
o credito da praça muito abalado» ^ Dois annos depois, o 
conde Welsperg considera o commercio do Brasil em desas- 
trosa situação, aggravada por noticias dos preparativos que 
então se fazia contra a 'Hespariha. Nem se aguentavam as 
Companhias, cujas extorsões levavam os habitantes do Brasil 
a sumirem-se no interior, deixando-lhes muitas vezes grandes 
dividas por solver. Em 1769. Lebzeltern: '~0 commercio 
ern geral acha-se em extrema decadência, por causa de tantas 
companhias que se crearam > -'. Em 1774: (cNunca o commercio 
se viu no estado de abatimento em que se encontra agora». 
E em 1776, já no fim do reinado: «O povo miserável e carre- 
gado de tributos supportaria ainda assim tudo com paciência, 
se visse que tentavam dar algum lenitivo a seus males, e 
o meio único, pelo qual todos suspiram, seria a extincção das 
Companhias e a restituição do commercio livre» ^, O mesmo 
diplomata faz em breves palavras a synthese da obra de 
Pombal: «Este povo, que D. João V, apesar de seus gastos 
desmedidos, da sua liberalidade excessiva, deixou, ao morrer, 
abastado, contente e feliz, offerece á primeira vista a imagem 
da indigência e da escravidão» -*. E não se diga ser isto male- 
dicência de extrangeiros, que a emulação, e interesse politico 
tornavam hostis. Entre as cortes de Vienna e Lisboa questões 
a debater não havia. As relações pessoaes do primeiro ministro, 
com aquelles que tão desfavorável juizo da sua administração 



^ ÍS outubro 1763. Duhr, Pombal, 31. 

2 20 agosto 1765. Duhr, Pombal, 32. 

3 Ideni, 34, 43, 40. 

-í Rei. dezembro de 1776. Idem, 31. 



332 PROSPERinADE EPHEMERA ÍUS lNnUSTRl\S 



formulavam, foram sempre cordeaes; com Lebzeltern de rela- 
tiva intimidade. Nada leva a infirmar os testemunhos com 
suspeição. Exagerados podiam ser no pessimismo, se a derro- 
cada, seguinte á queda de Pombal, não desvendasse a fraqueza 
da sua obra. Em todo o caso, reflectiam a opinião corrente, 
o mal estar, traduzido nas queixas geraes. 

Sobre as industrias, que o ministro com tanto desvelo 
buscava radicar em Portugal, ouçamos o mesmo julgador: «As 
circumstancias, em que as fabricas, sem excepção alguma, se 
encontram, são taes, que os productos não teem sabida, já 
pela ruim qualidade, já pelo preço excessivo, de modo que só 
com extraordinários auxiiios do thesouro se podem manten> i. 
Em outra occasião dizia ainda: «Quanto ás industrias, cuida-se 
mais de lhes dar uma apparente florescência, que de as 
estabelecer em bases solidas. Para esse fim se exhaure o the- 
souro publico, se opprime o commercio extranho, e se acha 
a nação privada de copia de objectos necessários e commodi- 
dades» -. E a sorte d'essas creações, quando o bafo carinhoso 
do fundador lhes faltou, confirmou estes assertos. Pouco 
escapou á derrocada geral. 

Certo, a acção reformadora de Pombal nem sempre 
resultou contradictoria ou nociva. De tanto que fez, alguma 
coisa foi útil e perdurou. Uma parte abriu caminho a con- 
quistas futuras, e, a relances, transparece nelle um homem 
do seu século. A disposição acerca dos christãos novos, a 
emancipação dos Índios, mal regulada todavia, a escravidão 
extincta em Portugal, são providencias que o recommendam 
á veneração dos pósteros, posto que as duas primeiras fossem 
tomadas como meio de combate á Companhia de Jesus, e 
a ultima em beneficio da lavoura do Brasil, o que se vê 
dos respectivos diplomas l No âmbito da legislação civil e 
administrativa, no quotidiano expediente das secretarias, innu- 



^ 18 março 1773. Duhr, Pombal, 41. 

2 18 outubro 1774, em cifra. Idem, 41. 

3 Leis de 26 maio 1773, 6 junho 1755, 19 setembro 1761, com- 
pletada esta, relativa aos escravos, pela de 16 janeiro 1773- 



REFORMAS MA LEGISLAÇÃO 333 



meras outras revelam discernimento e uma innata equidade 
que seria absurdo contestar. 

Mas o homem era evidentemente inferior á tarefa de 
reformação geral que s<í impuzera. Muitas das suas determi- 
nações são apenas devaneios de um espirito autoritário, que 
não vacilla ante o atropelio improfícuo de direitos e costumes, 
ante as mesquinhas tyrannias, para impor idéas que a per- 
suasão, melhor que o constrangimento das leis, faria vingar. 
Tal foi a pragmática sobre os casamentos de pessoas da 
nobreza, que prohibe concorrerem á ceremonia, por convite 
ou sem elle, outras pessoas além dos padrinhos e parentes 
do primeiro grau, bem assim passarem os noivos na corte 
a noite das núpcias, devendo ir para fora da cidade, mais de 
duas léguas, e não voltar antes de passados dez dias i. Outro 
decreto exclue, na fidalguia, as filhas da herança paterna, 
quando haja varões, ficando a estes o encargO' de as sustentar; 
prohibe os dotes e disfarçados donativos, por occasião do 
casamento; limita o enxoval e o presente do esposo, desi- 
gnando áquelle o valor de 4:000 cruzados, a este os objectos 
de que se ha de compor: um vestido de gala para o noivado, 
dois outros para os dias immediatos e algumas jóias modestas. 
«O fim d'esta lei — dizia Pombal — é sustentar o património 
das casas e facilitar o matrimonio dos filhos d'ellas» -. 

A seguinte disposição, que o ministro considera entre 
as suas mais beneméritas, descobre uma usança, que vinha 
das edades longínquas da raça. Por effeito d'ella não devem 
as viuvas ser encerradas em quartos escuros, nem dormir 
em camas rasas no chão, nem ficar por largo tempo reclusas, 
após a morte dos maridos ; abrir-se-hão as janellas ao fim de 
oito dias; não passará o luctuoso retiro de um mfês '3. E isto 
sob pena de multa de 2:000 cruzados, em que os parentes, 
responsáveis das practicas vedadas, participavam. 



1 Lei de 19 agosto 1761. 

- Contrariedade ao Ubello offerecído por Franciscê José Caldeira 
Soares Galhardo de Mendanha contra o Marquez de Pombal, appen- 
dice, Epitome, chronolo^ico. 

3 Lei de 17 agosto 1761. Veja-se a Contrariedade ao Ubello etc. 



334 DESCALABRO FINANCEIRO 



íir 



Voltemos á gestão económica e financeira. 

Agçravando o mal estar g-eral. a penúria constante do 
ciario renectia-sc no commercio e na vida particular. A falta 
de pontualidade nos pagamentos foi um dos característicos 
doesta administração famosa. Devia-se o pré ás tropas; 
deviam -Ge os salários nas officinas do Estado, as soldadas aos 
serviçaes do paço. Em 1763 dizia Kail que ninguém recebia 
soldos, ordenados, pensões ou juros i. O viajante inglez 
Wraxall, que veio a Lisboa em 1772, dá a informação 
seguinte : «A casa real andava tão mal administrada que a 
maior parte dos officiaes e creados não eram pagos, íhavia 
uns poucos de annos, e se achavam por isso nas mais penosas 
circumstancias. . . Os lacaios, que acompanhavam as carrua- 
gens reaes, estavam quasi sem meios de subsistência» -. Estes 
factos deviam ser notórios, e recolheu-os Wraxall evidente- 
mente nas conversas durante a sua visita. Segundo Dalrymple, 
official da guarnição de Gibraltar, que percorreu o paiz em 
1774, os rendimentos pubhcos, entre os quaes avultava o 
ouro do Brasil, eram desbaratados sem critério, em toda a 
casta de despesas alheias aos compromissos correntes. «O 
Rei — dizia elle — está a dever a todo o pessoal da sua 
casa^> \ Não menos positivo é o depoimento que se encontra 
na apocrypha Viagem do duque de Chatelet, obra de um admi- 
rador de Pombal. O escriptor teve occasião de verificar, 
segundo diz, quão pouco cuidadoso era D. José em pagar 
as suas dividas, mêmc les plus criardes. Por occasião da sua 
morte todos os creados reclamavam quatro ou cinco annos 



1 17 Outubro 17Õ3. Pomba!. Dlhr, 32. 

- Wkaxall, Mémoires historiques de mon temps., trad. Paris 1817, 
I, 21. 

vi DALKYAíPLt, \'oyage eii Es/m^^ne et en Portugal, trád. Paris 1 7S3, 
pag. 197. 



DESCALABRO FINANCEIRO 335 



de soldadas. A propósito d'isso mais de uma vez lhes ouviu 
murmurações nada respeitosas i. Em 1764, referia Kail que 
ao fornecedor das reaes ucharias a divida era de um e meio 
milhão de cruzados, conseguindo, ao cabo de muitas e sérias 
representações que lhe pagassem um terço ~. Em 1769, o 
cônsul de Áustria Stockler, negociante, a pique da fallencia, 
dava-se a insanos esforços para cobrar quatro mil cruzados, 
divida do paço. Ainda sobre os creados escrevia, em 1773, 
Lebzeltern: «Ha dez annos não recebem um real dos seus 
ordenados, de modo que a maior parte vivem de esmolas ". 
As extravagâncias de uma corte perdulária concorriam 
de certo para tornar inevitáveis estes atrazos; mas é licito 
aifirmar, por outra parte, que em geral não presidiu á admi- 
nistração pombalina o critério, nem a justa economia, de que 
dependem as boas finanças. Podia-se suppôr que o dinheiro, 
regateado ás dividas do Príncipe, zelosamente se applicava 
aos serviços da nação, de sua natureza mais importantes. 
Longe d'isso: o thesouro esvahia-se por mil canaes em 
despesas inúteis. Só o custeio das cavallariças reaes importava 
em quantia enorme. Bastará saber-se que, por morte de 
D. José, os cavallos e muares vendidos foram em numero 
de dois mil, e ainda restavam oitocentos para o serviço. O 
theatro lyrico era outro sorvedouro nunca extincto. "O celebre 
castrado Gizielo ganhava 30 mil escudos por anno, e mais 
vinte e dois mil francos para o prato, além de casa e car- 
ruagem. O Rei, doido por musica, não passava sem o seu 
preferido divertimento, quando ia a Salvaterra. Wraxall ouviu 
que a despesa com a opera, no paço, importava em 40 :000 
libras esterlinas cada anno. O embaixador francez Baschi diz 
que só a sala e o vestuário custavam 250 mil francos por 
mês. Do que não resta duvida é que as exhibições eram 
sumptuosas, e nada se poupava para que o espectáculo não 
fosse somenos ao melhor que no género havia então na 



' Voyage du ci-devant diic de Chatelet. 2.", 63. 
2 DuHR, Pombal, 46. 
•' Idem, id., 46. 



336 ESTADO PRECÁRIO D-0 EXERCITO 



Europa. As touradas, outra distracção favorita do soberano, 
faziam também carga assaz p-esada no orçamento da coroa, 
O ministro qu€, para tranquillamente exercer o poder despó- 
tico, precisava lisonjear os gostos do amo, assentia em tudo 
isto. O resto seria pouco para remunerar a clientela de Pombal, 
para soccorro ás industrias, introduzidas com sacrifício do 
erário, para a reedificação de Lisboa, ficando sem se lhes 
acudir outras verbas, das m.ais urgentes, da publica admi- 
nistração. 

O exercito já sabemos em que estado se encontrava por 
occasião da guerra com a Hespanha. A competência especial 
do conde de Lippe como organizador; a collaboração de 
officiaes extrangeiros, alguns d'elles distinctos; a complacência 
do governo em os attender, emquanto o perig-o durou; a 
nova disciplina então introduzida, tudo isso contribuiu para 
elevar material e moralmente o valor da força armada, cm 
um período curto, seguinte á campanha. Mas logo depois, 
com a ausência de Lippe, que era a vontade motriz, a deca- 
dência antiga reappareceu. Dalrymple, que tinha para o 
informar officiaes seus compatriotas, com isso e o que viu, 
faz da organização militar portuguesa a mais desfavorável 
idéa. Em Valença, primeiro logar onde esteve, havia um 
regimento de artilharia e outro de infantaria. «Julgo que 
nunca vi tropas assim», diz elle, no sentido deprimente. Os 
officiaes viviam descontentes, os soldos eram mesquinhos ; 
não se faziam promoções, de modo que, por exemplo, em 
um regimento de Vianna todos os postos, acima de tenente, 
excluindo o coronel, estavam vagos. Em taes condições a 
disciplina era frouxa. Os soldados andavam rotos, traziam as 
armas enferrujadas, o correame sujo e dilacerado. A guar- 
nição do Porto ainda peor. Soldados de sentinella pediam 
esmola i. Logo que Lippe se foi embora começaram a faltar 
os fardamentos e também os recrutas, relata o Enviado 
francês, conde de Saint-Priest -. Em 1773, foi necessário 



Voyage, cit. 165 e 175. 
Quad. Elen;t., VII, 205. 



ESTADO PRECÁRIO DA MARINHA 33? 



reduzir o effectivo do exercito. A este respeito communica 
Lebzeltern: «Esta providencia tornou-se indispensável, por- 
quanto o erário não poderá por mais tempo comportar tão 
avultado gasto com a força armada» ^. 

Não era mais florescente a situação da maiinha. A admi- 
nistração naval continuava a ser encargo do Provedor dos 
armazéns de Guiné e índia e Arsenal de marinha, funccionario 
vitalício, a quem incumbia a construcção, apparelho e arma- 
mento das esquadras. Pombal, na sua faina reformadora, não 
se lembrara de eliminar esta entidade anachronica e inerte. 
Em 1765 consistia o effectivo em dezoito navios, e esses, 
dizia Saint-Priest, mal providos de tripulações. No tempo 
de Dalrymple existiam, segundo colheu, dezesete navios, sendo 
seis fragatas. Cada anno, refere Saint-Priest, sabiam dos 
estaleiros duas fragatas, mas o desleixo era tal que em pouco 
tempo apodreciam, de maneira que o total jamais passava 
de vinte ^. No fim do reinado deviam-se aos operários .do 
arsenal muitos meses de paga. Então compunha-se a armada 
de doze navios, «a apodrecerem no porto de Lisboa», dizia 
o marquês de Clermont d'Ambroise, ministro de França. «É 
lastima — continua o diplomata — ver em tamanha deca- 
dência esta nação, que em um século de ignorância se cobriu 
de gloria, abrindo aos outros povos da Europa caminhos 
até ahi desconhecidos» ^. Tudo isto desenha a situação do 
paiz em traços bem diversos d'aquelles com que a orgu- 
lhosa apologia do ministro a representava ^. 



1 DuHR, Pombal, 46. 

2 Quad. Elem., 8.o, 185. 
2 Idem, id, 45. 

* Latino Coelho, que não é suspeito de desaf feição a i^omòal, 
escreve: «Todos os testemunhos são conformes em attestar que nos úl- 
timos annos de reinado de D. José o exercito havia quasi retrocedido 
ao estado em que jazera em tempos do seu predecessor». (Hist. politica 
e militar, 3. o, 85). E em outra parte: «O marquez de Pombal era 
por Índole e systema pouco propenso aos assumptos militares. Não 
admira pois que, apesar da sua inflexível hombridade em zelar a honra 
nacional, não elevasse a marinha portuguesa ao grau de força e per- 

O MARQUÊS DE POMBAL F. A SUA ÉPOCA — 22 



338 A INSTRUCÇÃO PUBLICA 

No ramo da instrucção publica, tão encarecido na forma 
que Pombal lhe imprimiu, egualmente se manifesta a insufi- 
ciência da sua obra, que em uma boa parte falhou. Nem 
tudo se deve attribuir ao espirito retrogrado da seguinte 
administração. A reforma obedecera, como sabemos, ao 
intuito de proclamar a nocividade pedagógica dos jesuitas, 
e comprovar que elles, em dois séculos, tinham arruinado .a 
litteratura em Portugal. A questão não foi iniciada pelo 
ministro; já vinha de trás. Promanava da rivalidade entre 
as confrarias do Oratório e de Loyola, por causa dos discí- 
pulos. Verney abrira o tiroteio em 1747, com a publicação 
do Verdadeiro metlwdo de estudar. Os jesuitas replicaram, e 
o prélio veio a disputar-se principalmente em torno da syn- 
taxe latina: de ura lado a nova grammatica de António 
Pereira de Figueiredo, oratoriano, do outro a velha Arte 
do padre Manuel Alvares. D'aqui se partiu para generalizar 
que os jesuitas tinham derruído a mentalidade portuguesa, 
como se outras causas evidentes não houvesse, para explicar 
a decadência material e intellectual da nação. A disparidade 
entre a causa e o effeito salta aos olhos menos sagazes. 

Pombal não podia desprezar a indicação. O primeiro 
acto, após o attentado de setembro contra o Rei, e fechadas 
as aulas dos jesuítas, foi prohibir o compendio de Alvares, e 
mandal-o substituir pelo de Figueiredo i. Supprimidas as 
escolas da Companhia, ficaram em muitas partes as ciasses 
menos abastadas sem ensino. Em 1761, havia professores 
régios somente em Lisboa, Coimbra, Porto e Évora, e no 
Brasil em Pernambuco. Nas outras povoações, a reorganização 
do tensino gratuito effectuava-se lentamente. Os mestres parti- 
culares estipendiados, a custo viviam. O que se fazia activa- 
mente era extirpar tudo quanto provinha dos jesuitas. São 
typícos os seguintes trechos de um relatório do principal 
Almeida, director geral dos estudos, em 1765: «Em Pernes 
mandei a justiça a casa de um mestre, em mãos de cujos 



feição, que poderia esperar-s(? do seu longo e ousado ministério». (Idem, 
2.0, 352). 

^ Decreto de 28 junho 1759. 



o NOVO REGIMEN DA UNIVERSIDADE 339 

discípulos S€ achavam os livros de que usavam os denomi- 
nados jesuítas. Suspendi o mestre e o privei para sempre 
de ensinar, mandando-lhe queimar á porta todos os ditos livros. 
Da mesma forma procedi nesta corte na rua Formosa. . . 
Mandei fazer buscas por casas dos livreiros. No Porto, 
Coimbra e Santarém foram achados muitos dos sobreditos 
livros, que foram queimados publicamente e os livreiros 
presos. . .» ^ Trinta dias de cadeia e multa pecuniária, a estes 
mercadores culpados de empeçonharem a mocidade, com as 
regras do padre Alvares, e a Prosódia de Bento Pereira, outro 
autor condemnado. 

A reforma da Universidade fora encarregada á Junta 
da providencia litteraria, para esse fim instituída. Eram nelias 
figuras proeminentes o reitor D. Francisco de Lemos, o bispo 
de Beja, Cenáculo, e o ajudante de Pombal, José de Seabra. 
A capacidade d'este ultimo, pelo que mostrou no reinado 
seguinte, devia ser medíocre. Presidia umas vezes o cardeal 
da Cunha, outras o marquês de Pombal, mas é evidente 
que o primeiro, mesquinho de íntelligencia, o segundo sem 
preparação especial, escasso concurso podiam levar aos tra- 
balhos. A parte technica pertence aos profíssionaes; de Seabra 
e Pombal partiria a inspiração do Compendio histórico da 
Universidade, relatório da commissão, que dilue e amplifica 
os postulados da Deducção chronologica, e na critica não desdiz 
d'este e dos mais escriptos anti-jesuiticos da mesma origem. 

Transcorridos alguns annos da queda do ministro, lamen- 
tava-se já a decadência dos estudos na Universidade, attri- 
buindo-se á falta d'elle a situação. O académico António 
Ribeiro dos Santos — na phrase de Camilio, o mais douto 
homem do século — dizia sobre a espécie, em carta a um 
amigo: «Que havia elle fazer agora, se fez pouco no princípio, 
se edificou um edifício ruinoso, como havia agora de ter-se 
em pé?... Este ministro, apesar de tudo quanto disseram 
d'elle os seus panegyristas, não talhou um plano útil, que 



1 Ti:eophii.o Braga. Hhtoria da V niversidade de Coimbra, 3.C', 359. 



340 O COLLEGIO dos NOBRES 



honrasse a sua nação e o seu século» ^. O mesmo censor 
mostrava que Pombal, «profundo em algumas partes da admi- 
nistração politica, não tinha nem plano, nem systema no 
todo, tudo fazia por pedaços e a retalhos, de que depois 
se não uniam as partes, nem se ajustavam entre si» 2. O 
juizo evidentemente é exacto, e bem se ajusta, como aos 
mais, á reforma dos estudos. 

Meses passados da queda do ministro, em setembro de 
1777, o reitor da Universidade, D. Francisco de Lemos, fazia 
vêr ao governo a necessidade de se restaurarem os estudos 
das humanidades, que se achavam na ultima decadência '^. O 
Collegio dos nobres, tão falado, entrara em caducidade antes 
da morte de D. José. Com um rendimento de 40:000 cruzados, 
e os professores pagos pelo Subsidio litterario, imposto esta- 
belecido pelo marquês, não tinha meios para sustentar ao 
menos cincoenta alumnos. «Nos primeiros dez annos — arguia 
um dos pedagogos do estabelecimento — nelle se crearam uns 
trinta fidalgos, dos quaes ahi estão e fazem vulto os que 
nelle vingaram, e se aproveitaram, mas, depois que deu esta 
primeira camada, nunca mais medrou nem luziu» ^. Defeito 
certamente da organização. A falta de unidade no plano 
meditado pelo ministro para transformar o ensino, permittiu 
que, no reinado seguinte, o espirito de reacção contrariasse 
com vantagem a maior parte do que elle utilmente dispunha. 
Vimos o que diziam da Universidade. Menos de um anno 
depois que o novo governo principiara, a Mesa Censória, 
creação de Pombal, composta de apaniguados seus, propunha 
que os estudos menores se confiassem ao santo zelo e sciencia 
das corporações religiosas, e assim se fez, em consequência 
do que, muitos professores seculares foram dispensados s. 



^ Th. Braoa. Hist. dn Universidade, 3. o, 371. 

- Idem, 570. 

3 Idem, 591. 

* Repres. do professor Sousa Farinha ao príncipe regente. Hist. 
da Univeridade, 3.c, 353. 

5 Mem. do professor Santos Marrocos, Hist. da ('n'versidãde, 3.o, 
392. 



A MESA CENSÓRIA 341 



Não se compadecia com o espirito de progresso, que 
o estadista pretendera inculcar á Universidade, a existência 
de peias, que tinham por objecto conservar a nação um 
viveiro de eunuchos inteliectuaes. O systema das reformas 
de retalhos, que Ribeiro dos Santos reprovara, vinha a dar 
nisso. Pombal só fizera a menção de libertar as inteliigencias, 
por aggravo aos jesuitas. O seu espirito estava longe, muito 
lorgr das idéas, que naquelle tempo agitavam a Europa. Com 
aprazimento seu, a Mesa Censória proscrevia os philosophos, 
Spinoza, Hobbes, La Mettrie, Voltaire, Diderot e quantos 
outros! simultaneamente com as producções da phantasia litte- 
raria, a Nova Heloísa de Rousseau, os Contos de Lafontaine e 
o licencioso Sophá de Crébillon; tudo em fim que na vida 
mental do século XVIII representava o arrojo, o saber, p 
requinte e a graça. Locke podiam-no ler somente aquelles a 
quem a Mesa facultasse especial licença, e cujo espirito, reco- 
nhecidamente calmo, não corresse o risco de se perder no 
trama das concepções ousadas do inglês. Como estes 
muitos mais i. 

Define a situação o dizer-se que, em 1776, não foi per- 
mittido divulgar-se a traducção de um Elogio de Descartes^ 
porque — diziam os censores — não estava o povo português 
ainda acostumado a ver na sua lingua escriptos que afervo- 
ravam «o espirito da duvida, do exame, da independência e 
da liberdade». Aos vendedores de livros defesos, as leis 
impunham, além do confisco, seis meses de cadeia, e em caso 
de reincidência dez annos de degredo para Angola 2, Mas 
até nesta parte o propósito que se tinha em vista falhou. 
Condemnar os livros era apontalos á curiosidade ardente dos 
espiritos, sequiosos de idéas novas, aculeados pelo attracíivo 
do risco e da prohibição. Todavia, só quando o cyclone das 
guerras napoleónicas, varrendo a Europa, chegou até nós, 



1 Veja-sc na Hisí. da Universidade, 3. o, 60 e seg., a relação 
das obras prohibidas pelo edital de 24 de setembro de 1770. 

2 Tu. Braga, Hist. da Universidade, 3. o, 49. São dignos de ler-se 
os pareceres da censura, transcriptos a pag. 65 e seguintes do mesmo 
volume. 



342 AGONÍA DE D. JOSÉ 



as intelligencias puderam cabalmente emancipar-se da tutela 
dos censores e da inquisição. 



IV 



Entretanto approximava-se a hora em que o ministro, 
saciado dos gosos da ambição e do poder, ia conhecer os 
travos do infortúnio, menos ásperos todavia do que elle os 
fizera sentir a outros, que repellira como incommodos ou 
supplantara como rivaes. A apoplexia espreitava a D. José 
e, após vários assaltos, a 12 de novembro de 1776, pros- 
tou-o de vez. 

 volta do Rei, cortesãos e médicos insinuavam a oppor- 
tunidade dos soccorros da Egreja. No dia 18, pediu elle 
próprio os sacramentos. Veio o deão da Patriarchal — o 
patriarcha falleoera dias antes — com a extrema-uncção; o 
Núncio com a benção papal. O marquês protestou. Não se 
convencia de que o enfermo se achasse em tal extremidade, 
e tão vacillante o seu poder. Barafustava contra o fanatismo 
ignaro, e capitulava de attcntado criminoso a deliberação 
tomada sem se ouvir o Conselho de Estado. Parecia-lhe uma 
conspiração da nobreza e dos médicos contra a vida do Rei. 
Na occasião da cerimonia compareceram no paço os ministros 
extrangeiros, entre elles Lebzeltern, que na physionomia dos 
aulicos julgou descortinar uma secreta alegria i. Não admira; 
a morte que adejava naquella estancia, para muitos seria 
mensageira da fortuna e pelo menos da vingança. Pombal a 
custo se rendia aos factos, que já lhe annunciavam o terminar 
de seu reinado. Em presença dos fidalgos, dos ministros, dos 
médicos, qualificou de intempestivo o apparato, de demasia 
os cuidados que affectavam pela vida do soberano ^. 



'•■ Rei. de 24 novembro a 13 dezembro de 1776. Duhr, 170. 
2 Relação compendiosa do que se tem passado e vae passando na 
enfermidade de el-rei meu senhor. CoU. Pomb., Cod. 695. 



REGÊNCIA DA RAINHA 243 

A 29 assumiu a Rainha a regência. Desde esse dia nunca 
mais D. José falou; exprimia por escripto os seus confusos 
pensamentos. Cerrado pela primeira vez ao ministro o apo- 
sento régio, dentro do paço lia elle, nos olhos que o fitavam, 
ódios que já não tentavam dissimular-se e a certeza do trium- 
pho próximo. Por fora, á boca pequena, corria que, reco- 
brando-se o Rei, tudo se havia preparado para a Rainha 
guardar o poder. De contrario, ai d'aquelles qu€ já se haviam 
descoberto á vingança de Pombal! 

As alternativas do estado do Rei eram o thermometro 
do credito do ministro, notava o sempre attento Lebzeltern. 
Com o soberano agonizava o pK)der do valido. Meses a fio, 
três longos meses, levou elle a entrever o seu destino affron- 
toso. Costumado ás venerações, por fim já ninguém o attendia 
no paço, onde antes os aulicos recebiam comprazidos ordens 
suas, e agora como importuno penetrava. Seus collegas e 
protegidos, feituras suas, o cardeal da Cunha, um Távora, 
que elevara aos mais altos cargos, regedor das justiças, Inqui- 
sidor geral, e ministro assistente; Martinho de Mello que 
mandara vir da embaixada em Londres para secretario de 
Estado; cabalavam contra elle, bandeavam-se com os adver- 
sários que machinavam perdel-o. Os actos da regência eram 
já a renegação do passado. Elle próprio tivera de assígnar 
a ordem de soltura do bispo de Coimbra, encerrado, oito 
annos havia, no forte das Mayas em Pedrouços, pelo crime 
de affrontar a sua omnipotente autoridade. José de Seabra, 
seu ajudante, que, por factos ainda hoje envoltos em mys- 
terio, fizera degredar para um presidio no centro de Africa, 
mandava-o a regente, pela secretaria de Martinho de Mello, 
regressar com honras ao reino. Contra o seu voto, como 
presidente do erário, ia-se pagar um milhão de cruzados 
das dividas. Tudo isto, acquiescendo o soberano agonizante, 
como se viu depois no testamento, em poucas linhas alta- 
mente expressivo, em que recommendava á herdeira do 
throno que os existentes débitos fossem pagos e o indulto 
dado aos criminosos de Estado. Suprema confissão a teste- 
munhar que também elle, em vida, fora coacto, e escravo 
da pujante vontade, que a todos opprimia. 



344 DEPOIS DA AAORTE DE D. JOSÉ 

No dia 21, improvisamcntc, realizou-se o casamento de 
D. José, futuro principe herdeiro, na edade de dezeseis annos, 
com a infanta D. Maria Benedicta sua tia, que contava 
trinta € um. Para toda a côríe, incluindo Pombal, foi o caso 
ate á ultima tiora secreto. Machinação da Rainha, que fizera 
vir de Roma, por intermédio da corte de Hespanha, a dispensa 
papal. Era o ultimo golpe ao ministro, interessado em unir 
o adolescente a uma princesa extrangeira; da casa de Sabóia 
— apparentada de sua mulher, inventavam os malévolos — 
e para isso interviera o Núncio havia pouco; ou então á 
irmã de Luiz XVI, Madame Isabel. D'esta maneira, julgava 
acaso defender-se de influencias hostis da família, por morte 
do soberano reinante. 

A Pombal não podiam restar duvidas acerca do futuro. 
Acabava por não ser effectivamente ministro, quando ainda 
em nome tinha o cargo. Depois de 1 de fevereiro nenhuma 
decisão do governo apparece publicada em seu nome. Já 
antes, desde que a moléstia do Rei se aggravou, a maior 
parte eram rubricadas por Ayres de Sá, ministro dos extran- 
geiros. Pode-se dizer que o ultimo acto de autoridade de 
Pombal foi, a 23 de janeiro, o morticinio da Trafaria, com 
que porventura desforrava a raiva impotente contra os que 
na corte o affrontavam. 

O ministro reconhecia emfim que o seu tempo de consu- 
lado expirara e a hora da retribuição em breve soaria. A 
7 de fevereiro ostensivamente requereu á Rainha a demissão, 
em cumprimento de instancias, que dizia ter feito antes a 
D, José, Era talvez simulação, prevendo elle que a regente 
não resolveria por si cousa tão grave. No dia 24 succumbiu 
D. José, e Pombal continuava a exercitar nominalmente 
o poder. 

Com a desapparição do monarcha, e a certeza do desfavor 
em que o potentado da véspera, agora sem amparo, cahia, 
o rancor, por tantos annos contido, o appetite de vingança, 
rompia em clamores de ameaça, em vozes de desprezo, em 
chufas cruéis. As prisões abriam-se, para trazerem á vida 
commum centenas de pessoas, cuja lembrança no decurso dos 
annos se apagara, e que, para muitos como resuscitados, 



POMBAL RENUNCIA A SEUS CAROOS 345 

vinham contar as tristezas do seu encerro, a brutalidade dos 
carcereiros e a lenta agonia dos que, sem conforto, quasi á 
mingua, nas lôbregas enxovias, a morte havia libertado. No 
paço bradavam os fidalgos da facção de D. Pedro, os amigos 
c próximos d'aquelles que, por desejarem o casamento d'elle, 
tinham pago com duros encarceramentos a audácia de taes 
votos. Nas ruas o povo, pela primeira vez em tantos aimos, 
podia vociferar as suas queixas sem temor da repressão. 
Pombal, de escuta aos ecos, que de fora lhe levavam o 
rumor das maldições, em cada hora sentia no peito um golpe, 
semelhável ao que em Belém rompera as arcas ao duque de 
Aveiro. No primeiro de março renovou o pedido de exone- 
ração dos empregos, c manifestou o propósito de se ausentar 
de Lisboa Comparava-se a Sully na desgraça, e dava a 
entender, na fingida modéstia, egualal-o nos méritos. A narra- 
tiva, que fazia, da situação do ministro de Henrique IV^ no 
desfavor, era allegoria da sua própria. 

Doesta vez foi-lhe a supplica deferida. Houvera o pensa- 
mento de despedir o velho ministro sem formalidades, como 
um servo incapaz ou infiel, mas prevaleceu o parecer, mais 
decoroso, de se lhe acceitar a demissão como pedida. O 
decreto é de 4 de março. Conserva-lhe os honorários de 
secretario de Estado, e faz-lhe mercê de uma commenda, 
com seus rendimentos. Mas nem uma palavra de apreço ou 
reconhecimento de tantos serviços! A minuta que Pombal 
offerecera, e que certamente havia de os rememorar empha- 
ticamente, fora rejeitada. A estima do soberano fallecido, pelo 
ministro, era a só recommendação allegada. 

Para o publico, que esperava algum áspero procedimento, 
foi uma decepção. Entretanto ninguém se illudiu com o signi- 
ficado. Se, á primeira vista, a dispensa dos cargos a pedido, 
com a mercê pecuniária, podia tomar-se por tacita appro- 
vação do passado, soube-se logo também que o marquês 
fora posto de sobre-aviso para responder por seus actos 
qualquer dia, logo que as accusações, vagamente formuladas, 
tomassem fundamento jurídico. 

Effectivamente, com o decreto a exoneral-o, recebera 
Pombal, por Martinho de Mello, communicação escripta de 



346 A DEMISSÃO DADA A PEDIDO 



que a Rainha se reservava para tomar outra resolução, 
havendo causa — «principalmente sobre descaminhos da real 
fazenda» — cruamente dizia. Até ahi, o proceder, ditado 
I>ela veneração á memoria do soberano fallecido, era o de 
clemência c benignidade ; e estas palavras já por si o condem- 
navam. Ia porém effectuar-se uma syndicancia á sua admi- 
nistração. A benevolência régia chegaria aonde a equidade 
lh'o permittisse. E o documento findava assim : «Com a 
mesma constante e perpetua vontade com que S. M. quer 
que SC administre a justiça a seus vassallos, segundo o mere- 
cimento de cada um, se fará a V. Ex.a o que lhe fôr 
devido)^ 1. O que ao ministro destituído cumpria esperar 
podia d'alli colligil-o. 

Carvalho pedira licença para se retirar á sua quinta 
de Pombal, e passar lá o restante de seus dias. A graça 
ia-se converter em sentença punitiva; depois não lhe foi mais 
consentido ausentar-«e para outro logar. Magoado, tanto 
quanto é possivel ao coração humano sentir-se ; despenhado 
do mais alto prestigio á humilhação que vai do menosprezo 
na corte aos insultos da plebe nas ruas, não ousou permanecer 
mais um instante em Lisboa. Ninguém lhe poupava doestos 
nem calumnias. Entre as accusações, a de improbidade sobre- 
levava a todas, e a grande casa, accumulada por meios nem 
sempre os mais lizos, desafiava a indignação, tanto mais que 
se dizia tel-a o dono engrossado com os despojos dos Tavoras, 
suas victimas. «Se o ministro se não justifica de "taes impu- 
tações — escrevia Lebzeltern — só pela bondade e animo 
compassivo da soberana logrará eximir-se a um destino trá- 
gico» -• Eífectivamente, os seus inimigos não se contentariam 
então com menos que o cadafalso. 



^ Declaração entregue por Martinho de Mello ao marquez de 
Pombal, em 4 de março de 1777. 

2 4 março 1777. Dlhr, Potnbal, 174. 



SAHIDA PARA OEIRAS 347 



V 



No dia seguinte ao golpe da demissão, que porventura 
até ao ultimo instante não esperava lhe acceitassem, Carvalho, 
angustioso e temeroso, recolheu á sua casa de Oeiras, espe- 
rando a marquesa, que ficava a preparar o indispensável para 
a jornada de Pombal. Nesse caminho, que tantas vezes per- 
correra, saboreando satisfações de orgulho ou de vingança, 
amadurecendo projectos de gloria e de grandeza, meditava 
agora nas tristezas que tão repentinamente sobre elle desa- 
bavam. D'antes tantas adulações e respeitos o envolviam; 
agora a costumada escolta, que o governo temendo pela sua 
vida não ousara retirar-lhe, mal o defendia contra o popu- 
lacho, a accommetteJ-o de insultos e pedradas. Passada a 
primeira noite de solidão e de exilio, noite trágica, povoada 
de cruciantes memorias e tétricos phantasmas, no abatimento 
das situações irrecobraveis, Pombal mandava ao conde de 
Oeiras as seguintes afflictivas linhas : — «Meu filho do meu 
coração. Tua carta me acha tão triste e tão saudoso como 
só, porque não tenho nem ainda a consolação da companhia 
de tua mãe, e as pessoas da equipagem com que devo con- 
tinuar o meu caminho não teem chegado até agora. A noite 
foi como podes bem crer, accrescendo-se aos trabalhos ante- 
cedentes a separação de filhos e genros, a quem amo com 
tanta ternura. Não tenho, porém, maior abatimento do que 
aquelle com que sahi de casa. Deus que vê os meus trabalhos, 
e a resignação com que os soffro, me dará força para os 
tolerar. Lanço-te a minha benção. É tudo o que posso dizer-te. 
Teu pae que muito te ama, Sebastião José. Oeiras, 6 de março, 
pela manhã». 

Em 7 dizia: «Não tenho differença do estado em que 
hontem me achava». A 9 chegou a marquesa: «Agora vou 
partir, e, se o movimento e mudança de ares da jornada 
me não ajudarem, pouco poderei esperar do tal ou qual resta- 



318 JORNADA f\ARA POMBAL 



beleciínento, que os meus annos podem permittir-me entre 
tantos desgostos». 

Difficilmente o exilado teria conforto e melhoras na 
viagem. Tempo de chuvas, por caminhos impervios, que o 
inverno convertia em treniedae?. A solicitude de Pombal 
como administrador não abrangeu nunca a viação. Estrada 
capaz havia no seu tempo a que mandara fazer até Oeiras, 
para a commoda visita do seu feudo. Annos levou a construir, 
com a custosa muralha da Boa Viagem. A estrada do Porto 
foi obra do seguinte reinado. O itinerário, a principio deter- 
minado por Torres Vedras, Caldas e Nazareth, «para não 
fazer uma procissão continua por todas as villas do Riba- 
Tejo; , como dizia - e razões havia de temer nellas alguma 
tumultuosa recepção — teve de ser por outro lado, Bucellas, 
Sobral e Alemquer. Ainda assim foi-lhe preciso ir deixando 
aqui e acolá parte da bagagem. Perto de Otta, alta noile, à 
luz dos archotes, a marquesa, com uma das filhas que os 
acompanhava, viu-se obrigada a caminhar a pé por atoleiros 
c barrancos. A carruagem, onde ficava o marquês invalido, 
desmantelada, somente a custo proseguia. 

A 15 de março chegaram por fim a Pombal. O antigo 
solar, abandonado, carecia de tudo que aos hospedes, habi- 
tuados ao luxo da corte, a dois velhos enfermiços podia ser 
gasalho e commodidade. «Casa pequena, sem movei algum 
dos que absolutamente me são necessários», tal era, no dizer 
do cabido dictador, a pousada, onde lhe iam decorrer ainda 
largos dias de agrura, partilhados entre a doença cruel, as 
raivas impotentes e os agudos golpes moraes. 

Installado na residência que tantos annos antes havia 
deixado, os primeiros tempos passaram na azáfama de adequar 
o recinto ás necessidades e costumes da família; necessidades 
e costumes ás condições da moradia. Foi preciso augmentar 
a edificação, «porque — dizia — sendo estas casas as maiores 
da terra, foram edificadas em 1553, e duzentos annos para 



• Carta ao Morgado de Oliveira, 5 maio 1777, Zephyrino Brandão. 
O Marquez do Pombal, pa^. 63, 



A VIDA E^\ POMBAL 349 



trás accommodavam-se em pequenas casas muito grandes 
pessoas;> '. A primavera chegou, alegrando com a sua vida 
intensa os campos e as devezas. O sol radiante, aquecendo 
os corações enregelados nas tristezas do inverno, infundia 
alentos de viver e luctar, promettia victorias. E o ancião 
sente assim renascer o seu feitio animoso e pugnaz. Come- 
çará por defender a vida, que julga arriscada, não tendo já 
comsigo a escolta de que viera acompanhado até ao logar 
do desterro. Com o pretexto de montear lobos e raposas, 
que nos cerros vizinhos abundavam, pede ao filho petrechos 
de caça em quantidade, íusis, polvarinhos e bolsas, «vindo 
também — accrescenta — algumas espingardas ordinárias, 
como as que se dão á infantaria, comtanto que sejam bem 
provadas e seguras» i. Receios de aggressão não confessa, 
mas justo era tê-los quem tantos e tão sanhosos inimigos 
contava, e ouvira, a persegui-lo nas ruas, o bramir do popu- 
lacho enfurecido. 

Bem depressa a illusão salvadora se desvanecia, para 
dar campo á dura realidade. Ainda na Ajuda, a corte de lison- 
jeiros dispersara-se á primeira lufada do desfavor. Servos 
fieis, que o tinham acompanhado a Pombal, desertavam 
agora. Uma das filhas, que viera algum tempo, voltava ao 
marido. Julho trazia ao desterrado a solidão, com todo o 
seu desconsolo e as suas penas. E alli ficavam dois velhos, 
em face um do outro, sósinhos com a memoria amarga do 
passado grandioso e feliz. A 22 de julho. Pombal desabafava 
com o filho: «Tua irmã Maria Francisca nos deixou na maior 
solidão, da qual é necessária consequência o augmento da 
tristeza. Blancheville (creado de quarto) também foi para não 
voltar, pelo que me parece, porque levou todo o seu fato 
sem deixar coisa alguma. Manoel José Ferreira (certamente 
outro fâmulo) está d'aqui partindo por dias, e brevemente 
nos acharemos sós, porque todos nos deixam, crendo que não 
teem que esperar de mim». 



^ 19 março 1777. Esta e outras cartas de que se fazem extractos 
sem menção de procedência, na Coll. Pomb. Gíd. 713 e 714. 



350 A INOIONAÇÃO EM LISBCM CONTRA í>OMBAL 



Fora não acalmava a tormenta, pelo que Lebzeltern com- 
municava: «De dia para dia crescem os meus receios pela 
sorte do marquês de Pombal. A nação cada vez mais se 
regosija da sua queda. Excitada pelas narrativas dos que 
saem dos cárceres, referindo os cruéis tratamentos recebidos, 
incessantemente trazem aos pés do throno queixas e accu- 
sações contra elle, de modo que a constância dos novos 
ministros em o defenderem, e a piedade e doçura da Rainha, 
difficilmente lograrão poupa-lo a um destino trágico» i. Conta- 
ram-se os presos politicos : excediam de oitocentos, e faltavam 
muitos, dizia-se que três vezes esse numero, fallecidos nos 
longos captiveiros. Com os que sahiam dos calabouços da 
Junqueira e de S. Julião, appareciam também outros das pre- 
sigangas no Tejo, junto ao Barreiro. Era, dizia o ministro 
de Hespanha, marquês de Almodovar, una espécie de ressur- 
rección de muertos. A voz publica, consoante á regra, exage- 
rava ainda. Dizia-se existirem cárceres subterrâneos, nas 
arcadas da Praça do Commercio, nas ruinas da Patriarchal. 
Noticias de boca, pasquins e satyras escriptas, propagavam 
verdades c mentiras, alimentavam nos ânimos a indigfnação 
e o desejo da vindicta. 

Em abril arrancou-se do pedestal da estatua de D. José 
o busto do ministro. A syndicancia nas secretarias de Estado 
ia-se realizando. Logo se deu por falta de quantidade tíe 
documentos públicos, muitos dos quaes se dizia estarem entre 
os papeis particulares do ministro. Senhor absoluto da admi- 
nistração, fazia em sua casa o verdadeiro archivo do reino. 
Faltavam os processos do conselho de Estado relativos aos 
infantes de Palhavã e a tantos fidalgos encarcerados — talvez 
nunca se escrevessem — ;o dos Tavoras e duque de Aveiro, 
guardados por elle em logar secreto, allegava, com medo 
que d'elle se apossassem os jesuítas. Outros importantes 
documentos, reservados de publicação por conveniências do 
Estado, confessava guardar emquanto vivo, como sendo «as 



* 8 abril 1777. Duhr, Pombal, 176. 



ESTADO REAL DA FAZENDA PUBLICA 351 



ultimas armas puramente defensivas, para reparar os golpes 
de seus gratuitos e já perdoados inimigos» i. 

O exame á fazenda publica demonstrou achar-se ella em 
condições deploráveis. Os que ainda defendiam a adminis- 
tração de Pombal — Jacome Ratton registou a asserção ^ 
— diziam, ter elle deixado em cofre 78 milhões de cruzados 
em moeda, além de muitos milhões em diamantes. Verificou-se 
existirem 1740 contos, pouco mais de quatro milhões, e uns 
cinco a seis milhões em diamantes 3. 

O Rei fallecera devedor insolvente. Dos seis artigos que 
formam as recommendações finaes á filha, que vac ser 
Rainha, um refere-se a esse molesto assumpto que o pungia. 
Dolorosa scena! O senhor absoluto de uma opulenta monar- 
chia, dono das riquezas do Brasil, experimenta, na hora 
extrema, as angustias do remisso pagador, a quem chega 
da antecâmara o murmúrio dos credores importunos. Pagar 
a todos: mas como? Com esse problema se achou logo a 
braços o novo governo. No paço, a certos creados deviani-se 



1 Segunda apologia. <<IntroducçIo ad perpetuam' rei memoriam;\ íJoU. 
Poniib., Cod. 695. 

2 Recordações, pag. 186. 

■* Deixando o poder. Pombal entregou á rainha vários relatórios 
justificando a sua administração. O que respeita á fazenda tem o ti- 
tulo seguinte: Terceiro Compendio que tive a honra de levar aos pés 
da Rainha Minha Senhora, com o fim de alliviar o cuidado, que en- 
tendi lhe devia estar causando a consideração de haver ficado intei- 
ramente exhausto de meios o seu real erário. Transcreve-se o inventario: 

Nos cofres das quatro contadorias . . . 637:5628654 

No dos confiscados 1.591:0698023 

No das commendas vagas 312:403S;739 

Nos da reserva 360:0008000 

Total . . 2.901:0358416 

«que fazem, (diz a relação) 7 milhões, 101:0358416; ficaram mais 
no gabinete de S. M. de cinco a seis milhões em diamantes brutos->. 

Convém observar que estas pedras não representariam valor de 
fácil realização, e haveria muitas que, rejeitadas pelos contratadores, 



352 ESTADO REAL DA FAZENDA PUBLICA 



quatorze annos de salários. Determinou a Rainha que se 
lhes desse tudo immediatamente. Fizeram-se economias. 
Lebzeltern dá noticias d'estes esforços: «Para solver os 
débitos t€m-se vendido enorme quantidade de cavallos e 
muares, e também carruagens. Supprimiram-se as touradas, 
passando-se a vender as rezes, que todos os annos se reser- 
vavam para este espectáculo, tão querido do Rei. Cuida-se 
egualmente de acabar com as touradas e representações 
thcatraes. Tudo isto produzirá uma economia annual de dois 



como impróprias para exportar, iam ficando e crescendo em numero 
nos cofres régios. 

Airda se deve notar que o saldo de 2901 contos não era i^eaL 
O tífectivo, propriamente em dinheiro, consistia em: 

Na primeira verba 27:312S335 

Na segunda » 1.041 :069S023 

Na terceira >^ 312:403$739 

Na quarta » 360:000$000 

Total . . 1.740:785$097 

A differença 1.160:250S319 estava em documentos, representati- 
vos de importâncias tiradas por adiantamento pêra d|espesas urgentes. 

Acompanhando a precedente, outra nota informa das receitas e 
despesas ordinárias do Estado, ao terminar a gerência de Pombal. Por 
ella sabemos que a somma dos rendimentos no segundo semestre de 
1776 foi de 3.749:3518786; a das despesas 3.1 1 1 :789S132. A differen- 
ça é O saldo do cofre chamado das quatro contadorias, ou da the- 
souraria mór. 

O producto dos bens c-onfiscados, por crimes de inconfidência de- 
compunha-se: 

Da corte e provinda da Extremadura . . 251 :363S334 

Das provindas do reino e ilhas dos Açores 1.020:0408443 

Da Africa Occidental, Bahia, etc. . . . 307:5618219 

Do território da Relação do Rio de Janeiro 12:1048027 

Total . . 1.591:0698023 
(Coll. Pomb., cod. 695.) 



A VIRADEIRA CONTRA O MARQUES 353 



milhões de cruzados» i. De três mil operários, que traba- 
lhavam no arsenal, despediram-se quatro quintas partes, 
ficando apenas seiscentos. Esta gente nada recebera nos 
últimos dois annos. O governo resolveu pagar-lhes logo a 
divida de seis meses, e o restante em prestações trimestraes 
de egual somma. 

Tudo isto, vindo a publico, augmentava as iras contra 
o regimen anterior. A viradeira, como se appellidou a reacção 
contra Pombal, chegou então ao auge. Todos os que no 
tempo do poderio adulavam o déspota, cobriram-no agora 
de baldões. Poetastros da Ínfima classe, trovadores das 
alfurjas, bufarinhavam versos satyricos. O numero d'estes é 
immenso; chega para volumes. 

Os vates que, na inauguração da estatua, em loas de 
asquerosas bajulações, erguiam ás nuvens o ministro omni- 
potente, heroe do dia, babujavam agora: 

Patrícios meus, clamai sobre o tyranno, 
Saiba o mundo que foi o tal marquez 
Ladrão, traidor, cruel e deshumano. 

Ou então: 

Morreu el-rei, e é certo 
Vos hão de pregar a peça; 
O povo todo começa 
A queixar-se do passado 
E não fica socegado 
Senão com vossa cabeça. 

O odio popular, distillado nas cantigas affrontosas, exten- 
dia-se á família, aos addíctos de Pombal: 

Do baboso da Redinha 

De um mau pae filho infiel. 



Libera nos, domine! 



1 17 de maio 1777. Duhr, 48. 

o MARQUÊS d;-: pombal E a sua época — 23 



354 O ATAQUE DOS CREDORES 



Do reverendo Mendonça, 
Bernardo em procedimento 



Libera nos, domine! 

Do reverendo Mansilha, 
Que foi grande provador 
Do licor que tudo é 
Libera nos, do/nine! 

Sobre alguns d'€stes já tinham recahido sancções: o 
abbade áe Alcobaça, parente do ministro, Magdalena de 
Mendonça, irmã d'elle, prioreza de um mosteiro, depostos 
das suas dignidades; frei João de Mansilha, procurador da 
Companhia dos Vinhos, amigo muito do peito, encarcerado 
no convento de S. Domingos, por determinação do Núncio. 

Certos de que já não havia represálias a temer, nem 
tergiversações da justiça, appareciam os que contra o dictador 
tinham direitos a reivindicar. Começavam as demandas. <;0 
marquês — refere o miudamente informado Lebzeltern — 
de nenhum modo quer pleitos, e conciliatoriamente vae res- 
tituindo aos antigos donos as propriedades, que abaixo do 
justo preço havia comprado» i. A principiar pelo fisco. No 
mês de julho pediam-lhe as decimas atrazadas. Pina Manique, 
o futuro intendente da policia, que accumulava o cargo de 
juiz com os de superintendente dos contrabandos e contador 
da fazenda, intervinha para que o dizimo do peixe de Paço 
d'Arcos, uma das melhones prebendas do marquês, lhe fosse 
tirado, revertendo á casa de Bragança, que em outro tempo 
a fruirá. Os particulares vinham juntamente. Um reclama- 
va-lhe o preço do Pinhal da Queimada, que, segundo a escri- 
ptura de compra, não fora pago no acto; outro o d^ um 
casal, trocado por um padrão de juros, que o ministro se 
esquecera de entregar 2. De toda a parte appareciam credores, 



1 7 Setembro 1777. Duhr, 177. 
3 Carta de 15 julho 1777. 



os DEVEDORES E OS IMPOSTOS 355 



que no tempo das grandezas jamais ousariam declarar-se, e 
até por mercê tomariam a negligencia do devedor. 

À sahida de Belém deixara Pombal ao conde de Oeiras 
uma relação de d'vidas, que devia ir satisfazendo á proporção 
dos recursos ; dividas por obras nas propriedades de Lisboa 
e dinheiro emprestado por diversos, algumas quantias sem 
juros, cerca de quarenta e cinco contos, ao todo ^. Mas 
deix)is appareceram muitas mais. Ainda em 1781, um tal 
João Collings, negociante inglês, lhe reclamava o pagamento 
de duas pipas de vinho do Porto, fornecidas para Londres, 
em 1740, no tempo da sua embaixada 2. 

Ao mesmo tempo, os devedores, perdido o temor antigo 
das summarías execuções, ou peor, que o capricho do credor 
poderia impôr-lhes, cobravam animo, para, sob todos os 
pretextos, esquivarem o pagamento. Do decrépito leão iodos 
agora zombavam. O desterrado lamentava-se: «Tenho visto 
com sobeja clareza que os mesmos que me foram mais obri- 
gados, e me deveram tudo o que hoje possuem, tanto em 
bens como lem honras, procuram depenicar na minha fazenda, 
desde que viram que lhes não podia fructificar a minha 
protecção» '-. A vhiva de Hermano Braamcamp, cônsul de 
Hollanda, muito protegido de Pombal, que o favorecera com 
o contrato dos diamantes, exigia-lhe certo pagamento, de 
pouca monta, a que o ministro por conta de outrem se 
obrigara. Este glosava o caso assim: «Se fosse capaz de me 
arrepiender do bem que fiz aos ingratos, acharia mais um 
grande estimulo_, para me pesar de haver posto a família dos 
Braacamp no estado de nobreza e de estimação, em que os 
puz, com os meus bons ofíicios); '^. E assim uns e outros 
acudiam a lembrar-lhe que, para com os grandes, na desgraça, 
perde a gratidão humana os seus direitos. 



1 Cartas e outras obras selectas do Marquez de Pombal, V, 65, 

2 Carta na Coll. Pomb., Cod. 706. 

3 idem ao conde de Oeiras, 31 julho 1777. 

4 Id. ao nic?mo. 6 outubro 1777. 



356 EAABARAÇOS PECUNIÁRIOS DO MARQUES 



VI 



Perdida a situação politica, faltava á casa de Pombal o 
principal elemento de riqueza. Despediam-se inquilinos que, 
em outros tempos, nenhum aluguel, por excessivo, desviava; 
perdiam as terras o fecundo valor para os rendeiros ; e até 
os productos da opulenta lavoura, tão disputados antes, 
ficavam nos celleiros e adegas sem pretendente. A própria 
Companhia dos Vinhos, para quem tantos annos a vide de 
Oeiras fora indispensável supprimento, abandona o seu 
creador. Pombal toma a resolução de offerecer acDS ingleses 
aquelles vinhos, «visto que — assim se lastima : — a Companhia 
nem mandou falar nelles até agora, nem é natural que 
já fale» 1. 

Cesta sorte, obrigações de surpresa exigidas, ruins 
dividas a cobrar, réditos depreciados, colheitas detidas no 
armazém, tudo inspirava cuidados, a quem, no espaço de 
trinta annos, tivera a fazenda tão prospera. Sob a impressão 
doestes cuidados, Pombal escrevia ao filho: «Se por uma 
parte me perseguem os meus credores, por outra se me 
diminuem, como tenho visto, as minhas rendas, e pela outra 
se animam os meus devedores, por este novo modo de se 
excusarem de me pagar o que me devem, não poderei sub- 
sistir no meio doestes procedimentos leoninos» -. 

Sobre o assalto dos credores, com que se complicava de 
modo fatal a situação da casa do marquês, são typicas as 
seguintes phrases : «Vi também especificadamente todas e 
cada uma das dividas, que se me pediam justa e iniquamente, 
com os documentos que justificavam as primeiras, e com 



1 29 outubro 1777. 
* 6 outubro 1777. 



BEZOUROS E MOSQUITOS 3^7 



OS motivos que a consternação e a decência fizeram atten- 
diveis, para se fecharem os olhos ao pagamento das 
segundas» i. Quer dizer que umas e outras Pomba! impli- 
citamente reconhecia. Não é de suppôr lhe reclamassem débitos 
phantasticos. Iniquamente exigidos, a seu ver, seriam os 
forçados presentes, os direitos, que como satrapa attribuira 
a isi, e que os lesados, muito tempo silenciosos, agora, per- 
dido o medo, reivindicaram. 

Os meirinhos eram visitas frequentes, com as citações, 
á estancia que abrigava o homem temido de outr'ora. Pedia- 
Ihe a communidade dos carmelitas doze mil cruzados, emprés- 
timo antigo e juros de uns poucos de annos ; outros doze 
mil cruzados os herdeiros de seu tio Marco António, que 
o espolio de Paulo de Carvalho devia, e o ministro, que 
tivera a successào, nunca pagara; e mais créditos surgiam, 
esquecidos pelos donos, no timorato silencio de muitos annos. 
Atordoado com a perseguição. Pombal resolveu vender a 
baixella de prata, para solver pequenos débitos. «Ê preciso 
— diz — que ponhamos todas as nossas forças em contentar 
e satisfazer os credores, emquanto os tivermos, reduzin- 
do-nos á mais apertada moderação que couber na decência» -. 
JVlas a paciência, que nunca foi nelle virtude fundamental, 
exgotta-se, e ei-!o que rompe em queixas: «Não ha besouro 
nem mosquito que neste desviado retirO' me não venha zunir 
aos ouvidos, por incommodar o meu desejado e pretendido 
socego» ^. 



^ 6 mar^o 1778. Z. Brandão, Marquez de Pombal, 78. 

- 3 junho 1777. 

1 junho 1777. Caberia aqui, verificada a exactidão, o seguinte 
episodio. Que, em maio de 1778, o oonde de Oeiras escrevera ao 
pae, communicando-lhe que a rainha, a requerimento do conde de 
Valladares, ordenava que este fosse embolsado de 90:000 cruzados que 
ao tnarquês emprestara. Este, sem demora, respondeu que era certo ha- 
ver recebido a dita somma, que pedira ao conde, quando chegou do 
governo de Minas Geraes, em abril de 1768; que tal dinheiro corres- 
pondia ao preço a troco do qual aquelle fidalgo tinha provido dois 
empregos de fazenda rendosos, naquella capitania, um por vinte, outro 



358 RENDIMENTOS RESERVADOS PELO MARQUES 



A importunação prosegue, mas, satisfeitos alguns credores 
mais exigentes, já no fim do anno a situação é relativamente 
desafogada, o qu€ o leva a dizer contente ao filho: «Temos 
um cofre de reserva muito maior do que até agora julguei!» 
Do- rendimento total reservava para si os ordenados, que a 
Rainha lhe deixara, o assentamento do titulo de marquês 
pela alfandega de Vianna, (cerca de trezentos mil réis 



ix)r cleze.veis contos de reis; e que por isso, no mesmo dia, 12 de 
ahril de 1768, fora entregue no real erário, e escripturado nos livros 
perteiiceníes á repartição do Brasil. 

Contra o facto occurrem varias objecções. Primeiramente a le- 
nidadc de proceder, tanto em contraste com a habitual aspereza do 
marquês. Certo da prevaricação, teria mandado julgar e executar o 
culpado, como o coronel francez Graveron do regimento dos Reaes 
txfrciigeiros, fusilado em 1766, em Campo de Ourique; ou encenar 
{•erpetuamente em uma fortaleza, como o c^nde da Ega, vice-rei da ín- 
dia, que morreu preso em Setúbal; pelo menos afastal-o-ia da corte, 
no desagrado régio, como o marquês de Alorna em 1752. Em segundo 
iogar parece mais acceitavel que o conde para haver a divida, antes 
recorresse aos tribunaes, co.tio estavam fazendo outros credores, do que 
á rainha, que para lá certa.mente o mandaria. Em terceiro Iogar dis- 
cordam as datas. O conde de Valladares, que governou Minas Oeraes 
de 1768 a 1773, saiu de Lisboa a 4 de fevereiro de 1768, em uma 
nau que levava mais três governadores para outros districtos do Bra- 
sil. A 31 de agosto escrevia de Villa Rica ao cardeal Paulo de Car- 
valho, dando parte da chegada á sede do seu governo. (Carta na 
CoH. Pomíb., Cod. 619). Não podia, portanto, dar o dinheiro a Pom- 
bal em 12 de abril, quando estava em viagem. Regressou cinco annos 
dci>3is. Tudo isto inquina de falsidade o documento, divulgado na 
desordenada co.mpilação das Cartas e outras obras selectas do marquez 
de Pombal, em que alguns mais são apocryphos. Existem na Coíl. 
Pomo. duas copias, nos códices 478 e 678, uma da mesma letra que 
transcreveu as suppostas missivas a Pitt, sobre o caso de Lagos. 
V;irnhagen, sem advertir nas datai, refere o duvidoso successo na 
Historia Geral do BraziL tomo II, pag. 984 da 2.^ edição. Soriano, 
guiando-sc pelas Recordações de Jacome Ratton, sem fundamento diz 
que Pombal foi perguntado no processo e respondeu nos próprios ter- 
tiios da carta suspeita. (Historia da Guerra Civil, I, 257). Devia ser 
faiso rumor, como outros muitos, que algum pombalista aproveitou, 
forjando a carta. Em todo o caso, se assim não foi, a duvida im- 
põe-sc até que o original, assignado pelo marquês, venha á luz. 



A QUESTÃO DAS AGUAS LIVRES 359 



annuaes), o morgado de Carvalho, e os productos da casa 
de Pombal. O resto era consagrado a manter o decoro da 
da íamilia na corte, e o abandonava aos filhos. A propósito 
d'isto informa: «Na casa que a minha economia domestica, 
ajudado por teus tios, e abençoada pela mão do Orrinipotente, 
estabeleceu, ha tudo o necessário para a sustentação decente 
das duas casas de Oeiras e da Redinha. . . e também para 
eu aqui viver com mais largu2za» ^. O pânico do primeiro 
instante, quando, sobre a ruína politica, a da fortuna mate- 
rial parecia imminente, tinha-se dissipado. 

Logo, porém, no anno seguinte, inopinadamente, outro 
perigo: o sequestro dos bens, requerido pela Junta das 
Aguas Livres. Sabe-se que Pombal era accusado de desviar 
aguas dos dois chafarizes das Janellas Verdes e rua Formosa, 
para as suas casas nos mesmos locaes. Um mysterioso ini- 
migo, cujo nome não chegou até nós, designado nos papeis 
d*elle por Coxo das aguas livres, era provavelmente o funccio- 
nario que deu a denuncia e fez caminhar o processo. O 
perigo devia ser grande, porque então, peLa primeira vez, 
o animo de Carvalho abateu. Tomado de susto, manda o 
filho recorrer á Rainha-mãe: «Esta protecção é a única que 
nos pode salvar na actual tormenta, e em outras que possam 
sobrevir», angustiado escrevia -. 

Entretanto, afeito á lucta, passado o primeiro instante 
de desanimo, defendia-se com denodo e, com força de alma, 
ainda então superior ás dores physicas e aos profundos golpe3 
moraes, esquecendo as maguas no assiduo trabalho, às tardes 
dirigia a lavoura da quinta e casal da Grameiia, ou a cultura 
da horta de Santorum. De manhã trabalhava no gabinete, 
respondia aos libellos. Tinha então dezeseis pleitos, em que 
&e defendia, a m.aior parte a contestarem-lhe a posse de 
propriedades que, com duvidoso direito, na plenitude do 
poder, adjudicara a si próprio. Mal inclinado por caracter á 



1 Carta ao conde de Oeiras. 3 janeiro 1778. 
- 30 março 1779. O sequestro fora ordenado por decreto de 
20 do mesmo mez. 



36© O COXO DAS AGUAS LIVRES 



submissão, deshabituado, por tantos annos de caprichosa 
autoridade, á contradita, desafogava nas cartas intimas a 
cólera, de que se achava possuído contra os que o chamavam 
á justiça. Todos elles considera infames, malévolos, ingratos. 
Mais que nenhum outro, o Coxo das aguas livres, que parece 
inspirar-lhe simultaneamente raiva e terror. Para lhe res- 
ponder, emprega todos os recursos da habilidade e saber 
iuridico, adquiridos nos longos e embaraçados pleitos da sua 
mocidade, quando o futuro e o pão de cada dia estavam 
pendentes da decisão d'clles. «Meu pae — refere — deixou-me 
no meio de um grande numero de processos, entregue aos 
advogados e solicitadores, e á vida ociosa e servil dos liti- 
gantes. Por muitos dos primeiros annos da minha juvenil 
mocidade, exercitei aquelle desagradável e penoso officio, 
porque, se deixasse as causas á revelia, levariam as partes 
o património da casa» i. 

O processo celebre, intentado por Galhardo Mendanha, 
processo que tinha de lhe ser fatal, dando ensejo ao golpe 
ultimo de seus inimigos, insuffla-lhe ardor mais vivo por 
lhe permittir expandir-se, em assumptos de politica, contra 
seus detractores. «Creio que a minha resposta fará a apologia 
mais completa que escrevi até agora» -. Mal se persuadia 
então que era o remate da sua ruina. 



1 12 outubro 1778. 

2 10 agosto 1778. 



CAPITULO XI 



O ACABAR 



O marquês de Pomba! arguido de concussionario. Accusado de 
actos de alta traição. De irreligiosidade e de ter embaraçado 
o casamento real. Sai do cárcere o seu inimigo Encerrabodes. 
José de Seabra volta do exilio. O que se passou com o bisjx^ 
de Coimbra. — 11. Famoso processo tía lesão enormíssima. 
Apparecem as Cartas inglesas. O Desembargo do Paço pronun- 
ciasse sobre o processo. — III. Interrogatório do marquês por 
ordem da rainha. A enfermidade. Derradeira e lastimosa scena 
do inquérito. — IV. Insufficiencia das explicações no interro- 
gatório. Culpas do visconde de Villa Nova de Cerveira e do 
conde de S. Lourenço. De Diogo de Mendonça Corte Real. 
De José de Seabra. Do desembargador Mascarenhas Pacheco. — 
V. Padecimentos aggravados e apprehensões tristes do marquês 
Prepara-se a rehabilitação dos Tavoras. Os jesuítas pretendem 
a sua. Cruciante martyrio do enfermo. — VI. A rainha pronun- 
cia a coridemnação de Pombal. Os últimos dias e a morte. 



Emquanto o decahido ministro se debatia no exilio contra 
os múltiplos ataques d€ credores ávidos, e as retaliações 
d'aquelles que, por actos seus de ganância, se sentiam preju- 
dicados, na corte proseguia a preparação das represálias 
politicas, que o desforço pessoal de muitos exigia, e a aversão 
publica ao tyranno por bem cabidas esperava. À grita sobre 
o déspota, contra quem tantas victimas testemunhavam, jun- 



POMBAL ARGUIÍX) í)li CONCUSSIONARIO 



tavam-se apodos de prevaricador, que diziam enriquecido a 
defraudar o Rei e a nação. E as accusações, por infundadas 
que lem parte fossem, c suggeridas, acima de qualquer outra 
razão, pelo ódio, tinliam as apparencias a justificar-lhes a 
sinceridade. A casa sumptuosa de Oeiras; a da rua Formosa 
e os prédios de renda na capital, entre esses as valiosas 
tercenas, amiazens á margem do Tejo, occupados com provi- 
mentos do Estado; as quintas de Oeiras e Pombal; em 
vários outros logares, ma^s quintas e terras e casaes, entrando 
na conta os bens do morgado de Carvalho, disputado em 
vão pelo tio arcipreste ao conde de Athouguia, e em que 
o iministro se fizera investir poucos dias passados da execução 
d'este ultimo; tudo isso manifestava a opulência actual do 
fidalgote, que, mesquinho de consideração e de haveres, a 
rainha Maiianna de Áustria, condoída da sua patrícia, mulher 
d'elle, levantara a secretario de Estado, e d'ahi ao íastigio 
do poder e das grandezas. 

Com tantos bens patentes a denunciarem riqueza, inti- 
mado a solver dividas de longa data, invocava a estreiteza de 
cabedal. Com isto se pensou que teria dinheiro occulto. 
Corria que nos bancos de Hollanda, por intermédio de seus 
protegidos, os contratadores, havia depositado milhões. De 
offerendas c concussões que lhe attribuiam, diziam-se extra- 
nhas coisas ; eram. as quantias fabulosas. Só a Companhia 
dos Vinhos, a 13200 réis de cada pipa, em setenta mil que 
ella vendia por anno, cabiam-lhe 210 mil cruzados. Em 1772, 
allegavam, já a verba attingira 1 :050 contos de réis. ,Na 
quinta de Pombal, e casas de clientes de Carvalho, fize- 
ram-se buscas. Elle, do seu retiro, moteja dos «thesouros de 
moura encantada, que suppuzeram mandados para Hollanda, 
que fingiram enterrados e descobertos» i. E diz, com desdém, 
dos que em thesouros falavam: «Tomaram para assumpto o 
erário real, o contrato dos diamantes, o dos tabacos, e a 
Companhia do Douro, parecendo-lhes que era impossível que 



^ i junho 1777. 



ARGUIÇÃO DE LUCROS ILLICITOS NOS CONTRATOS 



eu deixasse de ter mettido naquelles ricos cofres as mãos 
até aos cotovellos». Em seguida, com amargura: «Se lhes 
deixei os logares, não havia motivo para me atacarem com 
o objecto de succederem nelles» ^. 

Sob o peso de imputações tão graves, cumpria-lhe il!i- 
bar-se perante a Rainha, talvez primeiramente ante os filhos, 
julgadores que, para as almas em que existe um lampejo de 
nobreza, foram sempre os mais temidos. Com esse fim compoz 
uma Representação apologética, para o conde de Oeiras levar 
ao paço, «entendendo — dizia — que emquanto se não justi- 
ficasse na real presença, não podia apparecer sem pejo na 
dos filhos, parentes ou amigos». Na representação julga 
seguir o exemplo do duque de Sully, e provar com a defesa 
muito mais do que elle a seu respeito provou ^. 

Todavia, nas confidencias ao conde de Oeiras, é menor 
a sua tranquiilidade, e apparece um receio, porventura rebate 
de consciência, que lhe abala a primitiva segurança. «É eer- 
tissimo que eu, nem do contrato do tabaco, nem dos dia- 
mantes recebi um vintém; — malsinavam-no de ter arrema- 
tado o do tabaco por menos 250:000 cruzados da offerta 
que havia — nem dos livros de administração dos ditos 
contratos consta que eu d'elles percebesse o menor interesse. 
Lembra-me, porém, duvidar se havia alguma terceira pessoa 
que, vendendo fumo aos ditos contratantes, recebesse d'eHes 
consideráveis ganhos de dinheiro, debaixo do falso pretexto 
de que os recebia para m'os entregar» ^ E inquieto, manda 
indagar, na medida do possive] e com prudência, o que teriam 
declarado, no inquérito que a propósito d'isto houvera, os 
irmãos Caldas, Polycarpo José Machado, y\nselmo José da 
Cruz, Geraldo Wenceslau, que eram os financeiros da con- 
fiança do governo, os felizes a quem tocava o lucro dos 
monopólios, dos rendosos negócios, contra os quaes bra- 



1 31 maio 1777. 

2 Carta ao Morgado de Oliveira, 2 abril 1777. Z. BrandXo, 
Pombal, 60. 

s 6 junho 1777. 



361 A REPRESENTAÇÃO APOLOGÉTICA 



dava o povo, e que o ministro patrocinava. O receio seria o 
próprio qu€ Pombal revelava, ou viria da presumpção, aliás 
improvável, de terem os seus amigos indiscretamente trahido 
algum segredo de mútuos favores? 

Na justificação, Pombal expunha longamente o estado 
da sua fortuna, os meios pelos quaes a tinha adquirido: 
succcssão do tio Paulo de Carvalho, fundador do morgado, 
primeiro homem rico da familia; herança de dois irmãos; 
administração rigida, economia constante, rendimentos accu- 
mulados por muitos annos; em derradeiro os seus ordenados 
e as rendas havidas por doações reaes. Das edificações em 
Lisboa estava devendo parte, e, confessando outras dividas, 
verifica-se que mais de metade não venciam juros, por bene- 
volência extranha dos prestadores; dividas de longa data' 
quasi todas, a prestações suaves, e algumas de que elle 
próprio concorda haver perdido a lembrança, tamanha fôrá 
a liberalidade dos credores^ que no desvalimento agora lh'as 
vinham reclamar. 

E a faina dos accusadores continuava. Não somente con- 
cussionario, traidor á pátria também. Criminavam-no de ter 
offerecido á Hespanha a cabeça do marquês de Lavradio, 
Vice-rei do Brasil, para obter a paz; de ordenar a entrega 
da praça de Almeida em 1762, da ilha de Santa Catharina 
em 1777 i. D'esta e de outras imputações se defendeu em 
differentes apologias, «que tenho escripto — dizia — sobre 
cada uma das calumnias que a ingratidão e a inveja espa- 
lharam contra mim no grande povo de Lisboa depois da minha 
ausência» 2; e, ora rebatia os que lhe assacavam a pecha de 
irreligião e ódio ás ordens monásticas, ora replicava aos que 
o inculpavam de se haver opposto ao casamento do infante 
D. Pedro. Repelha os ataques em matéria de crença, citando 



1 Apologio decima quarta: «Confutação das duas miseráveis ca- 
lumnias de que a praça de Almeida e a ilha de Santa Catharina fo- 
ram entregues aos castelhanos por ordem particular do marquez de 
Pombal. Cioll. Pomb., Cod. 695, e também impressa. 

2 SuTumario das apologias. CoU. Pomb., Cod. 695. 



ARGUIDO DE TER EMBARAÇADO O CASAMENTO REAL 365 



factos públicos que demonstravam a sua devoção, e clamando 
que «a maior affronía que se pode fazer a um homem christão 
€ honrado é a de o infamarem de irreligioso» '; ou então, 
no outro assumpto, não menos delicado da inimizade á gente 
de habito: «Em quasi todas as horas do dia, e muitas da 
noite, se achavam em minha casa alguns religiosos, com os 
quaes me entretinha nos intervallos das minhas fadigas minis- 
teriaes, parecendo-me que a sua conversação era a mais 
innocente, a mais instructiva, e a menos arriscada. Poucos 
dias da semana me assentava á mesa para jantar, sem ter 
por commensaes, e receber nella com grande prazer alguns 
religiosos graves» -. Com isto acaba de ruir a lenda do livre 
pensador — libertino se dizia na época — discípulo de 
Voltaire e do barão de Holbach, inimigo da egreja e da 
crença catholica, porque o era da Companhia de Loyola. 

Quanto ao casamento, defendia-se atirando com desplante 
aos seus costumados adversários a accusação. Os jesuítas eram 
os que divulgavam ser o príncipe impotente, rematando por 
esconderem a dispensa papal do parentesco, pedida por 
D. João V, e que em 1760 se foi achar no convento de 
S. Roque, entre os papeis do padre Carbone ^, facto não 
extranhavel, sendo elle o confidente do soberano, a cuja 
morte a sua pouco espaço precedeu. 

Os fidalgos, que sahíam das masmorras, publicavam que 
se tinha procurado arrancar-lhes testemunhos contra a rainha 
viuva e rei D. Pedro, no sentido de que ella favorecia a 
pohtica da Hespanha, e ambos conspiravam contra a auto- 



1 Apologia terceira: «Sobre a calumnia da irreligião». Coll. Pomb., 
Cod. 695, e também Z. Bran')Ão, Marquez de Pombal, 43. 

2 Apologia quarta: «Sobre a calumnia da aversão ao estado mo- 
nástico e aos religiosos nelle dedicados a Deus.» Goll. Pomb., Cod. 
695. Trasladado em parte por Z. Brandão, obra cit., pag. 48. 

3 Apologia quinta: «Sobre a calumnia de que demorei os felicíssi- 
mos desposorios da sereníssima senhora princeza do Brazil.» Coll. Pomb., 
Cod. 695. Vej. Provas da Deducção chronologica. Parte I, n.o LVI. 



365 APPARFICEM ENCERRABODES E |OSÉ DE SEABRA 



ridadc de D. José ^ Em longo e frouxo arrazoado, mais 
uma vez respondia, e com estes escriptos, na apparencia diri- 
gidos aos filhos, mas destinados a serem vistos pelas pessoas 
influentes, pelos ministros e pela Rainha, tentava confundir 
os inimigos, e desviar a tormenta que cada vez mais immi- 
nente se annunciava. 

Dos degredos distantes, dos ergástulos, onde como em 
tumulo encerrava tantos adversários, appareciam, inspiran- 
do-lhe terror e raiva, os mais detestados. Encerrabodes, que 
o alcimhara de Satanaz quando, em 1750, D. José o fizera 
secretario de Estado, e a quem não perdoava o ter-lhe arre- 
batado a embaixada de Londres, ancião como elle, sahia do 
cárcere para o Desembargo do Paço, e teria, quem sabe? 
de o julgar algum dia, não rem.oto. José de Seabra, que 
voltava do exilio, com honras destinadas a reparar o affron- 
toso trato que recebera, a injusta demissão e degredo para 
o mais inhospito sertão de Angola. A esse considerava i!<o 
mais vil, mais ingrato, mais pérfido e mais infame homem, 
entre os d'estas pérfidas qualidades, que se lêem nas historias 
para escândalo e aviso dos leitores» 2. E o receio que este 
redivivo lhe inspirava bem se collige das palavras seguintes : 
«José de Seabra dizem todos que vem desesperado e blas- 
phemo. . . será mais um touro na praça, que marre com os 
olhos fechados) 3. 



1 Apologia duodécima: xSobre a união e colligação que entre 
si fizeram os presos que sairam do forte da Junqueira, e sobre a 
temeridade sacrílega de affirmarem que se lhes tinham feito perguntas 
tendentes a haver sido suspeita no espirito do senhor rei D. José a 
sagrada fidelidade de sua augustissima esposa e de seu serenissinio ir- 
mão. Escripta ad perpetuam rei memoriam. CoU. Pomb., Cod. Ó95. 

'2 Carta ao co.nde de Oeiras, 21 maio 1774. 

•'' Ao mesmo, 10 agosto 1778. A consciência vingadora engana- 
va-o. Seabra ignorava o ódio de que era victima, e que fora Pom- 
bal o artifice da sua perda, attribuida por elle ao cardeal da Cunha. 
Tanto assim que, ainda muitos annos depois, escrevia: «O senhor Mar- 
quez de Pombal não foi o auctor da minha desgraça, foi executor 
por infelicidade sua e minha.) (Carta confidencia! ao conde de Rio 



o QUE SE PASSOU COM O BISPO DE COIMBRA 367 



Também com inquietação vira ainda restituido á sua 
diocese, no meio do applauso publico e com reputação ,de 
santo, o bispo de Coimbra, cuja liberdade elle próprio tivera 
de ordenar, horas antes da morte de D. José. Não cabia, 
porém, o appetite da vingança no coração do prelado, tanto 
mais que o seu duro perseguidor já perante elle se humi- 
lhara. Foi o caso que, andando elle em visita á diocese, 
chegando a Pombal, o marquês o mandou logo cumprimentar 
pelo Ouvidor, seu dependente, e depois lhe foi em publico 
pedir a benção, não se pejando de tributar veneração tal 
áquelle mesmo que, por inimigo publico, fanático e incapaz 
do seu ministério, enviara a perpetuo cárcere. Â respeitosa 
demonstração correspondeu o bispo indo a casa visital-o. 
O successo causou estrondo em Lisboa, a ponto que o exilado 
cuidou necessário justificar-se do proceder, que muitos quali- 
ficavam de hypocrita. Neste intento, escreveu ao filho a 
explical-o: «Deves saber que eu fui muito obrigado ao conde 
de Povolide, pae do bispo, e a seu irmão o cardeal Nuno da 
Cunha. Que tive a maior amizade com o conde Luiz da 
Cunha, irmão do bispo de Coimbra. Que tive sempre este 
prelado por um sinceríssimo e bonissimo pastor. . . Que tudo 
isto me fez sentir amargamente que o precipitassem no 
absurdo politico da pastoral, que toda a Mesa Censória, toda 
a Mesa do Desembargo do Paço, e todo o Conselho do 
Estado, julgaram que o tinha feito réo do crime de lesa-majes- 
íade. Que á secretaria de Estado, a que eu então presidia, só 
coube a expedição das ordens regias, que El-Rei determinou 
ultimamente no mesmo Conselho de Estado... Que logo que 
o genhor Rei D. José, que Deus chamou ao céo, declarou que 
ihe perdoava, fui eu o que gostosa e promptamente lhe 
expediu as ordens de soltura» i. À sabida, finda a visita. 
Pombal, de passo tremulo, acompanhou o bispo por toda 



Maior, escripta em 1802. Elogio de José de Seabra pelo marqiiez 
de Rezende, pag. 58.) 

^ 3 janeiro 1778. Coll. Pomb., Cod. 714 — publicada também 
por Z. Brandão, op. cit., pag. 100. 



363 PROCESSO MOVIDO POR GALHARDO MENDANHA 



a €scada abaixo atí entrar na liteira. Chovia fortemente. De 
cabeça descoberta, na rua, o velho desterrado curvava-se para 
receber, com a benção de adeus, alguma palavra de conforto 
d'aquelle a quem perseguira. Não precisava a mansidão do 
bispo de maior vingança, nem o orgulho de um déspota podia 
ter maior castigo. 



II 



Estamos chegados á phase critica d'esta lucta derradeira, 
em que Pombal, finalmente vencido, deixou com a vida reta- 
lhos palpitantes do seu intimo ser, dilacerado pelas angustias 
maiores a que um homem, como elle habituado ao triumpho, 
poderia ser votado. O celebre pleito, contra elle movido por 
Galhardo Mendanha, transformou a situação, até ahi compor- 
tável, em que o velho estadista se encontrava; no' desfavor 
da corte, é verdade, mas a affrontar os ataques com a segu- 
rança de si, le um resto de prestigio, que tantos annos de 
incontestada autoridade lhe prestavam ainda. 

Este processo, já de si escandaloso pelos motivos que 
o promotor d'elle invocava, mais o ia ser pelo caracter que 
a defesa assumiu. Illudido por interessadas suggestões, 
segundo pretendia, Mendanha tinha comprado ao dictador 
certas propriedades. Feita melhor averiguação sentiu-se lesado, 
e recusou o pagamento, de que já dera por conta uma parte. 
Enfurecido, Pombal fez-Ihe cahir em cima a tempestade da 
sua ira. Mendanha, preso por ordem d'elle, andou de cadeia 
em cadeia até parar em um forte da ilha Terceira. Os tribu- 
naes declararam-no infame de proceder e indigno chefe de 
familia. Tiraram-lhe a administração dos bens e o pátrio 
poder. Duas filhas, que tinha, foram mettidas em clausura; 
a um rapaz, menor, deu-se tutor. Na hora da liberdade sahiu 
a victima da prisão clamando pela desforra : queria a venda 
fraudulosa annulada, punido o tyranno prevaricador. Taes 
brados, engrossando o coro dos geraes clamores, não faltou 



DEFESA CONTRA GALHARDO MENDANHA 369 

quem os attendesse e animasse. A questão, posta em juizo, 
promettia estrépito, e mais estrepitosa foi pelo Ímpeto da 
defesa. 

Com os aggravos pessoaes, próprios, introduziu Men- 
danha no libello os aggravos da nação. Pela autoridade do 
seu cargo era que Pombal o tinha podido lesar e opprimir; 
portanto, o que no processo ia debater-se não seria o caso 
particular de Mendanha, mas a causa de um povo inteiro, 
vinte le sete annos sujeito ás inclemências de um tyranno 
sem freio. 

O desterrado abençoou a occasião, como a mais oppor- 
tuna á publica justificação de seus actos, e entrou a redigir 
com afan a defesa. Passando em revista a sua administração, 
desde que fora chamado pela primeira vez á presença de 
D. José, ia pondo em relevo os mais salientes actos d'ella. 
O que exprimira em synthese na Memoria secretíssima da inau- 
guração da estatua, diluia agora na sua prosa diffusa, indi- 
viduando factos, esmiuçando particularidades, contando a 
tormenta das suas luctas; -e, attento a exaltar a sua obra, 
não o foi menos em despedir golpes aos adversários, agu- 
çadas frechas aos que o aggrediam, ultima punhada no rosto 
aos que na terra dormiam já, ou deslumbrados da luz viva 
assomavam das prisões. 

Expurgado o primitivo borrão dos trechos julgados, pelo 
patrono da causa, inconvenientes á defesa. Carvalho mandou 
tirar sete copias, porventura no intuito de, por este começo 
de publicidade, palpar o sentimento geral e verificar se 
valeria a pena dar-lhe mais importância por meio do prelo. 

Alguns tinham por imprudência permittir-se o processo 
que, infamando o ministro, affectava o prestigio do cargo. 
«É zelo pharisaico — exclamava Pombal — para que não 
appareça a contestação»! E recommendava se puzessem escre- 
ventes a trabalhar de dia e de noite nas copias ^. A vingança 
de Mendanha devia, na intenção de Pombal, converter-se em 
glorificação sua. 



1 VI janeiro 1779. 

o MARQUÊS D3 POMBAL E A SUA ÉPOCA — 24 



370 APPARECEM AS CARTAS INGLESAS 



De mão cm mão correram as cx)pias, lidas com avidez, 
e com acrimonia commentadas. O escândalo foi enorme, c 
tal que o governo, e mesmo a Rainha, quizeram ter conhe- 
cimento dos papeis. Pombal exultava com isso. «Não me 
pesa que os autos da minha contrariedade fossem mandados 
ao paço, . . . porque sempre servirão para que aquelles que 
os lerem fiquem com as suas consciências oneradas, e vejam 
que eu não devia ser tratado com tantas barbaridades» '. 
Aquelles que os lerem, quem? Evidentemente a Rainha. Aos 
ministros, pessoas secundarias, e que Pombal teria por taes, 
de certo se não referia. 

Avivando a ebullição começavam a circular as celebres 
Cartas inglesas-, que na occasião todos attribuiram a Pombal. 
Lebzeltern, informador minucioso, como sabemos, e refle- 
ctindo sempre a opinião ambiente, notava a exactidão das 
coisas referidas, o que o levava a dizer: «Se não foi o 
marquês o autor, ninguém podia, a não ser elle, dar o material 
d'essas cartas. Tenha-se em lembrança que, no governo pas- 
sado, foram sempre impenetráveis os segredos do gabinete, 
e que o marquês de Pombal a ninguém confiava a direcção 
dos negócios de alguma importância» ^ Pombal, jactancioso, 
dava a entender serem ellas obra dos homens eminentes do 
partido whig, com quem estivera em relações: Shelbom, 
Cambden e o grande Pitt. Afinal o autor era certo familiar 
do duque de Manchester, de nome Blankett que, no tempo 
em que Pombal pretendera o auxilio effectivo da Inglaterra, 
nas desavenças com a Hespanha, fora intermediário do embai- 
xador português para com o duque. Os apontamentos, dados 
para elucidar os oradores favoráveis ás pretenções de Car- 
valho, deviam ser d'elle mesmo; e agora Blankett, reconhe- 
cido. utilizava-«e d'elles, para vindicar ante seus compatriotas 
a reputação de quem lhe tinha aproveitado os méritos, e 



1 22 junho 1779. 

* Letters from Portugal on the late and present siaie of that kiKg- 
àom, lujndres 1777. 

3 4 janeiro 1780, Duhr, 179. 



TRAnUCÇÃO DAS CARTAS INGLESAS 371 



certamente estipendiado. O fim d'elle, dizia na carta ac seu 
patrono proscripto, era «provar ao mundo que este século 
produziu um ministro egual aos maiores de quem fala a 
historia» ^. 

Recebendo a offerenda do folheto, Carvalho que nos 
annos passados em Londres não lograra aprender a lingua 
do paiz, recorreu, para lh'o traduzir, á irmã de Guilherme 
Stephens, seu protegido, dono da fabrica da Marinha Grande. 
A esta senhora dizia depois desvanecido, alludindo ao conhe- 
cimento que as cartas revelavam das cousas portuguesas, le 
aos louvores que cm razão d'isso lhe prestavam : «Cessou 
a minha admiração, reflectindo no claro entendimento que 
tenho, ha muitos annos, do espirito de justiça e de genero- 
sidade da illuminada nação inglesa, entre a qual passei, com 
muito gosto e aproveitamento de instrucção, os annos do 
meu ministério na corte de Londres» -. 

A vista das cartas suggeriu-Ihe a idéa de as corrigir e 
completar com a resenha dos acontecimentos e negociações 
referentes ás ultimas dissenções com a Hespanha, e algumas 
considerações sobre a conveniência que vinha á Inglaterra 
de manter intacta a alliança com Portugal. O abandono, que 
o gabinete britannico fazia doesta, levara os chefes da oppo- 
sição parlamentar a compor taes cartas, que não eram de 
Blankett, dizia, nem do duque de Manchester, porém dos 
três próceres, citados atrás. Em seguida, para expungir de 
toda a apparencia de vaidade estas notas, destinadas sem 
duvida a divulgar-se com as Carfas, affirma, com ar de con- 
vicção, que a ninguém illudiria, que os elogios á sua pessoa, 
as apologias em sua defesa, não tinham sido o fito do opús- 
culo na Inglaterra, mas sim o intento politico de abalar 
o credito do gabinete no poder, pela demonstração dos 
seus erros ^. 

À modéstia, affectada nestes assertos, correspondia eífe- 



1 Bibl. Nac, Coll. Pomb., Cod. 691. 

2 17 fevereiro 1778. Coll. Pomb., Cod. 691. 

3 Compendio histórico e analytico do juizo que tenh-i formado 
das dezcsete cartas estampadas em Londres, etc. 



372 O PROCESSO DE MENDANHA E O DESEMBARGO 



ctivamente a natural satisfação do homem em todo o tempo 
sensível ao incenso dos louvores, e com dupla razão no 
momento em que todos os seus actos, os mais defensav^eis, 
os mais dignos de apreço, lhe attrahiam censuras, e se 
capitulavam de crimes. Não c licito duvidar do sentimento 
de vaidade, assaz justo, com que Pombal, ao desapreço da 
sua Rainha, dos seus compatriotas, oppunha a exaltação, que 
da obra por elle realizada os extrangeiros faziam. Essa 
satisfação, comtudo, pagou-a por duro preço. Accusaram-no 
logo de publicar segredos de Estado, na unanime convicção 
de ser elle o autor das cartas, figuradamente escriptas de 
Lisboa. E observaram que no tempo do seu governo taes 
delicios não passaram nunca sem castigo. Na corte julgou-se 
desafio a soberba attitude do desterrado. Entre tantos desaf- 
fectos, o ministro do reino e da justiça, que lhe succedera 
nos principaes cargos, era o visconde de Villa Nova de 
Cerveira, filho d'aquolle que fora sua victima, e succumbira 
num carceie em S. João da Foz. A circumstancia influiria 
certamente na decisão posterior. Vindo ao Desembargo do 
Paço o processo de Mendanha, o tribunal, escandalizado 
com o libello e com a defesa, mandou supprimir dos autos 
essas partes, c destruir as copias todas. Os advogados foram 
punidos com a prisão, e, entre as névoas do palavriado 
forense, apparece unia vaga insinuação de mais eíficazes 
procedimentos contra Pombal. Este ao ler a notificação do 
alto tribunal, desdenhosamente lhe chama pario de montanha, 
opprobio de si mesmo i, para em breve experimentar quantas 
e quão grandes mortificações para elle se continham naquella 
ameaça, primeiramente julgada vã. 



III 



Cerca de um mez depois, a 9 de outubro, pelas três 
horas da tarde, apearam-se á porta do solar, em Pombal, uns 

^ Ij setembro 1779. 



INTERROGATÓRIO DO MARQUES POR ORDEA\ DA RAINHA 373 



cavalleiros. Eram os juizes Luiz da França c Bruno Monteiro, 
nomeados para a instrucçào do processo, a que o governo 
finalmente resolvera submetter o ministro exilado. Informados 
de que lelle, doente, dormia então, insistiram em lhe falar 
immediatamente, na execução de ordens regias, ao que foi 
preciso obtemperar; e, introduzidos no quarto, presente a 
marquesa, leram ao enfermo o decreto relativo ás funcções, 
que iam alli exercer. O marquês «ouviu tudo com a tranquil- 
lidadc do seu grande espirito», refere aquella em carta ao 
conde de Oeiras i. Em seguida vestiu-se, e amparado em 
dois creados passou á sala, onde os juizes o aguardavam. 
Ficou a distancia em signal de respeito, e como elles, por 
deferência, o chamassem para mais junto, declarou theatral- 
mente que em tal caso sentar-sc-ia no chão, para assim 
manifestar a sua veneração á soberana, representada alli 
pelos magistrados. 

Minutos antes, haviam elles tentado acalmar, com palavras 
de fingida benevolência, a natural inquietação da marquesa. 
Luiz da França dizia-se grande amigo de Pombal, e muito 
seu obrigado. Elle e o seu coUega tudo o que fossem atten- 
ções lhe haviam de conceder. E com ar de grosseira protecção, 
inflingindo-lhe o receio de cousas tétricas possíveis, accres- 
centava: «Podem dar graças a Deus por sermos nós, e 
não outros, que vimos cá!» 

Confiante ainda, a triste fidalga esperou, com anciedade, 
a cada momento mais viva, o termo da demorada conferencia. 
Duas horas e meia durou este primeiro interrogatório. D'elle 
viu sahir o marido no abatimento mais profundo. O grande 
espirito, de que o dizia animado, só ella, com seus olhos 
que lagrimas constantes annuveavam, podia vel-o agora, 
fascinada ainda pelo qiiid, que em Vienna, seis lustros antes, 
fizera render-se ao galan de quarenta e seis annos a joven 
condessa Daun. O animo de Pombal abatera no dia em 
que se lhe fecharam as portas á ambição. Não ha sombra 
de grandeza nesse homem que, dos annos sobrevividos á 



1 11 outubro 1779. Coll. Pomb., Cod. 706. 



374 POMBAL DOENTE DE LEPRA 

queda vingadora, metade passou-os em lamentações e doestos, 
no exaspero da sua impotente cólera; metade, de rojo, em 
humilhantes supplicas, por temor dos castigos, de que tão 
pródigo fora com seus contrários. Se um momento se ergueu, 
fazendo rosto á investida, na resposta a Mendanha, breve 
teve de submetter-se, e a si próprio se renegou, nas tristes 
confissões que os implacáveis juizes com malévolo gosto 
recolhiam. 

A custo habitará alma magnânima em corpo a desfa- 
zer-se em cruel e repugnante enfermidade. Nesse caso se 
achava então Pombal. As forças physicas esvahiam^e-lhe, 
com atrozes dores, em diarrhéas, em fluxos hemorrhoidarios, 
no esvurmar de obstinada furunculose. Prurido intenso fazia- 
Ihe velar as noites em constante inquietação. Para lhe 
abrandar o martyrio, dois creados, á beira da cama, a toda 
a hora, coçavam-lhe as pústulas. Sarna castelhana, denomi- 
navam os clínicos a doença. Tratavam-na com caldos d€ 
víbora, que se deviam adubar com uma cebola branca, um 
crave, uma pitada de canella, cozinha medica affim da feiti- 
çaria medieval. Já se tinha applícado o remédio ao Rei 
D. Pedro II. Era a lepra, e o seu séquito de dores, hedionda 
e crudelíssima. 

Neste lamentável estado o encontraram os dois magis- 
trados, que, como juiz e escrivão, o vinham interrogar sobre 
as indiscrições e culpas de íesa-majestade na resposta a Men- 
danha, e os actos irregulares e despóticos da sua adminis- 
tração. Prolongaram-se os interrogatórios até janeiro, com 
interrupções, motivadas pela doença. Dia a dia, ao enfermo, 
com as forças physicas se lhe abatia a moral. Levado, como 
da primeira vez, a braços pelos creados, á sala onde as 
audiências se realizavam, aili w severo juiz commissario Luiz 
da França — assim designa ao filho aquelle que na tortura 
moral das perguntas o attribulava; tristes palavras, que ao 
mais prevenido desaffecto inspirariam dó! — alli fazia tremer 
o duro vingador perante quem tantos outros haviam tremido. 
Naquellas horas de angustia, repetidas muitas vezes, nem um 
assomo de coragem, para affirmar os seus rancores, nem a 
lucidez antiga, com que poderia, como politico, justificar as 



DERRADEIRA SCENA DO INQUÉRITO 375 



suas violências. Esmorecido, com horror de si próprio, até 
não ousa ver o filho, a quem escrevia, depois de lhe relatar 
os tormentos do interrogatório: «Sendo este O' meu presente 
estado, te ordeno positivamente, com autoridade de pae e 
com affecto de amigo, que de nenhum modo consintas no 
pensamento de pedir licença para me vir assistir. . . Tenho 
por desveladas enfermeiras tua mãe, e duas filhas, que são 
inseparáveis do meu leito ; somente será preciso que as 
venhas buscar quando eu fallecer» i. 

A 15 de janeiro findava o inquérito na lastimosa scena, 
çm que o velho ministro, reduzido á ultima fraqueza, ouviu 
lêr os depoimentos de Oliveira Machado; de Pina Manique; 
de António Galvão que abria as cartas no gabinete negro, 
e cujo trabalho era a mais ampla matéria das proscripções ; 
de outros que, outr'ora seus instrumentos, o renegavam, 
articulando que por seu directo mandado haviam feito as 
violências e perseguições. Trágico instante esse em que, 
enredado no trama das capciosas perguntas, abatido em face 
das contradictas, sentindo-se alfim perdido. Pombal abdicou 
de todo a dignidade humana e, perante os juizes attonitos. 
tomada a voz de soluços, num estertor de angustia, appellou 
para a regia clemência, supplicando perdão, e assentindo nas 
culpas de que lhe faziam cargo. 

D'€stas eram as principaes: dizer-se primeiro ministro, 
quando o não tinha sido; dizer, após a renuncia de seus 
empregos, que lhe era indelével o caracter de ministro, que 
antes tivera; dizer que aos secretários de Estado se não? 
devem pedir contas do que praticaram em nome do sobe- 
rano; revelar negócios do Estado, que deviam ficar secretos; 
finalmente conservar as minutas da defesa contra Mendanha, 
que um decreto mandara supprimir. Tudo relativo ao malfa- 
dado processo. Os verdadeiros crimes, as prevaricações, se 
as houve, as tyrannias, que o nome do Rei acobertara, esses 
fieriam de mediocre importância ao pé d'aquelles outros, 



1 8 dezembro 1779. 



376 MISERANDA DEFESA DE POMBAL 



com que a facção no ix)der explorava o amor próprio da 
Rainha. 



IV 



Nunca um réo de crimes políticos, ministro da véspera, 
na situação de Carvalho, com as responsabilidades de um 
reinado, tão miseranda defesa articulou. 

Exprobavam-lhe os accusadores o querer tomar a si a 
gloria dos feitos louváveis e imputar ao Rei as violências 
e crueldades. Exilios, prisões, cadafalsos, tudo ordens de 
D. José. Elle Pombal, quando muito, seria o carrasca, ás 
vezes compadecido, ao serviço do monarcha vingativo e 
sanguinário. Das forcas do Porto ao incêndio da Trafaria, 
fora sempre El-Rei o mandador. Carvalho, benévolo, che- 
gara até a interceder jX)r inimigos seus, como Gonçalo Chris- 
tovão, parente d'elle, preso por lhe attentar contra a vida. 
Quem tal acreditara do homem, de quem na época diziam 
ter cabellos no coração? Apesar d'isso o protegido penou 
muitos annos no forte da Junqueira. A asserção, como muitas 
mais do inquérito, tem de ser rejeitada. 

Uma a uma, cada victima da sua feroz politica o tinha 
sido por vontade do Rei, ou regular decisão dos juizes. De 
1750 a 1759 — dizia Carvalho — era D. José quem tudo 
determinava. Durante esse tempo, o ministro somente cuidou 
do commercio e da navegação. Foi em 1762, passada a 
guerra com a Hespanha que a sua influencia entrou a ser 
grande. Entretanto o Rei continuava a informar-se de tudo. 
Os lespias levavam-lhe pessoalmente as participações, de 
manhã aos seus aposentos, pela tarde ao picadeiro. 

Instituído o juizo da Inconfidência, este era o que recebia 
as denuncias, pronunciava os culpados, ordenava as prisões, 
sentenciava, e depois entregava o accordão a um dos secre- 
tários de Estado, para ser presente ao Rei. Extranhas fe 
sinistras cousas revelariam, se viessem' á luz hoje, esses pro- 
cessos, em que os réos se não defendiam, e, condemnados, 



CULPAS DOS VISCONDES DE CERVEIRA E SÃO LOURENÇO 377 

cumpriam sentenças que não tinham jamais ouvido. E então, 
no processo dos Tavoras, a que presidiu; de Malagrida em 
que foi denunciante; do genovês Pele em que dictou os 
procedimentos, veríamos o ministro, por detrás dos tspias, 
eonjuncto aos juizes, superior ao Rei a quem dominava, pôr 
em movimento elle sósinho o mecanismo atroz das pros- 
cripções. 

As declarações que fez no inquérito, subordinadas ao 
systema de esquivar responsabilidades em actos, que a 
opinião publica repeliia, escassa claridade espargem sobre 
o mysterio das prisõies e castigos, em que foi abundante o 
terror pombalino. Muitas d'essas violências occorreram sem 
processo. Uma ordem real bastava; e — referia Pombal — 
o monarcha, usando assim de um direito que as ordenações 
lhe conferiram, era o próprio a dizer-se o juiz único, irrespon- 
sável, das prisões que ordenava. Com taes affirmações pen- 
sava o ministro illibar-se a si do odioso. Debalde os juizes 
tentaram penetrar a origem de certos actos de perseguição, 
que haviam surprehendido, já por inesperados, já pela quali- 
dade das pessoas a quem attingiam. As respostas de Carvalho 
são quasi sempre nebulosas, omissas, e em alguns casos 
notoriamente oppostas á verdade. 

Ao numero d'estes últimos pertence a prisão do visconde 
de Villa Nova de Cerveira, camarista de D. José, e a do 
conde de S. Lourenço, que o foi do infante D. Pedro. Falleceu 
o primeiro, ao cabo de alguns annos, no castello da Foz; o 
outro ficou livre no perdão geral por morte de D. José. 
Nunca os secretos motivos da ruina d'estes dois homens 
transpiraram. A voz publica ligou o acontecimento ao castigo 
dos infantes de Palhavã, e ao conflicto em que se dizia fôrai 
ultrajado o primeiro ministro i. O inquérito não confirmou 
a versão nem desvendou o mysterio; mas não será desrazoado 
conjecturar que os fidalgos, favoritos do infante, tentassem, 
após o casamento, realizado dias antes, persuadi-lo a pronun- 



^ Cf. a nota n.o 3, pag. 225. 



37S CULPAS DE DIOCK) DE .WENDONÇA E JOSÉ DE SEABRA 



ciar-se em opposição a Carvalho, e d'ahi lhes resultasse a 
punição. 

Sobre Diogo de Mendonça Corte Real não se apoira 
muito mais. Este ministro, em casa de quem era costume 
reprovar os actos do soberano, adoptara — declarou Pombal 
— a praxe de ir ao despacho a horas descostumadas, evi- 
tando ;• presença dos collcgas. Reparou nisso o Rei, 2, des- 
confiando de certos papeis, mandou-os examinar: continham 
falsidades; logo ordenou a prisão e o desterro do ministro 
infiel. Assim., em termos vagos, o interrogado explica a 
desgraça do companheiro, obra sua com certeza. A razão 
verdadeira íicou, como d'ant2s, impenetrável. 

Outro enigma foi a sorte de José de Seabra, confidente 
intimo, ajudante de Pombal na secretaria do reino. Tendo 
exercido três annos este cargo, em janeiro de 1774 foi, por 
ordem do Rei, desterrado da corte, preso em seguida no 
castello de S. João do Porto, e transferido depois para as 
Pedras Negras, naquelle tempo o mais inhospito presidio át 
Angola. Para merecer isso o que fez? Perguntado sobre o 
facto, o marquês alheou de si toda a responsabilidade. Seabra 
era para elle como um filho adoptivo e meditava faze-lo seu 
successor. Foi o cardeal da Cunha o que, sabendo isso, por 
inveja lhe preparou a mina, intrigando-o com o monarcha, 
por meio de anecdoias indecentes e criminosas. Que anecdotas 
fossem não o disse Pombal. Referiu apenas que, em seguida 
a isso, D. José pediu uma relação dos despachos, assignados 
por Seabra, e dias depois o mandou despedir. 

Esta ultima parte, capciosa, descobre a inimizade de 
Pombal, deixando entender que alguma cousa se encontrou 
nos despachos, em desabono- do ministro ajudante. Nó* 
sabemos em que conceito o tinha aquelle : o homem mais 
ingrato, e pérfido, e infame. Se enredos houve do cardeal 
da Cunha, com certeza a elles não foram extranhas as ingra- 
tidões, as perfidias, as infâmias, que o primeiro ministro 
tinha a vingar; e tudo faz crivei a versão, que davam do 
caso os contemporâneos. 

Para obstar a inevitavej reacção contra a sua pessoa, 
por morte de D. José, imaginara Pombal introduzir no reino 



o MYSTERIO DE JOSÉ DE SEABRA 379 



a lei salica, coagindo a herdeira do throno á renuncia da 
coroa, em proveito de seu filho, o príncipe da Beira; e decerto 
o Rei, que não amava a D. Pedro, veria sem desgosto a 
mudança na ordem da successão. Com o principe, em menor 
idade, e que, rodeado de familiares seus — o bispo Cenáculo 
preceptor, o conde de Oeiras, camarista, e outros mais — 
queria educar na submissão aos seus dictames, e na vene- 
ração do seu génio, com esse continuaria a sua politica; ao 
menos emquanto vivo fosse, o governo, ambição da qual, 
reinando a princesa, nenhuma esperança poderia guardar. Mas 
Seabra, que era da confidencia, annullou a tentativa, desco- 
brindo o trama á Rainha D. Marianna Victoria. D'ahi o 
imprevisto desfavor, e o castigo; essa a ingratidão e a per- 
fídia, que o protector trahido lhe não perdoava ^. 

Personagem menos considerável, mas que, pela papel 
que um instante representou, fez interessar por seu destino 
os contemporâneos e as pesquizas da historia, foi José de 
Mascarenhas Pacheco, escrivão da famosa alçada do Porto, 
em 1757. Galardoado com adeantamentos na sua carreira, 
indo ao Brasil, em 1760, em missão relativa ao sequestro 
de bens dos jesuítas, foi encerrado, ao chegar ao Rio de 
Janeiro, em uma fortaleza, de onde somente sahiu quando 
também para as outras victimas do rigor pombalino raiou 
a liberdade, D'esta inesperada mudança do favor em castigo, 



1 É de notar que o próprio Seabra parece negar o facto. Ao 
regressar a Lisboa do degredo, na exposição dirigida a D. Maria I 
dizia o seguinte: «A voz publica, que não costuma perdoar aos que 
teem, e menos aos que deixam, o alto logar que o supplicante occu- 
pou, clamou pela sua innocencia; e, pela maior parte, ainda fora de 
Portugal, se lhe fez o favor de o crer réo de um crime honrado 
que o supplicante não commetteu, porque nunca se lhe offereceram 
circumsíancias de ser tal delinquente». Mas logo em seguida como que 
se contradiz: «...quando, em summa, e esforçando-se o supplicante em 
se procurar a si mesmo delictos contra o real ser\'iço, chega de al- 
gum modo a persuadir-se que não teve outros que os que lhe for- 
mou o publico, sendo-lhe favorável». — De onde se poderá deprehen- 
der que o trama realmente existiu, que o não denunciaria Seabra, mas, 
suspeito de o fazer, seria punido. 



380 DESEMBARGADOR MASCARENHAS PACHECO 



não se soube então o motivo. Almas cândidas imaginaram 
ser a expiação das protervias do Porto; Pombal, no interro- 
gatório, destruiu a romântica anecdota. Segundo disse, José 
de Mascarenhas detivera-se na Bahia, ao tempo em que lá 
se encontravam duas esquadras, uma inglesa, a outra fran- 
cesa; e, como o desembargador, conselheiro ultramarino, 
personagem de categoria, com representação official, se 
desvelasse com os franceses em attenções que não dispen- 
sava aos ingleses, estes, sempre em rivalidade com a França, 
e além d'isso alliados de Portugal, dando-se por offendidos, 
destacaram um barco, que trouxe ao reino queixa d'aq,iielle 
procedimento. Em razão d'isso, D. José para dar satisfação 
ao governo britannico, mandara prender o leviano Masca- 
renhas, conservando-lhe todavia os ordenados. A isso recres- 
cea porventura a suspeita de entendimento para actos de 
traição com os franceses, de cujos intentos sobre o Brasil 
desconfiava Pombal i. 

Qualquer que fosse a causa, o prisioneiro como Seabra, 
não imputou nunca ao ministro as suas infelicidades. Vol- 
tando do Brasil, foi um dos seus primeiros cuidados ir visi- 
ta-lo ao desterro, dizendo em seguida que «obrigado estava 
ao m.arquês antes da sua prisão, e ultimamente em Pombal» '2, 
tal foi o acolhimento, que do seu antigo protector recebeu. 

Em gerai, nos pontos, obscuros, sobre que o interro- 
gatório versou, não tiveram os juizes satisfação completa. 
D'€sta artCj todas as tentativas para esclarecer os mysterios 
do reinado, sahiram baldadas. O segredo das inexplicadas 



^ Assim deixa entender o officio do ministro da marinlia ao con- 
de de. Bobadella, governador do Rio de Janeiro, de 14 outubro 1761. 
Archivo de Marinha e Ultramar, na Bibl. Nac. : «S. M. teve certas e 
evidentes provas de que 03 francezes, que estiveram nesse porto alo- 
jados (em 1757) procura!"ão e conseguiram tirar informações e deixar 
estabelecidas correspondências nessa Capitania». O facto, anterior ao 
da Bahia, justificaria a presumpção contra José Mascarenhas. 

-' Carta de conde de Oeiras ao marquez, 14 junho 1780. Na mes- 
ma p&rticipa que José Mascarenhas desistira da causa que andava plei- 
teando sobre a quinta de Santorum, em poder de Pombal, por saber 
o goste que nessa propriedade elle tinha. 



o FILHO DE POMBAL NA CORTE 3S1 



violências ficava com o soberano desapparecido, e com o 
ministro que em breve ia segui-lo á mansão do eterno ignoto. 



V 



Dia a dia se aggravava a enfermidade e declinavam as 
forças de Carvallio. Os interrogatórios gastavam-lhe o resto 
da energia, baniam toda a esperança de ailivio. Davam-lhe 
os juizes curto respiro quando prostrado pelo excesso das 
dores, ou era mais profunda a depressão moral ; mas, de 
dois €m dois dias, voltavam por noticias e, desconfiados, 
chegavam a ir vê-lo á cama, para ao primeiro recobro conti- 
nuarem. O infeliz conheceu então o desespero d'aquelles que, 
em tanto numero, votara ás gehennas, e no excesso das 
dores physicas pensou acaso, em taes momentos, padecer 
tanto como o pretenso assassino Pele, dilacerado pelos 
cavallos, ou José Maria de Távora, a bramir no ecúleo a 
sua innocencia. 

A piedade, que mandava pedir, ninguém lha concedia. 
Em nenhuma parte um amigo, um protector, uma égide. O 
filho, que na corte exorava contemplação para um velho a 
debater-se na agonia da doença e na aiflicção dos mais sen- 
síveis golpes moraes, lastimava-se referindo que a Rainha 
€ o Rei o receberam com secciíra ; o arcebispo (de Thessa- 
lonica, confessor e conselheiro principal de Maria I, o ver- 
dadeiro poder do Estado), com desabri mento ; e a própria 
Rainha mãe se limitara a dizer-lhe que sentia muito nchar-se 
o marquês tão doente. Doesta ultima, em cuja solicitude puzera 
toda a esperança. Pombal era obrigado a reconhecer que 
já estava ganha por seus inimigos. Quanto aos outros desaba- 
fava: «El-Rei quer vingar a extincção dos jesuítas, cujo 
espirito se lhe introduziu pela educação e convivência de 
tantos annos. . . O arcebispo e o marquês de Angeja (primeiro 
ministro), depois de me terem offendido e ultrajado, temem 



382 APPREHENSÕES TRISTES DO MARQUES 



a minha existência neste mundo, muito mais do que antes 
a temiam...» Depois, em uma crise de raiva: «Está decidido 
entre os conjurados que na minha morte consistirá o seu 
socego, que sem ella se não poderá contentar o ódio 
e o rancor de não terem assassinado o senhor Rei D. José, 
para ficarem governando como hoje governam, desde a noite 
de 3 de setembro de 175S» ^ 

Âs tristes apprehensões do futuro o conde de Oeiras 
respondia, buscando tranquilliza-!o: «O que sei que é certo 
é que não resultará outra cousa mais do que amofinar a 
V. Ex.a» -. E logo em seguida: «Posso affirmar a V. Ex.a 
que tudo isto ficará por aqui» ^ Como lhe annunciasse que 
a Rainha, finalmente compadecida, ia mandar recolher k>s 
juizes, o marquês, incrédulo e sempre temeroso, retorquia: 
«Pouco importa que cessem as perguntas em Pombal, se a 
ellas se vai seguir um processo de Estado em Lisboa:') 4. 

O fatal dia 15 de janeiro, ultimo do inquérito, passara. 
Então, livre da inquietante presença dos juizes, Carvalho reco- 
bra-se um pouco. Inconsciente, no senil apego á vida e ao 
socego, nenhuma humilhação já lhe repugna ; volta a gemer 
e a supplicar. Novamente manda solicitar á Rainha pelo 
conde de Oeiras ; escreve ao arcebispo confessor, de quem 
dias antes tanto se aggravava, a rogar que por elle interceda, 
pois que «a Rainha não ha-de esquecer que é a filha e 
neta dos dois Reis que tanto e tão distinctamente quarenta 
annos o honraram no seu real serviço» s. Insensivel ao trágico 
da soena final com os juizes, nella põe a esperança de salvação: 
«A minha ultima resposta dada a José Luiz da França, em 15 
do corrente, e a carta que acabo de escrever ao arcebispo, 
poderão pôr um termo a todas as diabruras» e. Passadeira 
illusão, que as mesmas angustias do passado breve substituiam. 



* Carta ao conde de Oeiras, 5 janeiro 1780. 
2 Idem, id. 

" Idem, ò janeiro 1780. 

* 5 janeiro 1780. 

5 18 janeiro 1780. 

e IQ janeiro 1780. 



PREPARA-SE A REHABÍLITAÇÃO DOS TAVORAS 383 



Os herdeiros dos Tavoras tinham sahido das prisões 
pubhcando a sua innoccncia, e, illibados os vivos, tentavam 
rehabilitar as victimas de Belém. Iniciara-se o processo de 
revista, ie esses mortos, que ameaçavam resurgir das cinzas 
dispersas, amedrontavam em extremo a Pombal, que já os 
via a elles sem macula, e se olhava a si próprio culpado na 
sentença proferida ^. Já receando o peor dizia agora: «Eu 
também não receberei grande admiração de ter aqui uma 
segunda visita, mais atroz do quje a de José Luiz França, 
para me levarem, para onde lhes parecer, a pau e corda, 
porque não poderei ter outra forma de transporte, no estado 
em que presentemente me acho». 

Os jesuítas, (eternos inimigos, emergiam também, gasa- 
Ihados e com a prot€cção do Estado. Dos cárceres, onde, 
no longo captiveiro, setenta e um d'elles haviam succumbidp, 
surdiram cincoenta e cinco, a maior parte da torre de S. Julião, 
Logo, ao padre Thimoteo de Oliveira, que fora confessor 
da Rainha, se arbitrou uma pensão de duzentos mil réis, ^ 
subsidio inferior a outros menos graduados. O numero de 
padres portugueses, no Estado romano, orçava por mil, 
repartidos por vários alojamentos e districtos. Desde a morte 
do Rei, o governo proveu á sua manutenção, com cem mil 
cruzados annualmente, e o ministro em Roma prestava-lhes 
protecção, como aos demais súbditos. Na turba dos exilados, 
estes actos de benevolência, € as noticias, que de Lisboa 
chegavam, accendiam loucas esperanças de rehabilitação e 
desforra. Corria entre elles, e propagou-se na Europa que, 
a diligencias de Maria I, o breve da extincção seria revo- 
gado. Muitos pensaram em voltar á pátria. Partiram seis por 
primeiro; e intimados, quando chegaram, a sahir do reino, 
ficaram, por tácito assentimento das autoridades. Outros 
foram clandestinamente chegando, mas o maior numero, sem 
recursos para a viagem, nem meios de subsistência em Por- 
tugal, terminaram a vida nos logar^ aonde a sanha do seu 
perseguidor os tinha arrojado. 



1 27 maio 1780. 



3S4 PREPARA-SE A REHABILITAÇÃO ÍXIS JESUÍTAS 



Iniciada, a requerimento do marquês de Alorna, um dos 
resurgidos da Junqueira, a revista do processo dos Tavoras, 
entenderam os jesuitas que também para elles batera a hora 
da justificação. Em outubro de 1780, entregaram a D. Pedro 
III, constante patrono seu, para dar á Rainha, um memorial 
em réplica ás accusações que, por mais de vinte annos 
Pombal contra elles proferira. Dois volumes /// folio occupa 
a extensa apologia, destinada a conseguir a annullação do 
decreto de exilio, que abrangia a todos, e a publicação da 
innocencia dos três sócios, que a sentença de 1759 dera por 
cúmplices no attentado contra o Rei. Simultaneamente o 
padre Thimoteo de Oliveira apresentava uma relação de 
treze artigos, sobre os quaes requeria se interrogasse o 
ministro no processo. Entre elles : porque motivo não foram 
os jesuitas, suppostos cúmplices na conjuração dos Tavoras, 
— Malagrida, João de Mattos e João Alexandre — interro- 
gados e acareados com os outros réos? porque motivo, nove 
annos depois, na Deducção chronologica, são incriminados 
mais três — José Perdigão, Jacintho da Costa e Thimoteo 
de Oliveira — que a sentença não mencionou? porque motivo 
deixou de se tomar a retractaçãoi do duque de Aveiro, que 
renegou as declarações contra os parentes e contra os 
jesuitas ? 

Corria então como certíssimo, todavia jamais se provou, 
ter o duque affirmado ao defensor, e ao religioso que o 
confessou, serem-lhe as falsas denuncias extorquidas na 
agonia dos tratos. Isso mesmo tinha declarado aos juizes, 
que o não attenderam i. D'aqui tiravam os jesuitas a prin- 



^ Uma carta de Lisboa, para certo jesuíta, em outubro de 1785, 
refere que, na occasião do processo, «indo o procurador dos réos, des- 
embargador Eusébio Tavares, a propôr-lhes que insinuassem o que ti- 
nham que allegar em sua defesa, este lhe dissera ter commettido o 
mais enorme e execrando delicto, parque na confissão, que com o medo 
dos tratos fizera, culpara e infamara aos fidalgojs e jesuitas... Tendo 
ouvido esta protestação, o procurador lhe disse que a devia fazer aos 
mesmos juizes, que lhe receberam a sua falsa e calumniosa confissão; 
ao que logo repoz o duque que, entrando Sebastião José poucos dias 



MALLOQRO DOS JESUÍTAS 3S5 



cipal defesa, que a Rainha de bom grado lhes admittiria. Mas 
havia de contrasta-las a geral animadversão que, por um 
passado de insolente predomínio, e tantos annos de insistentes 
accusações, para com elles existia, e com a qual o governo 
temia defrontar-se. Por outra parte, a corte de Madrid de 
certo acharia displicente qualquer demonstração de excessivo 
favor áquelles que havia pouco anniquillara, e já o seu repre- 
sentante, marquês de Almodovar, fizera sobre a espécie recla- 
mações. Não se deu por isso seguimento ás supplicas 
d'aquelles que realmente existiam fora da lei. Pombal podia 
por este lado ficar tranquillo. Mas as noticias, que lhe trans- 
mittiam dos factos, os boatos que em torno d'estes se urdiam, 
mais lhe aceravam a irritação e o propelliam ao desanimo. 
Caminhava no emtanto o seu processo. Os juizes ouviam 



antes no seu cárcere com o escrivão, fizera, como era obrigado, a 
sua retractação; e que ao tempo que o escrivão já tinha escripto duas 
folhas de papel, entrara Pedro Gonçalves Cordeiro, e perguntara: Que 
é isto que se está escrevendo? Respondeu Sebastião José: É '.ima re- 
tractação da confissão, que o réo antes tinha feito. — Nada, noda, 
disse c Cordeiro; tal retractação nada vale, nem deve ser recebida, 
porque a confissão foi espontânea ^ não extorquida na tnrtura.y> (Murr, 
Journal cit., XIV, 1787. pag. 306 e 307.) 

O facto e confirmado pelo depoimento do desembargador Eusébio 
Tavares, no processo de rehabilitação dos Tavoras, agora trazido á luz 
f}elo diligente investigador Jordão de Freitas no jornal a Época, nú- 
meros de 13 a 17 de Maio de 1922. Segundo a testemunha, dissera- 
Ihe o duque sobre as accusações aos fidalgos incriminados e aos je- 
suítas que lhes levantara falso testemunho e os levava a todos atraves- 
sados na garganta. Do mesmo depoimento consta haver o desembarga- 
dor Oliveirr. Machado feito a declaração de que o duque não levara 
tratos, mas conduzido ao logar d'elles o terror bastou para lhe arran- 
car as confissões. 

Latino Coelho, na Historia política e militar de Portugal, I, 366, 
dá noticia de uma declaração escripta, do religioso fr. Manoel de 
S. Boaventura, que com outro carmelita assistiu aos últimos momentos 
do duque, ouvindo da sua boca que só elle, e sem que mais nin- 
guém soubesse do intento, tentara a morte de D. José. Ao historiador 
pareceu authentico o papyel, que existe na collecção de manuscriptos da 
Academia Real das Sciencias. 

o MARQUÊS DE POMBAL E A SUA ÉPOCA — 25 



386 CRUCIANTE MARTYRIO DE POMBAL 



as testemunhas, apreciavam os interrogatórios effectuados em 
Pombal. As conferencias repetiam-se sem que nada transpi- 
rasse das discussões. O accusado, como é de imaginar, con- 
templava em anciãs qual seria a decisão final. «Parece-me 
— dizia a lastimar-se — cousa insuperável que no grande 
numero die ministros que se teem introduzido nas juntas, que 
ahi dizem que se inventaram para mais me atormentarem, 
deixe de haver a maior parte d'elles que se lembrem de 
que ha Deus, de que ha céo e inferno, de que ha honra e 
reputação, que uma vez perdidas se não podem mais 
restaurar» i. 

Entretanto, prolongava-se a expectativa do marquês e 
do publico, sem que nenhuma resolução viesse a lume, 
Deixou-se mesmo de falar no processo. O que attrahia as 
attenções então era a rehabilitação dos Tavoras. Decorreu 
um anno, em que Pombal, nas curtas remissões das dores 
physicas, descansava arrazoando para o procurador as causas 
forenses, ainda numerosas, que lhe ameaçavam o património. 

Mas a doença proseguia implacável, com a tortura na 
ardência das chagas, e a visivel destruição dos tecidos, nas 
rubras empolas a desatarem-se em pus. Cada vez era maior 
o quebranto das forças. «Presentemente me acho quasi de 
todo entrevado, sem poder pôr os pés no chão, nem susten- 
tar-me sobre as pernas», mandava dizer no mês de maio. 
Em outra carta descreve o seu estado: «Coberto de pústulas 
nos pés, pernas e corpo, que me não deixam socegar, com 
as dores e comixões que me causam; um carbúnculo que 
me sobreveio sobre a espádua esquerda, que me não per- 
mitte estar deitado senão do outro lado: ^^ tal era o dissolver 
do misero envolucro d'aquella alma attribulada. Para lhe 
mudarem a cama, fétida dos soros purulentos e das dejecções 
mal contidas, tomavam-no os creados a pulso para um canapé. 
«Em vinte e quatro horas — conta uma testemunha ocular — , 



^ Carta ao conde de Oeiras, 23 junho 1780. 
a 2* maio 1780. 



UM AMIGO DE POMBAL 387 



poucas vezes tem mais de duas de descanso» ^. Hediondo 
martyrio, cuja dantesca atrocidade não suspeitou Camillo ao 
escrever a piírase vingadora: «Morreu impune o marquês, 
coçando socegadamente a sua lepra>\ Não! No corpo e na 
alma, as fúrias todas dilaceravam a golpes vehementes 
aquella vida. 

Na esperança de allivios pensava o desterrado, em prin- 
cipio da enfermidade, ir áz Caldas, mas lôra-lhe a autorização 
negada pelo governo. Agora precisaria fugir de Pombal, covil 
de febres, que lhe complicavam a fraqueza. Em S. Martinho, 
perto de Coimbra, tinha posto á disjxjsição d'elle uma quinta 
da mitra o bispo D. Francisco de Lemos que, morrendo 
D. Miguel da Annunciação, reassumira o cargo, exercido 
durante o seu captiveiro. Era dos últimos e poucos amigos, 
que a Car\alho restavam, e ainda o provou quando, em 
desafio á geral malquerença, não trepidou de lhe honrar as 
exéquias, com a pompa do báculo. Mas a debilidade extrema 
do doente não permittia o transpoi^e, e as húmidas paredes 
do casarão de Pombal foram as que até ao fim abafaram os 
brados das suas cóleras e os gemidos das suas dores. 



VI 



Transcorreu mais um melancólico inverno, renovaram-se 
as campinas, e pelas vidraças Pombal via reverdecerem as 
arvores; o verão chegou radioso, enchendo de sol o quarto, 
onde as alegrias da natureza não encontravam reflexo. Em 
tamanho tempo o processo fora como que esquecido. Da 
corte não vinham novas, a preoccupação do enfermo era só 
por manter a casa esplendida, que aos seus intendia legar. 



1 Carta do cirurgião Quaglia. Z. Brandão, Marquez de Pom- 
ba!, 116. 



3S8 A RAINHA PRONUNCIA A CONDEMNAÇÃO DE POMBAL 

O punho debil mal garatujava a firma nas recommendações 
dictadas, para os filhos e procuradores, sobre a administração 
das propriedades, para o advogado, sempre activo nos inter- 
mináveis le complicados pleitos. A espaços, referencias aos 
negócios públicos, e sobre elles os acerbos juizos do politico 

Súbito, no mês de agosto (1781) sahiu á luz o affrontoso 
decreto, declarando Pombal réo e merecedor de um exemplar 
castigo. A Rainha, todavia, lembrando-se mais da clemência 
que da justiça, em attenção á edade e ás doenças, e porque 
o marquês lhe pedira perdão, remettia-lhe as penas corporaes, 
confirmando porém o desterro, e os direitos que por parte 
da fazenda real de futuro se provassem. Dos juizes, cujo 
laudo serviu de base á decisão, dois tinham sido da con- 
fiança intima do marquês: José Ricalde Pereira de Castro, 
e o procurador da coroa, Azeredo Coutinho, ambos da 
commissão de reforma da Universidade, ambos com o nome 
vinculado á nefanda sentença, dictada pelo mesmo que agora 
votavam á deshonra e ao castigo, contra o infeliz Pele, por 
vagas suspeitas trucidado. 

Com a tardia resolução regia, que somente o infamava, 
deixando-lhe a curta e miseranda vida. Pombal, já indiffe- 
rente a tudo que não fosse a dôr physica ou a perda da 
fortuna, despedido de orgulhos, sem esforço se conformou. 
Ninguém da familia, ao menos na apparencia, se sentiu laggra- 
vado. Nem o filho, eonde de Oeiras, nem o genro, morgado 
de Oliveira, ambos aulicos, devolveram, num Ímpeto de 
desaffronta, as chaves de ouro de camaristas. O primogénito, 
herdeiro do titulo, satisfeito, escrevia: «O ultimo decreto 
f€chou a porta a todos os procedimentos». E o pae, esque- 
cido das misérias do interrogatório, convicto de que se havia 
justificado: «Sendo eu ouvido não será facil provar contra 
mim cousa que me faça carga, porque nada obrei que não 
fosse debaixo das ordens de El-Rei» ^. Continuava a suppôr-se 
defendido com a traça que, nem para os juizes, dispostos a 
condemnar, nem para a posteridade desprevenida valeu. 



1 6 outubro 1781. 



ÚLTIMOS DIAS E MORTE DE POMBAL 389 



Em Lisboa, a lenidade da soberana escandalizava os 
rancores. Ao mesmo tempo recusava-se a evidente justiça aos 
manes dos Tavoras, absolvidos pelo tribunal de revisão. Os 
ecos da indignação publica, chegando á beira do enfermo, 
mal o podiam abalar. A clemência real, lenta a pronunciar-se, 
talvez na esperança de que se anteciparia a morte á sentença 
dos homens, fora um dom vão. Alguns meses mais de mar- 
tyrio e extinguia-se-lhe a vida a 8 de agosto de 1782. 

No dia 12 transportou-se o corpo embalsamado á egreja 
dos Capuchos na villa. Tinham-lhe feito autopsia. O coração, 
que abrigara tantos ódios, hypertrophiado, era enorme: o 
cérebro, onde nasceram as ambições, taml>cm volumoso. Ãs 
exéquias, com o bispo de Coimbra, antigo reitor, concorreram 
lentes da Universidade, o primeiro como amigo provado, 
estes em preito á memoria do reformador. Dos logares con- 
vizinhos acudiu povo em multidão, attrahido pela solemnidade, 
única em pompa naquelles redores. Orou o benedictino frei 
Joaquim de Santa Clara, exaltando as virtudes e merecimentos 
do morto, e foi transferido para Tibães, em castigo de haver 
dito d'elle aquillo mesmo que, em outros tempos, tantos apre- 
goavam do vivo. A homenagem posthuma ao homem, que 
se sumira abysmado em tantos ódios, irritou o ministério e 
a opinião. O espirito de mesquinha vingança tripudiou ainda 
sobre o cadáver. Âs honras derradeiras responderam novos 
libellos. O governo não consentiu que a familia transportasse 
para o jazigo em Lisboa, na egreja das Mercês, o corpo que 
ficou por isso em Pombal. 

Dos successores nenhum sahiu a vindicar-lhe a memoria. 
Herdavam a casa e o nome, mas, no intimo, renegavam o 
grande antepassado. A hostilidade aos poderes da Egreja 
importava tacha indelével na estirpe nobre, e convinha deixar 
que o tempo a delisse. Com o sangue dos Carvalhos con- 
fundia-se o dos Tavoras e o de José de Seabra, o pérfido 
e infame. O terceiro marquês de Pombal, repellido consorte 
de Isabel de Sousa, desposara uma filha de Nuno de Távora, 
preso nos cárceres da Junqueira; uma filha do morgado de 
Oliveira, conde de Rio Maior, uniu-se depois ao primogé- 
nito de Seabra. Transmutara-se tudo, e do passado perma- 



390 A LENHA BÕ MARQUES DE POMBAL 

necia viva/ na descendência somente o culto do monarcha, 
dispensador supremo das honras e das graças. 

Com os principios a que deveu a sua fama ficaram as 
cinzas do estadista ao abandono lem Pombal. Em 1811, pas- 
sando os franceses, com a ferocidade de que em toda a 
parte deixaram vestígios as suas armas, arrombaram o sarco- 
phago, -e despojaram o esqueleto. Mão piedosa juntou os 
ossos e cerrou a lousa novamente. 

Tinham-se aquietado as paixões, e sobre o discutido 
nome pairou silencio de muitos annos. Rompeu-se depois, 
e Pombal resuscitou na lenda, em toda a grandeza que os 
lisonjeiros lhe attribuiram durante o poder. Deformado o 
seu génio, transfigurou-se o torvo déspota em corypheu da 
liberdade. 



NDICE 



índice 



Preliminar 7 

CAPITULO I 

A EMBAIXADA DE LONDRES 

1. Antecedentes e partida do ministro. Situação de Portugal perante 
a Hespanha e a Inglaterra. Guerra da Successão de Áustria. — 
II. Soccorro pedido para a Índia. Violações de neutralidade 
pelos ingleses. Reclamações desprezadas. — III. Colónia do Sa- 
cramento. Receios de invasão pela Inglaterra. Idéas de Carva- 
lho sobre os judeus. — IV. O governo britannico prohibe a 
exportação de trigo. Protesto e opiniões de Carvalho. Desaven- 
ças populares entre portugueses e ingleses. Mais violações de 
neutralidade. — V. Memorial sobre o commercio e relações com. 
a Inglaterra. — VI. Carvalho projecta uma companhia para a 
Índia. Proposta ao cardeal da Motta. — VII. Caracter da cor- 
respondência de Carvalho. Suas idéas sobre a Constituição in- 
glesa. Sobre o espirito de iniciativa e a cubica do povo in- 
glês. Sobre a missão de um diplomata na Inglaterra. — VIII 
Resumo das negociações emprehendidas. Influencia do meio no 
espirito do ministro 9 

CAPITULO II 
MISS.ÃO A VIENNA 

I. Ccnflicto de Maria Theresa com a corte de Roma. Intervenção de 
D. João V. Carvalho é mandado a Vienna. Mallogro da compa- 
nhia para a Índia. — 11. Viagem de Carvalho. Eleição do Im- 
perador em. Francfort. Difficuldades que encontra o Enviado á 



394 ÍNDICE 



mediação. — III. Segundo casamento de Carvalho. Primeiros 
filhos: Adão e Eva. — IV. Novos incidentes entre a Impera- 
Iriz e a Cúria. Desgostos de Carvalho com o Enviado português 
em Roma. A cbrôa de milhos de Soure. — V. Hostilidade á 
intervenção portuguesa. Carvalho é reprehendido de Lisboa. Pede 
dispensa do cargo. — VI. Morte de Filippe V. Portugal me- 
dianeiro entre a Hespanha e a Áustria. Entre a Hespanha e 
a Inglaterra. Fracasso das negociações. — VII. Renova-se a 
mediação para com Rom.a. Caso do Eleitor de Moguncia. — • 
VIII. Embaraços financeiros de Carvalho. Presente da coroa 
britannica recusado. Dadiva do Eleitor de Moguncia. — IX. In-' 
trigas de Pereira de Sampaio. Encerrabodes embaixador em Lon- 
dres. Fim da missão e regresso de Carvalho 45 



CAPITULO III 
O NOVO REINADO 



1. Estado mental da sociedade portuguesa no século XVI II. Influencia 
do mesmo no espirito de Carvalho. Influencia do que viu no 
extrangeiro. — II. Carvalho mal recebido em Lisboa. Morte de 
D. João V. D. José escolhe os ministros. Resentimento de 
Alexandre de Gusmão. — III. A administração nova. Decisão 
sobre as minas do Brasil. Alexandre de Gusmão reprimido. — 
IV. Resoluções sobre o tabaco e o assucar. .A. mineração dos 
diamantes. Episodio do contratante Caldeira Brani. — V. Os 
hebreus e o oommercio das pedras preciosas. Providencias acerca 
d'elle. — VI. Legislação sobre as frotas. Empresa de nave- 
gação para a Índia 87 



CAPITULO IV 
A CORTE E AS FACÇÕES 

í. Hábitos da corte portuguesa. .\s duas rainhas. Juízos sobre Carva- 
lho. Lentidão das decisões ministeriaes e suas causas. — II. 
Inicie feliz, do novo governo. Carvalho e Pedro da Motta. Os 
descontentes. Procedimentos contra os nobres. Os funccionarios. 
O grupo clerical. — III. Os jesuítas no Pará-Maranhão. A 
escravidão dos indigeaas. Variações dos jesuítas. — IV. Inter- 



índice 395 



venção do Sirnimo Pontífice. Esforços de um colono contra os 
missionários. Tratado de limites na America. Desagrado que 
causa em Madrid e Lisbf)a. — V. As sete reducções do Uru- 
guay. Rebellião dos Índios. Opposição ao tratado no Pará. — 
VI. Xavier de Mendonça propõe-se libertar os indígenas. Pro- 
jecta uma Companhia. Cria-se a do Grão-Pará e iVlaranhão. Pro- 
testo do commercio lesado. Os jesuítas guerreiam a Companhia. 
Carvalho reprime as reclamações . 117 



CAPITULO V 

O TERREMOTO 

A catastrophe. Perdas materiae^. Actividade de Car\'alho. Soccorros 
do extrangeiro. — II. Intervallo de hostilidades. Impressão do 
terremoto no resto da Europa. Goethe recorda-o nas suas Memo- 
rias. Influencia do fanatismo. A Junía da Providencia. Martinho 
Velho Oldemberg conspira contra Carvalho. Libello escandaloso 
de Teixeira de Mendonça. — I!I. Intervenção dos barbadinhos 
italianos. Carvalho vinga-se dos conspiradores. Desgraça de Diogo 
de Mendonça Corte Real. — Terror da população que Mala- 
grida alimenta com suas pregações. O Juizo da verdadeira cansa 
do terremoto. Castigo do seu autor. — V. Sedição no Porto 
contra a Companhia dos Vinhos. Cruel repressão ordenada por 
Carvalho. Josc Mascarenhas Pacheco escrivão da alçada. Prisão 
posterior d'este magistrado. — VI. Os jesuítas e a opposição 
a Carvalho. Os missionários reagem no Pará-Maranhão. Emanci- 
pação dos índios. São despedidos os confessores do paço. A 
Relação abbreviada. Nicolau I rei do Paraguay. Representações 
a Benedicto XIV. Breve de reforma dos jesuítas . . . (141) 



CAPITULO VI 

ATTENTADO CONTRA O REI 



I. União projectada da Princesa do Brasil com o infante D. Pedro 
Opposição de Carvalho e D. José. Os pretendentes. Desgosto 
da nobreza. — II. Malagrida em Setúbal. Presagíos acerca do 
rei. Situação do duque de Aveiro. A noite de 3 de Setembro. 
Opiniões varias s>fare o atíentado. Convicções de Carvalho. O 



396 índice 



duque procura comprcnicíícr os Tavoras. — III. Providencias 
contra os presumidos criminosos. Interrogatórios do duque de 
Aveiro. Accusa este os jesuitas, os parentes e muitas outras 
ptssoas. — IV. Seguimento do processo e condemnação dos 
réos. Os Tavoras e os depoimentos sobre elles. — V. Reconsti- 
tuição do attentado. As denuncias. Terror no paço e na cidade. 
— VI. A cumplicidade dos jesuitas. Disposições que se tomam 
cxjntra elles. Declarações de Malagrida. Propostas da Junta de 
IncxDnfidencia. Sequestro dos hens da Ordem. — VII. Intervenção 
do Santo Officio. Instancias do governo português em Roma. 
A Guria defende os jesuitas. Decreto de expulsão e seus re- 
sultados. — VIII. .Malagrida denunciado á Inquisição. O pro- 
cesso. Morre no cadafalso .... 167 



CAPITULO VII 

O PACTO DE família 



Os ingleses em Portugal. Carvalho cultor da alliança britannica. 
Exportação do ouro cohibida. O Terreiro do trigo. — II. Guerra 
dos sete annos. Apprehensão de navios franceses no Algarve. 
Reclamações da França. Attitude conciliante da Inglaterra. — 
111. Embaixada especial de lord Kinnoul. Casamento da prin- 
cesa do Brasil. Expulsão do Núncio. Desterro dos infantes de 
Palhavã. Desintelligencias com o enviado francês. — IV. Pre- 
parativos da paz geral. Nova politica da Hespanha. Oeiras 
recorre ao apoio diplomático da Inglaterra. Assígna-se o Pacto de 
família. — V. Portugal e a liga dos Bourbons. O projecto 
de invasão. Declaração da guerra. — VI. Estado da administra- 
ção militar em Portugal. Soccorro da Inglaterra. Providencias 
tardias de Oeiras, k guerra e seus resultados 209 



CAPITULO VIII 

A ALLIANÇA INGLESA 



I. Situação politica em seguida á paz. Oeiras receia novas ag- 
gressões. Instancias por auxilio em Londres. Agitação em Lis- 
boa contra os hereges. — II. Discussão sobre os limites no 
Brasil. Novas complicações com a Hespanha. — III. Politica 



A 



índice 397 



doble da Inglaterra. Preparativos de guerra em Portuga!. — 
IV. Revolta doí sombreiros em Madrid. Attitude amigável do 
governo português para com Carios III. Causas prováveis da 
revolta. Os jesuítas expulsos dos domínios castelhanos. Oeiras 
suspeita da Inglaterra. Proposta portuguesa sobre os negócios 
de Roma. Caso do príncipe de Parma. — V. Oeiras recon- 
cilia-se com a alliança. O commercio inglês e as suas reclama- 
ções. Nova divergência entre HespanWa e Inglaterra. — VI, Re- 
nova-se a questão de limites. Successos na fronteira do Brasil. 
Politica defensiva de Oeiras contra as exigências inglesas. 
Guerra em perspectiva com a Hespanha. O desfecho da con- 
tenda 243 



CAPITULO IX 

EXTINCÇÃO DOS JESUÍTAS 



I.\ Os jesuítas c a politica de Hespanha. A s reforrpas d^ instTuri , '?n . 
Aut onomia da Egreja portugue sa. Tentativas de conciliação abor- 
tadas. A Deducção Chronologica. — II. Eleição de^ Clemente XjV^ 
O novo pontifico e as potencias. Suggestões de Pomba! sobre 
a abolição dos jesuítas. — III. Reatam-se em Portuga! as rela- 
ções com a Santã^Sé. Nova aggressão ao rei attribuida aos je- 
suitas. Concessões do Pontífice ao governo português. Verney 
expulso de Roma. Trégua nas exigências das cortes. — IV. 
A Hespanha dirige as negociações em Roma. Hesitações de Cle- 
mente XIV. Publica-se a bulia de suppressão. Morte de Gan- 
ganelli. — V^. Receios em Madrid e Lisboa da reacção jesuítica. 
Eleição do Pio VI. Pombal suspeitoso do novo Pontífice 283 



CAPITULO X 

O APOGEU E O declínio 



Pombal e a sua obra. Inauguração da estatua equestre. Casos de 
D. Isabel de Sousa e D. Leonor de Alorna. As Observações se- 
credssimas. Presumida tentativa contra a vida de Pombal. Incêndio 
da Tra!"aria. — II. Situação económica na administração pom- 
balina. Decadência geral do commercio. As companhias. Prospe- 



3^8 ÍNDICE 



ridade ephcmera das industrias. Reformas na legislação. — III. 
Descalabro financeiro. Estado precário do exercito e da marinha. 
O novo regimen da Universidade. A Mesa Censória. — IV. 
Morte de D. José. Pombal renuncia os seus cargos. A demissão 
a pedido. — V. Sabida para Oeiras. Jornada para Pombal. In- 
dignação em Lisboa contra o estadista caído. Estado real da 
fa/enda publica. A viradeira. O ataque dos credores. Os de- 
vedores e os ingratos. — VI. Embaraços pecuniários. .\ ques- 
tão das A^uas livres. Os processos. ... 317 



CAPITULO XI 
O ACABAR 



I. O marquês de Pombal arguido de concussionario. Accusado de 
actos de alta traição. De irreligiosidade e de ter embaraçado 
o casamento real. Sai do cárcere o seu inimigo Encerrabodes. 
José de Seabra volta do exilio. O que se passou com o bispo 
de Coimbra. — II. Famoso processo da lesão enormíssima. 
Apparecem as Cartas inglesas. O Desembargo do Paço pronun- 
cia-S€ sobre o processo. — III. Interrogatório do marquês por 
ordem da rainha. A enfermidade. Derradeira e lastimosa scena 
do inquérito. — IV. Insufficiencia das explicações no interro- 
gatório. Culpas do visconde de Villa Nova de Cerveira e do 
conde de S. Lourenço. De Diogo de Mendonça Corte Real. 
De José de Seabra. Do desembargador Mascarenhas Pacheco. — 
V. Padecimentos aggravados e apprehensões tristes do marquês 
Prepara-se a rehabilitação dos Tavoras. Os jesuitas pretendem 
a sua. Cruciante martyrio do enfermo. — VL A rainha pronun- 
cia a condemnação de Pombal. Os últimos dias e a morte . 361 



ACABOU DE SE IMPRIMIR 

NA TYPOGRAPHIA DO ANNUARIO DO BRASIL. 

(ALMANAK LAEMMERT) 

R. D. MANOEL, 62 — RIO DE JANEIRO 

AOS 18 DE AGOSTO DE 1922 







J 



4*^1 



f 



PLEASE DO NOT REMOVE 
CAROS OR SLIPS FROM THIS POCKET 

UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY